Quando um televangelista se importa mais com acordos de armas do que com vidas humanas por amor ao neoconservadorismo
Julio
Severo
O fundador da Rede de Televisão Cristã dos EUA, Pat
Robertson, disse que os Estados Unidos não devem arriscar “100 bilhões de
dólares em vendas de armas” à Arábia
Saudita depois do aparente assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em um
consulado saudita na Turquia, dizendo que os EUA têm coisas mais importantes —
como empregos e cofres beneficiados por acordos de armas — para focar.
| Pat Robertson |
“Para aqueles que estão se queixando por causa dos
sauditas — olhe, eles são aliados muito importantes,” disse Robertson. Embora
ele tenha chamado a religião dos wahabistas — a seita islâmica linha-dura à
qual pertence a família real saudita — “detestável,” ele pediu aos
telespectadores para lembrar que “os EUA têm um acordo de armas do qual todos
querem um pedaço… serão muitos empregos, muito dinheiro chegando aos cofres dos
EUA. Não é algo que você queira perder descuidadamente.”
“Você tem um jornalista — quem sabe? Foi um
interrogatório? Ele foi assassinado? Havia elementos nocivos? Quem fez isso?
... Você tem $100 bilhões de dólares em vendas de armas ... os EUA não podem
alienar seu maior parceiro no Oriente Médio.”
Conheci o Clube 700 no final da década de 1970 no
Brasil e quando o nome de Robertson surgia, a primeira ideia era evangelismo e
conservadorismo. Eu nunca poderia acreditar que um dia seu nome estaria ligado
à defesa de acordos de armas e à ditadura islâmica da Arábia Saudita.
Khashoggi, um cidadão saudita e crítico de longa data
da família real saudita, era residente permanente dos Estados Unidos, para onde
se mudou depois de decidir que não era seguro permanecer na Arábia Saudita.
Khashoggi passou o ano passado como colunista do jornal Washington Post, onde
publicava regularmente artigos incendiários criticando a Arábia Saudita e sua
liderança.
Contudo, se o assassinato de um jornalista dissidente
não é tão importante quanto o acordo de armas dos EUA com a Arábia Saudita, que
tal o atentado terrorista de 11 de setembro de 2018? Dos 19 terroristas
islâmicos envolvidos nesse atentado, 15 eram da Arábia Saudita, de acordo com a
CIA. Em 2015, um dos terroristas do 11 de setembro de 2001, Zacarias Moussaoui,
afirmou que vários membros da família real saudita faziam parte de uma lista de
financiadores da al-Qaida no banco de dados em que ele trabalhava sob as ordens
de Osama bin Laden, de acordo com reportagem da CNN.
Até mesmo o canal de TV de Robertson, em uma
reportagem de 2015 intitulada “O
papel da Arábia Saudita na propagação do terrorismo islâmico,” reconheceu, ainda que timidamente, que a Arábia
Saudita espalha o terrorismo. O tipo de islamismo que os sauditas espalham é o
islamismo sunita, que é a forma mais violenta do islamismo contra os cristãos.
Num artigo de 2014 intitulado “Defensor
da liberdade religiosa diz: família real saudita não quer deixar Obama derrotar
terroristas sunitas do EIIL que estão massacrando cristãos,” William J. Murray, diretor da Coalizão de Liberdade
Religiosa, disse:
“Os
Estados Unidos têm sido ‘marionetes’ militares da família real saudita,
atacando e isolando nações xiitas como a Síria. O Estado de maioria xiita da
Síria, que protege as minorias religiosas, é alvo dos Estados Unidos só porque
os membros da família real saudita estão dando as ordens, não o povo
americano.”
De acordo com Murray, sob Obama, os EUA e a Arábia
Saudita treinavam terroristas do ISIS para atacar a Síria.
