5 de outubro de 2007

Os amigos da onça

Os amigos da onça

Olavo de Carvalho

Meus alunos mais velhos são testemunhas de que há quase vinte anos eu já anunciava: “Querem saber o que é entreguismo? Esperem o PT chegar ao poder.” A previsão, que se referia especificamente à internacionalização da Amazônia, não era mero palpite, nem efusão de retórica antipetista. Baseava-se em extensa pesquisa dos laços entre os movimentos de esquerda e os grupos globalistas bilionários que depois vim a denominar “metacapitalistas”.

Como todas as demais previsões políticas que fiz desde então, essa também veio a se confirmar. No último dia 21, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou o projeto governamental de entregar à gestão privada amplos trechos da floresta amazônica, equivalentes, segundo o repórter Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, a noventa mil estádios de futebol.

A iniciativa confirma também o alerta distribuído em 14 de junho pelo CEBRES, Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos, que congrega vários membros do grupo militar dito “nacionalista”, entre os quais o general Durval de Andrade Nery, com o qual tive um arranca-rabo tempos atrás quando ele, decerto por não entender uma só palavra do que digo, me incluiu entre os globalistas que abomino e combato.

Jamais duvidei do patriotismo desses militares, mas, com relação à lucidez e objetividade das suas análises, tenho algo mais que mera dúvida. Tenho a certeza de que estão tragicamente enganados quanto à natureza e localização do inimigo. Simplesmente não é possível compreender o jogo do poder no mundo atual sem um conhecimento extensivo do debate político interno nos EUA, e esse conhecimento é praticamente inacessível a quem se limite aos meios de informação usuais no Brasil.

Já expliquei isso mil vezes, mas parece que estou falando com jumentos de pedra. A opinião pública americana divide-se em partes mais ou menos iguais entre os “progressistas” (liberals) e os conservadores (conservative). Esse equilíbrio reflete uma repartição equitativa do acesso aos meios de comunicação, os primeiros dominando os grandes jornais e a TV, os segundos os programas de rádio, especialmente os talk-shows de enorme audiência. Acontece que, dessas duas fontes, só a primeira atinge o público internacional. A segunda é de alcance estritamente local. Resultados:

1) Do Brasil à Zâmbia, tudo o que se sabe dos EUA vem pela mídia de esquerda, principalmente na sua versão light que por isso mesmo passa como expressão do pensamento americano dominante ou exclusivo.

2) Por toda parte, mas principalmente na América Latina, a reação contra os avanços globalistas ou neo-imperialistas assume por isso mesmo a forma do anti-americanismo, induzindo os nacionalistas a aliar-se com a esquerda local, cujos laços com o metacapitalismo global ignoram ou não compreendem.

3) Monitorados e manipulados de longe pela aliança da esquerda americana com os grupos bilionários, esses esforços patrióticos acabam trabalhando contra si próprios e naufragando na mais deplorável impotência. O manifesto do CEBRES é um exemplo de revolta patriótica mal dirigida, que só pode levar ao fortalecimento dos seus inimigos. Quando tento adverti-los disso, os membros do grupo “nacionalista” reagem com desconfiança paranóica, enxergando em mim um perigo que deveriam procurar antes em alguns de seus “companheiros de viagem” ou mesmo em alguns integrantes do próprio grupo (os mais empenhados em transfigurar em puro anti-americanismo o impulso patriótico dos restantes).

Quase dez anos atrás assisti no CEBRES à conferência de um teórico esquerdista, muito simpático e eloqüente, que pregava a aliança entre a esquerda e os militares contra o “neoliberalismo”. A platéia, -- não muito grande, na verdade – aderiu entusiasticamente ao plano, em parte impressionada com a política antimilitar do governo Fernando Henrique, que ela tomava ilusoriamente como direitista e americanófilo, sem saber que a origem remota e o sentido último do tucanismo emergiam da mesma aliança entre os “progressistas” americanos e seus financiadores globalistas, que dava respaldo aos partidos de esquerda no Brasil. A confusão mental que se armara no modesto auditório do CEBRES era tão densa, que abdiquei de tentar desfazê-la, limitando-me a abanar a cabeça prevendo uma desgraça inevitável.

O manifesto de 14 de junho, descrevendo acuradamente a penetração internacionalista na Amazônia e clamando por uma justa reação contra ela, persiste no erro, entretanto, ao ver esse fenômeno como expressão do desejo de poder nacional das “grandes potências”, principalmente os EUA e a Inglaterra, ignorando que a iniciativa parte dos mesmos grupos globalistas que tudo têm feito para diluir a identidade nacional desses dois países, destruir sua soberania e subjugá-los a uma nova estrutura de poder mundial. A falha colossal do diagnóstico do CEBRES provém da sua obediência residual aos esquemas teóricos criados décadas atrás pelos analistas estratégicos da ESG, esquemas esses que, refletindo talvez longinquamente a influência da doutrina Morgenthau, encaravam os Estados nacionais como os agentes principais do processo histórico e assim lançavam uma involuntária cortina de fumaça sobre o novo esquema transnacional de poder que então já era discretamente – e hoje é quase ostensivamente – o verdadeiro protagonista da cena mundial. A luta dos patriotas americanos contra esse esquema é a maior ou única esperança de preservação das soberanias nacionais num futuro não muito distante. Ao voltar-se contra os EUA, em bloco e sem distinções, as reações nacionalistas nos países do Terceiro Mundo, especialmente o Brasil, só fazem dar um reforço gratuito à trama globalista-esquerdista que hoje busca dissolver os EUA num monstrengo chamado “Comunidade Norte Americana” (EUA, México e Canadá) e transferir a organismos internacionais o controle das águas territoriais estadunidenses, exatamente com o mesmo empenho com que tenta – e agora parece que vai conseguir – dominar a Amazônia.

