Cristãos assumem postura contra “Estado messiânico”
Editores do jornal Leben recordam exemplo da Igreja Confessante da Alemanha Nazista
Doug
Schlegel
Quando as portas das igrejas se
abriram em toda a Alemanha para acomodar as multidões de jovens nazistas de uniformes
marrom, em paróquia após paróquia eles superavam em número — e derrotavam em
votos — os membros do Movimento Jovens da Reforma.
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| Pastor evangélico nazista |
Há momentos em que a corrente da
história é uma torrente furiosa e a força e violência dessa corrente é
alimentada por córregos distantes e, às vezes, obscuros. A história do
protestantismo na Alemanha durante o início do século XX é tal torrente furiosa.
Houve muitas forças, córregos se preferir, que alimentaram esse rio, que viu
seu momento mais dramático com a ascensão do Nacional Socialismo [Nazismo] ao
poder. Certamente, é fato bem conhecido que a ascensão do Nacional Socialismo Alemão
acabou na dramática cachoeira da Segunda Guerra Mundial, onde o curso do rio
foi decidido quando o Nacional Socialismo foi lançado contra as rochas.
O que a igreja estava fazendo — se é
que estava fazendo algo— enquanto Hitler estava consolidando o poder e a
verdadeira natureza do Nacional Socialismo se tornava evidente? A igreja foi cúmplice da ascensão de Hitler,
ou fez resistência ao crescente mal?
Há um evento que servirá como
indicador do que a igreja estava fazendo — O Sínodo de Barmen e a resultante
Confissão de Barmen.
Como observado acima, temos que
pesquisar os córregos. Às vezes os córregos são personalidades, às vezes são
questões e às vezes são ideias; normalmente, são todos os três. Há pelo menos
quatro nascentes para as águas agitadas do início do século XX: A doutrina dos
“Dois Reinos” de Lutero, a consolidação e união imposta dos protestantes
alemães por decreto do rei, os efeitos da Primeira Guerra Mundial e o
estabelecimento da República de Weimar, e a ascensão do nacionalismo alemão, o
conceito de Volk, com a coincidente queda na vida das igrejas e seus membros.
As questões básicas sobre o
relacionamento entre o Reino de Deus, a igreja e o mundo eram motivos de
contendas desde Agostinho, bispo de Hipona, no fim do século IV e início do
século V. Mas Agostinho não deu a última palavra e a igreja ainda ficou
envolvida nessa discórdia por mil anos até o tempo do famoso monge agostiniano
alemão, Martinho Lutero. E é o legado teológico de Lutero que nos interessa. De
forma especial, no início do século XX, os protestantes alemães tiveram de
lidar com as implicações da doutrina dos Dois Reinos de Lutero e da doutrina
relacionada das Disposições da Criação.
Com
ou sem razão, a doutrina dos Dois Reinos de Lutero veio a ser compreendida pela
maioria dos luteranos como uma lei que proibia a igreja de “se meter” nos assuntos
do Estado, pois as responsabilidades da igreja
estão na esfera da salvação e são uma questão de fé, e as responsabilidades do
Estado estão na esfera da justiça e lei e são uma questão de razão.
Ainda hoje há discórdias sobre se
Lutero realmente ensinou isso, mas a realidade é que, na Alemanha da década de
1920, essa opinião era predominante (ou pela
menos a mais pregada), e foi expressamente adotada pelos nazistas para promover
a submissão das igrejas nas questões do Estado.
É fácil ver como essa opinião
estimularia a passividade em relação ao poder crescente — e abuso de poder — do
Estado. No entanto, esta doutrina foi também sustentada pela doutrina paralela das
Disposições da Criação. A doutrina das Disposições da Criação ensinava que “os
cristãos, como todos os outros seres humanos, existem num sistema de estruturas
universais que são anteriores e independentes do fato dos cristãos crerem em
Cristo e pertencerem à igreja. Deus colocou todos os seres humanos em
estruturas específicas de existência — como nacionalidade, raça, identidade
sexual, família, trabalho, governo — que, de uma forma ou outra, são simplesmente
dados da existência da criatura. A lei e os mandamentos de Deus são revelados
através dessas estruturas morfológicas comuns da criação e da existência humana
e tanto atuam em independência como em tensão com a revelação especial de Deus
no evangelho de Jesus Cristo.”
Seguindo suas conclusões lógicas,
essas posições teológicas levam a um destino específico, como veremos depois.