“Atualmente,
a máquina de propaganda muçulmana sunita está presente em todos os círculos
políticos e sociais da capital dos EUA. O dinheiro dos países ricos do Golfo,
inclusive os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, inunda a mídia
americana e espalha sua influência política nos EUA. A lembrança pública dos
atentados muçulmanos sunitas que mataram um grande número de americanos na
última década desapareceu, e até mesmo o ataque de 11 de setembro de 2001 quase
não é mencionado. As decapitações quase diárias na Arábia Saudita são
perdoadas. Os líderes americanos desviaram o olhar quando câmaras de tortura
foram instaladas no Ritz Carlton Hotel, na capital saudita, neste ano. O
massacre no Iêmen por forças apoiadas pela Arábia Saudita é pouco mencionado. Na
região da capital dos EUA, a Academia Saudita, que é uma escola muçulmana
sunita para filhos de diplomatas de países muçulmanos, ensina que a democracia
é uma religião apóstata que deve ser destruída. Essa escola também ensina que
os judeus são descendentes de macacos e porcos e que as mulheres são propriedade
dos homens. Um dos estudantes mais exemplares dessa escola foi condenado por se
juntar à al-Qaeda e conspirar para assassinar o presidente George W. Bush.
Outro estudante formado foi preso enquanto tentava embarcar em um avião com um
facão de açougueiro escondido. Essa escola é 100% financiada pelo governo da
Arábia Saudita. Nenhuma autoridade do governo americano reclama do ódio que é
ensinado na Academia Saudita.”
De acordo com John Perkins, em seu livro “Confissões
de um Assassino Econômico,” a Arábia Saudita tem um relacionamento muito
especial com os EUA desde meados da década de 1970. Ele
diz:
“A
evidência era incontestável: a Arábia Saudita, o aliado de longa data dos EUA e
o maior produtor de petróleo do mundo, havia se tornado, como explicara uma
elevada autoridade do Departamento do Tesouro dos EUA, ‘o epicentro’ do
financiamento terrorista… A ‘generosidade’ saudita incentivava as autoridades
dos EUA a fazer vista grossa, dizem alguns agentes veteranos dos serviços de
inteligência dos EUA. Bilhões de dólares em contratos, verbas e salários foram
para um grande número de ex-autoridades dos EUA que haviam lidado com os
sauditas: embaixadores, diretores de postos da CIA, até ministros de governo…”
Então até mesmo americanos sabem sobre o papel saudita
incontestável no terrorismo islâmico internacional. Aliás, Perkins viajou para
a Arábia Saudita no início da década de 1970 como agente dos EUA e conhece os fatos
por trás dos bastidores.
Agora, por amor ao acordo de armas dos EUA com uma
nação que espalha o terrorismo, um televangelista está fazendo vista grossa
porque se o relacionamento dos Estados Unidos com a Arábia Saudita se
deteriorar, como reconheceu Robertson, milhares de americanos perderão seus
empregos no complexo industrial militar, e bilhões de dólares sauditas não
chegarão aos cofres dos EUA.
Milhares de cristãos americanos têm empregos no
complexo industrial militar. Se o relacionamento dos EUA com a Arábia Saudita
se deteriorar, eles perderão seus empregos. Se não se deteriorar, os cristãos
no Oriente Médio e em outras partes do mundo perderão a vida em consequência do
terrorismo sunita da Arábia Saudita fortemente armado pelos EUA.
É muito óbvio que os americanos não cristãos venderam
suas almas ao diabo, na forma saudita, por amor ao dinheiro de sangue. Agora
até mesmo televangelistas amados estão seguindo esse exemplo?
O islamismo da
Arábia Saudita, não do Irã, mata mais cristãos no Oriente Médio do que qualquer outra ideologia.
Mesmo assim, os EUA têm protegido a Arábia Saudita, não suas vítimas cristãs.
Trump vem fracassando terrivelmente em sua promessa de ajudar os cristãos perseguidos
pelos muçulmanos. Em vez de receber nos Estados Unidos milhares e milhares de
cristãos perseguidos (muitas vezes vítimas do intervencionismo saudita e
americano), o
governo Trump recebeu nos primeiros 6 meses de 2018 apenas 21 cristãos
perseguidos, muito menos do que Obama. No entanto, ele não tem falhado em dar amplo apoio e
proteção dos ditadores sauditas.
Por amor ao petróleo saudita, os EUA estão dispostos a
sacrificar milhares de vidas de vítimas cristãs do islamismo sunita. E um amado
televangelista aprova isso.
