24 de outubro de 2017

Martinho Lutero era antissemita?


Martinho Lutero era antissemita?

Eddie Hyatt
Recentemente recebi um email irado de uma pessoa que me criticou brutalmente por citar Martinho Lutero, dizendo-me que horrível indivíduo antissemita que ele era e insistindo em que ele e tudo o que ele disse deveriam ser rejeitados.
Talvez ela tivesse sido influenciada pelo discurso muitas vezes citado por William Inge, professor esquerdista anti-luterano de Cambridge, conhecido por seus estudantes como “reitor deprimente.” Inge, que é citado por John Hagee em seu livro “Jerusalem Countdown” (Contagem Regressiva de Jerusalém), declamou como um louco: “O pior anjo mau da Alemanha não é Hitler, ou Bismarck, ou Frederico o Grande, mas Martinho Lutero.”

Lutero e antissemitismo

Mais tarde na vida, Lutero de fato fez declarações horríveis e indesculpáveis sobre os judeus de sua época; declarações que devem ser reconhecidas e rejeitadas por crentes modernos. Contudo, como explicamos o fato de que alguns dos inimigos mais vigorosos de Hitler, dispostos a sacrificar suas vidas para proteger os judeus, eram pastores luteranos alemães, tais como Dietrich Bonhoeffer?
A resposta, sem dúvida, está no fato de que a discórdia de Lutero com os judeus só é encontrada no que ele escreveu em sua velhice e era de natureza teológica, não racial. Suas declarações contra os judeus estavam em conformidade com declarações que ele fez contra os católicos, turcos (muçulmanos), batistas e todos os que ele considerava inimigos do evangelho de Cristo. Por essa razão, argumentarei neste artigo que Lutero não era antissemita.
Começaremos examinando o quadro maior de Lutero, pois em grande parte de sua vida ele teve relações muito favoráveis aos judeus e defendeu a liberdade e proteção deles num mundo que era antissemita.

O amor e apoio de Lutero ao povo judeu

Certa vez Lutero declarou que ele admirava — aliás, amava — o povo judeu. Em seu livro de 1523 intitulado “Jesus Cristo Nasceu Judeu,” ele tentou ganhar os judeus para o evangelho de Cristo, e nesse contexto ele também defendeu tratamento humanitário a eles em face de antissemitismo generalizado em toda a Europa. Ele recordou aos cristãos que Jesus Cristo nasceu judeu e que “por nossa vez devemos tratar os judeus como se fossem irmãos.”
Lutero continuou a apoiar seu amigo judeu, Bernardo, quando ele caiu em crise financeira em 1531 e teve de deixar sua família por causa de sua dívida. Lutero e Melanchthon cada um cuidaram dos filhos dele e continuaram esse apoio por muitos anos. Ainda que isso representasse uma dificuldade financeira para ele, Lutero disse que ele fez isso porque “ele se sentia obrigado a fazer o bem para Bernardo como membro da igreja judaica.” Bernardo também trabalhou como mensageiro para Lutero em numerosas ocasiões.
Lutero relatou acerca de determinada ocasião em que três rabinos o visitaram porque eles haviam ouvido do interesse dele na língua hebraica e esperavam chegar a um acordo com ele. Ainda que eles rejeitassem seu argumento de que as profecias messiânicas do Antigo Testamento apontavam para Jesus Cristo, Lutero foi amável com eles.
Pelo fato de que os judeus eram proibidos de viajar naquela parte da Alemanha, Lutero lhes deu uma carta de apresentação na qual ele pedia, “por amor de Cristo,” que eles recebessem passagem livre. Pelo fato de que ele mencionou o nome de Cristo, os judeus se abstiveram de usar a carta.
Para outro amigo judeu, Lutero argumentou que o evangelho tinha de ser de Deus; pois de que outra maneira dava para se explicar que os gentios, que odeiam os judeus, adoram um rei judeu, muito menos um crucificado?

