2 de fevereiro de 2018

Como Trump normalizou o neoconservadorismo


Como Trump normalizou o neoconservadorismo

Ilana Mercer
É fato: Os neoconservadores estão contentes com a política externa do presidente Trump.
Dois meses atrás, Eli Lake do site Bloomberg mostrou que ele está sentindo grande alegria neoconservadora.
“… quanto à Venezuela, [Donald Trump] chegou muito perto de pedir mudança de regime. ‘Os Estados Unidos estão adotando passos importantes para fazer o regime prestar contas,’ Trump disse. “Estamos preparados para adotar mais ações se o governo da Venezuela persistir em sua vereda para impor governo totalitário no povo venezuelano.’”
“Por um momento,” disse extasiado Lake, “fechei os olhos e achei que estava escutando a uma reunião dos editores da revista neocon Weekly Standard.”
O que os neocons querem: Soldados americanos marchando para a Venezuela!
O senhor Lake, que é neoconservador, adorou cada palavra de Trump. Erroneamente, ele e os neocons confundem uma política externa expansionista com o “excepcionalismo americano.”
Não é.
Por acaso, os neocons estão com sorte. A maioria dos americanos sabe pouco das ideias que incentivaram a fundação dos Estados Unidos. A probabilidade é que eles tenham ideias opostas à filosofia liberal clássica dos fundadores dos EUA e, daí, desejam ver o engrandecimento do Estado Belicista coercivo e colossal.
É exatamente assim que os EUA estão.
Por isso, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos atraíram o Ocidente para “uma guerra religiosa entre sunitas e xiitas.” Quem deveria estar nessa guerra eram os sauditas, mas os saldados americanos vão lutar no lugar deles. Essa guerra ocorre como alvo supremo da ditadura islâmica da Arábia Saudita. Donald Trump tem mostrado vontade total de participar disso.
Depois de uma campanha de “EUA em Primeiro Lugar,” Trump ficou do lado do islamismo sunita e, ao mesmo tempo, demonizou o Irã. Os iranianos não mataram um único americano em atentados terroristas entre 1975 e 2015; os árabes sauditas mataram 2.369 americanos!
Os iranianos reelegeram recentemente um político reformista. Por favor, diga-me quem foi que elegeu os xeiques das ditaduras petrolíferas da Arábia Saudita e países vizinhos?
Os moderados dançaram nas ruas de Teerã quando o presidente Hassan Rouhani foi reeleito. Curiosamente, eles estão no momento fazendo agitações.
Se o passado mostra o que vai acontecer, o deputado federal americano Ron Paul está certo quando diz que a CIA está provavelmente se intrometendo nas políticas iranianas. Para a esquerda e para a pseudo-direita dos EUA, essa é uma questão para a qual ambos os lados preferem fazer vista grossa. Como a elite esquerdista diariamente nos dá aulas e repreende, questionar a CIA — seus agentes secretos estão também fazendo agitações contra todos os vestígios da plataforma original “EUA em Primeiro Lugar” do Presidente Trump — é “minar a democracia americana.”
Além disso, “bons” americanos sabem que só os russos “se intrometem.”
Na Arábia Saudita, um novo regime mais perigoso está consolidando poder regional. Quase da noite para o dia, a ditadura islâmica saudita mudou de governo de uma dinastia de família (como a dinastia da família Clinton e Bush no governo dos EUA), para um estilo mais autoritário de governo de um único homem.
No que se refere ao eixo saudita, israelense e americano, o governo Kushner-Trump — outra dinastia sendo feita? — não rompeu com as famílias dinásticas reinantes (a dinastia Clinton e a dinastia Bush mencionadas acima).
É confortante saber que a Arábia Saudita desempenha um papel crucial nos assuntos de direitos humanos na ONU. Em janeiro passado, a ditadura saudita executou 47 pessoas num único dia, inclusive um clérigo xiita benigno. O que temer? Foram execuções rápidas, por degolação com a espada.
A então embaixadora dos EUA na ONU, Samantha Power, uma mulher tão burra e perigosa quanto Nikki Haley, foi apática com relação a essa carnificina. (Quase que sentimos saudades da realpolitik de Henry Kissinger. Pelo menos ele era altamente educado e conhecia profundamente história e assuntos mundiais. Mas hoje acham que Jared Kushner sabe tudo.)
