4 de agosto de 2015

John Perkins e Suas Confissões de um Assassino Econômico


John Perkins e Suas Confissões de um Assassino Econômico

Julio Severo
O economista John Perkins disse: “Assassinos econômicos (AEs) são profissionais altamente remunerados cujo trabalho é lesar países ao redor do mundo em golpes que se contam aos trilhões de dólares. Manipulando recursos financeiros do Banco Mundial, da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além de outras organizações americanas de ‘ajuda’ ao exterior, eles os canalizam para os cofres de enormes corporações e para os bolsos de algumas famílias abastadas que controlam os recursos naturais do planeta. Entre os seus instrumentos de trabalho incluem-se relatórios financeiros adulterados, pleitos eleitorais fraudulentos, extorsão, sexo e assassinato. Eles praticam o velho jogo do imperialismo, mas um tipo de jogo que assumiu novas e aterradoras dimensões durante este tempo de globalização. Eu sei do que estou falando; eu fui um AE.”
Outras revelações de Perkins são igualmente impressionantes. De acordo com ele, em seu livro “Confissões de um Assassino Econômico,” a Arábia Saudita tem um relacionamento muito especial com os EUA desde meados da década de 1970. Ele diz:
“A evidência era incontestável: a Arábia Saudita, o aliado de longa data dos EUA e o maior produtor de petróleo do mundo, havia se tornado, como explicara uma elevada autoridade do Departamento do Tesouro dos EUA, ‘o epicentro’ do financiamento terrorista… A ‘generosidade’ saudita incentivava as autoridades dos EUA a fazer vista grossa, dizem alguns agentes veteranos dos serviços de inteligência dos EUA. Bilhões de dólares em contratos, verbas e salários foram para um grande número de ex-autoridades dos EUA que haviam lidado com os sauditas: embaixadores, diretores de postos da CIA, até ministros de governo…”
Perkins chegou a tal conhecimento não só porque ele era um economista respeitado, mas também por causa de seu envolvimento, décadas atrás, com a NSA (sigla em inglês para Agência de Segurança Nacional dos EUA) e até fazendo projetos enormes na Arábia Saudita.
Nas décadas de 1960 e 1970, a NSA não era internacionalmente conhecida, mas hoje, por causa dos vazamentos do ex-contratante da NSA Edward Snowden, as atividades clandestinas da NSA abrangendo monitoração e espionagem estão sendo expostas. No entanto, dez anos antes de Snowden, John Perkins já havia feito um desmascaramento importante, que permaneceu em grande parte despercebido, pois aparentemente ninguém estava disposto a acreditar que a misteriosa NSA era um polvo maligno.
Como Perkins veio a conhecer a NSA? Em 1967 ele se casou com uma mulher cujo tio era um diretor de alto escalão na NSA. Em 1968 a NSA traçou o perfil dele como um assassino econômico (AE) ideal.
Ele havia sido deliberadamente contratado pela NSA por causa de suas qualidades não conservadoras e falta de valores morais. Um homem verdadeiramente conservador e moral jamais faria o que ele fora contratado para fazer.
Em 1981 ele se casou com outra mulher cujo pai era o principal arquiteto da empresa Bechtel Corporation e estava encarregado de projetar e construir cidades na Arábia Saudita — trabalho financiado por meio de uma transação dos assassinos econômicos em 1974.
Sobre seu treinamento na NSA, Perkins disse:
“Primeiro, eu devia justificar os enormes empréstimos internacionais que canalizariam rios de dinheiro de volta para a MAIN e outras companhias americanas (como a Bechtel, Halliburton, Stone & Webster e a Brown & Root), por meio de gigantescos projetos de engenharia e construção. Segundo, eu trabalharia para a falência de países que recebiam esses empréstimos (depois de terem pago a MAIN e as outras contratadas americanas, é claro) de modo que eles seriam dependentes para sempre dos seus credores e assim apresentaria alvos fáceis quando precisássemos de favores, incluindo bases militares, votos na ONU, ou acesso a petróleo e outros recursos naturais. O meu trabalho, disse