28 de agosto de 2018

Os intervencionistas estão agora sem líder?


Os intervencionistas estão agora sem líder?

Patrick J. Buchanan
“Morte de McCain Deixa Vazio” foi a manchete do The Wall Street Journal sobre uma reportagem de primeira página que começou:
“A morte de John McCain deixará o Congresso sem sua voz mais alta em apoio ao internacionalismo forte que definiu as relações de segurança dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.”
Certamente, a morte do senador cuja história de vida dominará as notícias até que ele seja enterrado no lugar em que ele se formou, a Academia Naval, no domingo, deixa os intervencionistas americanos sem seu maior defensor.
Ninguém por aí tem o prestígio de McCain. Ninguém tem tantos fãs no meio da grande mídia quanto ele.
E a causa que ele defendeu, a intervenção compulsiva em brigas de nações estrangeiras para confrontar ousadamente ditadores e levar democratas ao poder, parece ser uma causa cujo tempo passou.
Quando ocorreram os atentados em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos estavam unidos para esmagar os terroristas da al-Qaeda que perpetraram as atrocidades. John McCain então apoiou a decisão do presidente Bush de invadir o Iraque em 2003, embora o Iraque não tivesse desempenhado nenhum papel nos atentados.
John McCain com terroristas islâmicos na Síria
Durante a presidência de Barack Obama, ele viajou furtivamente até o norte da Síria para estimular os rebeldes que haviam se levantado para derrubar o presidente Bashar Assad, uma insurgência que levou a uma guerra civil de sete anos e a um dos grandes desastres humanitários do nosso tempo.
McCain apoiou a expansão da OTAN na Europa Oriental e nos países bálticos, até a fronteira da Rússia. Quando a Geórgia invadiu a Ossétia do Sul em 2008 e foi expulsa pelo exército russo, McCain rugiu: “Somos todos georgianos agora!”
Ele pediu intervenção. Mas Bush, com seus índices de aprovação raspando o fundo do poço, estava farto das cruzadas neocons por democracia.
John McCain com líder neo-nazista da Ucrânia
O desprezo de McCain por Vladimir Putin não tinha limites. Quando multidões se reuniram na Praça Maidan, em Kiev, para derrubar um presidente eleito que era pró-Rússia, lá estava McCain, aplaudindo-os.
Ele apoiou o envio de armas para o exército ucraniano para combater os rebeldes pró-russos no Donbass. Ele apoiou a assistência dos EUA à intervenção saudita no Iêmen. E essa guerra também comprovou ser um desastre humanitário.
John McCain era belicista e tinha orgulho disso. Mas em 2006, as guerras que ele havia defendido custaram ao Partido Republicano ambas as casas do Congresso.
Em 2008, quando ele era candidato presidencial, essas guerras ajudaram a custar a presidência.
Em 2016, a maioria republicana viraria as costas a McCain e seu protegido, o senador Lindsey Graham, e indicaria Donald Trump, que disse que buscaria se dar bem com a Rússia e livrar os EUA das guerras em que McCain ajudou a mergulhar o país.
Entretanto, embora agora não tenha um grande defensor e tenha se mostrado incapaz de reunir uma maioria americana, o intervencionismo mantém um resto de impulso e motivação. Essa compulsão está pressionando os EUA a continuar apoiando a guerra saudita no Iêmen e a buscar mudança de regime no Irã.
No entanto, se qualquer um desses empreendimentos tiver qualquer perspectiva de criar um Oriente Médio mais pacífico e próspero, ninguém fez argumentos favoráveis.
Enquanto a política externa que venceu a Guerra Fria, a contenção, foi articulada por George Kennan e continuada por presidentes desde Truman até Bush I, nenhuma grande estratégia para a era pós-Guerra Fria jamais foi adotada pela maioria dos americanos.
A “Nova Ordem Mundial” de Bush I foi rejeitada pelos patriotas econômicos de Ross Perot e pela geração de americanos que nasceu entre 1946 e 1965, a mesma geração de Bill Clinton, que queria gastar o dividendo de paz adquirido com a vitória dos EUA na Guerra Fria investindo nos Estados Unidos.
Quanto às cruzadas de Bush II por democracia “para acabar com a tirania em nosso mundo,” os frutos desse idealismo wilsoniano se transformaram em cinzas na boca dos EUA.
Mas se as agendas de política externa de Bush I e Bush II, junto com o intervencionismo de McCain, foram testadas e consideradas inúteis, qual é a grande estratégia dos EUA?
Quais são os grandes objetivos da política externa dos EUA? Quais são os interesses vitais pelos quais todos, ou quase todos os americanos, acreditam que devem lutar?
“Tire esse pudim; não tem tema,” disse Churchill. A Grã-Bretanha perdeu um império, mas ainda não encontrou um papel, foi o comentário esmagador de Dean Acheson em 1962.
Ambas as declarações parecem se aplicar à política externa dos EUA em 2018.
Os EUA estão bombardeando e combatendo no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e no Iêmen, guerras que, em parte, são o legado de John McCain. O secretário de Estado Mike Pompeo enviou um ultimato virtual ao Irã. Os EUA disseram à Coréia do Norte, uma potência nuclear com o quarto maior exército do mundo, que se desnuclearizem ou os EUA podem usar seu poder militar para executar essa tarefa.
Os EUA estão desafiando Pequim em suas reivindicadas águas territoriais do Mar do Sul da China. Desde a Coréia do Sul até a Estônia, os EUA se comprometeram por tratados solenes a ir à guerra se qualquer uma das dezenas de nações for atacada.
Agora se ouve falar de uma “OTAN Árabe” para confrontar o Irã do aiatolá e seus aliados xiitas. Para que os EUA não se esqueçam, o ISIS e a al-Qaeda não são xiitas; são sunitas [a mesma linha islâmica da Arábia Saudita].
Com todas essas garantias de guerra, as chances são excelentes de que um dia os EUA sejam arrastados para mais uma guerra em que o povo americano se aborrecerá logo depois que ela começar.
Onde está o Kennan americano do novo século?
Pat Buchanan é colunista do WND e foi assessor do presidente Ronald Reagan. Ele é católico tradicionalista pró-vida e já foi candidato republicano à presidência dos EUA.
Traduzido por Julio Severo do original em inglês do WND (WorldNetDaily): Are the interventionists now leaderless?
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