11 de outubro de 2015

Cristianismo e luta de classes


Cristianismo e luta de classes

Eguinaldo Hélio Souza
Se a luta de classes é o motor da história, então o cristianismo é o freio. E quando me refiro ao cristianismo falo do cristianismo bíblico, que emerge como padrão dos escritos dos evangelistas e apóstolos, o cristianismo do Novo Testamento.
É fácil perceber nestes documentos antigos o quanto sua doutrina e sua prática levaram reconciliação às classes sociais, ao invés de instigar uma revolução social como queriam os zelotes, esquerdistas da época. Tão importante quanto a reconciliação do homem com Deus era a reconciliação do homem com o homem, independente de sua classe social. Eis o cristianismo apostólico.
Nascido em meio ao sistema escravista, suas páginas ordenam aos escravos que sejam bons escravos. Sim. Absurdo dos absurdos! É de chocar o homem moderno.
Vós, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade como ao Senhor e não como aos homens, sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre. (Carta do apóstolo Paulo aos Efésios cap. 6. Vers. 5-8)
Não termina aqui. Agora é a vez do patrão, do dono de escravos, do amo. Ele também precisa entender seu lugar neste universo de Deus.
E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu e que para com ele não há acepção de pessoas. (Carta do apóstolo Paulo aos Efésios cap. 6. Vers. 9)
Revolução das revoluções! O senhor e o escravo podem ser diferentes na ordem social, mas não na ordem cósmica e universal. Perante ela ambos são iguais e darão contas de acordo com seus atos.
Luta de classes? Nenhum vestígio. A palavra de ordem é reconciliação.
Todavia, isso não significa conformismo e aceitação de injustiça. O cristianismo histórico colaborou com os poderosos na opressão dos pobres, tanto quanto lutou contra esses mesmos poderosos em muitos momentos. Adequou-se ou desviou-se do padrão bíblico. O cristianismo bíblico, entretanto, clama contra a injustiça:
Eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos exércitos. (Tiago 1.1-4)
Igualmente os escravos eram exortados a conquistar sua liberdade se assim pudessem. “Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes com isso. Mas se ainda podes conseguir toda liberdade, aproveita a oportunidade” (1ª epístola do apóstolo Paulo aos coríntios 7.21).
Vale a pena considerar os estudos recentes do sociólogo americano Rodney Stark sobre o crescimento do cristianismo. Esses estudos rejeitam a identificação do cristianismo com a classe proletária. Na verdade, diferentes segmentos e classes sociais abraçaram a nova fé.
Depois que Judge [E. A. Judge – historiador do Novo Testamento] questionou a visão proletária da Igreja Primitiva, desenvolveu-se entre os historiadores do Novo Testamento um consenso de que o cristianismo baseava-se na classe média e na alta (Scroggs: 1980)
Não poucos estudiosos atribuem ao movimento metodista a responsabilidade por livrar a Inglaterra de uma revolução sanguinária como a Revolução Francesa.
Novos estudos têm gerado novas compreensões. A estabilidade social produz progresso e foi isso que o cristianismo levou as nações. Mais uma vez temos de citar Rodney Stark:
Um novo e admirável estudo da autoria de Robert D. Woodberry demonstrou, sem sombra de dúvidas, que se pode atribuir aos missionários protestantes a maior parte dos louros pela ascensão e divulgação de democracias estáveis no mundo não ocidental. Quer isto dizer que, quanto mais elevado era o número de missionários protestantes por cada dez mil habitantes da população local em 1923, maior é a probabilidade de um determinado país ter hoje conseguido chegar a uma democracia estável. O efeito do trabalho missionário é muito maior que o de outras 50 variáveis de controle fundamentais, incluindo o produto interno bruto e o fato de um determinado país ser ou não uma colônia inglesa.
O cristianismo jamais jogou uma classe contra a outra. Reconciliou-as sem, contudo, dogmatizar sua estratificação. “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo” (Epístola do apóstolo Paulo aos Gálatas cap. 3 verso 28)
Não há dúvidas de que há luta de classes por toda a história. A questão é o que fazer com ela. Instigá-la ou freá-la. Acirrar os conflitos de classes ou procurar reconciliá-los. Os marxistas conceberam a infeliz e irracional ideia de que, se a luta de classes não acontece, eles têm de provocá-la, para construir no futuro sua sociedade sem classes.
Marilena Chauí, ao afirmar sob aplausos odiar à classe média, queria inflamar com seu discurso de ódio o conflito entre os grupos como convém a todo bom marxista. Neste caso, provavelmente, entre a classe média e a sua própria classe, isto é, a classe alta. Porque proletária tenho certeza que ela não é. Mas o que esperar dela? Como escreveu Alain Besançon, “não se pode permanecer inteligente sob a ideologia”.
Outros artigos Pr. Eguinaldo Hélio Souza:
Por que condeno o marxismo

4 comentários :

Saga Oliveira disse...

A referência ao livro de Tiago 1.1-4, está errada. Não seria 5:4?

Anônimo disse...

Bom dia, Júlio Severo. Texto excelente e oportuno. Está citação é de Rui Barbosa: “O comunismo não é a fraternidade; é a invasão do ódio entre as classes. Não é a reconciliação dos homens; é a sua exterminação mútua. Não arvora a bandeira do evangelho, bane Deus das almas e das reivindicações populares. Não dá trégua à ordem. Não conhece a liberdade cristã. Dissolveria a sociedade. Extinguiria a religião. Desumanaria a humanidade. Everteria, subverteria, inverteria a obra do Criador.”
Abraço fraterno, Paulo Ceroll.

