18 de fevereiro de 2021

Campanha antiamericana mundial é “castigo” pela campanha de americanos e ingleses contra a sanguinária Inquisição na Espanha?

 

Campanha antiamericana mundial é “castigo” pela campanha de americanos e ingleses contra a sanguinária Inquisição na Espanha?

Julio Severo

Apesar de morar nos EUA como imigrante brasileiro autoexilado, Olavo de Carvalho não desiste de alfinetar os EUA e limpar a imagem da sanguinária Espanha.



Em comentário de sua página de Facebook em 17 de fevereiro de 2021, Carvalho disse:

“A campanha anti-americana mundial é nojenta, mas é apenas castigo tardio pela campanha difamatória muito mais duradoura que americanos e ingleses fizeram contra a Espanha durante quatro séculos.”

Carvalho alega que durante 4 séculos, americanos e ingleses “difamaram” a Espanha. Ao que parece, ele estaria até disposto a morar na Espanha e ser antiamericano se ele vivesse naquele tempo. Mas nunca é tarde demais.

Como Carvalho é conhecido como defensor da Inquisição, ele deve estar se referindo aos séculos XVI, XVII, VXII e XIX, em que a Espanha mantinha a Inquisição em plena atividade.

De acordo com o historiador católico Paul Johnson, em seu livro “A History Of Christianity” (“Uma História do Cristianismo,” publicado no Reino Unido em 1976):

“A última execução oficial por heresia na Espanha foi em 1826, quando um diretor de escola foi enforcado por tirar o ‘Ave Maria’ e colocar no lugar ‘Louvado Seja Deus’ nas orações escolares.”

Mesmo sendo católico, Johnson tem vários outros comentários negativos sobre a Inquisição.

Na visão extremista de Carvalho, Johnson é nada mais que outro “difamador.” E se a campanha de “difamações” de americanos e ingleses parasse, o que aconteceria? Até hoje a Espanha estaria enforcando professores por tirar o “Ave Maria” e colocar no lugar “Louvado Seja Deus” nas orações escolares.

A campanha de americanos tinha três objetivos: proteger judeus, proteger protestantes e desmascarar os crimes da Inquisição.

Nos 4 séculos apontados por Carvalho, os EUA, que eram esmagadoramente protestantes, davam liberdade para católicos. Em contraste, a Espanha esmagadoramente católica não dava nenhuma liberdade aos protestantes.

A Espanha, como todo país católico, tinha aversão ao americanismo. Hoje, se você quer ver uma campanha antiamericana, basta conversar com socialistas. Mas em séculos passados, a mesma visão antiamericana vinha do Vaticano. Aliás, no século XIX o Vaticano alertava, até mesmo em bulas papais, contra o americanismo.

Entretanto, os crimes da Espanha não se restringem à Inquisição.

Espanha pró-Inquisição é a mãe dos campos de concentração

De acordo com o historiador americano Bill Federer, em apenas três anos, entre 1896 e 1897, o governo ultracatólico da Espanha deteve mais de um terço da população de Cuba em campos de concentração. Mais de 225.000 cubanos morreram de fome, febre amarela e exposição constante ao frio, sol, chuvas, sereno, etc., sem abrigos. Por incrível que pareça, essa Espanha radical, outrora campeã absoluta da Inquisição católica, conseguiu ser pior do que o comunismo de Fidel Castro.

Federer também disse que o governo espanhol “ ajuntou como gado centenas de milhares de civis cubanos de suas fazendas rurais e os fez marchar até campos de concentração lotados de gente — um exemplo que Hitler e Stálin imitaram.”

Isto é, os horríveis campos de concentração usados na Alemanha nazista e na União Soviética foram inspirados diretamente não na cabeça de Karl Marx, mas no tratamento que uma Espanha rigidamente católica e direitista dava ao povo cubano.

Espanha massacrou a primeira colônia evangélica da América do Norte

Contudo, os EUA têm experiências igualmente amargas da “liberdade religiosa” da Espanha no próprio solo americano. Com oração e ações de graças, em 30 de junho de 1564 centenas de huguenotes (calvinistas) franceses fundaram o Forte Caroline, na Flórida. Mas no ano seguinte a Espanha mandou suas tropas, que torturaram e mataram todos os evangélicos que não renunciaram à sua fé em Cristo. Centenas deles foram sacrificados.

Depois da carnificina, a Espanha tirou o nome Caroline e colocou o nome “Matanzas” (que significa em espanho “matanças.”) no que foi a primeira colônia evangélica da América do Norte.

Para um nazista, qualquer tentativa de expor os sofrimento das vítimas do nazismo é “difamação.”

