13 de setembro de 2015

A Santimônia Profana da Santa Sé


A Santimônia Profana da Santa Sé

Sarah Honig
O reconhecimento de um Estado Palestino (que, a despeito de sua popularidade no exterior, não existe de fato) pelo Vaticano mostra que a Santa Sé pode ser horrivelmente veloz quando lhe interessa -- pode ser até impetuosa e precipitada.
Esta [não] é realmente uma alteração significativa de nossa experiência judaica com a hierarquia católica. Com isoladas exceções, os judeus têm consistentemente encontrado por parte dela uma enraizada severidade, até mesmo insensibilidade -- para usarmos termos bastante suaves.
Com uma velocidade impetuosa, o Vaticano apressou-se em reconhecer um Estado que até agora consiste somente de grupos de radicais islâmicos distinguidos apenas por suas marcas de fanatismo. Isto fica em flagrante contraste com a demora excruciante, de fato, a relutância não-disfarçada, da mesma igreja em reconhecer Israel.
A má vontade do Vaticano durou décadas após o nascimento do Estado Judeu, depois que este sobreviveu a ataques genocidas por parte de sete exércitos árabes, apenas três anos após o Holocausto, de ter absorvido com sucesso milhões de refugiados judeus e de ter criado uma democracia funcional, que não perde para nenhuma outra no mundo, juntamente com todas as instituições da sociedade civil.
A despeito dos exemplares atributos de soberania de Israel, o Vaticano permaneceu ácido, relutante e glacialmente distante -- e isto também para usar de um eufemismo.
Portanto, enquanto um Estado palestino é reconhecido prematuramente -- antes de verdadeira autodeterminação -- o Vaticano precisou de longos 45 anos e meio após o fato para se decidir a reconhecer oficialmente a autodeterminação judaica. O Egito -- inimigo amargo de Israel por décadas -- se adiantou ao Vaticano em catorze anos.
Foi somente no final de dezembro de 1993 que o Vaticano finalmente se dignou a reconhecer Israel, que nasceu em meados de maio de 1948. Além disso, o reconhecimento ultra-tardio do Vaticano permaneceu hesitante, como se os instintos viscerais da burocracia eclesiástica o impedissem de engolir a noção da soberania judaica.
A diferença clama aos Altos Céus e qualquer um que negue um descarado uso de dois pesos e duas medidas simplesmente se recusa a admitir a verdade com cinismo.
A expressão que imediatamente nos vem à mente para descrever a descarada inclinação do Vaticano é “santimônia”. Suas definições nos dicionários são “piedade afetada, demonstrando santidade, mostrando falsa justiça, marcada pela virtude hipócrita” [exterioridades de aparência de santo]. Todas essas definições se aplicam com perfeição à Santa Sé, desconsiderando que a palavra santimônia vem da mesma raiz latina do termo santidade.
Irritantes predisposições, ou preconcepções pontifícias, foram até mesmo abundantemente evidentes durante a visita a Israel do papa Francisco, aparentemente um “sujeito legal”.
Ele se deu ao trabalho de discordar publicamente, em uma conduta quase que ranzinza, do comentário inócuo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que o Jesus histórico falava hebraico. Ao mesmo tempo, Francisco não indicou qualquer sinal de objeção à figura do bebê Jesus envolto em uma xale do Fatah e representado como um árabe palestino.
Claramente, o pedantismo histórico não é aplicado em todos os lugares. É por isso, presumivelmente, que o Vigário de Cristo pôde baixar a cabeça diante de uma barreira antiterror com pixações que a comparavam (em inglês) aos muros do Gueto de Varsóvia. Não houve nenhum sussurro de objeção à vilania difamatória da comparação, mas ela pareceu ter sido consagrada pela solidariedade papal.
Isto é especialmente exasperador vindo de um papa cujo predecessor de 1940 deveria pelo menos ter protestado contra o assassinato em massa, em uma terra católica, das multidões de judeus aprisionados, torturados e deixados à inanição, dentro do confinamento real do Gueto de Varsóvia. Contudo, Pio XII deu um jeito de não informar aos seus seguidores de que a aniquilação premeditada do povo judeu poderia não ser exatamente “cristã”.
Os delitos pós-guerra de Pio XII (como recusar-se a devolver crianças judias escondidas e ajudar na fuga de nazistas criminosos de guerra), quando ele estava obviamente livre do fascismo e da intimidação do Terceiro Reich, atestam suas predileções íntimas. Não surpreende que ele tenha se recusado a reconhecer Israel em seu renascimento.
