6 de dezembro de 2016

Manual Bíblico de Halley e a Inquisição


Manual Bíblico de Halley e a Inquisição

Julio Severo
Eu havia lido, de capa a capa, o “Manual Bíblico de Halley” trinta anos atrás. Com seu foco na Bíblia e o modo como a Bíblia foi fundamental para o patriotismo dos EUA, Halley me ajudou a entender a história da Igreja e apreciar os alicerces evangélicos dos EUA.
De acordo com Halley, a Bíblia e o patriotismo andavam juntos na história americana. Uma das muitas referências patrióticas proeminentes no Halley era o primeiro presidente americano George Washington dizendo: “É impossível governar corretamente uma nação sem Deus e a Bíblia.”
O manual evangélico patriótico tinha também outros presidentes dos EUA louvando a Bíblia:
Presidente U.S. Grant: “A Bíblia é a âncora mestra de nossas liberdades.”
Presidente Andrew Jackson: “Este livro, senhor, é a Rocha na qual está firmada nossa república.”
Presidente John Quincy Adams: “Tão grande é a minha veneração pela Bíblia, que quanto mais cedo as crianças começarem a lê-la mais confiança terei de que elas serão cidadãos úteis para à pátria e membros respeitáveis da sociedade. Há vários anos tenho o costume de ler a Bíblia inteira uma vez por ano.”
Adorei esse patriotismo centrado na Bíblia!
A edição disponível a nós no Brasil então era uma tradução da edição em inglês publicada em 1962 pela Editora Zondervan. O manual original em inglês já tinha vendido mais de 1 milhão de exemplares nos EUA no início da década de 1960.
Algum tempo atrás precisei de seus recursos informativos, pois alguns católicos brasileiros, ativos no movimento conservador e pró-vida, começaram a minimizar a gravidade dos horrores da Inquisição e pregar um revisionismo estranho para desinfetá-la.
Em minha opinião, os católicos hoje não têm nenhuma culpabilidade pelos crimes de sua igreja séculos atrás. Mas a defesa do revisionismo da Inquisição, que cometeu muitos desses crimes, é totalmente incompatível com o movimento e unidade conservadora e pró-vida.
Um dos revisionistas mais estridentes é um brasileiro que é imigrante nos EUA que disse: “O mito da Inquisição foi a mais vasta e duradoura campanha de calúnia e difamação de todos os tempos, dura até hoje, com financiamento milionário, e parece que não vai acabar nunca. Quem a inventou não foram iluministas nem comunistas. Foram protestantes, que continuam a promovê-la até agora, tendo como centro irradiante as igrejas dos EUA.”
Minimizando a gravidade dos horrores da Inquisição, ele também disse: “Até mesmo na imagem popular das fogueiras da Inquisição a falsidade domina. Todo mundo acredita que os condenados ‘morriam queimados,’ entre dores horríveis. As fogueiras eram altas, mais de cinco metros de altura, para que isso jamais acontecesse. Os condenados (menos de dez por ano em duas dúzias de países) morriam sufocados em poucos minutos, antes que as chamas os atingissem.”
É claro que católicos pró-vida honestos nunca concordariam com essa descrição enganosa. A Conservapedia, cujo dono é o professor católico de homeschooling Andrew Schlafly, disse: “Muitas inquisições [católicas] usavam tortura brutal para extrair confissões de pessoas acusadas de heresia. Embora muitos dos que eram acusados de heresia fossem soltos depois de se arrependerem de suas opiniões e declararem sua lealdade à Igreja Católica, um número significativo de pessoas — consistindo quase que inteiramente das que se recusavam a se arrepender — eram executadas por uma variedade de métodos deliberadamente dolorosos, inclusive fogueira na estaca enquanto estavam vivas, jogadas em óleo fervendo e amarradas na ‘roda de quebrar ossos.’”
Para confrontar o aparecimento de um movimento revisionista estridente no Brasil, adquiri a edição americana mais recente do Manual Bíblico de Halley, achando que poderia trazer mais informações sobre a Inquisição do que a edição brasileira muito mais antiga que li décadas atrás. Mas como fiquei surpreso quando verifiquei que o manual bíblico moderno (publicado por Zondervan em 2000) tinha uma única referência à Inquisição. Nessa menção solitária, Halley disse que a Igreja Católica “formou a Inquisição para perseguir os protestantes.” Mais nada.
Além disso, a nova edição americana removeu todas as referências aos presidentes americanos louvando a Bíblia. Não mais a Bíblia e o patriotismo juntos. Não mais condenações à Inquisição.
Muito diferente da edição antiga que tem 24 menções! Cinquenta anos atrás a Zondervan era uma editora evangélica de verdade, mas em 1988 a Zondervan foi comprada por uma editora secular, a HarperCollins, que publica livros demoníacos, inclusive a Bíblia Satânica.
Isso explica por que a edição atual do Manual Bíblico de Halley foi totalmente sanitizada (ou será satanizada?) de suas muitas referências históricas à Inquisição? Por que uma editora evangélica amputaria informações importantes sobre a Inquisição enquanto sua organização chefe não amputa livros patentemente satânicos é um mistério. Mas agradar a satanistas e radicais pró-Inquisição não é o jeito evangélico. Censurar presidentes dos EUA louvando a Bíblia não é o jeito evangélico.