Para um comunista, qualquer tentativa de expor os sofrimento das vítimas do comunismo é “difamação.”

Para Olavo de Carvalho, qualquer tentativa de expor os sofrimento das vítimas da Espanha é “difamação.”

No caso da Espanha, que era rigidamente católica e direitista (mas não na economia), as perseguições e matanças incluíram a primeira colônia evangélica da América do Norte, os milhares de assassinatos (sem contar torturas) de judeus e protestantes na Inquisição e o sofrimento de cubanos católicos enquanto Cuba era colônia espanhola.

Tudo isso deve ser visto como “difamação”?

Carvalho disse:

“Repito: nunca existiu uma entidade chamada ‘Inquisição’ e muito menos ‘Santa Inquisição.’”

Durante séculos os americanos de fato foram os maiores promotores de uma propaganda que revelava a Inquisição em sua natureza sangrenta. O lado oposto da questão é que o Vaticano, com seu vasto poder político, financeiro e religioso durante séculos, foi o maior promotor de uma propaganda de Inquisição benevolente e humanitária. Enquanto que a propaganda do Vaticano beneficiou apenas o Vaticano, a propaganda dos EUA beneficiou protestantes e judeus, que eram as maiores vítimas da Inquisição.

Carvalho, os judeus e a Inquisição

Diferente do Vaticano, os EUA têm uma longa história de amizade e parceria com os judeus. Enquanto os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer o moderno Estado de Israel, o Vaticano foi um dos últimos.

Os judeus nunca fizeram acusações contra a propaganda protestante americana de Inquisição sangrenta, pois eles sabiam e sabem que não é propaganda. É verdade. Mas até hoje eles têm muitas acusações contra a propaganda católica de uma Inquisição benevolente e humanitária.

Diferente dos judeus, que há séculos acusam e condenam a Inquisição, Carvalho há anos acusa e condena quem acusa e condena a Inquisição, chamando a Inquisição de “lenda negra,” “mito,” “campanha de calúnia e difamação” e “invenção.”

Carvalho: Evangélicos americanos são piores do que comunistas

Ao tratar do tema da Inquisição em 2016, Carvalho publicamente opinou que os opositores da Inquisição, a quem ele chamou de “paladinos da fé,” são muito piores do que comunistas. Ele disse:

“Jamais vi um comunista, no exercício da verborréia revolucionária mais feroz e difamatória, descer aos abismos de malícia e perversidade em que se deleitam, neste país, os paladinos da fé.”

Pelo fato de que Carvalho vive nos EUA, “neste país” provavelmente significa EUA.

Se evangélicos (e também judeus) anti-Inquisição são piores do que comunistas, o que Carvalho está fazendo vivendo como imigrante no maior país evangélico do mundo? Por que ele não se muda para a Cuba comunista, já que os EUA protestantes são piores?

 Carvalho disse:

“Sem a lenda negra da Inquisição, as igrejas protestantes jamais teriam alcançado o sucesso que alcançaram. Quem não quer fugir das mãos sangrentas de torturadores para os braços de Nosso Senhor? A lenda é elemento integrante do prestígio protestante e, se ela cair, ele cai junto.”

O que Carvalho quer dizer é que os EUA nunca teriam alcançado o sucesso de se tornar a maior potência protestante do mundo se não fosse pelo papel predominante dos EUA nas denúncias contra a Inquisição. Carvalho também disse:

“O mito da Inquisição foi a mais vasta e duradoura campanha de calúnia e difamação de todos os tempos, dura até hoje, com financiamento milionário, e parece que não vai acabar nunca. Quem a inventou não foram iluministas nem comunistas. Foram protestantes, que continuam a promovê-la até agora, tendo como centro irradiante as igrejas dos EUA.”

“Cinco séculos de feroz e, até hoje, ininterrupta invencionice anticatólica fazem dos protestantes os campeões absolutos do assassinato de reputações — muito superiores, nisso, a iluministas e comunistas.”

Essa é uma das teorias de conspiração mais mirabolantes que já vi. Carvalho então considera os evangélicos em geral e os evangélicos americanos em particular como piores do que os comunistas. Se isso fosse verdade, o maior país protestante do mundo seria uma verdadeira União Soviética. Não é. O país mais protestante do mundo é os EUA e Carvalho adora viver como imigrante ali.

Carvalho trata os evangélicos dos EUA como mentirosos que inventaram uma Inquisição que nunca existiu, como se multidões de judeus nunca tivessem sido vítimas do que o Carvalho insiste em chamar de lenda e mito. Mas o que ele chama de propaganda mentirosa dos evangélicos americanos contra a Inquisição os judeus chamam de verdade.

