4 de julho de 2016

Ion Mihai Pacepa e desinformação


Ion Mihai Pacepa e desinformação

Julio Severo
No livro “Desinformação” (originalmente com o título em inglês “Disinformation,” publicado por WND em 2013), Ion Mihai Pacepa oferece sua opinião sobre uma Teologia da Libertação e terrorismo islâmico criados exclusivamente pela KGB e um nazismo e marxismo soviético como “irmãos.”
Ion Pacepa
Ele oferece sua opinião como um ex-agente da KGB hoje sob a proteção da CIA.
Logo que o livro dele foi publicado nos EUA, eu o adquiri. Antes de ler o livro dele, eu já havia publicado alguns artigos sobre ele. Mas depois de ler o livro, fiquei surpreso com suas conclusões demasiadamente simplistas.

Questão judaica e suposta igualdade entre nazismo e marxismo soviético

Pacepa diz que nazismo e marxismo soviético eram absolutamente iguais. De fato, havia pontos semelhantes, mas como qualquer historiador sabe e como todo cristão que ama Israel sabe, a questão mais importante da 2ª Guerra Mundial foi o Holocausto que os nazistas cometeram contra os judeus, aniquilando 6 milhões deles. Nessa questão específica, havia igualdade entre nazismo e marxismo soviético?
O que a História registra é que enquanto o exército nazista aniquilava os judeus pela Europa, o Exército Vermelho da União Soviética era composto por milhares de judeus, que ajudaram a aniquilar o nazismo. Enquanto a Gestapo (polícia secreta nazista) perseguia judeus implacavelmente, a NKVD, antecessora da KGB, foi fundada pelo judeu soviético Genrikh Yagoda, considerado o maior assassino judeu do século XX, de acordo com um jornal israelense.
Então, no que se refere aos judeus na 2ª Guerra Mundial, nazismo e marxismo soviético estavam em lados opostos, sendo que o nazismo era inimigo absoluto dos judeus enquanto que o marxismo soviético era amigo. Embora isso de forma alguma desculpe as atrocidades da União Soviética, foi ela quem libertou o primeiro campo de concentração nazista e foi ela o primeiro país a reconhecer oficialmente na ONU o nascimento do moderno Estado de Israel em 1948.
O ódio anti-judaico de Hitler não encontrava nenhuma igualdade na União Soviética, mas num poderoso capitalista americano de sua época.
Meu artigo “O antimarxismo estridente de Hitler,” baseado na opinião de Henry Ford (magnata capitalista da indústria automobilística) e Hitler, traz citações textuais deles e mostra que o ódio deles ao marxismo soviético se devia ao fato de que judeus tinham certo controle da revolução comunista na Rússia. Você pode ver mais informações no meu artigo “Questões judaicas: um esclarecimento aos cristãos sobre sua percepção dos judeus.”

Teologia da Libertação é filha da KGB?

Em seu livro Pacepa insiste em que a KGB é a mãe da Teologia da Libertação. Mas católicos tanto nos EUA quanto no Brasil estão questionando Pacepa. (O Brasil é a maior nação católica do mundo, fortemente afetada pela Teologia da Libertação.) O escritor católico americano John L. Allen, de Crux disse:
“O arcebispo católico Hélder Câmara de Olinda e Recife no Brasil não precisou ser ‘manobrado.’ Ele já estava a bordo da teologia da libertação antes que alguém em Moscou soubesse que essa teologia existia. Não estou querendo dizer que a KGB não fez tudo o que podia fazer para apoiar movimentos esquerdistas na América Latina que criticavam o capitalismo e os Estados Unidos. Seria de estranhar se eles não tivessem feito isso, considerando a lógica da Guerra Fria de que qualquer coisa que parecia prejudicar um lado beneficiava o outro. Nesse sentido, Pacepa provavelmente está correto sobre a estratégia da KGB, mas ele pode estar dando a essa organização crédito exagerado pelos resultados.”
Dom Hélder Câmara, que fundou a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos Católicos do Brasil) e é o patrono da Esquerda católica brasileira, está em processo de canonização no Vaticano.
O Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, instituição católica conhecida por suas posturas conservadoras, também questionou as conclusões exageradas do livro de Pacepa, publicando o artigo (reproduzido no meu blog) intitulado “A KGB inventou a Teologia da Libertação? Simples demais…
Dizer, como Pacepa disse, que a KGB inventou a Teologia da Libertação é a mesma coisa que dizer que a CIA criou o movimento pentecostal e neopentecostal, embora alguns católicos muito radicais declarem exatamente isso. Durante a Guerra Fria, a KGB apoiou setores da Igreja Católica ligados à Teologia da Libertação enquanto a CIA apoiou movimentos pentecostais conservadores que eram anti-Teologia da Libertação. Veja meu artigo “A guerra religiosa entre CIA e KGB na América Latina.” Eu já frequentei igrejas pentecostais e neopentecostais. Isso quer dizer então que sou filhote da CIA? De forma alguma.
O famoso jornal católico National Catholic Register, num artigo escrito pelo jornalista católico Victor Gaetan, rebateu Pacepa e seu livro mostrando que há conteúdo desinformatório nas declarações dele. Veja o artigo “’Desinformação’ e uma Fonte Questionável,” traduzido por mim.
O teólogo católico Malachi Martin aponta vários líderes eclesiásticos católicos que, antes do nascimento da KGB, já promoviam a Teologia da Libertação. Veja o artigo “Olavo de Carvalho errou sobre quem é a mãe da Teologia da Libertação.”
O grande desafio, pois, é ler o livro de Pacepa sabendo fazer a diferença entre o que é real e imaginário, filtrando o que parece ser mirabolante e impossível de comprovar. Levanta suspeitas, por exemplo, o fato de que Pacepa é elogiado pela CIA — elogio alegremente registrado no livro dele. Oposição à KGB, para um conservador, não significa apoio automático à CIA. Receber elogios da CIA (chefiada hoje por um muçulmano), ou da KGB, é uma desvantagem, tendendo a tornar o elogiado digno de desconfiança.

