4 de dezembro de 2018

O movimento ocultista de Steve Bannon, Brasil e evangélicos conservadores


O movimento ocultista de Steve Bannon, Brasil e evangélicos conservadores

Julio Severo
Steve Bannon não fala muito sobre o Brasil e as forças que levaram a uma vitória conservadora de Jair Bolsonaro, hoje presidente do Brasil.
Eduardo Bolsonaro, filho do presidente do Brasil, com Steve Bannon
É normal que um indivíduo com um histórico ocultista não fale muito sobre seus motivos e intenções ocultistas. Tal é o caso de Bannon, que tem um histórico ocultista, especialmente com o seu fascínio pelo ocultista islâmico René Guénon, o fundador da Escola Tradicionalista.
Bannon se encontrou com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente do Brasil, em agosto passado, que registrou seu encontro em seu Twitter dizendo: “Foi um prazer conhecer STEVE BANNON, estrategista da campanha presidencial de Donald Trump. Tivemos uma ótima conversa e temos a mesma cosmovisão. Ele disse ser um entusiasta da campanha de Bolsonaro e estamos certamente em contato para unir forças, especialmente contra o marxismo cultural.”
Ambos negaram envolvimento em qualquer projeto. No final de novembro, os dois se encontraram novamente: Bolsonaro participou da festa de aniversário de Bannon. Quando você encontra alguém às vezes, pode haver um grau de amizade. Mas quando você vai à festa de aniversário dele, o grau de amizade é certamente muito alto.
Ambos podem negar qualquer envolvimento e associação, mas se os evangélicos foram centrais para a vitória de Bolsonaro, suas orações serão eficazes e acontecerá o que Jesus disse: “Nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia.” (Marcos 4:22 King James Atualizada)
Uma pequena revelação veio através de Benjamin Harnwell, que foi entrevistado pelo Intercept. Harnwell dirige o Instituto Dignitatis Humanae (conhecido também como Instituto da Dignidade Humana), que em 2014 convidou Bannon como um de seus principais palestrantes em uma conferência no Vaticano, onde Bannon uniu René Guénon e Julius Evola e “conservadorismo”.
Na entrevista, intitulada “Conversamos com o sócio de Steve Bannon em escola na Itália que busca guinar o mundo à direita,” o Intercept disse que “Eduardo Bolsonaro… declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no começo de novembro que pretende construir uma conexão com o The Movement.” O Movimento é uma organização fundada por Bannon para promover o tradicionalismo.
O Intercept disse que a ligação entre O Movimento e o Instituto da Dignidade Humana “está nas mãos e no cérebro de Bannon,” que é “a espinha dorsal do instituto.”
Provavelmente, a intenção de Bolsonaro de construir sua conexão com O Movimento já está acontecendo, e o próprio Intercept disse: “Há tempos se suspeita que exista alguma ligação entre Bannon e Bolsonaro.” O presidente brasileiro nomeou como seu ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que diz abertamente que seu tradicionalismo é baseado em Guénon e Evola, que “aliara-se a Benito Mussolini, e suas ideias se tornaram a base da teoria racial fascista; mais tarde… as ideias de Evola ganharam força na Alemanha nazista,” de acordo com Joshua Green, autor do livro “Barganha do Diabo: Steve Bannon, Donald Trump e a Invasão da Presidência” (“Devil’s Bargain: Steve Bannon, Donald Trump, and the Storming of the Presidency,” Penguin Publishing Group, 2017).
A nomeação de Araújo pode ser um sinal de que a influência guenoniana de Bannon está entrando discretamente no Brasil, como sugerido por Intercept.
O tradicionalismo é bom quando tem uma boa base. Tradicionalismo e conservadorismo de acordo com a Bíblia são excelentes, embora Jesus Cristo frequentemente condenasse os tradicionalistas e seu tradicionalismo. Sim, tradicionalistas na época de Jesus eram pró-vida, pró-família e contra ideias que hoje seriam consideradas marxistas. Mas quando o tradicionalismo toma o lugar em nossas vidas que pertence a Deus, vira inimigo de Deus. É por isso que Jesus criticava os tradicionalistas e seu tradicionalismo.
Por isso, até mesmo quando o tradicionalismo é baseado na Bíblia, como o tradicionalismo dos fariseus era, não é garantia de que seja bom.
Mas o tradicionalismo, o conservadorismo e o catolicismo promovidos por Bannon estão de acordo com Guénon.
Vamos abordar a importante entrevista de Benjamin Harnwell no Intercept.
Harnwell disse: “[Steve Bannon] é nosso padroeiro e o principal ponto de referência. É ele quem escolhe os professores e foi ele quem decidiu que a escola deveria se chamar Academia judaico-cristã.”
