3 de junho de 2015

“Desinformação” e uma Fonte Questionável


“Desinformação” e uma Fonte Questionável

RESENHA LITERÁRIA: História do tenente-general Ion Mihai Pacepa difama lendário diplomata do Vaticano e mina relações positivas entre católicos e russos ortodoxos

VICTOR GAETAN
Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom (Desinformação: Ex-Chefe de Espiões Revela Estratégias Secretas para Minar a Liberdade)
Ion Mihai Pacepa e Ronald Rychlak
WND Books, 2013, $25.95
Para encomendar: www.wnd.com
Comentário de Julio Severo: Dias atrás, o estupendo artigo “A KGB inventou a Teologia da Libertação? Simples demais…” (link: http://bit.ly/1BimnBh), publicado originalmente pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, apontou para os exageros da argumentação de que a KGB criou a Teologia da Libertação. Essa ideia original é de Ion Mihai Pacepa. Pesquisando, encontrei outro escritor católico que, num artigo numa importante mídia católica dos EUA, também nota e anota os exageros de Pacepa. Logo que o livro de Pacepa saiu, eu o adquiri, como normalmente faço com todo livro publicado pelo WND. Aliás, tenho praticamente todos os livros do WND. Mas a obsessão de Pacepa de culpar a KGB (que já é culpadíssima de muitos crimes) por tudo o que acontece no universo parece estranha, para dizer no mínimo, e gera mais dúvidas do que certezas, ainda mais que dois autores católicos conservadores já o colocaram na parede com relação ao que ele mesmo disse e não pôde provar. Um dos autores, o premiado escritor católico Victor Gaetan, publicou sua análise em 2013 no prestigioso National Catholic Register (Registro Católico Nacional). Alguns tentaram desacreditar a análise dele nesses dois anos passados, mas a sorte não os favoreceu muito, especialmente nos pontos mais importantes levantados por Gaetan, cujas observações resistiram bem às críticas e permanecem firmes e relevantes. O grande desafio, pois, é ler o livro de Pacepa sabendo fazer a diferença entre o que é real e imaginário, filtrando o que parece ser mirabolante e impossível de comprovar. Levanta suspeitas, por exemplo, o fato de que Pacepa é elogiado pela CIA — elogio alegremente registrado no livro dele. Oposição à KGB, para um cristão conservador, não significa apoio automático à CIA, que, em matéria de espionagem e crimes, em nada perde para a KGB. Receber elogios da CIA, ou da KGB, é uma desvantagem, tendendo a tornar o elogiado digno de desconfiança. Conforme informações do próprio WND, o governo dos EUA ocultamente enviou muitos estoques de armas para os rebeldes sírios (em grande parte terroristas islâmicos ligados à al-Qaida) que estão estuprando, torturando e massacrando cristãos na Síria. A CIA teve papel destacado nesse esquema. Aliás, o WND acusa Hillary Clinton de ter ajudado a criar o ISIS, que tem massacrado milhares de cristãos no Oriente Médio. Além disso, sabe-se que a CIA deu bilhões de dólares para criar a al-Qaida no final da década de 1970, num esquema para fortalecer e utilizar o terrorismo islâmico para infernizar a União Soviética. Mas o esquema virou de cabeça para baixo quando um dos agentes islâmicos da CIA, o saudita Osama bin Laden, por algum motivo se revoltou e usou seu conhecimento e experiência contra os EUA. A CIA e seu ex-agente tiveram papel decisivo no fortalecimento do moderno terrorismo islâmico. Mas Pacepa parece desconhecer tudo isso, embora se apresente como especialista em