22 de outubro de 2018

Quando um televangelista se importa mais com acordos de armas do que com vidas humanas por amor ao neoconservadorismo


Quando um televangelista se importa mais com acordos de armas do que com vidas humanas por amor ao neoconservadorismo

Julio Severo
O fundador da Rede de Televisão Cristã dos EUA, Pat Robertson, disse que os Estados Unidos não devem arriscar “100 bilhões de dólares  em vendas de armas” à Arábia Saudita depois do aparente assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em um consulado saudita na Turquia, dizendo que os EUA têm coisas mais importantes — como empregos e cofres beneficiados por acordos de armas — para focar.
Pat Robertson
Ele apareceu em seu principal programa de televisão, o Clube 700, em 15 de outubro de 2018, para alertar os evangélicos americanos contra a possibilidade de que o relacionamento dos Estados Unidos com a Arábia Saudita se deteriorasse por causa do assassinato de Khashoggi.
“Para aqueles que estão se queixando por causa dos sauditas — olhe, eles são aliados muito importantes,” disse Robertson. Embora ele tenha chamado a religião dos wahabistas — a seita islâmica linha-dura à qual pertence a família real saudita — “detestável,” ele pediu aos telespectadores para lembrar que “os EUA têm um acordo de armas do qual todos querem um pedaço… serão muitos empregos, muito dinheiro chegando aos cofres dos EUA. Não é algo que você queira perder descuidadamente.”
“Você tem um jornalista — quem sabe? Foi um interrogatório? Ele foi assassinado? Havia elementos nocivos? Quem fez isso? ... Você tem $100 bilhões de dólares em vendas de armas ... os EUA não podem alienar seu maior parceiro no Oriente Médio.”
Conheci o Clube 700 no final da década de 1970 no Brasil e quando o nome de Robertson surgia, a primeira ideia era evangelismo e conservadorismo. Eu nunca poderia acreditar que um dia seu nome estaria ligado à defesa de acordos de armas e à ditadura islâmica da Arábia Saudita.
Khashoggi, um cidadão saudita e crítico de longa data da família real saudita, era residente permanente dos Estados Unidos, para onde se mudou depois de decidir que não era seguro permanecer na Arábia Saudita. Khashoggi passou o ano passado como colunista do jornal Washington Post, onde publicava regularmente artigos incendiários criticando a Arábia Saudita e sua liderança.
Contudo, se o assassinato de um jornalista dissidente não é tão importante quanto o acordo de armas dos EUA com a Arábia Saudita, que tal o atentado terrorista de 11 de setembro de 2018? Dos 19 terroristas islâmicos envolvidos nesse atentado, 15 eram da Arábia Saudita, de acordo com a CIA. Em 2015, um dos terroristas do 11 de setembro de 2001, Zacarias Moussaoui, afirmou que vários membros da família real saudita faziam parte de uma lista de financiadores da al-Qaida no banco de dados em que ele trabalhava sob as ordens de Osama bin Laden, de acordo com reportagem da CNN.
Até mesmo o canal de TV de Robertson, em uma reportagem de 2015 intitulada “O papel da Arábia Saudita na propagação do terrorismo islâmico,” reconheceu, ainda que timidamente, que a Arábia Saudita espalha o terrorismo. O tipo de islamismo que os sauditas espalham é o islamismo sunita, que é a forma mais violenta do islamismo contra os cristãos.
Num artigo de 2014 intitulado “Defensor da liberdade religiosa diz: família real saudita não quer deixar Obama derrotar terroristas sunitas do EIIL que estão massacrando cristãos,” William J. Murray, diretor da Coalizão de Liberdade Religiosa, disse:
“Os Estados Unidos têm sido ‘marionetes’ militares da família real saudita, atacando e isolando nações xiitas como a Síria. O Estado de maioria xiita da Síria, que protege as minorias religiosas, é alvo dos Estados Unidos só porque os membros da família real saudita estão dando as ordens, não o povo americano.”
De acordo com Murray, sob Obama, os EUA e a Arábia Saudita treinavam terroristas do ISIS para atacar a Síria.
Em uma reportagem do WND de 2018 intitulada “Rússia e a ameaça muçulmana sunita,” disse Murray:
