26 de março de 2021

Como socialistas da política externa dos EUA destruíram a África do Sul

 

Como socialistas da política externa dos EUA destruíram a África do Sul

Ilana Mercer

Certos governos nacional-conservadores na Europa Oriental deveriam ser aliados naturais de conservadores formuladores de políticas nos Estados Unidos, se tais criaturas imaginárias existissem.



De Vladimir Putin, por exemplo.

Antes de sua morte, da segurança do exílio, Aleksandr Solzhenitsyn (em português: Alexander Soljenítsin), um dos filhos mais bravos e brilhantes da Rússia, elogiou os esforços de Putin para reviver a herança moral e cristã tradicional da Rússia. Por exemplo:

“Em outubro de 2010, foi anunciado que ‘O Arquipélago Gulag’ se tornaria leitura obrigatória para todos os alunos russos do ensino médio. Em uma reunião com a viúva de Soljenitsyn, o Sr. Putin descreveu ‘O Arquipélago Gulag’ como ‘leitura essencial’: ‘Sem o conhecimento desse livro, não teríamos uma compreensão completa de nosso país e seria difícil pensarmos sobre o futuro’.

“Se [tão somente] o mesmo pudesse ser dito das escolas secundárias dos Estados Unidos.” (Via The Imaginative Conservative.)

O presidente russo tolera pacientemente a monomania demente anti-Rússia dos Estados Unidos. E, à medida que os EUA afundam nas areias movediças do marxismo cultural, as inclinações de Putin são decididamente reacionárias e tradicionalistas.

Ele proibiu a evangelização sexual feita por ativistas LGBTQ. Ele se posiciona totalmente ao lado da Igreja Ortodoxa Russa, como quando vândalos, as prostitutas da banda Pussy Riot, profanaram com obscenidades a Catedral de Cristo Salvador. O líder russo também acolheu como refugiados sul-africanos brancos perseguidos, onde os sucessivos governos dos Estados Unidos nem mesmo reconhecem oficialmente que eles estão sob ameaça de extermínio. Além disso, políticas para estimular as taxas de natalidade russas foram postas em prática pelo líder conservador.

A Hungria está tão feliz com sua homogeneidade e quer mantê-la. Mas não se o governo americano puder evitar. O lema do primeiro-ministro Viktor Orban é: “Procriação, não imigração.” Orban opta por fronteiras fechadas e políticas cristãs pró-Ocidente que priorizam as famílias húngaras. No entanto, sua campanha contínua contra George Soros, um agitador do governo mundial, foi recebida pelo Departamento de Estado de Donald Trump com uma repreensão severa à… Hungria, alegando que sua lei anti-Soros custaria caro ao país.

Os americanos de direita só podiam sonhar que, como a Hungria, a Polônia e a República Checa, os EUA “fechariam sua fronteira para os imigrantes islâmicos para manter potenciais terroristas fora.”

América: uma noção, não uma nação

Por mais desconcertante que possa parecer, a política externa americana foi informada menos pelo que Samuel P. Huntington chamou de consciência civilizacional do que pela ideia de nação teórica. Os EUA, para suas elites neoconservadoras e liberais de esquerda, não são uma nação, mas uma noção, uma comunidade de povos diferentes que se aglutinam em torno de uma ideologia abstrata, altamente manipulável e sancionada pelo Estado. Democracia, por exemplo.

Contudo, para Russel Kirk, o pai do conservadorismo americano e um conservador da velha escola — bem como, possivelmente, para os próprios fundadores da nação — a sociedade era uma comunidade de almas, juntando-se aos mortos, os vivos e aqueles que ainda não nasceram. Fez coerência com o que Aristóteles chamou de amizade e o que os cristãos chamam de amor ao próximo, facilitado por uma linguagem, literatura, história, hábitos e heróis compartilhados.

Esses fatores, tomados em conjunto, constituem a cola que une a nação.

Em contraste, o capricho um tanto frágil que é a “nação de credo” americana está, ostensivamente, unido em “um compromisso comum com um conjunto de idéias e ideais.” No mínimo, quando expressa pela maioria histórica, a afinidade natural com a tribo de alguém — uma conexão com amigos, parentes e cultura — é considerada inautêntica, xenófoba e racista, a menos que seja defendida por não ocidentais.

A política externa de uma “nação de credo”

A desconsideração com que formuladores de políticas de um país mostram pelos sentimentos de solidariedade despertados entre os compatriotas por uma fé e costumes comuns — seculares e sagrados — invariavelmente se reflete em sua política externa.

A política externa dos EUA considera as populações intercambiáveis, desde que sejam “socializadas da mesma maneira” e “moldadas por uma administração pública adequada e uma dieta constante de conversas sobre direitos humanos.” A política externa do governo americano genérico reflete as elites desnacionalizadas dos EUA, as quais estão comprometidas com “identidades transnacionais e subnacionais” tanto nos EUA quanto no exterior.

De acordo com seus governantes sofisticados, a missão dos EUA é “democratizar a humanidade.” Para cumprir essa missão e fazer justiça ao excepcionalismo americano, os americanos são “doutrinados em um credo fabricado que ensina que estão sendo falsos consigo mesmos e infiéis a seus pais, a menos que viajem para o exterior em busca de monstros para destruir.” Ou, dê as boas-vindas ao mundo em seu meio. Não somos americanos, somos o mundo, somos ensinados.

Um desses “monstros” que virou alvo de reformas rápidas foi a África do Sul.

