10 de março de 2015

Cristãos socialistas e conservadores são iguais, insinua Gutierres Siqueira


Cristãos socialistas e conservadores são iguais, insinua Gutierres Siqueira

Julio Severo
Em artigo intitulado “Pode um cristão abraçar ideologias?” no GospelPrime, Gutierres Siqueira começa apontando acertadamente que a ideologia é um “sistema de ideias.” Ele também acerta quando diz que “o ideólogo é outro nome para um religioso. E essa religião pode ter como deus a moral, o dinheiro, o progresso, a ciência, a igualdade, a liberdade, o Estado, o feminino, o meio ambiente, o indivíduo, a sexualidade, etc. O ideólogo é um crente, secular ou não, mas é um crente.”
Ele dá um final adequado quando diz: “O cristão tem como centro a pessoa de Cristo Jesus. E Cristo está acima das ideologias, não só em qualidade, mas como juiz de toda ideia, ideal e doutrina.”
No entanto, Gutierres começa a escorregar quando declara: “Toda ideologia só destaca uma ou outra faceta da graça comum. Um conservador valoriza a tradição, um liberal a liberdade e um progressista exaltará a igualdade.”
Nessa visão pluralista, conservadores, liberais e progressistas são iguais e estão no mesmo nível. No que se refere à salvação, Gutierres teria razão. Sem Cristo, o ateu, o progressista, o católico, o evangélico, o pentecostal, o calvinista, o neopentecostal, o marxista, o conservador e todos os outros estão igualmente perdidos.
Mas Gutierres parece não ter focado nos que estão no mundo. O foco de seu texto foi apenas os cristãos, e o único problema que ele viu na atitude de um cristão ser conservador ou progressista foi a “falta de moderação.”
O que ele interpretaria como “moderação”? Um conservador pode lutar contra o aborto, mas não muito? Um progressista (outro termo para designar socialista) pode promover o aborto e a agenda gay, mas não muito? Sim, há evangélicos que defendem o aborto. A maior denominação presbiteriana dos EUA, que é progressista, defende o aborto e o infanticídio. Essa denominação é também hostil a Israel.
Gutierres diz: “A falta de moderação é a tônica de um ideólogo, pois não há moderação diante de um deus. Todo ideólogo levanta uma bandeira aparentemente virtuosa, mas a sua missão é totalizar aquela virtude a todos os homens. Eis aí a tragédia de todo idealista.”
Então, se a bandeira e missão do progressista é totalizar a “virtude” da teologia gay e do aborto a todos os homens, a bandeira e missão do conservador é totalizar a virtude da defesa da vida e da família a todos os homens. Para Gutierres, os dois lados são iguais.
A ideia de Gutierres é que todos devem ter Cristo como centro, e o resto não importa. Não importa se o cristão é progressista ou conservador. Todos são iguais. Essa igualdade estranha leva a uniões estranhas, inclusive o ecumenismo.
Gutierres é da Assembleia de Deus, uma denominação que em tempos passados era radical em posturas morais e não fazia concessões para uniões estranhas. A Assembleia de Deus costumava ser totalmente avessa ao ecumenismo.
O que aconteceu com esse assembleiano? Talvez suas experiências pessoais expliquem sua visão “democrática.” No artigo “Pode um cristão abraçar ideologias?” ele assina como Gutierres Siqueira, “Graduado… pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro do Conselho Administrativo do Seminário Martin Bucer Brasil.”
O Mackenzie parece se encaixar na visão de que tanto faz você ser conservador quanto progressista. No Mackenzie, você encontra a nata do suposto conservadorismo calvinista. Eles defendem muitos valores pró-família, mas com “moderação,” sem fazer embates sérios contra ativistas homossexuais e abortistas. História diferente ocorre quando o assunto é atacar os dons sobrenaturais do Espírito Santo ou o neopentecostalismo: nesse caso, toda moderação vira imoderação.
Excetuando o neopentecostalismo, toda ideologia é aceita no Mackenzie. Se de um lado havia o “conservador” Augustus Nicodemus (considerado o maior expoente da heresia cessacionista no Brasil), do outro lado há Ricardo Bitun, coordenador dos cursos de teologia na maior universidade presbiteriana do Brasil. Na sua gestão como chanceler, a missão de Nicodemus era garantir que o Mackenzie mantivesse sua fidelidade à sua confissão presbiteriana. Mas ele foi moderado, permitindo que Ariovaldo Ramos desse aulas especiais em sua instituição. Tanto Ariovaldo quanto Bitun são figuras proeminentes da Teologia da Missão Integral, que é a versão protestante da Teologia da Libertação.