Em vez de censurar, um novo manual de Halley deveria acrescentar Ronald Reagan louvando a Bíblia. Aliás, deveria fazer uma exibição proeminente de Reagan proclamando 1983 como o Ano da Bíblia nos Estados Unidos. Mas a nova edição não tem nenhum presidente americano louvando a Bíblia e nenhuma condenação à Inquisição.
Enquanto a edição mais recente (publicada em 2000) de Halley tem apenas uma menção da Inquisição, a edição brasileira de 1962 publicada por Edições Vida Nova tem 24 referências à Inquisição, inclusive:
Os horrores da Inquisição, ordenada e mantida pelos papas, durante um período de 500 anos, no decurso dos quais incontáveis milhões de pessoas foram torturadas e queimadas, constituem o quadro mais BRUTAL, BESTIAL e ENDIABRADO de toda a história universal. (Página 645.)
Papa Inocêncio III, 1198-1216: Proibiu a leitura da Bíblia em vernáculo. Ordenou o extermínio dos hereges. Instituiu a INQUISIÇÃO. Mandou massacrar os albigenses. Mais sangue foi derramado durante seu pontificado e dos seus imediatos sucessores do que em outro qualquer período da história da Igreja, salvo no esforço papal por esmagar a Reforma, nos séculos 16 e 17.
A inquisição, denominada “SANTO OFÍCIO”, foi instituída por Inocêncio III e aperfeiçoada sob o segundo papa que se seguiu, Gregório IX. Era o tribunal eclesiástico, ao qual incumbia prender e castigar os hereges. Exigia-se que todos prestassem informação sobre pessoas heréticas. Todos os suspeitos de heresia estavam sujeitos a torturas, sem saber quem os havia acusado. O processo corria, secretamente. O inquisidor pronunciava a sentença e a vítima era entregue às autoridades civis para ser encarcerada pelo resto da vida, ou ser queimada. Seus bens eram confiscados e divididos entre a Igreja e o Estado.
No período que se seguiu imediatamente a Inocêncio III, a Inquisição executou sua obra mais fatal no sul da França (ver sobre os albigenses), mas a ela coube a responsabilidade de vastas multidões de vítimas na Espanha, Itália, Alemanha e Países Baixos. Mais tarde, foi ela a principal agência do esforço papal por esmagar a Reforma. Afirma-se que nos 30 anos, entre 1540 e 1570, nada menos de 900.000 protestantes foram mortos, na guerra movida pelo papa com o fim de exterminar os valdenses. Imagine-se o que não era frades e padres, insensivelmente cruéis e desumanamente brutais, a dirigirem a obra de torturar e queimar vivos homens e mulheres inocentes; e faziam isto em nome de Cristo, por ordem direta do seu “vigário”. A INQUISIÇÃO é o FATO MAIS INFAME da História. Foi inventada pelos papas e usada por eles, durante 500 anos, na mantença do seu poder. (Página 688.)
Nos Países Baixos, a Reforma foi logo aceita; luteranismo, e depois calvinismo; os anabatistas já eram numerosos. Entre 1513 e 1531, publicaram-se 25 diferentes traduções da Bíblia em holandês, flamengo e francês. Os Países Baixos eram parte dos domínios de Carlos V. Em 1522 estabeleceu ele, aí, a Inquisição, e mandou queimar todos os escritos luteranos. Em 1546, proibiu a impressão e a posse da Bíblia, quer na Vulgata, quer traduções. Em 1535, decretou a “morte, pelo fogo”, dos anabatistas. Filipe II (1566-98), sucessor de Carlos V, tornou a expedir os editos de seu pai, e, com o auxílio dos jesuítas, levou adiante a perseguição com fúria ainda maior. Por uma sentença da Inquisição, toda a população foi condenada à morte, e sob Carlos V e Filipe II mais de 100.000 foram massacrados com brutalidade incrível. Alguns eram acorrentados a uma estaca perto do fogo e torrados, lentamente, até morrer; outros eram lançados em masmorras, açoitados, torturados em cavalete, antes de serem queimados. Mulheres eram queimadas vivas, metidas à força em esquifes apertados, pisoteados pelos carrascos. Os que tentavam fugir para outros países eram interceptados por soldados e massacrados. Após anos de não-resistência, sofrendo crueldades inauditas, os Protestantes dos Países Baixos uniram-se sob a liderança de Guilherme de Orange, e, em 1572, começaram a grande revolta. Depois de sofrimentos inacreditáveis, ganharam, em 1609, sua independência; a Holanda, ao norte, tornou-se protestante; a Bélgica, ao sul, católica romana. A Holanda foi o primeiro país a adotar escolas públicas mantidas por impostos, e a legalizar princípio de tolerância religiosa e liberdade de imprensa. (Página 700.)