Lutero encontra a polêmica judaica contra os cristãos

Lutero acabou atacando os escritores judeus que o caluniaram por suas tentativas de ganhá-los para Cristo. Seus livros, tais como “Jesus Nasceu Jesus,” foram difamados e ridicularizados pelos judeus.
A resposta de Lutero foi suave no começo. Ele respondeu: “Por amor do Judeu crucificado, que ninguém tirará de mim, com alegria quis fazer o melhor que pude para vocês, judeus, mas vocês abusaram de minha generosidade e endureceram o coração.”
A atitude de Lutero para com os judeus obviamente se endureceu quando ele entrou em debates e diálogos mais amplos com os rabinos judeus sobre as Escrituras e o Messias. Lutero tinha esperado que, mediante esses debates, os judeus seriam ganhos para a fé em Cristo.
Por meio desses debates, porém, Lutero se expôs aos escritos rabínicos que difamavam Jesus e o Cristianismo. Ele ficou horrorizado de ler de Jesus sendo difamado como filho ilegítimo de uma prostituta e de Jesus sendo retratado como um bruxo cabalista que foi desmascarado por suas trapaças e condenado à morte.
Tendo sido ensinado desde a infância a reverenciar e honrar Deus, Jesus e Maria, ele respondeu com ira e temor. Ele escreveu:
Estou ainda orando diariamente, e me humilho no abrigo do Filho de Deus. Eu O trato e honro como meu Salvador, para quem corro e fujo quando o diabo, o pecado ou outra desgraça me ameaça, pois Ele é meu abrigo, tão amplo quanto o céu e a terra, debaixo de cujas asas me rastejo para escapar da ira de Deus. Portanto, não posso ter nenhuma comunhão ou paciência com blasfemadores obstinados e aqueles que difamam esse querido Salvador.
Quando ele viu que os rabinos estavam obstinados em suas posições, ele finalmente desistiu de toda esperança dos judeus vindo a Cristo em massa. E com eles entretendo tais opiniões blasfemas acerca de Cristo, ele desistiu de toda esperança de cristãos e judeus poderem viver juntos em harmonia.
Embora Lutero devesse ter respondido no espírito dAquele que ele proclamava (Aquele que havia orado por aqueles que o atormentaram na cruz: “Pai, perdoe-os, pois não sabem o que fazem” [Lucas 23:34]), em vez disso ele reagiu com ira e fúria e escreveu um livro intitulado “Acerca dos Judeus e Suas Mentiras.” A palavra Mentiras no título se referia às críticas violentas dos judeus contra Jesus, Maria e a Trindade. A terceira seção desse livro contém as críticas violentas que ele fulminou contra os judeus.

O significado do contexto religioso e social

Sem desculpar Lutero, precisamos, apesar disso, compreender que o período medieval não foi um tempo de civilidade e tolerância. A Igreja Católica Romana medieval, da qual Lutero era parte, prendia, torturava e matava aqueles que se desviavam dos ensinos oficiais dessa igreja.
O próprio Lutero foi declarado herético e excomungado por causa de seus ensinos sobre a justificação pela fé e o sacerdócio de todos os crentes. Se não fosse pelo socorro de Deus, ele também teria sido preso e executado.
Não tendo — ou não desejando — armas materiais com que lutar contra seus inimigos, Lutero disse que ele buscava subjugá-los com palavras. Ele assim usava a lógica, escárnio, compaixão, lamentos, ameaças, sátira, hipérbole e todas as formas de discurso ao fazer seus argumentos.
Ele não se conteve, mas despejou uma torrente de palavras contra os “romanistas,” os “turcos,” os “anabatistas,” os “judeus” e todos os que ele considerava inimigos do evangelho de Cristo. Os católicos, os muçulmanos, os anabatistas e os judeus usavam o mesmo tipo de linguagem suja e ofensiva contra ele.
Em seu excelente livro “Bonhoeffer,” Eric Metaxas atribui o aumento dos ataques sarcásticos de Lutero contra os judeus, católicos e todos dos quais ele discordava, em parte, ao seu estado deteriorado de saúde na velhice. Ele sofria de prisão de ventre crônica, hemorroida, catarata num olho e problema no ouvido interno que causavam vertigem e desmaios. Ele também sofria de mudanças de temperamento e depressão. Nessa condição, tudo parecia pronto para explodir. Quando sua própria congregação cantava anemicamente, ele os chamava de “preguiçosos desafinados” e saía para fora.
Sim, “Acerca dos Judeus e Suas Mentiras” contém linguagem ofensiva, suja e violenta; mas Lutero usava o mesmo tipo de linguagem contra os católicos, os anabatistas e até seu próprio povo alemão aos quais ele chamava de “selvagens brutais e furiosos” que eram espiritualmente “surdos, cegos e duros de coração.”
Suas recomendações de que os judeus fossem expulsos da Alemanha eram a mesma postura que ele tinha com relação aos católicos, os turcos (muçulmanos) e os anabatistas. Nisso ele era coerente com a ideia, que ele havia conservado do catolicismo romano, de uma igreja estatal territorial que tem o direito e a responsabilidade de manter, à força, a pureza da fé numa região particular.
Foram os grupos menores, tais como os anabatistas, os puritanos separatistas e os quacres, que defenderam a causa de congregações voluntárias, livres para funcionar num ambiente aberto sem coerção de uma igreja estatal. Tal ideia de abertura e tolerância era, porém, nova e novidade para o período medieval, e Lutero não alcançou esse nível em suas batalhas teológicas, principalmente com os judeus e anabatistas.