Aliás, até mesmo a história do Brasil desmascara uma Inquisição brutal e sangrenta contra os judeus. Muitos judeus brasileiros foram torturados e mortos pela Inquisição. E os primeiros colonos judeus em Nova Iorque eram judeus brasileiros que haviam fugido da Inquisição no Brasil. O primeiro cemitério judeu em Nova Iorque tem nomes brasileiros. Esses judeus brasileiros encontraram refúgio e paz entre protestantes americanos! No Brasil, eles enfrentavam constante ameaças de saque, tortura e morte. Então a própria história do Brasil se opõe à obsessão de Carvalho.

Carvalho: defender a Inquisição é infinitamente mais importante do que derrotar o comunismo

Sua obsessão para sanear e reabilitar a Inquisição é tão grande que em julho de 2016 ele disse que “eliminar da consciência popular mitos como a Inquisição” é infinitamente mais importante do que tirar do poder a presidente socialista Dilma Rousseff. Muitos no Brasil e nos EUA pensam que sua prioridade e alvo eram Dilma, mas ele mesmo confessou que é a reabilitação da Inquisição. Ele disse:

“Quem quer que tenha estudado a ofensiva cultural soviética e a posterior estratégia gramsciana compreende algo que parece ainda totalmente ignorado de cem por cento dos liberais e conservadores neste país: eliminar da consciência popular mitos como a ‘Inquisição’… é infinitamente mais valioso do que ‘tirar a Dilma.’”

Nas décadas de 1980 e 1990, eu estava envolvido ativamente no movimento pró-vida brasileiro e nunca ouvi falar do nome de Carvalho. Mas a partir do ano 2000 ele apareceu com um discurso pró-vida, pró-família, pró-homeschooling, anti-vacina e anticomunismo. Esse discurso atraiu líderes pró-família como eu. Mas depois, com uma fama já estabelecida, ele deixou claro, conforme suas palavras, que eliminar um suposto mito da Inquisição é infinitamente mais importante do que derrotar o comunismo.

No passado, quem quisesse derrotar o comunismo teria de derrubar a União Soviética, o maior propagandista do comunismo. Ronald Reagan fez isso. Quem quiser derrotar a propaganda contra a Inquisição deverá derrubar os EUA, o maior propagandista durante séculos dos males da Inquisição?

Isso será tarefa para Carvalho, que se enxerga com uma missão mais importante do que a missão de Reagan?

A Inquisição não foi o único alvo de propaganda dos EUA. Os EUA também foram os maiores propagandistas contra o marxismo soviético e hoje (pelo menos sua população conservadora) são os maiores propagandistas contra o aborto.

Antes de os EUA focarem no comunismo como inimigo, o maior foco da sociedade americana era o Vaticano e sua Inquisição. Aliás, o histórico da Inquisição foi o que mais dificultou a relação dos EUA com o Vaticano. Foi principalmente a questão da Inquisição que fez os EUA romperem relações diplomáticas com o Vaticano na década de 1860, pois para os EUA, o Vaticano e a Inquisição eram a mesma coisa. Os EUA só reataram relações com o Vaticano na década de 1980, no governo de Ronald Reagan, que tinha como foco a luta contra o comunismo. O comunismo fez com que os EUA se esquecessem da base de sua antiga hostilidade com o Vaticano.

No entanto, para Carvalho os EUA do passado eram muito piores do que os EUA de hoje. Aliás, ele indicou que o antiamericanismo de hoje é “castigo” porque os americanos “difamaram” a sanguinária Espanha.

E o antiamericanismo do Vaticano de séculos passados, era “castigo” pelo quê?

Enquanto que no passado, os americanos eram campeões em denúncias contra a Inquisição, hoje quem lidera essas denúncias são os próprios judeus.

Hoje, um dos livros mais importantes e extensos contra a Inquisição é o livro de 1.400 páginas “As Origens da Inquisição,” escrito pelo pai do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Ele menciona milhares e milhares de vítimas judias da Inquisição. É necessário acrescentar que também houve vítimas não judias? Ou Carvalho vai dizer que tudo não passa de difamações do pai de Netanyahu?

Se o pai de Netanyahu e historiadores judeus e protestantes não são os reais difamadores, então quem é? Um brasileiro autoexilado nos EUA que pensa que é o maior filósofo e historiador do universo.

Versão em inglês deste artigo: World anti-American campaign is “punishment” for the campaign of Americans and English against the bloody Inquisition in Spain?

Fonte: www.juliosevero.com

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Um comentário :

Anônimo disse...

O papa Joa Paulo II ja reconheceu a inquisição só falta o Olavo.