“Atualmente, a máquina de propaganda muçulmana sunita está presente em todos os círculos políticos e sociais da capital dos EUA. O dinheiro dos países ricos do Golfo, inclusive os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, inunda a mídia americana e espalha sua influência política nos EUA. A lembrança pública dos atentados muçulmanos sunitas que mataram um grande número de americanos na última década desapareceu, e até mesmo o ataque de 11 de setembro de 2001 quase não é mencionado. As decapitações quase diárias na Arábia Saudita são perdoadas. Os líderes americanos desviaram o olhar quando câmaras de tortura foram instaladas no Ritz Carlton Hotel, na capital saudita, neste ano. O massacre no Iêmen por forças apoiadas pela Arábia Saudita é pouco mencionado. Na região da capital dos EUA, a Academia Saudita, que é uma escola muçulmana sunita para filhos de diplomatas de países muçulmanos, ensina que a democracia é uma religião apóstata que deve ser destruída. Essa escola também ensina que os judeus são descendentes de macacos e porcos e que as mulheres são propriedade dos homens. Um dos estudantes mais exemplares dessa escola foi condenado por se juntar à al-Qaeda e conspirar para assassinar o presidente George W. Bush. Outro estudante formado foi preso enquanto tentava embarcar em um avião com um facão de açougueiro escondido. Essa escola é 100% financiada pelo governo da Arábia Saudita. Nenhuma autoridade do governo americano reclama do ódio que é ensinado na Academia Saudita.”
De acordo com John Perkins, em seu livro “Confissões de um Assassino Econômico,” a Arábia Saudita tem um relacionamento muito especial com os EUA desde meados da década de 1970. Ele diz:
“A evidência era incontestável: a Arábia Saudita, o aliado de longa data dos EUA e o maior produtor de petróleo do mundo, havia se tornado, como explicara uma elevada autoridade do Departamento do Tesouro dos EUA, ‘o epicentro’ do financiamento terrorista… A ‘generosidade’ saudita incentivava as autoridades dos EUA a fazer vista grossa, dizem alguns agentes veteranos dos serviços de inteligência dos EUA. Bilhões de dólares em contratos, verbas e salários foram para um grande número de ex-autoridades dos EUA que haviam lidado com os sauditas: embaixadores, diretores de postos da CIA, até ministros de governo…”
Então até mesmo americanos sabem sobre o papel saudita incontestável no terrorismo islâmico internacional. Aliás, Perkins viajou para a Arábia Saudita no início da década de 1970 como agente dos EUA e conhece os fatos por trás dos bastidores.
Agora, por amor ao acordo de armas dos EUA com uma nação que espalha o terrorismo, um televangelista está fazendo vista grossa porque se o relacionamento dos Estados Unidos com a Arábia Saudita se deteriorar, como reconheceu Robertson, milhares de americanos perderão seus empregos no complexo industrial militar, e bilhões de dólares sauditas não chegarão aos cofres dos EUA.
Milhares de cristãos americanos têm empregos no complexo industrial militar. Se o relacionamento dos EUA com a Arábia Saudita se deteriorar, eles perderão seus empregos. Se não se deteriorar, os cristãos no Oriente Médio e em outras partes do mundo perderão a vida em consequência do terrorismo sunita da Arábia Saudita fortemente armado pelos EUA.
É muito óbvio que os americanos não cristãos venderam suas almas ao diabo, na forma saudita, por amor ao dinheiro de sangue. Agora até mesmo televangelistas amados estão seguindo esse exemplo?
O islamismo da Arábia Saudita, não do Irã, mata mais cristãos no Oriente Médio do que qualquer outra ideologia. Mesmo assim, os EUA têm protegido a Arábia Saudita, não suas vítimas cristãs. Trump vem fracassando terrivelmente em sua promessa de ajudar os cristãos perseguidos pelos muçulmanos. Em vez de receber nos Estados Unidos milhares e milhares de cristãos perseguidos (muitas vezes vítimas do intervencionismo saudita e americano), o governo Trump recebeu nos primeiros 6 meses de 2018 apenas 21 cristãos perseguidos, muito menos do que Obama. No entanto, ele não tem falhado em dar amplo apoio e proteção dos ditadores sauditas.
