26 de maio de 2016

Olavo de Carvalho errou sobre quem é a mãe da Teologia da Libertação


Olavo de Carvalho errou sobre quem é a mãe da Teologia da Libertação

Marcos Paulo Fonseca da Costa
Segundo Olavo de Carvalho, num vídeo de 2015 no Youtube, Nikita Kruschev, o sucessor de Stalin na União Soviética, foi o autor do termo Teologia da Libertação e, conforme entendi, foi o formulador da própria teologia em si. Assista (5 min 20s).
Curiosamente, em vídeo de 2013, o mesmo Olavo ensina que a origem dessa teologia é o padre jesuíta Gustavo Gutierrez. Assista (5min 45s).
Qual Olavo tem razão, o Olavo de 2013 ou o Olavo de 2015?
Num artigo de janeiro de 2015, Olavo insistiu que a Teologia da Libertação, na verdade, é fruto do trabalho sombrio da KGB. No último parágrafo do artigo ele ensinou assim:
“Ou seja, em suas linhas essenciais, a idéia da TL veio pronta de Moscou três anos antes de que o jesuíta peruano Gustavo Gutierrez, com o livro Teología de la Liberación (Lima, Centro de Estudios y Publicaciones, 1971), se apresentasse como seu inventor original, decerto com a aprovação de seus verdadeiros criadores, que não tinham o menor interesse num reconhecimento público de paternidade.” (Um cadáver no poder I, 15/1/2015)
É bem verdade que não se deve cair no erro rasteiro de pensar que a Teologia da Libertação é produto da mente de Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Juan Luis Segundo, Frei Betto ou até mesmo, como advogam alguns, do ex-pastor Rubem Alves. Não, eles são apenas competentes divulgadores dessa teologia. Eles estão para ela como Voltaire e Diderot estão para as ideias iluministas.
Será Nikita Kruschev o autor direto da Teologia da Libertação ou apenas o chefe administrativo de sua difusão pela América Latina?
Bem, o historiador do Comunismo, autor de “O Comunismo” e de “História Concisa da Revolução Russa”, Richard Pipes, traz informação que lança óbice sobre parte da tese de Olavo de Carvalho segundo a qual a Teologia da libertação nasce de Kruschev. Veja o que ensina Pipes sobre a compreensão que Kruschev tinha do Comunismo:
“‘Desde o meu tempo de estudante, tentara e não conseguira compreender exatamente o que era o comunismo(…) Tinha tentado fazer com que o meu pai lançasse uma luz sobre a natureza do comunismo, mas não obtive nenhuma resposta inteligível. Percebi que tampouco a sua compreensão era tão clara a respeito.’ Se o líder do bloco comunista e arauto incansável de seu triunfo futuro por todo o mundo não conseguiu explicar a seu filho o que era o comunismo o que se pode esperar da compreensão teórica das pessoas comuns?” (O Comunismo, Bibliex/Objetiva, 2014, p.134)
Imagine se um homem que sequer entendia bem o que era o comunismo teria capacidade para criar uma teologia, como Olavo parece deixar nas entrelinhas do vídeo de 2015? Para criar a Teologia da Libertação seria preciso mais do que uma noção vaga e imprecisa da doutrina comunista; antes, seria necessário que o postulante a criador dessa teologia detivesse sólido conhecimento tanto de marxismo quanto da letra da Escritura. Que intelectual ou corporação poderia reunir tal síntese?
O autor intelectual dessa teologia foi Gutierrez ou foi a KGB?
Pista extraída do livro “Os jesuítas – A companhia de Jesus e a traição à Igreja Católica”, publicado pela Record em 1989, escrito pelo ex-jesuíta Malachi Martin, aponta boa direção para aonde seguir a fim de saber quem são os verdadeiros criadores da Teologia da Libertação. Ela não nasce de nenhum ventre em Moscou; ela surge das entranhas de Roma.
“Sem um gigante como Karl Rahner é de se duvidar que a Teologia da Libertação fosse conseguir muito mais do que rachar, oscilar e despencar.” (p. 21)
A teologia que Olavo de Carvalho abomina e cuja parturição joga no útero de Moscou, vem exatamente da Roma religiosa. Ela tem origem em gabinetes de homens que pertenciam ao estudo, de mentes que conheciam bem o marxismo e as Escrituras; essa teologia provém da mesma ordem religiosa a que pertence o papa Francisco. Embora Gustavo Gutierrez tenha sido jesuíta, ele não é o mentor intelectual da Teologia da Libertação. Nesse quesito, três nomes aparecem com força: George Tyrrel, Teilhard de Chardin e Jacques Maritain.
Toda informação que trago à frente é de Malachi Martin, autor que Olavo admira e vez ou outra aparece na boca dele. O livro é o mesmo indicado antes.
“George Tyrrel nasceu na Irlanda, de pais ingleses, em 1861” (p. 247)
“Muitos dos destacados teólogos e bispos da igreja de hoje deveriam poder reconhecer em George Tyrrel um verdadeiro ancestral seu. Os entusiastas da Teologia da Libertação como o padre jesuíta Gustavo Gutierrez e Juan Luis Segundo estão seguindo o exemplo de Tyrrel na sua insistência de que a teologia não deve vir ‘de cima’ – da Igreja hierárquica – mas de baixo – do ‘povo de Deus’” (p.254)
“Teilhard, como costumava ser chamado, nasceu na França vinte anos depois de George Tyrrel, em maio de 1881” (p. 259)
“‘Para Teilhard, o marxismo não apresentava dificuldade alguma. ‘O Deus cristão lá no alto, escreveu ele, e o Deus do Progresso marxista estão reconciliados em Cristo.’ Não admira que Teilhard de Chardin seja o único escritor católico-romano cujas obras estão expostas ao público junto às de Marx e Lenin no Salão do Ateísmo em Moscou” (p. 263)
“A Teologia da Libertação – defendida em grande parte por jesuítas latino-americanos – fornecia um objetivo tangível para as novas teorias de Pierre Teilhard de Chardin, SJ…” (p. 274)
“Na esteira do impressionante trabalho de Teilhard na década de 1920…surgiu outro francês na década de 1930 – o filósofo católico Jacques Maritain…[que] codificou o chamamento humanista da fraternidade à Igreja Católica Romana para que se identificasse com as aspirações revolucionárias das esforçadas massas da humanidade.” (p. 276)
“A esquerda política, para Maritain, representava tudo o que era da maior significação do ponto de vista histórico. De fato, Maritain adotou uma espécie de teologia da história, como se poderia chamá-la, baseada na filosofia marxista: a verdade religiosa se encontrava exclusivamente nas massas do povo.” (p. 277)
“Apesar de tudo, é muito mais correto dizer que a América Latina serviu de laboratório vivo para as experiências com a as várias teorias e fórmulas que se reuniam sob o nome de Teologia da Libertação; que a inspiração da Teologia da Libertação, sua fórmula primordial, e seus principais defensores eram todos europeus.” (p. 279)
“Em essência, a Teologia da Libertação é a resposta àquele chamamento dirigido à Igreja codificado tantos anos antes por Maritain.” (p. 279)