Você poderia dizer que é oportunismo um indivíduo com um histórico no ocultismo de René Guénon usar uma imagem “judaico-cristã” em seus movimentos e iniciativas. Você está certo, e Trump demitiu Bannon exatamente por oportunismo.
Oportunismo é uma característica inconfundível do tradicionalismo de Guénon. Aliás, Olavo de Carvalho, que é um antigo promotor de Guénon no Brasil e Rasputin de Bolsonaro, disse: “Não é por nada não, mas raramente encontrei pessoas tão sofisticadamente falsas e mentirosas como nos meios ditos ‘perenialistas.’” Os adeptos de Guénon são conhecidos como tradicionalistas ou perenialistas.
Contudo, ao mencionar que o escritor evangélico C. S. Lewis chamava Guénon de charlatão, Carvalho prontamente defendeu o fundador da Escola Tradicionalista, declarando, com sua língua sofisticadamente falsa e mentirosa, que “Guénon nunca foi charlatão.”
Eu só conheci Carvalho em 2002 porque eu era ativo no movimento pró-vida desde a década de 1980, tendo contatos com líderes católicos e evangélicos pró-vida conservadores no Brasil e nos EUA, inclusive o Pe. Paul Marx, o fundador da Human Life International, a maior organização pró-vida católica do mundo.
Pelo fato de que eu achava que Carvalho era apenas um católico lutando contra o aborto e a agenda gay, trabalhei, gratuitamente, em seu site “tradicionalista” por mais de dez anos. Antes do meu envolvimento com Carvalho, eu já costumava escrever para o Providafamilia, o maior site católico pró-vida no Brasil. Eu costumava trabalhar também para o JesusSite, o maior site evangélico do Brasil no início dos anos 2000.
Por mais de 10 anos vi Carvalho promovendo Guénon e aconselhando seus seguidores a ler os livros Guénon. Eu nunca segui suas recomendações de livros, porque eu suspeitava ocultismo. Mas o que fazer? O sincretismo é muito comum no catolicismo brasileiro e eu achava que Carvalho era apenas mais um católico sincrético. Os adeptos de Guénon, tradicionalistas e perenialistas exploram essa ligação católica com o sincretismo no Brasil para esconder a si mesmos e suas intenções debaixo de uma capa católica.
Os adeptos de Guénon, tradicionalistas e perenialistas são, na verdade, “sofisticadamente falsos e mentirosos.”
Portanto, não é de admirar que Harnwell, Bannon e Carvalho se identifiquem como “católicos” e, com essa capa, atraiam facilmente os católicos. O presidente do Instituto da Dignidade Humana é o cardeal Raymond Leo Burke, “conhecido como o inimigo número um do papa Francisco” (The Intercept). O que um líder católico ganha lutando contra o marxismo enquanto está preso por forças ocultistas?
Católicos como Francisco estão na armadilha marxista, mas católicos como Burke são incapazes de ver que caíram na armadilha antimarxista do ocultista Guénon.
O Intercept perguntou a Harnwell: “Mas na América Latina, principalmente no Brasil, é a bancada evangélica, e não católica, a de mais peso no Congresso. Como é a relação de vocês com os evangélicos?”
Harnwell respondeu: “A aliança com os evangélicos pode ser a resposta que procuramos… Eu ficaria muito feliz em poder trabalhar estreitamente com os evangélicos… Veja, por exemplo, são os evangélicos que estão apoiando o governo Trump, são os evangélicos que são contra o aborto no Brasil… O catolicismo deixou o campo de batalha.”
Assim, o movimento de Bannon, ou adeptos de Guénon ou tradicionalistas ou perenialistas estão buscando uma aliança com os evangélicos brasileiros. Voltemos a Carvalho. Quando ele começou seu site “católico,” não havia colunistas evangélicos ali. Quando seu site me convidou para ser o primeiro colunista evangélico, por amor à causa pró-vida eu aceitei, pensando que estava tendo apenas uma aliança com católicos pró-vida. Não percebi que estava sendo usado a atrair líderes evangélicos. Trump foi muito mais esperto do que eu, porque ele percebeu que estava sendo usado por Bannon.
Harnwell também disse: “Os evangélicos ajudaram a eleger Bolsonaro presidente do Brasil. Após ser divulgado o resultado do primeiro turno, a primeira declaração dada pelo então candidato à presidência pelo PSL foi de agradecimento aos líderes evangélicos.”
