28 de fevereiro de 2009

Estatuto racista

Estatuto racista

Carlos Alberto Di Franco

Em recente entrevista à revista Época, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) teve a coragem de romper o monólogo politicamente correto que tem dominado a tramitação do projeto de lei que cria cotas para negros e índios nas universidades federais.

Segundo o senador goiano, "esse é um projeto com grande potencial de dividir a sociedade brasileira. A partir do momento em que nós jogarmos uns contra os outros e passarmos a rotular aqueles que terão mais direito a frequentar uma universidade pública por causa de raça, nós vamos deixar de ser brasileiros. Seremos negros, pardos, brancos, mamelucos, bugres, mas não seremos mais brasileiros".

O tema é polêmico. Deve, portanto, ser discutido com profundidade e respeito à diversidade de opinião. Não é o que tem acontecido. "O patrulhamento é tanto que muito parlamentar tem medo de arranhar a própria imagem", sublinha Torres. "Muitos têm medo de aparecer em público contra o movimento negro e ser tachados de racistas, embora não sejam."

Está surgindo, de forma acelerada, uma nova "democracia" totalitária e ditatorial, que pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura politicamente correta constrange senadores da República, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e redações. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, homossexuais ou raciais. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo não há vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético.

Não Somos Racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006) é o título de um livro do jornalista Ali Kamel. A obra, séria e bem documentada, ilumina o debate. Mostra o outro lado da discussão sobre as políticas compensatórias ou "ações afirmativas" para remir a pobreza que, supostamente, castiga a população negra.

Kamel, diretor-executivo de Jornalismo da Rede Globo de Televisão e ex-aluno do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é uma alma de repórter. Por isso, questiona pretensas unanimidades. Fustigado pela sua intuição jornalística, flagrou um denominador comum nos diversos projetos instituindo cotas raciais: a divisão do Brasil em duas cores, os brancos e os não-brancos, com os não-brancos sendo considerados todos negros. A miscigenação, riqueza maior da nossa cultura, evaporou nos rarefeitos laboratórios dos legisladores.

"Certo dia", comenta Kamel, "caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. (....) Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu."

Do espanto nasceu a reflexão. O desvio começa na década de 1950, pela ação da escola de Florestan Fernandes, da qual participava Fernando Henrique Cardoso. Para o autor, FHC presidente foi sempre seguidor do jovem sociólogo Fernando Henrique. Convencido de que a razão da desigualdade é o racismo dos brancos, FHC foi, de fato, o grande mentor das políticas de preferência racial. Lula, com sua obsessão populista, embarcou com tudo na canoa das cotas raciais. O Brasil, como todos vivenciamos, nunca foi um país racista. Tem, infelizmente, pessoas racistas. A cultura nacional, no entanto, sempre foi uma ode à miscigenação. As políticas compensatórias, certamente movidas pela melhor das intenções, produzirão um efeito perverso: despertarão o ódio racial e não conseguirão cauterizar a ferida da desigualdade.

Esgrimindo argumentos convincentes, o jornalista mostra que os desníveis salariais entre brancos e negros não têm fundamento racista: ganham menos sempre os que têm menos escolaridade. "Os mecanismos sociais de exclusão têm como vítimas os pobres, sejam brancos, negros, pardos, amarelos ou índios. E o principal mecanismo de reprodução da pobreza é a educação pública de baixa qualidade." Só investimentos maciços em educação podem erradicar a pobreza. É preciso fugir da miragem do assistencialismo. "Tire o dinheiro do programa social e o pobre voltará a ser pobre, caso tenha saído da pobreza graças ao assistencialismo. E o pior: num país pobre como o nosso, cada centavo que deixa de ir para a educação contribui para a manutenção dos pobres na vida trágica que levam", adverte o autor.

Numa primeira reflexão, nada mais justo do que dar aos negros a oportunidade de ingressar num curso superior. Mas, quando examinamos o tema com profundidade, vemos que não se trata de uma providência tão justa quanto parece. Ao tentar corrigir a injustiça que, historicamente, marcou milhões de brasileiros, cria-se um universitário de segunda classe, que não terá chegado à universidade por seus méritos. Ademais, ao privilegiar etnias, a lei discrimina outros jovens brasileiros pobres que não se enquadram no perfil racial artificialmente desenhado pelo legislador. Oculta-se a verdadeira raiz da injustiça: a baixíssima qualidade do ensino.