Os sauditas, que são os amigos de peito dos americanos, estão no momento bloqueando os portos do Iêmen. Nenhuma assistência humanitária passa por esses portos hermeticamente selados. Iemenitas estão morrendo. Alguns usuários de Twitter tuitaram com alegria diante do quadro de bebês iemenitas morrendo de fome, como este. Na visão deles, os bebês iemenitas são sinistros.
Ninguém negaria a natureza majoritariamente neoconservadora da Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Enfiado ali em algum lugar está o tema de Trump de “soberania,” mas em palavras aguadas. O prometido Muro cedeu diante de “tecnologias complexas,” à “mobilização de soldados adicionais” e ao testado e (não!) comprovado “exame minucioso de imigrantes, refugiados e outros visitantes estrangeiros potenciais.”
São frases longas e complicadas às quais Barack Obama e Genghis Bush mal se oporiam.
“Muitas vezes se diz que o governo de Trump é ‘isolacionista,’” escreveu o historiador Andrew J. Bacevich, no jornal Spectator da Inglaterra. Isso não é verdade. “Aliás, estamos agora vendo com os próprios olhos uma escalada dramática da militarização da política externa dos EUA no Oriente Médio, África e Afeganistão. Isso não tem sido anunciado, mas está acontecendo, e a maior parte disso está acontecendo sem… nenhum debate no Congresso ou nos meios de comunicação dos EUA.”
Aliás, enquanto estava traçando seu “novo” plano do Afeganistão, Trump confessou que “o povo americano está cansado de guerra sem vitória.” (Vão fazer guerra e ponto final.) O que é deprimente é que Trump prometeu um aumento na presença militar americana no Afeganistão. Ao enviar mais 4 mil soldados ali, o Presidente Trump alegou que ele estava combatendo o terrorismo, mas não empreendendo em nenhuma iniciativa para a formação do Afeganistão.
Isso equivale a uma fonte jorrando água salgada e doce ao mesmo tempo. Pura contradição.
Separar esses dois elementos é quase impossível. Ao enviar “mais 4 mil soldados para o contingente de 8.400 já mobilizados no Afeganistão,” Trump está fazendo o que Obama e Bush fizeram antes dele nessa região deteriorada e selvagem: se sujar na lama com eles; matar alguns civis junto com alguns bandidos; fazer parcerias com líderes tribais (que odeiam os americanos); mediar e subornar.
Acima de tudo, gastar bilhões dos impostos dos americanos para aperfeiçoar a ideologia de uma força militar global que não sabe a diferença entre xiita e outros grupos.
Resultado final? A esquerda e a pseudo-direita dos EUA acham totalmente aceitável falar em tom de brincadeira de tropas americanas no Níger e na Noruega. “Temos soldados no Níger e na Noruega? É claro que temos. Precisamos delas ali.”
Com a normalização do neoconservadorismo, não existe debate, discordância ou franqueza entre as facções políticas perigosamente unidas dos EUA.
Esse é o presente que o Presidente Trump deu aos neoconservadores — que agora incluem confortavelmente neo-liberais e todos os conservadores, com a exceção de Pat Buchanan, Ann Coulter e Tucker Carlson.
Como exatamente Trump normalizou o neoconservadorismo? Em 2016, os esquerdistas acusaram o candidato Trump de isolacionismo. Os neoconservadores — também conhecidos como conservadores — fizeram a mesma acusação.
Tendo de forma constante e persistente se queixado do isolacionismo de Trump, tudo o que a esquerda e a direita fajuta podem fazer é aplicar sanções no intervencionismo de Trump. A outra opção é admitir que nós da calejada Velha Direita, que havíamos ficado alegres com a perspectiva e promessa de não intervencionismo de Trump, estávamos certos.
Mas isso não vai acontecer.
Para alguns, a normalização do neoconservadorismo feita por um presidente cuja campanha fez oposição ao neoconservadorismo é um golpe de gênio, idêntico às táticas de triangulação do ex-presidente americano esquerdista Bill Clinton. Para outros, é um cínico truque de ilusionismo.
Traduzido por Julio Severo do original em inglês do WND (WorldNetDaily): How Trump normalized neoconservatism
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