2 de janeiro de 2021

A democracia mudou a definição do que é “certo e errado” — e os EUA querem exportá-la?

 

A democracia mudou a definição do que é “certo e errado” — e os EUA querem exportá-la?

Patrick J. Buchanan

Em seu exercício mais recente de democracia liberal, o Senado estadual de Massachusetts votou por 32 votos a favor para anular o veto do governador Charlie Baker ao que é chamado de Lei Roe.



Um dia antes, segunda-feira, a Câmara estadual votou pela anulação.

A Lei Roe agora é lei em Massachusetts. E o que essa lei diz?

Elaborada e adotada para proteger o direito da mulher ao aborto, caso a decisão Roe versus Wade [que legalizou o aborto nos EUA em 1973] seja derrubada pela Supremo Tribunal, a lei garante às meninas de 16 anos o direito de abortar seus filhos em gestação, sem o consentimento dos pais, até os primeiros 24 semanas de gravidez.

Com 24 semanas, o bebê em gestação tem 60% a 70% de chance de sobrevivência.

Mas a Lei Roe cobre esse problema também. Se a “saúde mental” da adolescente estiver em perigo, ela ainda poderá fazer um aborto.

Valerie Richardson, do jornal The Washington Times, cita a reação da Liga de Ação Católica do estado. Essa medida “reduzirá a idade de consentimento  judicial ou dos pais para menores que buscam abortos, removerá as proteções de bebês que sobreviveram ao aborto, reduzirá os critérios médicos para abortos nos últimos meses de gravidez e tornará os abortos mais perigosos para mulheres, permitindo que (parteiras) e enfermeiras profissionais os realizem.”

As entidades esquerdistas ACLU, NARAL e a Federação de Planejamento Familiar aclamaram isso como uma vitória para os direitos das mulheres.

Falando pela Liga de Ação Católica, o diretor executivo C.J. Doyle culpou as autoridades religiosas católicas e as organizações católicas por não terem repreendido os legisladores que rotineiramente votam por direitos ao aborto.

“Nenhum dos católicos que votaram por essa lei de destrução de vidas sofrerá uma palavra de repreensão de qualquer padre ou prelado em Massachusetts… Não haverá artigos ou editoriais na imprensa católica os criticando. A ninguém será negada a Eucaristia. Ninguém será expulso dos Cavaleiros de Colombo.”

Esse silêncio, disse Doyle, “é igual a consentimento.” E dado esse silêncio, “não se pode esperar que nenhuma pessoa racional leve a sério a oposição católica ao assassinato de bebês em gestação em Massachusetts.”

O ativista pró-vida Benjamin Watson, ex-estrela do time New England Patriots, descreveu o absurdo do que o poder legislativo fez. Uma adolescente ainda precisa da permissão dos pais para obter um simples analgésico da enfermeira da escola, mas ela não precisa da permissão para fazer um aborto e matar o neto.

O que Massachusetts fez, novamente em um exercício de democracia, levanta questões que vão além dos debates normais entre os americanos sobre essa questão social que tanto divide desde a escravidão.

Na década de 1950, o aborto era considerado vergonhoso, até mesmo criminoso, exigindo a excomunhão da Igreja Católica. Os abortistas eram párias sociais, muitas vezes processados e punidos.

Agora, no espaço de uma geração, o aborto foi elevado, no que antes era o “País de Deus,” a um direito constitucional e humano.

Para ser aceito como “progressista” hoje, é quase um imperativo apoiar o direito da mulher de exterminar a vida de seu filho em gestação.

Até mesmo o “católico devoto” Joe Biden mudou.

Ele agora é a favor da revogação da Emenda Hyde que ele havia apoiado no passado, a qual proíbe o uso de verbas federais para pagar abortos, exceto para salvar a vida da mulher ou se a gravidez resultar de estupro ou incesto.

Algo comparável aconteceu com a homossexualidade e o casamento do mesmo sexo. Antes também considerado vergonhoso, agora também é um direito civil e constitucional, e a bandeira LGBT é hasteada proeminentemente nas embaixadas dos Estados Unidos durante o Mês do Orgulho Gay.

À medida que o aborto e a homossexualidade se tornaram novos direitos constitucionais, os antigos direitos da Primeira Emenda assumiram um novo significado.

“O Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimento de religião, ou proibindo o seu livre exercício” foi interpretado como significando que Deus, a Bíblia, a Cruz, a oração e os símbolos cristãos não têm lugar nas escolas que educam as crianças dos EUA.

A “liberdade de expressão” agora protege a blasfêmia e a queima da bandeira americana.

A “liberdade de imprensa” agora protege a disseminação do que costumava ser criminalizado como pornografia.

Em resumo, usando métodos e meios democráticos e procedimentos legais e judiciais normais, o que antes era imoral e até mesmo criminoso passou a ser oficialmente declarado constitucional e moralmente correto.

Dezenas de milhões na “maioria silenciosa” ainda podem abraçar as velhas crenças sobre o certo e o errado, o bem e o mal, o que é pró-América e o que não é, mas os EUA mudaram.

E isso levanta uma pergunta ainda mais ampla.

Será que dá para se alterar a verdade moral? Dá para se transformar em correto e moral o assassinato de crianças em gestação, injusto e imoral no ensino cristão e na Lei Natural, se um poder legislativo usar processos democráticos para declarar isso?

Se o certo e o errado podem ser mudados por plebiscitos e votos políticos, o que fazemos com aqueles que se recusam a seguir essas leis?

Antes de os EUA entrarem em guerra de novo para defender os “valores americanos,” os EUA não deveriam ser informados exatamente por quais valores seus soldados estão lutando?

Pois se a “democracia” produz inevitavelmente as consequências que vemos nos EUA hoje, qual é o argumento que justifique matar pessoas para persuadi-las a adotar a democracia?

Traduzido por Julio Severo do original em inglês do WND (WorldNetDaily): Democracy has changed 'right & wrong' – and we want to export it?

Fonte: www.juliosevero.com

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Um comentário :

Flávio disse...
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