assuntos de terrorismo islâmico. Ele insiste em atribuir 100 por cento da culpa à KGB. Pacepa, que supostamente ocupava um cargo de tanto destaque na KGB que lhe permitiria conhecer detalhadamente o envolvimento da CIA na fomentação do terrorismo islâmico internacional, no livro aparenta não ter tal conhecimento, ou o esconde a fim de ganhar as graças, favores e privilégios da CIA. Pesquisei extensamente seu livro “Desinformação” e não encontrei uma única crítica à CIA e nenhuma menção do fato de que a CIA teve e tem participação inegável no moderno terrorismo islâmico. De fato, o atual diretor da CIA é muçulmano, tendo se convertido a essa religião assassina quando estava na Arábia Saudita. Mesmo assim, à CIA, Pacepa reserva somente elogios; à KGB, críticas. Por que não, por justiça, criticar os dois? Em “Desinformação,” Pacepa diz que sua proteção, identidade e outras questões pessoais estão a cargo da CIA. Nesse ponto, alguns poderiam questionar se o livro de Pacepa denuncia a desinformação ou é um instrumento de desinformação. Eis o artigo de Victor Gaetan:
Ion Mihai Pacepa (à direita) meses antes de sua deserção para os EUA em 1978
A era soviética é um capítulo profundamente trágico na história da Igreja Católica.
Embora o Cristianismo triunfou — a perspectiva do Evangelho acerca da dignidade individual derrotou o materialismo e a luta de classes de Marx — perdemos muito: milhares de cristãos devotos, inclusive bispos assassinados e presos, propriedades da Igreja Católica confiscadas e destruídas, gerações de católicos que não foram catequizados e a supressão dos sacramentos.
Nenhum livro abrangente foi ainda escrito sobre a visão e bravura da Igreja Católica contra o comunismo (embora o papel central do Bendito João Paulo II tenha sido bem descrito em alguns).
Mas um livro recente dizendo-se capaz de oferecer novas informações sobre essa parte da história em vez disso traz confusão e exageros.
“Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism” (Desinformação: Ex-Chefe de Espiões Revela Estratégias Secretas para Minar a Liberdade, Atacar a Religião e Promover o Terrorismo), escrito pelo ex-tenente-geral romeno Ion Mihai Pacepa e por Ronald Rychlak, professor de direito da Universidade do Mississippi, é marcado por erros significativos que falsificam tanto a história quanto os desafios contemporâneos que a Igreja Católica enfrenta.
Uma estranheza acerca de “Desinformação” é sua autoria. Os autores são especificados, mas só um faz a narração. Pacepa é uma ex-autoridade comunista intensamente polêmica cuja deserção para os Estados Unidos em 1978 ainda não é bem compreendida. Pacepa, de 84 anos, nunca aparece em público, não responderá a perguntas por telefone e responde a emails apenas por terceiros, um dos quais me disse: “Nem sei se ele existe!”
Seu coautor é Ronald Rychlak, um professor de direito católico mais bem conhecido por seu livro “Hitler, the War and the Pope ” (Hitler, a Guerra e o Papa), uma defesa bem pesquisada do histórico do Papa Pio XII durante a 2ª Guerra Mundial. Em “Desinformação,” campanhas esquerdistas para difamar o Papa Pio são apresentadas como um exemplo da máquina de propaganda do Kremlin.
O que Rychlak contribui, extraído de sua obra anterior sobre o Papa Pio, parece sólido; o que Pacepa acrescenta, extraído de seu passado sórdido como capanga e estrategista stalinista por 27 anos na Romênia, é na melhor das hipóteses questionável.