Henrique disse...

Não sei se a minha opinião vai ser muito apropriada (ou muito pertinente) para o assunto deste artigo, mas eu vou dizer exatamente o que eu penso (me corrijam se eu estiver errado):

Caridade é algo que deve ser feito por livre e espontânea vontade. Como cristão, eu devo ajudar o meu próximo, e, claro, através de minha própria iniciativa. Em outras palavras: esta caridade deve partir de mim mesmo, ao invés de ser uma coisa obrigada (como o governo quer). É como disse o apóstolo Paulo:

"Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria" (2 Coríntios 9:7)

Só que tem um detalhe importantíssimo que muitos parecem não estar observando: eu devo fazer caridade, sim. Porém, EU NÃO TENHO NENHUMA OBRIGAÇÃO DE SUSTENTAR QUEM DEPENDE DE CARIDADE! O GOVERNO QUER QUE SUSTENTEMOS PESSOAS QUE, ÀS VEZES, NEM PRECISAM DE CARIDADE!

Aí muitos poderiam dizer: "Você está sendo egoísta!" Não é que eu esteja sendo egoísta. Existem pessoas que se passam por necessitadas para viverem somente de caridade (e querem ficar ociosas o tempo todo)! Nem todos os pobres são sinceros quando pedem ajuda! Como se diz por aí, "há pessoas e pessoas".

Eu devo ajudar quem é necessitado? Sim. Só que eu devo ajudar até um certo ponto. Desse mesmo ponto em diante, é a própria pessoa que tem que cuidar de si. Confúcio (filósofo chinês) disse uma grande verdade: "Se queres saciar a fome de um homem, dê a ele um peixe; mas se queres que este mesmo homem sobreviva, ensine-o a pescar"

O apóstolo Paulo também ensina algo muito apropriado neste sentido:

"Aquele que furtava, não furte mais; antes, porém, trabalhe arduamente, fazendo com as suas mãos o que é bom, a fim de ter algo para poder repartir com quem tiver necessidade" (Efésios 4:28)

Será que eu estou certo? Se alguém daqui quiser se manifestar, esteja à vontade.

Apóstolo Ezequiel disse...

Volto a repetir, mais uma vez, o que eu já comentei em um artigo anterior semelhante a este: o principal argumento da esquerda e de seus simpatizantes (inclusive os marxistas) é realizar uma suposta "justiça social", e (teoricamente) tornar a sociedade igualitária (como eles mesmos fazem questão de dizer com todas as letras, "sem oprimidos nem opressores"). Só que a esquerda, para agir efetivamente nesse sentido, precisa do poder absoluto nas mãos.

Por que é necessário ter este mesmo poder? Porque para poder tirar de quem tem mais para dar a quem tem menos, é necessário contar com um sistema de governo que dê sustentação a esta ideologia. Do contrário, o objetivo proposto (a tão propagada "justiça social") se torna algo impossível de ser realizado apenas por mera teoria. Logo, o único regime mais adequado para tais pretensões é o totalitarismo.

No totalitarismo, os interesses do Estado se sobrepõem aos dos cidadãos. É como dizia uma filosofia dos tempos de Hitler e Mussolini: "Nada acima do Estado, nada fora do Estado, e nada contra o Estado!" Por isso é que a esquerda defende o poder total (totalitarismo) nas mãos dos representantes do Estado.

O verdadeiro objetivo da esquerda é somente a tomada do poder. Após isso, vem a escravidão e o empobrecimento da sociedade. Isso tudo é feito sob o comando de um governo ditatorial (e contando com um aparato policial a serviço deste mesmo governo). Pra que melhor exemplo disso do que os atuais governos de Cuba e da Venezuela?

O humanismo (filosofia que inspirou o marxismo e as demais correntes ideológicas esquerdistas) apregoa que "o ser humano é bom, mas o meio social é quem o corrompe". Em contrapartida, a Palavra de Deus diz que "não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10). O ser humano já nasce com a natureza pecaminosa (e esta mesma natureza, por si só, é má em sua essência). Em virtude disso, muitos ainda são ingênuos a ponto de acreditar que as boas intenções são válidas em todo o mundo.

Em outras palavras: muitos ainda acreditam que podemos confiar em determinadas pessoas (principalmente os representantes do Estado) que afirmam estar se preocupando com o bem de todos (ainda que as atitudes dessas mesmas pessoas provem ou mostrem exatamente o contrário). A simples demonstração (ou propagação) de boas intenções não garante que elas serão necessariamente postas em prática. São apenas uma forma de dissimular (ou disfarçar) o mal. Ou será que muitos estão esquecidos de que "o diabo insiste em se transformar em anjo de luz" (2 Coríntios 11:14)?

A verdade nua e crua é que o mal nunca teve, não tem, e nunca terá nenhum compromisso com o bem. O mal só tem compromisso única e exclusivamente com si mesmo. Assim como a Palavra de Deus diz que "não pode vir nenhuma mentira da verdade" (1 João 2:21), a recíproca também é verdadeira (ou seja, nenhuma verdade jamais poderá surgir da mentira). Afinal, se o diabo é o pai da mentira (João 8:44), por que os seguidores do diabo (no caso, os esquerdistas) agiriam diferente?

Gostaria que os simpatizantes da esquerda (e também os marxistas) respondessem a esta pergunta!