ela, era fazer as previsões dos efeitos de investir bilhões de dólares num país. Especificamente, eu produziria estudos que projetassem crescimento económico 20 a 25 anos no futuro e que avaliassem as consequências de diversos projetos. Por exemplo, se uma decisão fosse tomada para emprestar bilhão de dólares a um país a fim de persuadir os seus líderes a não se alinharem com a União Soviética, eu compararia os benefícios de investir aquele dinheiro em usinas elétricas com os benefícios de investir numa nova rede ferroviária nacional ou num sistema de telecomunicações. Ou eu poderia ser informado de que aquele país estava tendo a oferta de uma oportunidade de receber um moderno sistema de abastecimento elétrico, e dependeria de mim demonstrar que aquele Sistema resultaria em crescimento econômico suficiente para justificar o empréstimo. O fator crítico, em cada caso, era o produto nacional bruto. O projeto que resultasse na maior média anual de crescimento do PIB venceria. Se apenas um projeto estivesse em consideração, eu precisaria demonstrar que desenvolvê-lo traria benefícios superiores ao PIB. O aspecto velado de cada um desses projetos era que eles pretendiam criar grandes lucros para os contratantes, e fazer a felicidade de um punhado de famílias ricas e influentes nos países recebedores, enquanto assegurava a dependência financeira a longo prazo e, portanto, a lealdade política de governos ao redor do mundo. Quanto maior o empréstimo, melhor.”
Isso foi na década de 1970. Eu me lembrei do Brasil. Na década de 1970, o governo militar no Brasil mantinha investimentos colossais em infraestrutura — rodovias, telecomunicações, usinas hidrelétricas, etc. O governo militar, sob o presidente Ernesto Geisel, tomou emprestado bilhões de dólares. O Brasil estava gozando um crescimento acelerado em investimentos que haviam avançado o crescimento anual do PIB para mais de dez por cento. Projetos de infraestrutura de grande escala, como as usinas hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí, estimularam o crescimento, e o Brasil emergiu como o líder industrial incontestável da América Latina, ganhando o título de “milagre brasileiro.” Mas o crescimento acelerado se desintegrou. Em 1982, o Brasil parou de pagar sua principal dívida externa, que estava entre as maiores do mundo.
O Brasil era aparentemente o campo perfeito para as atividades dos assassinos econômicos. O governo militar, que fez investimento de bilhões de dólares em infraestrutura, terminou com dívidas colossais e tomando empréstimos. E essas dívidas não tinham nenhuma relação com corrupção, pois o governo militar era livre de corrupção. Provavelmente, na moderna história do Brasil, os brasileiros nunca tiveram um governo tão livre de corrupção quanto era o governo militar.
Se o trabalho dos assassinos econômicos (e seus colegas) era convencer os países a aceitar empréstimos de bilhões de dólares, muitas vezes para pagar projetos de infraestrutura que os próprios assassinos econômicos recomendam, como John Perkins escreveu em seu livro “Confissões de um Assassino Econômico,” então o Brasil foi provavelmente uma grande vítima.
Como o Brasil, muitas das nações que foram endividadas nas décadas de 1970 e 1980 eram governadas por militaristas direitistas e suas dívidas foram usadas por seus inimigos socialistas como razão para colocar suas nações numa rota socialista. As explorações econômicas deixaram esses aliados militares dos EUA vulneráveis diante dos socialistas.
O governo militar brasileiro na década de 1980 estava infestado de inflação, recessão e dívida externa enorme. O Fundo Monetário Internacional era um assunto diário no noticiário brasileiro. O socialista Luiz Inácio Lula da Silva, que em 2002 foi eleito presidente do Brasil, fazia agitações contra o governo. Sua arma principal era a crise econômica, que havia deixado o povo brasileiro descontente com os presidentes militares.