Essas suposições teológicas básicas foram utilizadas por teólogos como Paul Althaus para desenvolver
uma compreensão do relacionamento entre a igreja e o Estado.
A segunda nascente começou com
determinação no início do século XIX. Em 1817, Friedrich Wilhelm III buscou
unificar as igrejas divididas da Alemanha por decreto, transformando-as numa
única igreja evangélica. Assim foi fundada a Igreja Evangélica da Antiga União
Prussiana.
Essa união forçada jamais teve o
efeito desejado por Friedrich Wilhelm. Aliás, o que no fim das contas aconteceu
foi que o Estado começou a desempenhar
um papel ainda maior na vida da igreja, e nas gerações seguintes, tanto os
líderes das igrejas quanto seus membros ficaram cada vez mais à vontade com a
autoridade do Estado na igreja e com as expressões do nacionalismo alemão.
Cem anos depois, esse relacionamento estreito deu seu fruto inevitável durante
a Primeira Guerra Mundial. Desse modo, vemos aí a terceira nascente.
Quando explodiu a Primeira Guerra
Mundial, os líderes e teólogos evangélicos alemães apoiaram o esforço bélico incondicionalmente.
Até mesmo as armas e uniformes dos soldados traziam lemas cristãos. Essa guerra
(pela perspectiva da igreja alemã) era uma guerra santa. Mas quando a perda de
vida se elevou (dois milhões de alemães mortos, sem contar milhares de milhares
de feridos e mutilados) a população alemã começou a se afastar da igreja. Quando
a Marinha amotinou-se e a Revolução de Novembro começou, a Alemanha se rendeu,
e praticamente toda a realeza e aristocracia fugiram do país.
Dessas ruínas, nasceu a República
de Weimar. A grande maioria dos líderes e teólogos não apoiou a nova república
democrática e ansiava a volta da monarquia. Essa atitude reacionária da igreja
alienou ainda mais os membros das igrejas e a população como um todo, mas quando
os termos e efeitos do tratado de Versailles se tornaram claros, o fogo latente
do nacionalismo alemão foi atiçado, e o histórico relacionamento estreito entre
a igreja e o Estado ressurgiu durante a ascensão de Adolf Hitler, do Nacional Socialismo
[Nazismo] e do conceito generalizado de Volk alemão.
Essa quarta nascente, a ascensão do
Nacional Socialismo e do conceito de Volk, é o contexto direto do Sínodo de
Barmen. Deve-se notar que o conceito de Volk é muito mais profundo do que a
tradução comum para comunidade ou povo. O termo Volk tinha uma qualidade mais
profunda, quase mística, que refletia a ideia de propósito e destino. Então,
quando Hitler fazia menção do conceito de Volk, ele não estava se referindo
meramente aos alemães como uma nacionalidade ou mesmo como um grupo étnico, mas
estava alcançando profundamente o povo alemão, falando para as aspirações de
todos eles, do orgulho e em certa medida, do propósito divinamente ordenado do
povo alemão.
Para os nacionais socialistas, o Estado
era a expressão natural do conceito de Volk. Muitos na igreja alemã haviam também
absorvido esse conceito. Muitos líderes evangélicos influentes não estavam
somente mal-preparados para enfrentar o perigo crescente que Hitler
representava, mas muitos até o receberam de braços abertos!
Quando olhamos esses acontecimentos
no contexto histórico e eclesiástico, é mais fácil ver por que tantos foram
enganados e levados à inação e até a cooperação. O Sínodo de Barmen é o exemplo
de um grupo de líderes eclesiásticos que tentou enfrentar o que eles perceberam
corretamente como um mal crescente. Eles tentaram orientar os crentes a fazer a
mesma resistência.
Para ajudar o leitor a sentir o estado
da igreja quando Hitler começou a governar, daremos uma olhada num
representante dos líderes que eram hostis aos objetivos de Barmen. Paul Althaus
era professor de teologia da Universidade de Göttingen e um líder notável.