Apreciação final

É inegável que o sistema político de Moscou teve envolvimento com a “exportação” do comunismo mundo afora e na América Latina em particular. Pipes trata disso no livro que mencionei aqui.
Para Olavo, o autor da Teologia da Libertação é Gustavo Gutierrez ou Nikita Kruschev/KGB?
Qual Olavo tem razão, o Olavo de 2013 ou o Olavo de 2015?
Fico com a impressão de que Olavo na verdade quer desviar o foco do problema central: Roma é a autora da Teologia da Libertação, não Moscou. É a velha história de culpar o mensageiro pela mensagem ou do marido traído pela esposa no sofá que vende o sofá e deixa tudo como antes.
Por tudo o que foi visto em Malachi Martin, a Teologia da Libertação é sem dúvida uma construção intelectual de jesuítas. A Teologia da Libertação é um projeto católico, embora tenha recebido anátema papal e tudo o mais. Ela sai da matriz romana, especificamente de Tyrrel, Chardin e Maritain, todos católicos, todos jesuítas. Moscou foi vetor de propagação dessa teologia, mas definitivamente não é a mãe da criança. A genitora é a própria Igreja Católica Romana, que Olavo quer restaurar. Só para relembrar: Os jesuítas estão no “trono de Pedro”. Eles chegaram lá.
Divulgação: www.juliosevero.com
Leitura recomendada sobre Teologia da Libertação como criação soviética:
Leitura recomendada sobre Teologia da Libertação como criação soviética:
Olavo de Carvalho e o bruxo islâmico René Guénon

6 comentários :

andré ferreira machado disse...

Isso explica esse tendencia que o Papa jesuíta tem para a teologia da libertação e essa aproximação assustadora com o islã inimigo mortal de Cristo.

Unknown disse...

KGB,Kruschev? Olavo não tem razão. Viaja o pensador católico. O texto é bom, claro e lógico, dispensando maiores comentários. É mais do que evidente que o Olavo foi longe demais na associação entre URSS e A. Latina, em sua ânsia em defender os católicos. Cuide-se mais Olavo, pois não mereces receber o tratamento de "franco atirador útil" em lugar de intelectual competente. Limite-se a dizer que a KGB "influenciou" protagonistas da TL na América Latina.
Leandro Lopes

marcelo victor disse...

