8 de julho de 2018

Cristãos retornam para a Síria — mas não para o Iraque


Cristãos retornam para a Síria — mas não para o Iraque

William Murray
Cristãos no Oriente Médio estão votando com os pés no governo do presidente Assad na Síria. Com tudo o que os funcionários do governo americano e os meios de comunicação disseram para condenar o governo secular da Síria, certamente ninguém deveria querer voltar para lá, com a guerra civil aparentemente diminuindo em favor do presidente Assad. Mas esse não é o caso.
Até agora, em 2017, mais de 600 mil sírios, cristãos e muçulmanos, retornaram às suas casas na Síria, enquanto o Estado Islâmico e os “rebeldes” sunitas muçulmanos apoiados pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos estão sendo expulsos. Dos cristãos que fugiram de suas casas na Síria, muitos estão retornando do Líbano, Jordânia e Turquia. Cristãos mais ricos que fugiram da guerra civil estão voltando também da Europa.
Ao contrário do Iraque e de outras nações majoritariamente muçulmanas, a Síria tem uma constituição secular, de modo que a lei da xariá não é aplicada como a lei da terra. Os cristãos têm seu próprio sistema de tribunais para resolver questões familiares, separado do sistema de tribunais xariás dos muçulmanos. Aliás, os líderes religiosos cristãos na Síria chamam as várias décadas de domínio da família Assad como uma “era de ouro para os cristãos.”
Não é de admirar, pois, que os cristãos sírios estejam retornando para suas casas na Síria em grande número.
Mas os cristãos não estão retornando para o Iraque, onde os Estados Unidos e outras nações ocidentais estabeleceram uma “democracia.” Por quê? Provavelmente porque a constituição do Iraque, escrita numa “assembleia democrática” após a queda de Saddam Hussein, afirma que “o islamismo é a religião oficial do Estado e é uma fonte fundamental de legislação.” Para reforçar isso, uma segunda cláusula declara: “Não se pode estabelecer nenhuma lei que contradiga as prescrições estabelecidas pelo islamismo.”
Como isso afeta os cristãos? Aqui estão apenas alguns exemplos: os muçulmanos são proibidos por lei de se converterem ao Cristianismo. “Blasfêmia contra o islamismo” é crime. Nenhuma criança pode ter um nome em sua certidão de nascimento que não apareça no Alcorão, de modo que os cristãos não podem oficialmente colocar, por exemplo, em seus filhos o nome de Pedro ou Paulo. (Muitas crianças cristãs no Iraque são chamadas Yusef [José] ou Maryam [Maria] porque esses dois nomes aparecem no Alcorão).
Quase nenhum refugiado cristão sírio registrado na ONU está buscando asilo em outra nação, mas um grande número de cristãos iraquianos quer deixar o Oriente Médio.
Um relatório da Fundação Heritage revelou que os cristãos sírios compõem pequenas porcentagens de requerentes de asilo registrados na agência de refugiados da ONU no Líbano, Jordânia, Iraque e Egito — 1,5 por cento, 0,2 por cento, 0,3 por cento e 0,1 por cento, respectivamente. No entanto, o relatório constatou que mais de 16% dos refugiados iraquianos em busca de asilo eram cristãos. O relatório é muito claro que os refugiados cristãos da Síria planejavam voltar para casa se o governo sírio ganhasse [a guerra], enquanto os refugiados cristãos do Iraque não querem voltar, mesmo com um governo apoiado pelos americanos no Iraque.
Num artigo do World Watch Monitor, Ewelina Ochab, especialista em direitos humanos e genocídio, chegou a esta conclusão depois de entrevistar cristãos do Iraque que fugiram para o Curdistão ou se tornaram refugiados na Jordânia: Ela afirmou que os cristãos iraquianos enfrentam perseguição desde a invasão liderada pelos EUA para derrubar Saddam Hussein em 2003. Os cristãos foram responsabilizados pela invasão, e no caos que se seguiu, vários extremistas islâmicos destruíram suas igrejas, roubaram suas casas e os expulsaram do país para o norte do Iraque (Curdistão), Jordânia ou Líbano.
No artigo, Ochab foi citada dizendo que a realidade da Síria é diferente porque “Assad é percebido como o defensor das minorias cristãs.” Ela continuou dizendo: “Muitos cristãos sírios temem que, uma vez que Assad se vá, eles enfrentarão o mesmo destino que os cristãos iraquianos sofreram depois da queda de Saddam Hussein.”
Como diretor de programas de caridade que ajudam refugiados cristãos, posso dar testemunho pessoal da verdade dos cristãos iraquianos que não querem retornar. Muitos dos cristãos com quem trabalho na região curda são aliás de Bagdá, tendo fugido da violência lá. Os cristãos que entrevistei que fugiram da planície de Nínive afirmam que só ficarão no Iraque se não puderem ir para outro lugar.
No geral, o número de sírios retornando às suas casas na Síria enquanto o governo secular está ganhando a guerra é surpreendente. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, quase 67% dos mais de 600.000 que voltaram nos primeiros sete meses deste ano retornaram à província de Aleppo, que foi reconquistada das mãos dos rebeldes sunitas apoiados pelos EUA e de vários grupos jihadistas que atuam com eles. Em dezembro de 2016, o governo recuperou a seção da cidade de Aleppo que havia sido mantida por rebeldes. Isso parou o fogo quase constante de morteiros e franco-atiradores nos 80% da cidade que nunca foram mantidos pelos rebeldes, e permitiu que muitas pessoas voltassem.
Até mesmo muçulmanos sunitas que não apoiavam a revolta sunita apoiada pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos estão se retirando da Turquia e de outros lugares para reivindicar sua propriedade e voltar para suas casas. Apenas os elementos extremistas do islamismo sunita aceitaram armas e dinheiro da Arábia Saudita e tentaram derrubar o governo secular da Síria.
A Turquia, que também apoiou a derrubada do governo de Assad, beneficiou-se do saque de Aleppo e outras áreas. Bilhões de dólares em bens saqueados de fábricas, lojas, casas e até mesmo museus foram levados para a Turquia e vendidos. Somente depois que a cobra jihadista que eles estavam alimentando “agradeceu” ao governo da Irmandade Muçulmana da Turquia com ataques terroristas no aeroporto de Istambul, o apoio dos radicais sunitas parou. Agora, muitas das famílias que fugiram para a Turquia estão retornando às suas casas saqueadas na Síria.
O reparo da infraestrutura na Síria será prejudicado com as esperadas sanções e boicotes dos países ocidentais, irritados por não conseguirem desalojar o governo secular da Síria e instalar um governo fantoche da Arábia Saudita com uma constituição compatível com a xariá.
Há uma certeza: os Estados Unidos não pagarão para reconstruir nenhuma das centenas de pontes, viadutos e estradas destruídas nos bombardeios da Síria como parte da estratégia para derrotar o Estado Islâmico.
O trauma do povo da Síria levará gerações para ser superado.
Traduzido por Julio Severo do original em inglês do WND (WorldNetDaily): Christians return to Syria -- but not to Iraq
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