Não posso imaginar o governo militar do Brasil atingindo uma dívida monstruosa por causa de corrupção. Só posso imaginar, pelas pistas apontadas por Perkins, que existe uma possibilidade de que eles caíram na armadilha de um assassino econômico.
O livro de John Perkins me foi recomendado por um líder conservador dos EUA.
Ao ler o livro dele, vemos a NSA e outras agências dos EUA como máquinas de exploração econômica das nações. Mas muitas vezes tal exploração é facilitada por líderes políticos dessas nações que também exploravam economicamente seu próprio povo. Não acredito que esse foi o caso do Brasil, pois o governo militar brasileiro era trabalhador. Quando os socialistas derrubaram aliados dos EUA na América Latina — uma derrubada facilitada por assassinos econômicos dos EUA —, eles mesmos se tornaram exploradores, economicamente e também socialmente e religiosamente, pois o socialismo sufoca gravemente a liberdade de expressão e religião.
Perkins viu tanta corrupção entre seus colegas de profissão nos EUA explorando os pobres em nações do Terceiro Mundo que ele começou a ver com bons olhos ideias socialistas, achando que o socialismo era a única resposta para a colossal corrupção capitalista que ele via vindo de sua própria nação. É evidente que ele não conhecia o Evangelho, que é a única resposta para o socialismo e a corrupção capitalista.
A natureza humana é má. Se ela ocupa um posto elevado, explora pessoas sob seu controle.
As pessoas que não têm o Evangelho deveriam ser capazes de não explorar outras pessoas, pois elas têm uma consciência.
As pessoas que têm o Evangelho estão sob uma responsabilidade dupla de não explorar, pois elas têm a consciência de Deus acessível a elas (o Evangelho) e sua própria consciência.
Não é pecado ser rico. Mas Deus manda que os ricos sejam ricos também em generosidade. Entretanto, o socialismo vê toda riqueza (exceto a elite socialista rica) como exploração. A Bíblia não vê todos os ricos como exploradores. Há ricos e há exploradores. E há exploradores ricos.
Em seu livro, Perkins escreve:
“‘Somos um clube bem pequeno e exclusivo,’ [a agente da NSA] me disse. ‘Somos pagos... muito bem pagos... para enganar países ao redor do mundo e subtrair-lhes bilhões de dólares. Uma grande parte do seu trabalho é encorajar os líderes mundiais a fazer parte de uma extensa rede de conexões operacionais que promove os interesses comerciais americanos. No final das contas, esses líderes acabam enredados nessa teia de dívidas que assegura a lealdade deles. Poderemos aliciá-los sempre que desejarmos — para atender às nossas necessidades políticas, económicas ou militares. Em troca, esses líderes sustentam as suas posições políticas com a construção de parques industriais, usinas energéticas e aeroportos para o seu povo. Enquanto isso, os proprietários americanos de empresas de engenharia e construção tornam-se muito ricos… [A agente especial da NSA] explicou como, ao longo da maior parte da história, os impérios se erigiam amplamente pelo uso da força armada ou pela ameaça do seu uso. Mas com o fim da Segunda Guerra Mundial, o surgimento da União Soviética e o espectro de um holocausto nuclear, a solução militar tornara-se arriscada demais.”
Perkins também mostra como os EUA mudaram profundamente o Irã por meio de ações econômicas clandestinas. Ele disse:
“O momento decisivo ocorreu em 1951, quando o Irã se levantou contra uma empresa petrolífera britânica que estava explorando os recursos naturais e o povo iraniano. A empresa era uma precursora da British Petroleum, a atual BP. Em resposta, o primeiro-ministro iraniano, altamente popular e eleito democraticamente (além de ‘Homem do Ano’ de 1951, segundo a revista Time), Mohammad Mossadegh, nacionalizou todos os recursos petrolíferos iranianos. A Inglaterra, ultrajada, buscou a ajuda do seu aliado na Segunda (aterra Mundial, os Estados Unidos. No entanto, os dois países temiam que uma retaliação militar fizesse com que a União Soviética saísse em socorro do Irã. Em vez de mandar os fuzileiros