Por amor ao petróleo saudita, os EUA não estão
dispostos a punir a Arábia Saudita pelos milhares de vidas de americanos
destruídas em 11 de setembro de 2001.
Qual é a explicação para Pat Robertson usar seu Clube
700 para encorajar seu público evangélico a tolerar crimes sauditas?
Robertson está tentando agradar ao presidente dos EUA,
Donald
Trump, que no ano passado vendeu a enorme quantia de $ 110 bilhões de dolares
em equipamento militar para a Arábia Saudita.
Robertson elogiou a abordagem de Trump, que
publicamente lançou dúvidas sobre os crimes sauditas, comparando-os com
acusações da esquerda contra os conservadores.
Para justificar os crimes sauditas, Trump e Robertson
estão fazendo vista grossa e comparando os sauditas aos conservadores!
De acordo com Vox:
“A
posição de Robertson está de acordo com o seu apoio mais amplo e completo às
políticas do Presidente Trump nos últimos anos. Desde a posse de Trump, a Rede
de Televisão Cristã tornou-se na prática um canal de propaganda para o governo
Trump, fazendo programas que, por exemplo, sugerem que Donald Trump foi
escolhido por Deus para se tornar presidente. Em troca, Robertson ganha
frequentemente acesso raro para entrevistas com Trump, durante as quais ele
normalmente lança perguntas fáceis para Trump responder.”
Apoiar Trump em tudo é um empreendimento perigoso. Os
cristãos apoiam o rei Davi em tudo o que ele deu um bom exemplo. Mas mesmo ele,
que era um homem segundo o coração de Deus, não era perfeito. Ele adulterou com
Bate-Seba e mandou matar o marido dela.
Se os cristãos apoiassem Davi em tudo, acabariam
apoiando também o adultério e o assassinato, só porque Davi fez isso.
Se os cristãos não podem apoiar os pecados de Davi,
por que o televangelista Pat Robertson está justificando os crimes sauditas por
amor a Trump?
Até o Canadá
liberal condenou a Arábia Saudita por causa de abusos dos direitos humanos. Se o Canadá liberal pode fazer isso, por que os EUA
não podem fazê-lo? Por que Robertson e outros evangélicos americanos não podem
fazê-lo?
Robertson tem com Trump o mesmo relacionamento que o
profeta Natã teve com o rei Davi. Robertson sempre tem mensagens positivas para
Trump. Natã sempre tinha mensagens positivas para Davi.
No entanto, quando Davi pecou, Natã foi enviado por
Deus para lhe dar uma mensagem não positiva. Robertson não tem estado atento à
voz de Deus para fazer por Trump a mesma coisa que Natã fez por Davi?
Um relacionamento é apenas amizade quando ambas as
partes são livres e sinceras para aprovar e desaprovar os bons e maus atos um
do outro. Quando a mensagem é sempre positiva, não há amizade real, mas apenas
oportunismo.
O bajulador bajula tudo o que o bajulado faz de certo
e errado. O cristão verdadeiro aprova e elogia tudo o que precisa ser aprovado
e reprova tudo o que precisa ser reprovado.
Se os lugares fossem trocados e Natã estivesse hoje
diante de Trump, ele traria a Trump da parte de Deus uma mensagem de
desaprovação sobre a Arábia Saudita, a
nomeação de ativistas homossexuais por Trump e muito mais.
O que Robertson faria sobre o adultério de Davi e sua
ordem de assassinar o marido de Bate-Seba?
Os EUA não têm dado proteção aos cristãos do Oriente
Médio, mas a proteção militar que os EUA têm dado à Arábia Saudita, cujo
islamismo sunita é o maior assassino de cristãos, é uma grande ofensa contra os
cristãos no Oriente Médio.
Reis e presidentes precisam de cristãos não apenas uma
voz doce e positiva. Eles precisam também de uma voz profética, que nem sempre
é positiva.
Que Deus levante evangélicos americanos para ser o
necessário Natã profético que Trump precisa.
Versão em inglês deste artigo: When
a Televangelist Cares More about Weapons Deals than Human Lives for the Sake of
Neoconservatism
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