África do Sul traída

O confronto da Guerra Fria levou os Estados Unidos a reconhecer a África do Sul como um substituto dos interesses americanos no Continente Negro. Em defesa desses interesses na região e contra a comunização da sua vizinhança, os soldados sul-africanos combateram os agentes cubanos e angolanos da Rússia com a mesma firmeza que os fundadores do país demonstraram ao combater os zulus na Batalha do Rio Sangue.

Sim, a África do Sul cumpriu fielmente seu papel de guerreiro da Guerra Fria. Lutou ao lado de outras nações ocidentais avançadas, lideradas pelos Estados Unidos, e “engajou-se em um conflito ideológico, político, econômico e, às vezes, militar generalizado com [outros grupos] de sociedades comunistas um tanto mais pobres, lideradas pela União Soviética.”

Um excesso de coragem, entretanto, não era uma panaceia para um déficit na democracia.

Assim, embora a África do Sul fosse considerada “um importante baluarte geoestratégico ocidental” contra a invasão soviética na região, o reservatório americano de boa vontade em relação à África do Sul secou rapidamente. Não é que os EUA não tivessem aliados democraticamente falhos; tinham e têm. Mas essas imperfeições geralmente são prerrogativas de nações não ocidentais. China, por exemplo.

Para a África do Sul, isso significava lutar contra os agentes do comunismo enquanto era prejudicada por sanções. “Os Estados Unidos impuseram um embargo de armas a Pretória em 1964 e aderiram ao consenso internacional em se recusar a reconhecer a ‘independência’ de quatro pátrias negras da África do Sul entre 1976 e 1984.”

Embora durante as décadas de 1970 e 1980 todos os governos americanos condenassem o apartheid, em geral se opuseram a amplas sanções econômicas, argumentando razoavelmente que elas prejudicariam a própria população que deveriam ajudar. Com o governo Carter (1977-81), surgiu uma “linha ainda mais dura em relação a Pretória.” Jimmy Carter considerou o nacionalismo negro africano perfeitamente “compatível com os interesses dos EUA.”

Para ser justo, a virada à esquerda na política externa americana veio bem antes de Carter.

O apoio dos EUA aos satélites soviéticos, como o Congresso Nacional Africano, provavelmente foi uma relíquia de Yalta; uma política oficial de longa data de apoio à aliança soviética e a subsequente cessão da maior parte da Europa Central e Oriental a Stalin.

A mudança na política externa americana ironicamente viu os EUA adotarem e implantarem slogans popularizados pela União Soviética em apoio à libertação africana e contra o Ocidente “imperialista e colonial.”

Houve uma “retirada das forças militares em torno da periferia comunista” e o “apoio frequente do Terceiro Mundo nas disputas com as nações ocidentais” em todo o mundo. Assim, os revolucionários de esquerda foram apoiados, em vez de um aliado ocidental como Salazar em Portugal; Mugabe era favorito em relação a Ian Smith, assim como Nasser acima da Grã-Bretanha e da França; Batista foi deposto para dar lugar a Castro.

Republicanos muito radicais para Ronald Reagan

Ronald Reagan pelo menos favoreceu o “engajamento construtivo” com a África do Sul, junto com uma forte resistência aos avanços comunistas no Terceiro Mundo. Mas a pressão política, não apenas da maioria republicana, aumentou para uma postura cada vez mais punitiva em relação ao governo sul-africano. Isso implicou em uma “elaborada estrutura de sanções,” desinvestimento e uma proibição de compartilhar inteligência com os sul-africanos.

Em 1986, a União Soviética, que havia apoiado até a década de 1980 a campanha de seus protegidos do Congresso Nacional Africano para tomar de forma revolucionária a África do Sul governada pelos brancos, repentinamente mudou de tom e denunciou a ideia. Mais uma vez, os EUA e a URSS estavam do mesmo lado — o de “um acordo negociado entre Pretória e seus inimigos.”

Por defender um “engajamento construtivo,” membros de seu Partido Republicano lançaram um ataque fulgurante contra Reagan. O senador Lowell P. Weicker Jr., em particular, afirmou: “Para este momento, pelo menos, o presidente se tornou uma irrelevância para os ideais, sinceros e falados, dos EUA.”

Os republicanos haviam se prostituido com a esquerda na moda. O que há de novo?

Para que uma mudança sustentável ocorra, a mudança deve ser gradual e “enraizada nas instituições da sociedade.” Ao traçar os contornos desse pensamento burkeano, Kirk referiu-se a “aquele aspecto… que está preparado para tolerar um antigo mal para que a cura não seja pior do que a doença.”

Para a afirmação de Kirk de que “a verdadeira liberdade só pode ser encontrada dentro da estrutura de uma ordem social,” eu apostaria que em minha antiga terra natal, a África do Sul, esse baluarte contra a barbárie entrou em colapso. Em minha nova pátria, a América, a estrutura que sustenta a liberdade ordenada do país está sendo corroída tão rapidamente que está à beira do colapso.

Décadas atrás, não menos um pensador liberal clássico do que Ludwig von Mises advertiu que a liberdade nos Estados Unidos não poderia — e não duraria — a menos que a nação fundadora mantivesse sua identidade nacional histórica e hegemonia cultural.

Uma América sem história e sem raízes, perfurada por um rancor anti-branco perigoso e sistêmico, é uma América na qual a liberdade foi perdida.

(Citações são de “Into The Cannibal’s Pot: Lessons For America From Post-Apartheid South Africa” by Ilana Mercer.)

Ilana Mercer é judia americana, de origem sul-africana, filha de um rabino.

Traduzido por Julio Severo do original em inglês do WND (WorldNetDaily): How America's foreign-policy Alinskyites destroyed South Africa

Fonte: www.juliosevero.com

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Um comentário :

Anônimo disse...

Russel Kirk se baseia em Burke, um grande protestante!