navais, portanto, Washington despachou para lá o agente da CIA, Kermit Roosevelt (neto de Theodore). Ele teve uma atuação excepcional, aliciando pessoas por meio de subornos e ameaças. Em seguida insuflou essas pessoas a organizar uma série de tumultos nas ruas e violentas manifestações, criando a impressão de que Mossadegh seria tanto impopular quanto incompetente. No fim, Mossadegh foi deposto e passou o resto da vida em prisão domiciliar. O xá Mohammad Reza, favorável à política americana, tornou-se o ditador incontestável. Kermit Roosevelt abrira o caminho para uma nova profissão, aquela em cujas fileiras eu estava me alistando.”
Evidentemente, a estratégia dos EUA no Irã acabou virando um tiro pela culatra, e hoje o Irã tem um ódio mortal dos EUA.
Perkins também disse:
“Em 1968, o ano em que fui entrevistado pela ASN, tornara-se claro que se os Estados Unidos quisessem realizar o seu sonho de império mundial (conforme imaginaram homens como os presidentes Johnson e Nixon), teriam de empregar estratégias nos moldes do exemplo iraniano de Roosevelt. Essa seria a única maneira de vencer os soviéticos sem a ameaça de uma guerra nuclear. Havia um problema, contudo. Kermit Roosevelt era um funcionário da CIA. Se ele tivesse sido pego, as consequências teriam sido terríveis. Ele orquestrara a primeira operação americana que derrubara um governo estrangeiro, e era provável que muitas outras semelhantes a sucedessem, mas era importante encontrar um método de atuar que não implicasse Washington diretamente. Felizmente para os estrategistas, a década de 1960 também atestou outro tipo de revolução: o fortalecimento de corporações internacionais e de organizações multinacionais a exemplo do Banco Mundial e do FMI. Este último era financiado basicamente pelos Estados Unidos e as nossas irmãs imperialistas da Europa. Uma relação simbiótica se desenvolveu entre governos, corporações e organizações multinacionais.”
Perkins explica mais sobre o trabalho sujo deles:
“Uma solução para o problema ‘Roosevelt como agente da CIA’ já tinha sido resolvida. As agências de informações americanas — incluindo a ASN — identificariam potenciais candidatos a AE, que poderiam então ser contratados por corporações internacionais. Esses AEs jamais seriam pagos pelo governo; em vez disso, eles tirariam o salário do setor privado. Como resultado disso, o seu trabalho sujo, se aparecesse, seria creditado à ganância corporativa em vez de uma política governamental. Além disso, as corporações que os contratassem, embora pagas pelas agências governamentais e as suas contrapartidas bancárias multinacionais (com dinheiro dos contribuintes), seriam isoladas da supervisão do Congresso e das investigações públicas, escudadas por um corpo crescente de iniciativas legais, incluindo marcas registradas, comércio internacional e leis sobre liberdade de informação.”
A Arábia Saudita é “sortuda.” Bilhões de seus dólares em contratos, verbas e salários para autoridades dos EUA têm protegido a nação islâmica das consequências tenebrosas dos assassinos econômicos.
Perkins era parente de Tom Paine (1737-1809), o líder americano revolucionário que lutou pela independência dos EUA da Inglaterra. Com sua consciência, Perkins tinha uma motivação para escrever seu livro contra as explorações da NSA e outras agências dos EUA. Ele disse:
Bastava-me recorrer à Revolução Americana e Tom Paine para ter o modelo. Lembrei que os britânicos justificavam os seus impostos alegando que a Inglaterra fornecia ajuda às colônias na forma de proteção militar contra os franceses e os índios. Os colonos tinham uma interpretação muito diferente.
Com informações de Foreign Affairs e BBC.
Leitura recomendada:

Um comentário :

Osmar Neves disse...

Já tinha lido a resenha feita pelo G. Edward Griffin e que se encontra aqui:

http://www.espada.eti.br/assassinoeconomico.asp


E estou acompanhando a série "The Blacklist". Com mais este artigo escrito pelo Júlio não tive dúvidas: preciso adquirir e ler o livro!