Enquanto observava a ascensão de Hitler ao poder em 1933, ele fez as seguintes
observações:
Nossas
igrejas protestantes saudaram o momento decisivo de 1933 como um presente e
milagre de Deus… Nós aceitamos o momento decisivo desse ano como misericórdia
das mãos de Deus… Um Estado que começa a governar novamente segundo a lei de
Deus merece não apenas aplausos, mas também a alegre e ativa colaboração da
igreja… A desintegração do direito de punir criminosos, transformando-o em terapia
social e pedagogia que tinham ido longe, chegou ao fim; a punição deve
novamente ser infligida em séria retaliação. O novo Estado está novamente tendo
coragem de empunhar a espada da justiça. Repudiou a falta assustadora de
responsabilidade do Parlamento e nos mostrou novamente o que significa
responsabilidade. Varreu a sujeira da corrupção. Está protegendo a sociedade
das forças destrutivas na literatura e no teatro. Chama e educa nosso povo (Volk)
a uma nova disposição comunitária.
Com o benefício da retrospectiva,
essas palavras de um líder evangélico notável são ainda mais arrepiantes,
especialmente quando percebemos que ele foi apenas um dos muitos líderes evangélicos
que se expressaram.
Os nazistas foram rápidos na
consolidação do poder não somente no Estado, mas também na igreja. Eles não
toleravam desunião em ambos, e usaram os colaboradores dispostos na igreja para
impor suas vontades.
Quando os “cristãos alemães”
começaram a impor os conceitos de raça e Volk em toda a igreja, os líderes
sitiados que se opunham a eles convocaram um “sínodo livre” no dia 22 de
dezembro de 1933, em Barmen, para os dias 3 e 4 de janeiro. A convocação foi
para aqueles que ainda eram fiéis à autoridade das Escrituras. Trezentos e
vinte pastores e líderes responderam, e foi realizado o primeiro de muitos
sínodos livres. Foi neste sínodo que
Karl Barth introduziu os princípios que se tornariam a afirmação clássica de
resistência ao governo e políticas nazistas na igreja alemã — A Confissão de
Barmen.
É uma das curiosidades desse
período da história da igreja que Barth seria um dos “heróis”. Ele, juntamente
com outros teólogos como o luterano Martin Niemöller, que são criticados — e com justiça — por suas teologias destrutivas,
se encontravam no meio de uma luta de vida e morte pela preservação da igreja
na Alemanha.
A natureza da luta uniu os líderes
e as igrejas reformadas, luteranas e unidas no propósito comum de resistir à
tirania crescente tanto na igreja como no Estado. No decorrer dos meses
seguintes, os diversos grupos começaram a formar uma entidade mais coesa, que estava
começando a ser chamada de “Igreja Confessante”. A Igreja Confessante acabou
realizando outro sínodo em Barmen nos dias 29 e 30 de maio de 1934, no qual uma
declaração definitiva estava para ser feita.
A declaração foi produto de muita
discussão e certo desacordo. Alguns dos representantes luteranos opuseram-se a
algumas partes da linguagem por serem contrárias à Confissão Luterana, e as
sementes da eventual desunião foram semeadas, mas a declaração final é uma afirmação forte repudiando a ideia de Estado
totalitário como um culto de idolatria, e rejeitara a subordinação da Palavra
e do Espírito à igreja ou aos líderes na igreja. Era, por assim dizer, a
Declaração de Independência para a igreja crente e fiel na Alemanha.
Embora
a Declaração não tratasse especificamente da perseguição aos judeus, nem
identificasse especificamente os nazistas com os erros citados,
essa declaração é, apesar disso, bela em sua simplicidade e também em seu
reconhecimento do centro da questão, que Cristo é a cabeça da Igreja.
Homens como Althaus insultaram a
declaração publicamente e divulgaram uma confissão contrária que tentava
promover as ideias que os “cristãos alemães” tinham de Volk e Estado. Claro que
a história nos conta qual visão obteve a supremacia por algum tempo. O
movimento da Igreja Confessante na Alemanha se desintegrou, e as igrejas fiéis
na Alemanha sofreram muito.
É um exercício perigoso aprender apenas
uma “lição” daqueles tempos, pois há muita coisa que não devemos “jamais
esquecer”. Enquanto guardamos com carinho a memória daqueles que resistiram com
fé às pretensões de um Estado messiânico, devemos também sobriamente refletir
sobre como a igreja tinha praticamente renunciado à sua autoridade moral na
Alemanha anos antes da ascensão do Nacional Socialismo [Nazismo].
Traduzido
por Edgar Bezerra, Gyordano Montenegro Brasilino e Julio Severo do artigo do WND: Christians
take stand against “messianic state”
Fonte:
www.juliosevero.com
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