3 de novembro de 2016

O cristão e a vaquejada


O cristão e a vaquejada

Julio Severo
O que o aborto tem a ver com a vaquejada? Absolutamente nada. Mas como alguns setores da chamada Direita apoiam a prática da vaquejada, apelam, em seu radicalismo, para exemplos igualmente radicais, dizendo que só os abortistas e esquerdistas são contra a vaquejada. Com tal extremismo, chamam o patriarca judeu Jacó de abortista e esquerdista.
Se há indivíduos na Esquerda que se opõem à vaquejada, isso não significa que quem está na Direita deva apoiar tudo o que a Esquerda rejeita. Isso seria como imitar o Bispo Edir Macedo, cujas obras e canal de televisão hostilizavam tanto a Igreja Católica que ele acabou adotando uma postura estridente a favor do aborto, só porque o Vaticano é pró-vida. Nessa questão, preferi sempre apoiar o Vaticano e rejeitar o Macedo e seu radicalismo.
O Papa Francisco é esquerdista. Mas prefiro apoiar as posturas pró-vida desse papa a apoiar as posturas pró-aborto de Macedo.
Em todo caso, a guerra política e ideológica entre Esquerda e Direita nunca deveria ser parâmetro para um cristão avaliar as questões. O parâmetro é a Bíblia.
Embora a Bíblia nada fale sobre vaquejada ou sobre aviões, seus princípios éticos estão disponíveis para todas as gerações.
Vejamos:
“Não estarei presente quando fizerem planos, não tomarei parte nas suas reuniões, pois no seu furor mataram homens e por brincadeira aleijaram touros. Maldito seja o furor deles, pois é violento! Maldita seja a sua ira, pois é cruel! Eu os dividirei na terra de Israel, eu os espalharei no meio do seu povo.” (Gênesis 49:6-7 NTLH)
Essas são as palavras do patriarca Jacó no seu momento mais importante de bênção para seus filhos: ele estava morrendo. No leito de morte, os pais só tratavam de assuntos que eram absolutamente importantes.
No leito de morte, os pais costumavam dar bênçãos aos filhos e essas bênçãos eram grandemente esperadas. Por isso, todos os filhos de Jacó estavam reunidos, cada um esperando a sua vez de ser abençoado.
Entretanto, para seus filhos Simeão e Levi, Jacó fez questão de mostrar sua desaprovação e nojo por seus atos. Para vergonha desses dois irmãos, Jacó reservou seu último momento de vida para denunciar o comportamento descontrolado deles, que levou a assassinatos, e o prazer que eles tinham de brincar de aleijar touros.
Enquanto para seus outros filhos, Jacó os abençoou com promessas de lotes de terras para se estabelecerem em Israel, para Simeão e Levi houve uma forte maldição do pai: Eles não teriam lotes. “Eu os dividirei na terra de Israel, eu os espalharei no meio do seu povo.” Isto é, o poder da palavra de maldição de Jacó não os deixaria ter lotes, mas os faria se espalhar. A maldição se cumpriu.
Na versão Mensagem, Jacó disse:
“Maldita seja sua raiva descontrolada, seu ódio indiscriminado. Eu jogarei vocês fora com o lixo; e os espalharei como papel picado no meio de Israel.” (Gênesis 49:6-7 )
Jacó ligou diversão e tortura de animais com um problema de ira que mata pessoas. Quem judia de animais judia e até mata seres humanos.
Jacó comia carne de boi e de vaca, de cordeiro, etc. Ele não via nada de errado em comer animais puros como vacas. Mas ele mostrou claramente que era contra o sofrimento desses animais, especialmente por diversão.
Usando como parâmetro o modo enérgico como Jacó não poupou seus próprios filhos que se divertiam à custa do sofrimento de bois, o que nós cristãos no século XXI podemos aprender?
Não há a menor dúvida que a vaquejada, que se iniciou no Nordeste brasileiro, é vista como “diversão.” Como o cristão deve vê-la?
Para que todos os leitores tenham facilidade de pesquisar o assunto, uso como base a Wikipédia, de onde adaptei estas informações:
As vaquejadas modernas se tornaram um negócio, que movimenta cerca de 50 milhões de reais por ano.
As vaquejadas submetem os bois ao medo e desespero através de encurralamento e agressões a choque elétrico e pancadas, no intuito de fazê-lo correr em fuga e sua descorna sem anestesia. São relatadas com certa frequência consequências muito nocivas da tração forçada na cauda e da derrubada do boi, tais como fraturas nas patas, traumatismos e deslocamento da articulação da cauda ou até a sua amputação.
Os cavalos são atiçados a correr mediante golpes de esporas aplicados pelos vaqueiros.
Além das consequências físicas nos animais, questões éticas entram em debate, como o questionamento do embasamento moral e cristão de se explorar e agredir animais para fins de diversão, a validade de se chamar de esporte um evento de entretenimento baseado por definição no abuso dos animais e o dilema de tratar como “cultura” uma prática que provoca maus-tratos aos animais.
Para tratar bem as pessoas e os animais, a cultura precisa ser justa. Só os justos podem tornar uma cultura justa.
A Bíblia diz:
“Os justos são bons, até mesmo com os animais, mas até as ‘boas atitudes’ dos perversos são cruéis.” (Provérbios 12:10 A Mensagem)
Não devemos tratar os animais melhor do que os seres humanos. Mas a bondade do justo que alcança o seu próximo também alcança os animais.
Os que dizem defender os animais têm obrigação maior de lutar contra o aborto legal. Indivíduos e organizações que dizem defender os animais, mas não defendem os bebês em gestação, merecem ser denunciados como farsas.
Mas independente do radicalismo dessas entidades, tortura de animais anda junto com tortura de pessoas. Por isso, Deus nunca condenou Jacó por ter amaldiçoado seus filhos que se divertiam com isso.
Não foi só Jacó que identificou uma ligação entre violência contra animais e violência contra seres humanos. A realidade comprova isso de forma abundante. Em 2011, foi preso no Canadá um ator pornô homossexual pelo crime de ter canibalizado seu amante homossexual. Esse homossexual pervertido tinha um histórico de torturar gatos e filmar as torturas. Ele então postava, com a face escondida, suas perversões no YouTube.
Como disse o sábio Jacó, malditos são aqueles que em acessos de raiva matam pessoas (inclusive por meio do aborto) e os que por brincadeira aleijam animais.
Leitura recomendada:

