6 de junho de 2013

EUA estão ajudando a reconstruir o Império Otomano


EUA estão ajudando a reconstruir o Império Otomano

Robert E. Kaplan
Todas essas intervenções militares dos Estados Unidos aconteceram em uma área que foi parte do Império Otomano, e onde um regime secular foi substituído por um islâmico. Até agora, a política da Alemanha de manter escondido o seu papel de liderança na tentativa de reconstituir o Império Otomano foi bem sucedida.
Desde meados da década de 1990, os Estados Unidos intervieram militarmente em vários conflitos armados na Europa e no Oriente Médio: lançar bombas na Sérvia em apoio ao regime muçulmano de Izetbegovic na Bósnia em 1995, lançar bombas novamente em apoio a guerrilheiros muçulmanos em 1999, lançar bombas sobre o regime líbio de Kadafi em apoio aos rebeldes em 2010. Para os americanos, a justificação para cada intervenção foi motivada por questões humanitárias: para proteger muçulmanos bósnios dos sérvios genocidas, para proteger muçulmanos de Kosovo dos sérvios genocidas, e para proteger os líbios do ditador assassino Muamar Kadafi.
Outras desculpas para as intervenções também foram utilizadas: para ganhar uma posição estratégica para os Estados Unidos nos Balcãs, para derrotar o comunismo na Iugoslávia, para demostrar aos muçulmanos do mundo que os Estados Unidos não são anti-muçulmanos, para redefinir o papel da OTAN no período pós-Guerra Fria, entre outras.
Todas essas intervenções militares dos Estados Unidos aconteceram em uma área que foi parte do Império Otomano. Em cada uma delas, o regime secular acabou substituído por um islâmico, a favor da lei islâmica e da criação de um califado mundial. Os países que passaram pela “Primavera Árabe” a partir de 2010 sem a ajuda da intervenção militar americana, Tunísia e Egito, também foram parte do Império Otomano, e também acabaram governados por regimes islâmicos.
Nos Estados Unidos, a maioria das discussões sobre os conflitos militares na década de 1990 nos Balcãs e sobre a “Primavera Árabe” entre 2010 e 2012 não mencionam que as áreas envolvidas foram parte do Império Otomano, inclusive a Turquia, as áreas habitadas por muçulmanos em torno do Mediterrâneo, o Iraque, as regiões costeiras da Península Árabe e partes dos Balcãs. Nas áreas que passaram pela Primavera Árabe, o papel da Turquia todas as vezes foi de apoiar os rebeldes e rapidamente reconhecê-los como um governo legítimo do país em revolta.
E os líderes turcos conectam os conflitos na Bósnia, a “Primavera Árabe” e o Império Otomano. Harold Rhode, um americano especialista em Turquia, noticiou:
Os recentes [2011] discursos de Erdogan [presidente da Turquia] após sua vitória eleitoral colocam em evidência suas verdadeiras intenções com relação à política externa da Turquia. Segundo ele, sua vitória é tão importante em Ancara quanto o é na capital da Bósnia e Herzegovina, Sarajevo, que era uma importante cidade otomana nos tempos do império; que a festa de sua vitória foi tão importante em uma grande cidade como Izmir, na costa oeste de Anatólia, quanto em Damasco, e tão importante em Istambul quanto em Jerusalém…
Ao dizer que essa vitória é tão importante em todas as ex-cidades otomanas, Erdogan aparentemente se vê na tentativa de recuperar na sua totalidade o passado otomano da Turquia.
O fato de que desde 1990 cada país da Europa e do Oriente Médio que sofreu intervenção militar americana em um conflito militar interno ou em uma “Primavera Árabe” acabou com um governo dominado por islâmicos da Irmandade Islâmica ou pela al-Qaeda se encaixa bem na ideia de que esses eventos representam um retorno ao Império Otomano. Além de ser um império político governando um território e sua população, o Império Otomano alegou ser um califado com domínio espiritual sobre todos os muçulmanos, dentro e fora das fronteiras. Embora possa parecer estranho no início, a ideia de promover a renovação do Império Otomano em duas frentes: quebrar a estrutura política pós-otomana e promover um califado que islâmicos dizem desejar, parece bastante razoável.
Assim como os conflitos nos Balcãs na década de 1990 e a “Primavera Árabe” considerada em perspectiva histórica sugere que a Turquia pode estar tentando recriar seu antigo império, um exame do império turco em uma perspectiva histórica sugere uma possível parceria entre Alemanha e Turquia no projeto, considerando que, desde sua criação em 1870, a Alemanha viu a Turquia com seu império como seu mais valioso cliente e aliado. Na visão dos líderes da Alemanha, a Turquia era controlável por meio de uma combinação de intercâmbio comercial e presentes como oportunidades educacionais, disposição de conhecimentos técnicos e administrativos, e também propinas a autoridades turcas. A Alemanha via a influência da Turquia como um meio de influenciar os muçulmanos ao redor do mundo para seus próprios interesses. Como mostrou o estudioso alemão Worfgang Schwanitz, durante a 1º Guerra Mundial a Alemanha empregou o califado turco para promover a jihad (tumultos e rebeliões) em áreas onde muçulmanos eram governados por seus inimigos, que eram Rússia, da França, da Inglaterra e da Sérvia.
No entanto, nos cerca de 50 artigos reunidos em minha pesquisa sobre a consciência de parte dos americanos sobre uma possível conexão turca com a “Primavera Árabe”, não encontrei uma única menção a “Alemanha”. Somente em um link em um desses artigos, que levava a um artigo sobre a Corte Penal Internacional (CPI) que, com sua acusação a Muamar Kadafi e a emissão de um mandado de prisão contra ele, forneceu a base “legal” que legitimou os bombardeios da OTAN contra a Líbia, que deu a vitória aos rebeldes e terminou o regime de Kadafi, nele encontrei uma menção à Alemanha. Do artigo, “A Lawless Global Court" (Uma Corte Global sem Leis), escrito por John Rosenthal (Policy Review nº 123, 1º fev. 2004), descobre-se que a CPI é um projeto iniciado, promovido e até certo ponto financiado pela Alemanha. Levando isso em consideração, a ideia de que a CPI serve aos propósitos da Alemanha é senso comum. Por meio da conexão da Corte, a promoção alemã da “Primavera Árabe” fica clara. No entanto, quase nunca é mencionada. Esse silêncio exige uma explicação.
Mais tarde, encontrei uma referência explícita ao papel da Alemanha nisso tudo, principalmente na guerra contra o regime de Assad na Síria, no artigo de John Rosenthal German Intelligence: al-Qaeda all over Syria (Inteligência Alemã: al-Qaeda em Toda a Síria) no site do Asia Times, que noticia que o governo alemão apoia os rebeldes e seu braço político, o Conselho Nacional Sírio, contra Assad; que o governo alemão manteve em sigilo “por questões de interesse nacional” o conteúdo de vários relatórios da agência de inteligência alemã BND de que o massacre de civis na cidade síria de Houla em 25 de maio de 2012, em que Assad foi considerado responsável, foi na verdade cometido por forças rebeldes, e que “o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha está trabalhando com representantes da oposição síria para desenvolver “planos concretos” para uma “transição política” na Síria após a queda de Assad. Até agora, a política da Alemanha de manter escondido o seu papel de liderança na tentativa de reconstituir o Império Otomano parece ter sido bem sucedida.
Cada ação militar dos Estados Unidos na Europa e no Oriente Médio desde 1990, no entanto, com exceção do Iraque, seguiu um padrão evidente: Primeiro houve um conflito armado dentro do país onde a intervenção iria acontecer. A mídia americana fez uma grande cobertura do conflito. Os “bonzinhos” na história eram os rebeldes. Os “vilões”, que seriam atacados pelas forças militares americanas, eram brutalmente antidemocráticos, perpetradores de crimes de guerra, guerras contra a humanidade e genocídios. Figuras públicas prestigiosas, ONGs, entidades judiciais e quase judiciais e organizações internacionais clamavam por apoio aos rebeldes e ataque ao regime. Próximo passo, o presidente americano ordenava um apoio logístico e fornecia armas aos rebeldes. Finalmente, o presidente americano ordenava um ataque militar sob proteção da OTAN em apoio aos rebeldes. O ataque geralmente consiste em um bombardeio aéreo, o atual equivalente das canhoneiras dos séculos XIX e XX, que podiam atacar cidades costeiras de países militarmente fracos sem medo de retaliação. O resultado final de todas as intervenções americanas foi a substituição do governo secular por um regime islâmico em uma área que foi parte do Império Otomano.
Por que o governo dos EUA promoveria ativamente objetivos alemães, como a destruição da Iugoslávia (a Alemanha invadiu a Sérvia nas duas guerras mundiais) e a recriação do Império Otomano, é uma questão que precisa ser respondida.
Robert E. Kaplan é historiador, com doutorado pela Universidade de Cornell, especializando em Europa moderna.
Traduzido por Luis Gustavo Gentil do artigo do Conselho de Política Internacional do Instuto Gatestone: The U.S. Helps Reconstruct the Ottoman Empire
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3 comentários :

