22 de novembro de 2015

Resenha: “Sob os Céus da Escócia”


Resenha: “Sob os Céus da Escócia”

Gutierres Fernandes Siqueira
“Não podemos limitar Deus onde ele mesmo não se limitou” — Jonathan Edwards.
Seria o fenômeno dos dons espirituais algo restrito à igreja do primeiro século? E o novo despertar dos dons é mera invencionice do cristianismo pentecostal do século XX? É bem verdade que não, mas talvez você fique surpreso ao saber que os carismas, especialmente a profecia, eram parte da normalidade eclesiástica entre os puritanos escoceses do século XVII. Sim, os mesmos responsáveis pelo calvinismo de Westminster, tão predominante em nosso país e igualmente militante do cessacionismo na sua forma radicalizada: o neopuritanismo.
O teólogo Renato da Cunha Sobrinho, graduado pelo Seminário Teológico Presbiteriano José Manoel da Conceição, uma das escolas mais tradicionalistas do presbiterianismo brasileiro, e pastor da Igreja Episcopal do Redentor em Natal (RN), fez um amplo trabalho de pesquisa sobre a posição dos puritanos sobre os dons espirituais. E, surpresa, a linhagem sobre fenômeno como profecia e curas em nada lembra o ceticismo do neopuritanismo, que, em casos extremos, acha a própria oração por cura um sacrilégio (!).
Boa dose do livro é dedicada aos puritanos e a parte final revive os conceitos sobre continuísmo e cessacionismo. Na primeira metade há uma introdução, um tanto prolixa a meu ver, ao puritanismo de Westminster, e logo após Cunha faz uma descrição dos carismas na vida de homens como George Wishart, John Knox, Alexander Peden, etc. Relatos, por exemplo, como de Jonathan Edwards, que testemunhou eventos extraordinários na vida da própria esposa. Edwards, que também, é talvez o principal nome da consciência do carismatismo pós-apostólico e cuja reflexão serve como base para um entendimento mais amplo do papel carismático da Igreja.
Os cessacionistas talvez acusem o livro que o mesmo não apresenta muitas evidências autobibliográficas, excetuando poucos casos, mas apenas trechos e comentários dos puritanos de textos bíblicos que mencionam profecias ou outros dons, como a cura divina. Ou ainda comentários gerais sobre como Deus lhos revelou determinada situação. É verdade, mas esses comentários deixam claro que a mentalidade continuísta era mais natural na história teológica do que a mentalidade cessacionista. Embora não se espere declarações elaboradas, é difícil enxergar uma oposição teológica ao milagre dos dons antes do advento do iluminismo. Assim como era difícil imaginar teólogos usando os mesmos argumentos deístas do filósofo escocês David Hume (1711- 1776).
O livro mostra muito bem como a opinião cessacionista de B. B Warfield (1851- 1921) é um ponto fora da curva que assumiu proporções incríveis no século XX. Argumento esse que nasceu como oposição ao sectarismo, mas que foi voltada contra o próprio movimento evangélico. O cessacionismo de Warfield depende nada da Bíblia, que jura solenemente honrar, mas apenas e tão somente de uma leitura histórica. O livro mostra que mesmo esse argumento histórico encontra vácuo.
Recomendo o livro, especialmente como fonte para pesquisas, pois o trabalho feito pelo Renato Cunha é uma introdução que dá margem para outros esboços de teologia continuísta. Só na bibliografia, por exemplo, eu mesmo já vi preciosidades que serão importantes para reflexões futuras sobre o assunto. O livro é bom especialmente pelo ineditismo do tema em português e, também, por provocar um debate mais acadêmico sobre os dons espirituais, sem a emoção e irracionalidade das mentes “racionais” das redes antissociais.
Título: Sob os Céus da Escócia
Autor: Renato Cunha
Editora: Reflexão
Lançamento: 2015
Site do livro: http://igrejadoredentor.com.br/
Divulgação: www.juliosevero.com
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5 comentários :

um católico disse...