13 comentários :

Marcelo disse...

O SENHOR Deus disse a Josué: —Não fique com medo deles. Amanhã, a esta mesma hora, eu matarei toda essa gente para Israel. Você aleijará os cavalos deles e queimará os seus carros. (Josué 11.6 - NTLH)

e

Davi prendeu mil e setecentos cavaleiros de Hadadezer e vinte mil dos seus soldados da infantaria; também aleijou os cavalos que puxavam os carros, deixando cavalos somente para cem carros. (2 Samuel 8.4 - NTLH)

O que vejo é que as vaquejadas, hoje, exatamente por causa das reclamações, estão cada dia mais modernas, havendo todo o cuidado possível com os animais, inclusive veterinários à disposição. Há, até, coisas como luvas, que se põe na cauda do animal, evitando-se sofrimento.


Julio Severo disse...

Marcelo, você está se achando melhor do que Jacó. Você tenta forçar uma questão militar numa questão de diversão à custa de sofrimento de animais. Você dá a entender que porque Deus mandou Davi aleijar os cavalos, VOCÊ ESTÁ AUTORIZADO A FAZER VAQUEJADA. Ora, siga a ordem de forma integral: Comece também a matar todas as pessoas que não aceitam a Deus e são inimigas de Israel. Mas a ordem de Deus não foi para você. Foi apenas para Davi. E em nenhum momento Deus disse: ESTOU AUTORIZANDO VOCÊ A SE DIVERTIR ALEIJANDO CAVALOS. A meta dessa ordem não era diversão. Cavalos eram usados por exércitos e para combate. A ordem visava anular os cavalos como instrumentos de guerras, deixando os inimigos sem esse importante recurso bélico da época. Se Deus precisou dar essa ordem, é porque isso era algo que Davi normalmente não faria. E essa ordem foi para SALVAR VIDAS. Se esses instrumentos de guerra não tivessem sido desabilitados, seriam usados para matar israelenses. SALVAR VIDAS ESTÁ SEMPRE ACIMA DO BEM-ESTAR DE ANIMAIS, DIVERSÃO NÃO. Mas se você achar que os bois das vaquejadas representam ameaça MILITAR para a segurança de Israel e que inimigos podem montá-los para atacar Israel e, acima de tudo, que Deus mandou você fazer isso PARA SALVAR VIDAS, faça, pois no final de tudo não é a mim que você vai prestar contas por seus pecados e tolices. É a Deus.