Na Espanha, a Reforma nunca fez muito progresso, devido à Inquisição, que já se encontrava lá. Todo esforço por liberdade ou independência de pensamento era esmagado, implacavelmente. Torquemada (1420-98), frade dominicano, arqui-inquisidor, em 18 anos, queimou 10.200 pessoas e condenou 97.000 à prisão perpétua. As vítimas eram, de ordinário, queimadas vivas, em praça pública, o que dava ensejo a festividades religiosas. De 1481 a 1808, houve, no mínimo, 100.000 mártires e 1.500.000 pessoas foram banidas. “Nos séculos 16 e 17, a Inquisição extinguiu a vida literária da Espanha, pondo a nação quase fora do círculo da civilização européia.” Quando a Reforma começou, a Espanha era o país mais poderoso do mundo. Sua presente condição de insignificância entre as nações mostra o que o papado pode fazer com um país. (Página 701.)
Halley diz que milhões pereceram na Inquisição.
Os judeus falam em milhares e milhares de vítimas judias. Em 2013, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se encontrou com o Papa Francisco no Vaticano, e deu ao líder da Igreja Católica “The Origins of the Inquisition in Fifteenth Century Spain” (As Origens da Inquisição na Espanha do Século Quinze), um livro judaico que em grande parte gira em torno de católicos espanhóis questionando, torturando e castigando judeus, expondo como milhares deles foram expulsos da Espanha ou queimados vivos na estaca.
Em contraste forte, o revisionista brasileiro que é um imigrante nos EUA garante que os números não são milhões ou milhares. Ele disse que os indivíduos condenados eram menos de dez por ano em duas dúzias de países… e morriam sem nenhuma tortura e sofrimento!
Como explicar a incoerência nos números das vítimas da Inquisição? O renomado historiador católico Paul Johnson, em seu livro “A History Of Christianity” (“Uma História do Cristianismo,” publicado no Reino Unido em 1976), explicou: “Muitos países não admitiriam de forma alguma a existência da Inquisição… Havia a destruição de registros.”
Ainda que o imigrante brasileiro se considere como um católico cuja especialidade é combater a propaganda soviética, que para ele é avançada hoje pela Rússia de Putin, ele é igualmente determinado a combater o “mito da Inquisição,” que ele disse “foi a mais vasta e duradoura campanha de calúnia e difamação de todos os tempos.”
Aliás, em julho passado ele disse que “eliminar da consciência popular mitos como a Inquisição... é infinitamente mais valioso do que ‘tirar a Dilma.” Para ele, a eliminação do “mito” da Inquisição é infinitamente mais importante do que remover um marxista da presidência do Brasil.
Se você pensou que a propaganda soviética foi a mais vasta e duradoura campanha de calúnia e difamação de todos os tempos, você está errado, de acordo o imigrante brasileiro, que num comentário recente sarcasticamente se referiu aos inimigos da Inquisição como “paladinos da fé.” Ele disse:
“Jamais vi um comunista, no exercício da verborréia revolucionária mais feroz e difamatória, descer aos abismos de malícia e perversidade em que se deleitam, neste país, os paladinos da fé.”
Então os EUA são piores do que a União Soviética porque durante séculos eram campeões da propaganda anti-Inquisição?
“Neste país” só pode significar os EUA, onde ele está vivendo neste momento como imigrante. Se evangélicos (e também judeus) anti-Inquisição são piores do que comunistas, o que brasileiro está fazendo vivendo no maior país evangélico do mundo?
Se a propaganda anti-Inquisição dos EUA foi supostamente pior do que a propaganda soviética, por que ele está atrás da cidadania americana?
A propaganda soviética foi realmente uma das coisas mais repulsivas que o mundo já viu, mas a “propaganda” anti-Inquisição, inclusive os esforços de Halley, foi uma das coisas mais necessárias que os Estados Unidos já fizeram pelo mundo. Diferente da União Soviética, a “propaganda” americana estava ligada à Bíblia e um patriotismo claramente fundado em princípios evangélicos.
Por que promover uma propaganda para sanitizar a Inquisição e difamar e satanizar os Estados Unidos por sua oposição histórica à Inquisição? O resultado dessa satanização é o atual Halley: Nada de Bíblia e patriotismo juntos. Nada de referências a presidentes dos EUA louvando a Bíblia.
Por que eles não gastam seus esforços combatendo a propaganda do aborto?
Versão em inglês deste artigo: Halley’s Bible Handbook and the Inquisition
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2 comentários :

Savio Luan disse...

Até mesmo Evangélicos estão se rendendo ao politicamente correto, como por exemplo, as maiores denominações Protestantes dos EUA, cujo Irmão Júlio vem denunciando há muito tempo, estão se distanciando do Evangelho de Cristo, e abraçando uma teologia abortista, gayzista, Anti-Israel.
É algo triste que vem se alastrando pelas igrejas mundo afora.

Marcelo Victor disse...

Esses movimentos satânicos são as várias faces da BESTA que possuem, como objetivo final, atingir e anular a Bíblia.
Uns atacam o Livro Sagrado de uma forma, proibindo a leitura da Bíblia (como fez a idolatria romana em tempos passados), outros o atacam fazendo de tudo para modificá-Lo, gerando novas traduções de "mais fácil entendimento".