A História e Pacepa

Seis anos atrás, Pacepa revelou um relato preocupante de que ele ajudou a KGB a se infiltrar nos Arquivos Secretos do Vaticano para roubar documentos a fim de incriminar falsamente o Papa Pio XII.
No artigo “Moscow’s Assault on the Vatican” (O Ataque de Moscou ao Vaticano), publicado em 2007, Pacepa afirmou estar convencido de que o monsenhor Agostino Casaroli, diplomata lendário do Vaticano — posteriormente cardeal e secretário de Estado sob o Papa João Paulo II — permitiu que três agentes romenos, posando de padres, examinassem os arquivos papais.
Sob análise, a história de Pacepa começou a se desfazer, com dúvidas expressas por historiadores e especialistas do Vaticano.
Então a razão que Pacepa afirmou para ter credibilidade junto ao Vaticano se desmoronou: Ele disse que havia criado um “negócio de espiões” em 1959, trocando Augustin Pacha, arcebispo romeno preso, por dois espiões apanhados na Alemanha Ocidental. Mas o arcebispo Ioan Robu de Bucareste mostrou fotos da cripta do bispo de 1954, explicando que o homem heroico já estava morto quando Pacepa afirmou tê-lo libertado.
Em “Desinformação,” Pacepa tenta de novo vender a história da infiltração no Vaticano. O livro não acrescenta nenhuma evidência nova para apoiar as alegações dele. Contudo, “Desinformação” acrescenta combustível para um debate permanente acerca o próprio passado de Pacepa.

O Envolvimento de Casaroli

Uma das afirmações surpreendentes que Pacepa faz, no artigo e no livro, é que, numa reunião face a face em Genebra, o monsenhor Casaroli concordou “em princípio” dar à Romênia um empréstimo sem juros de 1 bilhão de dólares em troca da restauração de plenas relações diplomáticas com o Vaticano — relações que foram rompidas de modo dramático em 1950, quando a Romênia expulsou o núncio apostólico.
Ao lançar suspeitas sobre o caráter e a capacidade do cardeal Casaroli discernir, Pacepa mina a integridade de toda a estratégia do Vaticano entre 1963 e 1989 conhecida como “Ostpolitik.”
Essa política envolvia manter diálogo com governos comunistas a fim de ajudar a Igreja Católica e seus membros perseguidos atrás da Cortina de Ferro sem legitimar ditaduras. Em sua autobiografia, o cardeal Casaroli descreveu esse esforço como “excepcionalmente difícil.”
O Vaticano estava convencido de que a repressão comunista acabaria levando à queda da ideologia inteira. O cardeal Casaroli comparou o comunismo a uma árvore imensa que parece grande e poderosa, mas que por dentro está apodrecendo.
De acordo com o cardeal Achille Silvestrini, que auxiliava o cardeal Casaroli, o emissário trabalhou diretamente para três papas em tarefas específicas; ele não era um negociante embusteiro fazendo negociações suspeitas com oportunistas comunistas de nível médio.
“O cardeal Casaroli começou em 1963, de um modo muito organizado, como resultado de muita ponderação no nível mais elevado. É impossível que ele tenha conversado sobre dinheiro ou um empréstimo com esse homem [Pacepa] ou usado seu escritório para facilitar espiões,” o cardeal Silvestrini disse ao Register.
De acordo com o monsenhor Gabriele Caccia, assessor da Secretaria de Estado da Santa Sé, nunca se fez nenhum empréstimo para a Romênia.
Os cardeais Giovanni Cheli e Luigi Poggi, diplomatas do Vaticano, estavam envolvidos em negociações com a Romênia e o bloco soviético. O cardeal Cheli chamou as alegações de Pacepa de “cenários mentirosos,” enquanto o cardeal Poggi os declarou “produtos de uma mente e alma perturbadas.”
O arcebispo Robu, que foi consagrado pelo cardeal Casaroli, enfaticamente chama de falso o que Pacepa disse: “Saberíamos, estaria em nossas memórias, se espiões romenos ganhassem acesso aos Arquivos do Vaticano. Não aconteceu.”