Marcelo disse...

Isso, você contextualizou. Tudo tem o seu contexto. Não são mandamentos, mas situações específicas. No texto citado por você quem falou foi Jacó, no citado por mim foi Deus. Quem é maior, então?
Quanto a ser maior, creio que sou maior que Jacó, sim. Claro, nasci no tempo da graça, sirvo a Jesus - você também. Somos detentores de maior graça, maior instrução da Palavra.
Não quero forçar interpretação, mas não é um versículo contextualizado há milhares de anos, num contexto totalmente diferente que agora serve para as vaquejadas brasileiras.
Pegar a Bíblia ao pé da letra acabará por nos fazer desobedecer à própria Bíblia, você sabe disso.

Julio Severo disse...

Marcelo, se estamos no tempo da graça de fato, deveríamos crer e viver em maior (não menor) misericórdia do que no tempo da lei, concorda? Se Jacó no rígido Antigo Testamento conseguiu se importar com a vida das pessoas e dos animais, por que deveríamos nos colocar em posição inferior? Só para lembrá-lo: Jacó, na sua instrução final aos filhos, expressou verdadeiras profecias sobre o destino dos filhos, profecias que se cumpriram. Isso significa que DEUS FALOU COM ELE E ATRAVÉS DELE.

Agora, se você, que se acha no tempo da graça, quer continuar tentando justificar os maus-tratos de animais POR DIVERSÃO nas vaquejadas usando o exemplo de Davi, faça o que Deus mandou a ele: MATE PESSOAS E ALEIJE CAVALOS DE GUERRA. Davi não matou pessoas nem aleijou cavalos POR DIVERSÃO.

Você não pode destruir a casa de seu vizinho por diversão. Mas se num tempo de guerra um tanque inimigo avançar em sua direção, você pode, se isso for possível, explodir a casa do vizinho e tentar transformá-la em impedimento ou armadilha militar.

Aja em conformidade com o tempo da graça que você crê. Mostre mais misericórdia do que Jacó e muito mais misericórdia do que o filho de Davi, Salomão, que disse em Provérbios que os justos são bons para seus animais.

Se Salomão, inspirado pelo Espírito Santo, nos ensinou que os justos são bons para seus animais, é porque o pai dele ensinou e também porque ele viu o exemplo justo do pai. O que Salomão ensinou é que o justo é sempre bom com seus animais.

Deus nunca disse que Davi deveria passar o resto da vida aleijando todos os cavalos por diversão. Se ele tivesse feito isso, Salomão e os outros filhos dele teriam virado sádicos.

A ordem que Deus deu a Davi foi exceção, SÓ PARA TEMPO DE GUERRA. Foi para salvar vidas. Foi para que os inimigos não tivessem a força dos cavalos para matar israelenses.

E saiba que se estourar uma guerra hoje, Deus não vai lhe pedir para aleijar cavalos, pois no mundo de hoje os cavalos são inúteis para as guerras. Mas ele poderia nos dar ordem para aleijar e desabilitar tanques…

Você realmente tem coragem de ir à presença de Jesus e perguntar se Ele aprova os maus-tratos de animais nas vaquejadas? Você vai dizer a Ele que precisa fazer isso para salvar a vida de israelenses?

Aprenda algo com o filho de Davi! Ou você vai contestar que Deus falou com ele e através dele?