Os negros brasileiros não precisam de favor. "Precisam apenas de ter acesso a um ensino básico de qualidade, que lhes permita disputar de igual para igual com gente de toda cor." Impõe-se um debate mais sério. Uma discussão livre das ataduras do patrulhamento ideológico. Afinal, caro leitor, o que está em jogo é a própria identidade cultural do nosso país.

* Diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com) E-mail: difranco@iics.org.br

Fonte: Estadão 09/02/2009

Divulgação: www.juliosevero.com

7 comentários :

Anônimo disse...

“O Brasil, como todos vivenciamos, nunca foi um país racista. Tem, infelizmente, pessoas racistas.”
Tanto é assim que a população brasileira é marcantemente miscigenada.
Compare-se a situação histórica do Brasil com a da África do Sul, onde havia uma implacável segregação racial, que até hoje deixa tremendas seqüelas sociais.
A população da África do Sul é miscigenda como a do Brasil?!

Anônimo disse...

Comparando o Brasil com os Estados Unidos, o nosso país não tem nem como dizer que somos racistas.

Quando os negros brasileiros começaram a querer dar uma de negro americano (lá sim os negros tinham motivos de lutarem), aí sim as coisas começaram a se complicar.

Allan Ribeiro disse...

Um artigo impecável, lúcido e comprometido com a verdade!

Anônimo disse...

Eu tenho de dizer algo em favor da verdade.
A maioria dos brancos sempre tratou os negros com as mesmas "condescendências" com que os cadeirantes foram tratados: não quer dizer que o Movimento Negro esteja totalmente certo, mas o racismo existe sim no país, até mesmo nas igrejas evangélicas.
Você tem é de ter aliados entre os negros, que entendam perfeitamente o que você está querendo dizer, para daí repassar para os outros negros, entende?
Para os negros, você é só mais um branco, embora um branco de respeito, admito. Mas é só eles para saber o que eles passam na pele deles, entende?
Se você já lidou com judeu, já sabe como nós somos um povo difícil; com os negros não é menor a barreira.
Só quero que você reflita sobre isso; se pensar nisso, nem precisa publicar este comentário.
Prefiro que não saibam que eu, o "intelectual de meia tigela", tentou te ajudar: não que eu me lixe para o PT, mas você não é o único que tem família, certo? ;)

Boa sorte, cara.

Anônimo disse...

Anômino Judeu, o seu discurso é o discurso da vitimização, do fazer de coitadinhas certas pessoas simplesmente pela cor de sua pele, por ter uma deficiência, por ser judeu,...
Fazer alguém de coitadinho é tratar como inferior esse alguém. Ninguém precisa ser tratado como coitadinho. As pessoas precisam é de sentir que as outras se importam com elas, que as respeitam, que as amam desinteressadamente, como fez e nos ensinou Jesus de Nazaré, o Messias, o Filho de Deus.
Você fez várias acusações e afirmações. Prove-as!

Aprendiz disse...

ao Anônimo Judeu

Entendo que o vitimismo é uma tentação real para quem já sofreu discriminação. Não posso atirar pedras, pois se nunca cai nessa tentação, cai em outras.

Mas cabe ao afetado pelo vitmismo vencer esse mal dentro de si. Caim foi o primeiro a cair nessa tentação. O Eterno o confrontou, disse-lhe que vencesse aquele estado de ânimo. Mas Caim não ouviu, e aquilo que poderia ser apenas um desentendimento comum entre irmãos tornou-se um crime de sangue.

Os socialistas, como o Diabo, sempre dirão às pessoas "sua identidade é o mal que você sofreu". As pessoas não poderão ser felizes enquanto não entenderem que sua identidade não é determinada pelo que os outros fazem.

Anônimo disse...

Ao Judeu Anônimo

Só quem sofreu alguma injustiça sabe o que sentiu na pele, sabe a gravidade do mal que lhe foi feito!
Já sofri injustiças e sei que podem fazer muito mal... Às vezes, a dor da injustiça sofrida pode fazer com que, sem que percebamos, nos tornemos incapazes de perceber e respeitar o sofrimento ou drama alheio. Exercitemos, então, a auto-vigilância para que isso não nos aconteça.
Caro Judeu Anônimo, o Júlio tem problemas, você tem problemas, eu tenho problemas; quem não os tem?!
Vamos aprender, portanto, a respeitar o sofrimento de cada um; respeitando o sofrimento alheio, fazendo o que nos for possível para aliviá-lo ou extingui-lo e trabalhando para formar uma sociedade conforme a vontade de Deus.
Espero assim ter-lhe expressado a minha primeira resposta a você de forma cordial desta vez!
Paz!