O moderno terrorismo islâmico é criação da KGB?

Conforme informações do próprio WND, que publicou originalmente o livro de Pacepa em inglês, o governo dos EUA ocultamente enviou muitos estoques de armas para os rebeldes sírios (em grande parte terroristas islâmicos ligados à al-Qaida) que estão estuprando, torturando e massacrando cristãos na Síria. A CIA teve papel destacado nesse esquema. Aliás, o WND acusa Hillary Clinton de ter ajudado a criar o ISIS, que tem massacrado milhares de cristãos no Oriente Médio.
Além disso, sabe-se que a CIA deu bilhões de dólares para criar a al-Qaida no final da década de 1970, num esquema para fortalecer e utilizar o terrorismo islâmico para derrubar a União Soviética. Mas o esquema virou de cabeça para baixo quando um dos agentes islâmicos da CIA, o saudita Osama bin Laden, por algum motivo se revoltou e usou seu conhecimento e experiência contra os EUA. A CIA e seu ex-agente tiveram papel decisivo no fortalecimento do moderno terrorismo islâmico. Mas Pacepa parece desconhecer tudo isso, embora se apresente como especialista em assuntos de terrorismo islâmico. Ele insiste em atribuir 100 por cento da culpa à KGB.
Pacepa, que supostamente ocupava um cargo de tanto destaque na KGB que lhe permitiria conhecer detalhadamente o envolvimento da CIA na fomentação do terrorismo islâmico internacional, no livro aparenta não ter tal conhecimento, ou o esconde a fim de ganhar as graças, favores e privilégios da CIA.
Pesquisei extensamente seu livro “Desinformação” e não encontrei uma única crítica à CIA e nenhuma menção do fato de que a CIA teve e tem participação inegável no moderno terrorismo islâmico. De fato, o atual diretor da CIA é muçulmano, tendo se convertido a essa religião assassina quando estava na Arábia Saudita. Mesmo assim, à CIA, Pacepa reserva somente elogios; à KGB, críticas. Por que não, por justiça, criticar os dois?
Em “Desinformação,” Pacepa diz que sua proteção, identidade e outras questões pessoais estão a cargo da CIA. A introdução de seu livro foi escrita por James Woolsey, ex-diretor da CIA. Nesse ponto, alguns poderiam questionar se o livro de Pacepa denuncia a desinformação ou é um instrumento de desinformação.
Seguindo suas próprias conclusões exageradas, Pacepa tem motivos de sobra para dizer que o candidato presidencial americano Donald Trump é “agente da KGB.”
Aliás, um ex-diretor da CIA disse exatamente isso. Ele também disse que vai votar em Hillary Clinton, que é pró-islamismo, e ele louvou o fato de que desde o atentado terrorista contra os EUA em 11 de setembro de 2001 o Centro Antiterrorismo da CIA foi encabeçado por um muçulmano durante mais de dez anos. O atual diretor da CIA é muçulmano. O ex-presidente George H.W. Bush, que já foi diretor da CIA, disse que vai votar em Hillary.
Se esse escândalo estivesse ligado à KGB, Pacepa estaria expondo e gritando.
Por que seu silêncio?
Versão em inglês deste artigo: Ion Mihai Pacepa and Disinformation
Leitura recomendada:

6 comentários :

Esa disse...

Gostei da capa do livro a mão manipulando é bem assim mesmo esse sistema do mundo.

marcelo victor disse...

Manipulação da opinião pública é a estratégia mais comum e importante dos comunistas e dos ditadores em geral.
Um brasileiro que reside na Tailândia desmascara mais uma manipulação dos comunistas da Globo, os quais, segundo ele, mentiram mais uma vez: https://www.youtube.com/watch?v=g2puVP5l9L0

Daniel Liu disse...

Ué se tinha milhares de judeus participando e influenciando a União Soviética, então por que houve a tentativas da URSS na ONU em 1967 junto com países árabes de dizer que Israel é o agressor contra os vizinhos quando foi ao contrário? https://www.youtube.com/watch?v=zNixhwiXceo

Julio Severo disse...

Daniel, meu texto trata basicamente das diferenças entre marxismo soviético e nazismo enquanto o nazismo dominava. Enquanto o nazismo existia, havia diferenças fortes. Sua citação trata de um problema de décadas mais tarde, quando a relação entre marxismo soviético e judeus mudou drasticamente. Mas em tudo o que se refere a marxismo soviético desde o nascimento da União Soviética até o nascimento do Estado de Israel, os judeus eram participantes e ativos nele. Só depois é que essa relação se deteriorou.

Daniel Liu disse...

Ah entendi Julio. Muito grato pela resposta.

Natália Correia disse...

Mestre Júlio, poxa irmão me dá uma luz aí! Me indica onde posso achar o livro Desinformação do Pacepa em pdf! Desd
e já sou grato!