Respeitando Lutero apesar de seus defeitos

O eminente especialista acadêmico luterano Martin Brect diz que as críticas violentas de Lutero contra os judeus não eram baseadas em raça, mas em desacordo teológico. Isso parece óbvio a partir da evidência acima. Brect diz que Lutero, pois, “não estava envolvido em antissemitismo racial em sua velhice.”
Apesar disso, as críticas violentas mal-orientadas de Lutero tiveram o resultado infeliz de ele se tornando identificado com os pais antissemitas da igreja, e essas críticas estimularam os antissemitas modernos, que encobriram seu ódio aos judeus na autoridade de Lutero.
Embora reconheçamos as deficiências de Lutero, não precisamos cair na armadilha de rejeitar a ele e tudo o que ele defendia. Isso seria trágico. Em seu site (www.lcms.org), a Igreja Luterana Sínodo de Missouri de forma graciosa e sábia denunciou as críticas violentas de Lutero contra os judeus e ao mesmo tempo reconheceu as contribuições vitais e decisivas que ele fez para toda a Cristandade.
Eles também apontam para o tom conciliatório de Lutero em sua última pregação quando ele disse acerca dos judeus: “Queremos tratá-los com o amor cristão e orar por eles, de modo que eles se convertam e recebam o Senhor.”
Há outra evidência de que no final de sua vida Lutero voltou para sua atitude inicial mais conciliatória. Em 1545, por exemplo, cerca de um ano antes de sua morte, Lutero revisou um hino que havia culpado os judeus pela morte de Cristo (uma afirmação comum na Igreja Católica medieval), removendo a crítica violenta aos judeus. A versão revisada de Lutero diz:
Foram todos os nossos grandes pecados e más obras que pregaram Jesus, o verdadeiro Filho de Deus, na cruz.
Portanto, não ousemos culpar o miserável Judas nem o bando de judeus. A culpa é nossa.
Se Lutero estivesse vivendo hoje em nossa época mais tolerante e civilizada, e com os judeus novamente em sua pátria, é bem possível que ele seria um de seus maiores apoiadores.
Traduzido por Julio Severo do original em inglês da revista Charisma: Was Martin Luther Anti-Semitic?
Leitura recomendada:

2 comentários :

  1. Nem perco meu tempo mais com catolicos fubdanebtalistas que dizem que Lutero era antissemita, sao os mesmos que negam inquisição e acreditam que a igreja catolica eh a salvacao do mundo rsrs

    ResponderExcluir
  2. Católico não se enxerga e não entende patavina de Bíblia.
    É comum você ver católico envolvido com macumba, com kardecismo, com Nova Era, com meditação transcendental e Yoga, com Horóscopo, com Astrologia, com bebedeira, com fornicação, etc.

    ResponderExcluir

Esta seção é moderada conforme opção democrática do Blogger para limitar excessos e outros tipos de interferência na interação do público com este blog. Portanto, todas as opiniões, comentários e textos estão sujeitos à avaliação do moderador. Manifestações insensatas, tolas, ridículas e desrespeitosas não são bem-vindas neste blog. Opiniões sensatas são mais que bem-vindas. Aos que querem fazer cobranças neste espaço, é imprescindível a apresentação do perfil oficial. O moderador se reserva o direito de publicar ou não comentários de questionadores anônimos, sem nenhuma identificação válida e verificável.