Curiosamente, Harnwell, que disse que Bannnon é o padroreiro de seu instituto, reconhece que os evangélicos foram vitais para Bolsonaro e que, em sua primeira declaração após o primeiro turno, quando ele estava em extrema necessidade dos votos dos evangélicos, Bolsonaro agradeceu a eles. Mas Harnwell não mencionou que, imediatamente após o segundo turno, quando a vitória de Bolsonaro foi confirmada e ele não precisava mais depender dos evangélicos, em sua primeira declaração ele não agradeceu a nenhum líder evangélico. Ele agradeceu especificamente a um adepto de Guénon — Olavo de Carvalho.
Depois do primeiro turno, Bolsonaro se lembrou dos evangélicos. Depois do segundo turno, ele se esqueceu deles e se lembrou de um guenoniano. Mas os esquerdistas sabem muito bem quem deu a vitória a Bolsonaro. Fernando Haddad, o candidato presidencial de esquerda que foi derrotado por Bolsonaro, reconheceu que o maior fator responsável por sua derrota nas urnas foi o “fenômeno evangélico.”
Bolsonaro já nomeou seus ministros mais importantes, e nenhum deles é evangélico. Os dois principais são guenonianos.
Bolsonaro tem sido elogiado como um presidente que colocará o Brasil em uma amizade e parceria mais próximas com os EUA e mudará a embaixada brasileira para Jerusalém. Essas duas medidas podem ser vistas como passos totalmente novos para os brasileiros não evangélicos, mas de forma alguma são novos para os evangélicos.
Como evangélico, sempre apoiei Jerusalém como a capital de Israel. Não surpreendentemente, as duas únicas nações que mudaram suas embaixadas para Jerusalém são nações com um presidente evangélico: os EUA e a Guatemala.
Sobre amizade com os EUA, como evangélico brasileiro sempre vi americanos — em igrejas evangélicas. Durante toda a minha vida como evangélico, tenho visto e ouvido evangélicos americanos visitando o Brasil e pregando em igrejas evangélicas. As igrejas evangélicas brasileiras têm uma amizade inquebrável com os evangélicos americanos.
A influência dos evangélicos americanos — de Rex Humbard e Billy Graham a Pat Robertson — é poderosa em minha vida e na vida de outros evangélicos. Os evangélicos americanos são uma parte vital da minha vida.
Enquanto Bolsonaro quer que o Brasil não-evangélico tenha amizade com os EUA, a comunidade evangélica brasileira sempre teve — sem interrupção — amizade e parceria com evangélicos americanos. Meu caso não é exceção: tenho tido contato com americanos conservadores, inclusive pastores e até generais, desde a década de 1980.
O Brasil evangélico é um amigo natural dos Estados Unidos. O Brasil católico — o Brasil é o maior país católico do mundo — não tem a experiência de ver regularmente conservadores americanos em suas igrejas.
O Intercept perguntou a Harnwell: “Falando em evangélicos brasileiros, eles são a base de apoio de Bolsonaro. O senhor o conhece?” Ele respondeu: “Eu ouvi falar muito bem dele. O Bannon, para quem sempre peço conselhos, me falou muito bem de Bolsonaro.”
Ocultistas nunca revelam seus planos, porque o negócio dos ocultistas é manter seus negócios ocultos.
Mesmo assim, a entrevista de Benjamin Harnwell ao Intercept nos dá algumas “revelações”:
* Confirma que os evangélicos, não os guenonianos (Bannon ou Carvalho), foram vitais para a vitória de Bolsonaro.
* Confirma que Eduardo Bolsonaro está construindo uma conexão entre o governo de Bolsonaro e O Movimento de Bannon.
* Confirma que adeptos de Guénon ou tradicionalistas ou perenialistas estão buscando uma aliança com os evangélicos brasileiros.
Tal aliança perigosa é possível, por causa de Carvalho, que tem promovido o tradicionalismo guenoniano sob a capa de catolicismo e de filosofia conservadora. Especialmente porque mais de 15 anos atrás, um evangélico brasileiro chamado Julio Severo aceitou um convite do site “conservador” Mídia Sem Máscara de Carvalho para ser usado para atrair evangélicos. Agora o nome de Carvalho é conhecido como “católico conservador” entre os evangélicos.
Mais do que qualquer outra pessoa no mundo evangélico, compreendo a força enganadora, abusiva e destrutiva do tradicionalismo guenoniano.
Entretanto, Jair Bolsonaro, que nomeou guenonianos em seu governo em detrimento dos evangélicos que o elegeram, não compreende tal força.
Eduardo Bolsonaro, tirando proveito da influência de seu pai, está usando a política externa brasileira como seu playground pessoal, pensando que os guenonianos são seus novos brinquedos. Mais cedo ou mais tarde ele descobrirá que ele é o brinquedo deles.
Trump veio a ver que ele estava sendo usado por Bannon. Eu vim a ver que eu estava sendo usado por Carvalho. Minha oração é que o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos possam ver que eles também estão sendo usados pelos guenonianos.
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