Seu jornal, L'Osservatore Romano, afirmou em seu editorial naquela ocasião que “o Israel moderno não é o verdadeiro herdeiro do Israel bíblico, mas é um Estado secular (...). Portanto, a Terra Santa e seus sítios sagrados pertencem ao Cristianismo, o Verdadeiro Israel”.
Como a entidade nacional palestina nunca existiu nos anais da humanidade, presumivelmente não haja ímpeto para o Vaticano fazer semelhantes declarações relativamente às reivindicações ridículas de Mahmoud Abbas, de que a Terra Santa e todos seus sítios sagrados têm, por 9.000 (!) anos, pertencido exclusivamente à Palestina Árabe.
Talvez tal amplitude explique o recurso bizarro do papa Francisco em usar a terminologia de “anjo da paz” ao se referir a Abbas, um homem implacável e instigador de ódio.
O Vaticano, significativamente, foi um dos primeiros a estender seu reconhecimento à Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), depois que ela foi oficialmente fundada. Entretanto, naquele mesmo ano, 1964, o Vaticano deliberadamente ainda se absteve de reconhecer Israel -- quinze anos e meio depois de sua independência. Isso foi resumido durante a visita do papa Paulo VI a Israel, quando foram tomadas precauções incomuns para não transmitir a mais ínfima impressão de reconhecimento do Estado Judeu.
O pontífice entrou em Israel via Megido, uma escolha completamente estranha, e passou 11 horas no país no dia 5 de janeiro de 1964. Ele certificou-se de que o nome Israel jamais escapasse de seus lábios. Mencionou indiretamente apenas “autoridades” não nominadas em lugar de reconhecer pelo menos a existência de fato de Israel. Ele até teve o cuidado de chamar o [então] presidente de Israel apenas de “Sr. Shazar”.
Sua posterior nota de agradecimento também foi endereçada a um “Sr. Zalman Shazar” em Tel-Aviv, e não ao presidente Shazar (não em, “Deus nos livre”, Jerusalém, a capital israelense).
Alguns apologistas papais contendem que o Vaticano deve proteger o número cada vez menor de católicos e seus lugares sagrados na Terra Santa. Na região como um todo, os cristãos representam atualmente 2% da população, contra 20% há cem anos. Os cristãos no Líbano estão à mercê do Hezb'allah (Partido de Alá) xiita, enquanto que os cristãos na Síria são vitimados pelos fanáticos jihadistas. No Iraque, eles são esmagados por todos. Na Autoridade Palestina (AP), o número de cristãos também está caindo severamente, como fica evidente pela maioria muçulmana em Belém, que antes era uma cidade cristã. Os cristãos de Gaza estão fugindo para não perderem a vida.
A única comunidade cristã que cresce firmemente no Oriente Médio pode ser encontrada no tão difamado e pequeno Israel. Somente sob a soberania judaica é que os cristãos estão seguros e livres do terror e da perversidade em série. Mas o único exemplo de genuína liberalidade em uma região hostil e cruelmente intolerante dificilmente ganhará algum reconhecimento por parte do Bispo de Roma.
A dissimulação arraigada aparentemente impede a Igreja de admitir que os perigos para o cristianismo ou para os sítios cristãos nesta região não são causados por Israel. Igualmente, ela não ousa admitir que o ardor anticristão que tem varrido o atormentado Oriente Médio (especialmente desde o advento da erroneamente denominada Primavera Árabe) não tem poupado os domínios de Abbas (a Margem Ocidental).
Incrivelmente, o radar papal parece não ter percebido as repressões anticristãs no chamado Estado palestino, o qual o Vaticano tem demonstrado tamanho entusiasmo em reconhecer. Essa seletividade de ultraje alucinante pode somente significar que há uma evidente relutância em relatar e reagir. É impressionante, mas algumas agonias não são dignas da observação pontifícia.
Na verdade, alguns cristãos locais não são uma força simpática no que se refere a Israel -- sentindo-se em alto grau obrigados a buscar o favor dos muçulmanos e das maiorias árabes nacionalistas que os ameaçam. Os sintomas subliminares da Síndrome de Estocolmo -- ou os cálculos cínicos de que não é necessário agradar os judeus tolerantes -- tornam audaciosos alguns dos cristãos sitiados da região a destemidamente lançarem ofensas contra Israel. O mesmo acontece ostensivamente com a Santa Sé.