Tanto por seu amor ao comunismo quanto por sua submissão aos interesses globalistas ou pelo seu obsessivo e mal disfarçado ódio antimilitar, o governo do PT vem aprofundando a incompatibilidade, já de si radical e insanável, entre a esquerda e as Forças Armadas --incompatibilidade que agentes de influência como o conferencista acima mencionado ou o ativíssimo grupo do sr. Quartim de Moraes tentam camuflar sob um manto de desconversas sedutoras e promessas lisonjeiras, buscando canalizar em benefício da estratégia globalista-esquerdista internacional a justa insatisfação dos homens de farda. O futuro do Brasil, ou mesmo do continente latino-americano inteiro, depende de que a presente geração de oficiais militares saiba desmascarar seus falsos amigos e recusar-se a servir de instrumento a uma das tramas mais perversas e astutas que a intelligentzia esquerdista já concebeu neste país.

Fonte: Diário do Comércio, 1 de outubro de 2007

5 comentários :

Anônimo disse...

Olavo de carvalho diz:
“recusar-se a servir de instrumento a uma das tramas mais perversas e astutas que a intelligentzia esquerdista já concebeu neste país.”


Mas...Assim diz a ONU:

Resumo da Noticia “Brasil: 84% apóiam 'militares para manter ordem mundial'” -Um relatório divulgado pelo Pew Research Center, dos Estados Unidos, revelou que 84% dos brasileiros acreditam que as forças armadas são necessárias para manter a ordem no mundo, a terceira maior taxa mundial.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/10/071005_relatoriopewresearch_fp.shtml

Conclusão: Infelizmente o exército esquerdista local vai ser destruído e no seu lugar surgirá o exercito mundial esquerdista. Será que essas estatísticas são verdadeiras? Se forem, o que estava ruim ficou péssimo!

Anônimo disse...

Jesus amado!

Esse artigo me lembrou uma visão que o pastor Chuck Pierce teve sobre o Brasil, no qual via uma força política brasileira de décadas passadas sendo ressurecta e ele pedia aos irmãos orarem mto por nosso país pois essa força política vai calar a voz dos cristãos à força.

Pra quem quiser conferir pra poder tirar suas próprias conclusões, o link para o vídeo é:
http://www.insejec.com.br/video/video.php

Julio Severo disse...

Olá, Fabiana! A única coisa que posso lembrar é que, com todos os seus defeitos, os militares conseguiram evitar uma tragédia maior para o nosso país. O Brasil quase sofreu um terrível golpe comunista na década de 1960, que efetivamente sufocaria a liberdade e os direitos dos cristãos. Mas os militares agiram, e durante seu governo nasceram muitas igrejas cristãs, e houve grande crescimento e reavivamentos, enquanto em todos os países comunistas as igrejas eram aniquiladas e centenas de milhares de cristãos eram presos, torturados e mortos. A Igreja Universal, a Igreja Sara Nossa Terra e outras nasceram no governo militar. Quem dera o Brasil tivesse um governo verdadeiramente competente, que pudesse vencer a ameaça comunista sem recorrer ao autoritarismo militar. Não há como negar: o governo militar foi mil vezes melhor do que uma ditadura comunista. Contudo, um governo com verdadeira liberdade com responsabilidade e ordem seria mil vezes melhor do que um governo militar e um milhão de vezes melhor do que uma ditadura comunista. Creio que a ameaça presente realmente são as forças de esquerda. Mas acho que agora a melhor resposta não é uma intervenção militar, mas uma intervenção do povo de Deus, através da oração e jejum. O esquerdismo é uma força essencialmente demoníaca, que deve ser derrotada primeiramente através da oração.

Anônimo disse...

Bom dia Julio:
Olha,eu gostava muito do programa humorístico do Jô soares. Nesse programa tinha um quadro onde uma mulher dizia: “que tudo era culpa do governo”. Alguém já pensou de onde surgiu essa idéia de criar um exercito mundial? Por favor acessem o link abaixo:

http://www.bahai.org.br/curso/curso2_5.htm

É isso ai, e assim, caminhamos juntos até o dia em que nós chegaremos as mesmas conclusões. :=)

Abraços!
http://www.apocalipsetotal.blogspot.com/

Anônimo disse...

Oi Julio! Nossa, primeira vez que vc me respondeu! Obrigada!

Pois é gnt, contei pra minha amiga russa sobre essas manifestações pró-comunismo no Brasil e demais países da América Latina (inclusive passei pra ela o link do texto Communism on the march in Latin America do Olavo de Carvalho).
Assim como a maioria dos jovens russos que conheci no Mestrado, ela, que nasceu no interior de Vladivostok no começo dos anos 80 e pegou um pouco da era comunista, é totalmente contra o socialismo. Qdo nos conhecemos, perguntei mtas coisas sobre o regime comunista (curiosidade de saber como o negócio funcionava na prática) e ela passava horas contando as histórias passadas por sua mãe.
E ela disse que tentar ressuscitar o comunismo em pleno século 21 é pedir pra levar uma bela bomba na cabeça da população.
Espero não estar aqui pra levar bombada na cabeça!