Por amor ao petróleo saudita, os EUA estão dispostos a sacrificar milhares de vidas de vítimas cristãs do islamismo sunita. E um amado televangelista aprova isso.
Por amor ao petróleo saudita, os EUA não estão dispostos a punir a Arábia Saudita pelos milhares de vidas de americanos destruídas em 11 de setembro de 2001.
Qual é a explicação para Pat Robertson usar seu Clube 700 para encorajar seu público evangélico a tolerar crimes sauditas?
Robertson elogiou a abordagem de Trump, que publicamente lançou dúvidas sobre os crimes sauditas, comparando-os com acusações da esquerda contra os conservadores.
Para justificar os crimes sauditas, Trump e Robertson estão fazendo vista grossa e comparando os sauditas aos conservadores!
De acordo com Vox:
“A posição de Robertson está de acordo com o seu apoio mais amplo e completo às políticas do Presidente Trump nos últimos anos. Desde a posse de Trump, a Rede de Televisão Cristã tornou-se na prática um canal de propaganda para o governo Trump, fazendo programas que, por exemplo, sugerem que Donald Trump foi escolhido por Deus para se tornar presidente. Em troca, Robertson ganha frequentemente acesso raro para entrevistas com Trump, durante as quais ele normalmente lança perguntas fáceis para Trump responder.”
Apoiar Trump em tudo é um empreendimento perigoso. Os cristãos apoiam o rei Davi em tudo o que ele deu um bom exemplo. Mas mesmo ele, que era um homem segundo o coração de Deus, não era perfeito. Ele adulterou com Bate-Seba e mandou matar o marido dela.
Se os cristãos apoiassem Davi em tudo, acabariam apoiando também o adultério e o assassinato, só porque Davi fez isso.
Se os cristãos não podem apoiar os pecados de Davi, por que o televangelista Pat Robertson está justificando os crimes sauditas por amor a Trump?
Até o Canadá liberal condenou a Arábia Saudita por causa de abusos dos direitos humanos. Se o Canadá liberal pode fazer isso, por que os EUA não podem fazê-lo? Por que Robertson e outros evangélicos americanos não podem fazê-lo?
Robertson tem com Trump o mesmo relacionamento que o profeta Natã teve com o rei Davi. Robertson sempre tem mensagens positivas para Trump. Natã sempre tinha mensagens positivas para Davi.
No entanto, quando Davi pecou, Natã foi enviado por Deus para lhe dar uma mensagem não positiva. Robertson não tem estado atento à voz de Deus para fazer por Trump a mesma coisa que Natã fez por Davi?
Um relacionamento é apenas amizade quando ambas as partes são livres e sinceras para aprovar e desaprovar os bons e maus atos um do outro. Quando a mensagem é sempre positiva, não há amizade real, mas apenas oportunismo.
O bajulador bajula tudo o que o bajulado faz de certo e errado. O cristão verdadeiro aprova e elogia tudo o que precisa ser aprovado e reprova tudo o que precisa ser reprovado.
Se os lugares fossem trocados e Natã estivesse hoje diante de Trump, ele traria a Trump da parte de Deus uma mensagem de desaprovação sobre a Arábia Saudita, a nomeação de ativistas homossexuais por Trump e muito mais.
O que Robertson faria sobre o adultério de Davi e sua ordem de assassinar o marido de Bate-Seba?
Os EUA não têm dado proteção aos cristãos do Oriente Médio, mas a proteção militar que os EUA têm dado à Arábia Saudita, cujo islamismo sunita é o maior assassino de cristãos, é uma grande ofensa contra os cristãos no Oriente Médio.
Reis e presidentes precisam de cristãos não apenas uma voz doce e positiva. Eles precisam também de uma voz profética, que nem sempre é positiva.
Que Deus levante evangélicos americanos para ser o necessário Natã profético que Trump precisa.
Com informações de NewsMax e Vox.
Leitura recomendada sobre neoconservadorismo:
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Um comentário :

Marcos Zequias disse...

Acho que Deus devia dar um puxão de orelha nos cristãos americanos