Gutierres então fala de “moderação” porque, possivelmente, ele a viu em ação no Mackenzie? Foi ali que ele aprendeu isso? Não sei dizer. Mas sabe-se que, sentindo-se carentes de conhecimentos teológicos, muitos assembleianos estudam teologia no Mackenzie, e depois se tornam papagaios repetidores de muitas teologices desnecessárias. A maioria dos estudantes de teologia dessa universidade presbiteriana não é calvinista: é pentecostal. Todos sentindo-se carentes de teologices.
Gutierres é membro do Conselho Administrativo do Seminário Martin Bucer Brasil. Na Alemanha, esse seminário é presidido por Thomas Schirrmacher, teólogo calvinista alemão proeminente em importantes esforços ecumênicos internacionais, inclusive diálogo com muçulmanos.
Com mais conhecimento e experiência que o jovem assembleiano brasileiro, Schirrmacher diria “Amém” à visão pluralista dele. O próprio alemão é pluralista.
A atuação de Schirrmacher foi destaque na Conferência “Cristo no Posto de Controle,” onde ele foi palestrante. Essa conferência reúne a nata dos teólogos da Teologia da Libertação Palestina e visa desconstruir e minar o apoio dos evangélicos a Israel. Essa conferência é tão radical que até o governo de Israel já alertou para que os evangélicos a evitem.
“Moderação,” que Gutierres supostamente aprendeu com os calvinistas, é ter abertura para a Conferência “Cristo no Posto de Controle,” conforme o exemplo de Schirrmacher?
“Moderação” é ter abertura para Ricardo Bitun e Ariovaldo Ramos, conforme o exemplo de Nicodemus na sua gestão “conservadora” no Mackenzie?
Depois de salvo, o cristão é livre para escolher ser um progressista ou conservador, contanto que seja “moderado”?
Independente de moderação, ser evangélico progressista, esquerdista, socialista e marxista é uma contradição, pois sua ideologia compete pelo seu coração, ameaçando o cristão como indivíduo e a igreja.
Nenhuma ideologia tem ameaçado, contaminado, minado, sabotado e corroído tanto as igrejas e os cristãos nestes últimos tempos quanto a Teologia da Libertação, a Teologia da Missão Integral e outros marxismos disfarçados de teologia cristã.
Com moderação ou não, essa ideologia mata: no espírito e na alma, como ocorre na Europa e cada vez mais nos EUA, onde o Cristianismo se tornou mera ferramenta do marxismo social-democrata pró-aborto, pró-homossexualismo e pró-islamismo. Nos casos mais graves, o marxismo mata o corpo, como ocorria na União Soviética e agora na Coreia do Norte.
Mas o conservadorismo mata o quê? O conservadorismo não é uma ideologia assassina. Se o conservador vive onde existe socialismo, ele trabalha para eliminar essa ameaça. Se o conservador vive onde há capitalismo, ele alerta que um capitalismo sem valores morais e Cristianismo acaba se tornando ganância destrutiva. Sem esses valores, o capitalismo é mera ferramenta de exploradores e oligarcas, inclusive socialistas.
O socialismo não se aproveita nem com esses valores, mas o capitalismo só presta com eles.
O conservador saudável sempre trabalha contra essas duas ameaças, e por um capitalismo saudável com valores morais e cristãos.
Quando a sociedade é iludida pelo socialismo, o conservador dá seus alertas.
Quando a sociedade se deixa levar por um capitalismo sem valores morais e cristãos, o conservador ensina sobre a necessidade desses valores.
Claro que, como tudo o mais na vida, deve existir sim um equilíbrio no ativismo do evangélico conservador, mas é duvidoso se o Mackenzie poderia ser a melhor fonte de referência para tal equilíbrio, que não é fácil, mas possível.
Cristo e a evangelização devem ser prioridades na vida do seguidor de Cristo, como meu artigo “O que é um conservador evangélico?” apontou muito antes do artigo do Gutierres.
Mas do jeito que está, o texto de Gutierres acaba preparando o terreno para o ecumenismo ou uniões semelhantes — terreno que não é estranho na organização calvinista da qual ele faz parte. Esse tipo de união ou ecumenismo é tolerado por oportunismo, não amor a princípios bíblicos.
Quanto à insinuação dele de que conservadores e progressistas são iguais, isso é falta de bom senso. Claro que o conservador que não tiver Cristo vai para o inferno, onde passará a eternidade com os progressistas que rotineiramente defendem o aborto e a agenda gay.
Mas quando o homem se converte de fato a Cristo e ouve a voz do Espírito Santo, o conservadorismo é uma missão secundária importante, sem concessão aos progressistas e suas agendas — a não ser que ele resolva estudar no Mackenzie, cuja “democracia” calvinista tem sempre espaços abertos para progressistas, “conservadores” e cessacionistas.
A mensagem mackenzista essencial aparentemente transmitida por Gutierres é que não importa se somos conservadores ou progressistas. Se formos “moderados,” todos terminaremos no céu. E se um dia todos vamos estar no céu, por que não nos unirmos agora?
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