Acho esse assunto interessante. Também na Igreja Católica não há consenso sobre os dons carismáticos do Espírito Santo. A oração de cura, então, é uma das mais incompreendidas, ao lado do exorcismo.

Anônimo disse...

O pesquisador Tom Horn num dos programas "It's Supernatural" do Sid Roth trouxe uma informação que corrobora a resenha acima. Ele disse que o Jonathan Edwards havia previsto o surgimento do Anticristo para o período entre 2012 e 2016! E suspeito que ele acertou. Nesse período um nascimento foi muito celebrado pela mídia mundial (teve até uma novela da Globo com o seu nome) e quando ele se tornar rei, provavelmente será o 8º rei com o nome de um guerreiro que é santo na ICAR e reverenciado por terreiros de candomblé Brasil afora. O programa é este aqui:


https://www.youtube.com/watch?v=efG7cbeSA0k

Leandro C.P disse...

Buck Williams Boa, irmão Júlio! Estou extremamente curioso para ler! Não irei comentar sobre o tema em si, porquê não quero entrar numa discussão a respeito e gerar um desgaste desnecessário neste espaço. Entretanto, quero dar uma palavrinha sobre a discussão que gira em torno disso. Neste ponto, devo dizer que uma confusão que vejo muita gente de ambos os lados deste debate fazer é generalizar o conceito de "cessacionismo". Assim como vejo muito pentecostal que enxerga o cessacionismo feito um completo ceticismo quanto ao sobrenatural, vejo também muito cessacionista que equivocadamente se comporta como um ateu travestido de crente. Ora, dentro do cessacionismo defendido por mim e tantos outros que conheço(incluindo pastores.), existem milagres dos mais diversos, aparições de anjos ou demônios, guerra espiritual, insights do Espírito Santo, orações por enfermos e até pré-tribulacionismo dispensacionalista. Posso citar como exemplo mais conhecido(e, portanto, mais fácil a quem queira conferir.) a obra missionária "Chamada da Meia-Noite", que segue uma linha cessacionista, porém exibindo em suas revistas mensais diversos artigos sobre os tópicos que listei acima. Dentro deste cessacionismo moderado defendido por boa parte dos crentes(incluindo alguns, por incrível que pareça, do meio pentecostal) a questão toda se resume na atuação dos dons espirituais extraordinários da maneira que são vistos na Bíblia, pois seus defensores entendem: 1- que somente os apóstolos ou alguém que os representasse diretamente poderia ter um dom extraordinário(isto é: profecias, discernimento de espíritos, cura, milagres e línguas estranhas; sendo esse último interpretado como o poder de falar idiomas estrangeiros.). 2- que tais dons agiram de modo permanente sobre seus detentores até o momento da extinção(e é aqui que entendo se dar a maior causa do rolo: o conhecimento de que um cessacionista moderado não exclui a possibilidade de manifestação de um milagre que imite algum dos dons, e sim a possibilidade de manifestação PERMANENTE do dom sobre uma pessoa, uma vez que a própria palavra "dom" nos remete a algo inato.).

Julio Severo disse...

Cessacionismo moderado faz tanto sentido quanto deísmo ou ateísmo moderado. Ambos são repugnantes e apatentemente antíblicos.

Leandro C.P disse...

Sim, mas, independente do caráter da crença(e reafirmo que não é o que desejo explorar aqui, do contrário teria exposto alguma argumentação neste espaço ou mesmo colocado minha opinião sobre o pentecostalismo, que também não é nada amistosa.), o fato é que existe. E, precisamente, este é o ponto que quis deixar claro no comentário anterior: gostem ou não tradicionais e pentecostais, existe um meio termo que tanto passa longe do ceticismo reformado, quanto dos excessos carismáticos. E ganha sentido a partir do momento que se entende que, dentro do agir sobrenatural divino tratado na Bíblia, os dons extraordinários(apenas eles.) encontram-se num contexto específico de atuação e de objetivo.