Olavo de Carvalho, Malafaia e todos os protestantes deveriam assistir este vídeo, que fala da prostituta que está assentada sobre a besta:
https://www.youtube.com/watch?v=34ftK-gML3s

Jônatas Medeiros disse...

A paz Júlio! Você parte do prressuposto de que as declarações do livro possuem fonte legítima. Você teve acesso aos documentos históricos,ou declarações oficiais, ou o que quer que seja capaz de comprovar que o embrião dessa teologia surgiu dentro da igreja católica desde o início do século XX? Se sim ,não seria razoável julgar como propagadores de heresias esses teologos, tal como o fazemos do lado protestante com os cessionalistas?
Lembro que o Olavo dizia que a infiltração na igreja católica começou na década de 20, dentro da companhia de Jesus, o que bate com os registros do livro. Não seria então razoável supor que os comunas encontraram espaço para entrar na igreja através dessa companhia ou até mesmo que já exitiam na igreja cardeais e teologos simpáticos ou úteis aos ideias comunistas mesmo que sem saber(tal como a rejeição da hierarquia da igreja como cita esse Tyrrel?) e o movimento comunista ter enxergando neles um buraco na muralha católica da época, e ali passada algumas decadas viria a surgir a tal teologia? Acredito ser este o método aplicado na época pois seria impossível infiltrar a igreja em um par de anos e ainda criar uma teologia marxista nesse abrir e fechar de olhos.Gramsci já tinha percebido e dado a idéia nessa mesma época(2ª decada de 1900). Não seria Lênin quem teria começado a infiltração e posteriormente a criação viria com Khrushchev o e os intelectuais dA KGB? Essa história tem que ser investigada mais a fundo antes de tirarmos as conclusões.

Julio Severo disse...

Jônatas, se eu parto do pressuposto de que o livro citado pelo autor deste artigo pussui fonte legítima, você parece partir do pressuposto extremo de que todas as fontes e falas do Olavo são confiáveis.

Você fala de infiltração na Igreja Católica como se antes do comunismo soviético, que nasceu oficialmente em 1917, não existisse nenhuma ideologia ou doutrina dentro da Igreja Católica que fosse igualmente maléfica. Existia, e era a Doutrina Social da Igreja Católica. Pesquise sobre justiça social.

Oficialmente, durante séculos a Igreja Católica nunca foi amiga dos judeus e do capitalismo, e muitas vezes usou a Inquisição para torturar judeus e lhes roubar.

Quanto ao Olavo de Carvalho, ele afirma que o primeiro movimento revolucionário (de linha marxista) da história foi o protestantismo de Genebra, sob Calvino, 500 anos atrás. É uma inverdade tão descarada que faz qualquer capitalista legítimo morrer de gargalhadas.

Um amigo judeu filósofo outro dia me disse que o único modo de encarar o que o Olavo escreve, especialmente em defesa da Inquisição, é rindo.

Julio Severo disse...

Olavo de Carvalho chama evangélicos de “evanjegues,” debochando deles como jegues (que também significa burros, asnos, jumentos, etc.). Ele disse:

“A credulidade com que tantos evanjegues ouvem pastores semi-analfabetos, drogados, ladrões e putanheiros é a oitava maravilha do mundo.”

Ele com certeza deve estar se referindo ao Pr. Marco Feliciano, a quem dias atrás ele insinuou que levou uma mocinha a um motel. Confira a insinuação neste link: http://bit.ly/2bfEZjO

E os alunos evangélicos dele são também evanjegues por pagarem uma taxa mensal no COF (Curso Online de Filosofia)?

Para deixar de ser “evanjegues” o evangélico tem de se matricular no COF, deixar a Bíblia de lado e tratar as palavras (inclusive palavrões) do Olavo acima da Palavra de Deus?

Mais da metade dos membros do instituto do Olavo nos EUA são evangélicos. Eles também são evanjegues? Eles já sabem que o Olavo trata os evangélicos brasileiros como evanjegues? Ou a barreira da língua os impede de ler as asneiras que o Olavo escreve em português?

Nesse ponto, fazendo um trocadilho com as palavras do próprio Olavo, digo:

“A credulidade com que tantos evanjegues se abaixam para ser pisoteados, xingados e humilhados por um filósofo esotérico é a oitava maravilha do mundo.”

Um desses “evanjegues,” o próprio Feliciano, chamou Olavo de “verdadeiro profeta” no Congresso Nacional. Mais evanjegues que isso, impossível. Confira neste link: http://bit.ly/1XHSaHr

Como diz a Bíblia, dizendo-se “sábios,” tornaram-se loucos.

Fonte: Facebook Blog Julio Severo