Jorge Santos disse...

Belo texto. Utilizando a sua perfeita linha de raciocínio, é hora de vc começar a apoiar os cristãos reformados que são contra o homossexualismo, o esquerdismo e o aborto, deixando de colocá-los todos no mesmo saco da TMI e da PCUSA.

Flávio Da Vitória disse...

Misericórdia, é injustificável esses maus tratos da vaquejada, é cruel!

Izabel disse...

Texto absolutamente pertinente. Muito interessante. Confesso Julio que andava um pouco inclinada a concordar com a vaqueja justamente porque vemos hoje em dia as pessoas se importarem mais com animais que com humanos, uma inversão de valores. Mas seu texto é muito lucido. Não é porque um grupo com o qual não concordamos defende uma determinada ideia que devemos imediatamente correr dela, devemos avaliar. E algo muito importante, você fala, nosso parâmetro é a Bíblia.

Marcelo disse...

Ok, Julio. Eu me quedo à sua superior e mais lúcida consideração. A menos que seja provado que não haverá maus tratos a animais, maus tratos exagerados como sói acontecer, reprovarei vaquejadas.

Paz.

Julio Severo disse...

Marcelo, confesso que fiquei sem entender seu comentário. Você disse que a menos que hajam “MAUS TRATOS a animais, MAUS TRATOS EXAGERADOS, reprovarei vaquejadas.”

Maus tratos já não são suficientes? Têm de ser maus tratos exagerados? Pobres animais. Assim como Jacó e Salomão, filho de Davi, não sou vegetariano. Mas mesmo os animais que comemos merecem não sofrer. Pelo menos, é o que os justos pensam. Maus tratos, exagerados ou não, são muito ruins, concorda?

Luquinhas disse...

Podemos citar também Salmos: 50. 10. Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de outeiros. 11. Conheço todas as aves dos montes, e tudo o que se move no campo é meu.
Vai mexer com o que é de Deus...
Morei no objeto interior do Maranhão ano passado e tive a oportunidade de ir numa vaquejada. Sabe inferninho? Exatamente isso. Muita bebida, droga e prostituição.

Leonardo Melanino disse...

Eu, como Cidadão Brasileiro, moralmente repudio veementemente os rodeios e as vaquejadas, pois isto maltrata os animais, ou seja, viola a LCA de 1998. Também moralmente repudio veementemente os sacrifícios religiosos de animais, como, por exemplo, nas religiões afro-brasileiras. Também moralmente repudio veementemente os abusos das paradas gueis. Discordar de algos não significa discriminar alguéns ou preconceituar contra eles, insultá-los ou violentá-los. Então, nós, Cidadãos Brasileiros, devemos combater todos e quaisquer extremos (ou extremismos), ou seja, posições entre os altos e/ou os baixos, pois todos eles nos maleficiam.

Iara Corrêa disse...

De fato devemos repudiar tudo o que atenta contra o bem estar das pessoas e em especial a dos animais. Rodeio mistura imagens católicas com malícia e violência no mesmo espaço. É o lado selvagem dos homens sendo vendido e criado ídolos da covardia.

Marcelo disse...

Concordo. Maus tratos são maus tratos. É que as pessoas que tratam com eles têm experiência - não é gente sádica. Aliás, amam esses animais muito mais que nós. Vivem com eles, os criam e alimentam. Daí, um vídeo que mostra uns bezerros quebrando a pata ou rasgando a cauda também dói no coração do sertanejo. Eles, principalmente, sente essa dor do seu animal, que é seu alimento, sua companhia, sua história, seu sustento.
O quis dizer é que parece haver mecanismos de evitar o sofrimento desses animais - e se tal grupo de promotores de vaquejadas conseguir provar isso, continuarei aprovando, mas se a realidade de sofrimento dos bichos continuar, reprovarei, evidentemente.
Como reprovo sacrifício de animais na Umbanda - muito diferente do feito em Israel, que nada tinha de sofrimento, pois o cordeiro ou boi era morto, como morriam centenas todos os dias, e depois serviam de alimento.