Ildo Gaúcho disse...

Isto pode ter ligação com o que foi idealizado pelo Clube de Roma sobre a divisão do mundo em dez supernações e de acordo com as profecias de Daniel. Seria a nação nr 7 (Oriente Médio e norte da Africa); curiosamente parece que a Turquia não faz parte dessa supernação, mas isso é um detalhe que talvez não estejamos entendendo bem ainda. Vale a pena você conectar teu artigo com as intenções do Clube de Roma e que tem tudo a ver com as profecias bíblicas.

Moacir R. S. Junior disse...

Ildo, dá uma olhada nos dois links abaixo para você ter uma ideia da participação da Turquia nos acontecimentos dos tempos finais:
http://misterio777.blogspot.com.br/2013/04/a-simetria-e-profecia-parte-1.html

http://misterio777.blogspot.com.br/2013/04/simetria-e-profecia-parte-2.html

Anônimo disse...

A Bíblia fala de um novo império que irá se formar nos tempos do AntiCristo.

Se vocês observarem todos esses países que a Bíblia cita são hoje países muçulmanos.

Haverá um império muçulmano e não europeu como boa parte das pessoas pensam.

A Europa será subjugada por este Império, fazendo posteriormente, parte dele.

Os governantes tanto dos EUA como da Europa tem promovido isso e boa parte da população destes países permanecem cegos perante esta ameaça.

Joel Richardson deixa isso bem claro nos seus livros.

Um deles é "O Anticristo Islâmico".