Atualmente, as dificuldades dos cristãos nas terras árabes são tragicamente evocativos da purificação étnica contra os judeus, que haviam residido nos mesmos países muito antes que o primeiro árabe emergisse da Península Arábica. Mas, quando os árabes se decidiram a tornar seu reino livre de judeus (Judenrein), o Vaticano novamente se manteve incrivelmente mudo. O sofrimento dos judeus não estava na lista dos interesses da Igreja.
Tampouco foram considerados os sítios sagrados dos judeus. O Vaticano fracassou em expressar, mesmo que fosse em voz baixa, a desaprovação relativa à ocupação ilegal da Legião Árabe, em 1948, da metade oriental de Jerusalém. Naquela época, a cidade era o lar de cerca de 100.000 judeus e de 36.680 muçulmanos, e ostentava uma sólida maioria de judeus desde que o primeiro censo fora realizado ali no início do século XIX.
Nada disso importava a Roma, nem mesmo a brutal expulsão da antiga comunidade judaica da Cidade Velha. Também não foi importante a ocupação árabe por 19 anos da parte leste de Jerusalém, tempo em que os árabes destruíram 58 sinagogas, sadicamente violaram sepulturas no incomparável cemitério judeu de 3 mil anos no Monte das Oliveiras e negaram aos judeus o direito de orarem junto ao Muro Ocidental.
Não houve uma indignação papal até que, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel desfez a ilegalidade árabe (somente após extrema provocação beligerante). Instantaneamente, a ilegalidade de 19 anos dos árabes foi percebida como a legalidade que precisava ser restaurada.
Esses dois pesos e duas medidas precederam o nascimento de Israel. Mesmo os esforços político-ideológicas do sionismo, o movimento de libertação nacional do povo judeu, foram maldosamente ultrajados.
Em seu esforço de angariar apoio para a causa do renascente nacionalismo judeu, Theodor Herzl, o notável proponente do sionismo, assegurou uma audiência com o papa Pio X aos 25 de janeiro de 1904. A rejeição papal não poderia ter sido mais dogmática ou categórica: “Os judeus não reconhecem nosso Senhor, portanto, não podemos reconhecer o povo judeu. (...) A religião judaica foi o fundamento da nossa religião; mas ela foi suplantada pelos ensinamentos de Cristo e não podemos mais conceder qualquer validade a ela”.
O papa também disse a Herzl que, se os judeus se estabelecessem na Palestina, “a Igreja se certificaria de que haveria igrejas e sacerdotes ali para batizá-los”. Semelhantemente, o cardeal secretário de Estado do papa havia anteriormente enfatizado a Herzl que “para nos colocarmos a favor do povo judeu, como você quer, ele terá que se converter primeiro”.A aversão aos judeus estendeu-se até à sobrevivência física deles durante a Segunda Guerra Mundial. O subsecretário de Estado de Pio XII durante o tempo da guerra, Domenico Tardini, se opôs visceralmente a dar asilo aos judeus no Lar Nacional dos Judeus designado por decisão internacional. “A Santa Sé nunca aprovou o projeto de fazer da Palestina um lar para os judeus”, explicou ele, “a Palestina é agora mais sagrada para os católicos do que para os judeus”.
O secretário de Estado de Pio XII, Luigi Maglione, também sugeriu que uma pátria dos judeus era de certa forma diretamente inimiga dos católicos, cujos “sentimentos religiosos seriam feridos e eles, com justa razão, temeriam por seus direitos se a Palestina pertencesse exclusivamente aos judeus”.
Este é o mesmo secretário de Estado a quem o representante dos Estados Unidos no Vaticano, Myron Taylor, informou em setembro de 1942 que os judeus estavam sendo deportados em massa para o Leste e sendo sistematicamente assassinados. Maglione permaneceu impassível e respondeu com indiferença e desdém às revelações americanas.
Cada papa, individualmente, traz consigo seu estilo e suas tendências pessoais. Contudo, embora adereços externos e modismos possam mudar, o Zeitgeist [pensamento dominante] organizacional do Vaticano, suas inclinações oficiais interiores, permanecem inalteradas. A santimônia profana da Santa Sé dos dias de ontem continua cruelmente viva até hoje. (Sarah Honig -- http://sarahhonig.com -- www.beth-shalom.com.br)
Sarah Honig é uma colunista veterana e editorialista-sênior do Jerusalem Post. Durante muito tempo ela foi correspondente política do jornal (como também do extinto Davar). Ela dirigiu o escritório do Jerusalem Post em Tel Aviv, escrevendo artigos diários e análises em profundidade sobre o cenário político.
Publicado na revista Notícias de Israel
Divulgação: www.juliosevero.com
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