Profundamente anti-russo

No geral, “Desinformação” é agressivamente anti-russo. Pacepa não faz diferença entre a era soviética e a era pós-comunista.
A descrição cáustica que Pacepa faz da Rússia e da Igreja Ortodoxa hoje contradiz de modo direto a política do Vaticano. O Vaticano vê a Rússia, junto com a Europa e a América Latina, como parte da civilização ocidental — e um baluarte contra as tendências anticristãs.
O Papa Bento 16 estabeleceu plenas relações diplomáticas com a Rússia e diálogo intenso com a Igreja Ortodoxa (que representa 71% da população da Rússia), que está experimentando um renascimento. As duas igrejas estão mais próximas hoje do que talvez em qualquer tempo desde o Cisma Oriente-Ocidente de 1054.
Em “Desinformação,” Pacepa atribui tudo a operações da KGB, desde conspirar para assassinar o presidente americano John F. Kennedy até provocar o nascimento do extremismo islâmico. Em cada cenário, ele se retrata como alguém que viu com os próprios olhos a história — quando sua verdadeira patente e descrição de cargo nunca explicariam acesso a esses eventos e decisões.

A Vizinhança que O Conhece

Larry Watts, historiador americano e especialista em inteligência que assessorou o governo romeno pós-comunista acerca de como impor controle sobre as agências de espionagem da Romênia (e fazê-las ficar em conformidade com as normas da OTAN), publicou um estudo importante sobre o relacionamento da Romênia com a União Soviética, “With Friends Like These: The Soviet Bloc’s Clandestine War Against Romania” (Com Amigos Assim: A Guerra Clandestina do Bloco Soviético contra a Romênia), em 2010, com base em pesquisas extensas em arquivos da Alemanha Oriental, União Soviética e Romênia.
Watts conclui que Pacepa deve ter sido um espião da KGB, em grande parte pelo modo como ele tentou abalar o relacionamento entre EUA e Romênia quando ele desertou para os Estados Unidos em 1978, fazendo negociações mediante o argumento de que a Romênia era um cavalo-de-troia dos interesses soviéticos.
A hipótese de Watts acerca de Pacepa foi recebida como uma bomba na Romênia, principalmente porque significa que ele é um traidor: Um agente soviético trabalhando na Romênia, principalmente depois de 1958, estaria dirigindo eventos contra as preferências e interesses da Romênia.
Dois meses atrás, um simpósio importante num museu de Bucareste foi realizado com o título “O Arquivo Pacepa.” O simpósio reuniu intelectuais, historiadores, jornalistas e políticos que lidaram com assuntos em torno de Pacepa, inclusive se ele era um agente da KGB ou não.
Um assunto foi a credibilidade de Pacepa, considerando o papel dele como iniciador de crimes contra opositores anticomunistas. De acordo com Dinu Zamfirescu, assessor científico do presidente do Instituto de Investigação de Crimes Comunistas e autoridade da CNSAS, Pacepa assinou ordens para incriminar falsamente e assassinar anticomunistas exilados.
O documento oficial Plan de Masuri (Planos Operacionais contra um Alvo), assinado por Pacepa, ordenava “intimidação frequente e a aplicação de medidas físicas corretivas” contra funcionários da Rádio Europa Livre. A CNSAS concluiu em 2006 que Pacepa era um agente da polícia política comunista da Romênia.
Quando perguntado em 2007 pelo serviço noticioso Zenit o que ele achava da história de Pacepa, o Pe. Peter Gumpel, relator do caso da canonização do Papa Pio XX, explicou seu ceticismo, dizendo: “É necessário levar em consideração que os espiões precisam justificar sua existência e precisam dar valor a coisas que têm pouca ou nenhuma importância.”
Apesar da intenção de defender o Papa Pio XII, a pose de Pacepa em “Desinformação” é audaciosa e insincera. Os leitores precisam tomar cuidado.
Victor Gaetan, que vive em Washington, é correspondente do National Catholic Register (Registro Católico Nacional). Ele é colunista da revista Foreign Affairs (Assuntos Estrangeiros). Em 2011 ele recebeu o prêmio máximo da Associação de Impressa Católica dos EUA por uma série de artigos no Register sobre Cuba.
Traduzido por Julio Severo do original do National Catholic Register (Registro Católico Nacional): “Disinformation” and a Dubious Source.
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