14 de dezembro de 2012

De cara, Anajure propõe opinião das massas para decidir princípios universais


De cara, Anajure propõe opinião das massas para decidir princípios universais

Comentário de Julio Severo: O texto de hoje, proveniente do Mídia Sem Máscara, trata de um assunto polêmico, especialmente porque confronta o primeiro passo de uma entidade evangélica que foi criada recentemente se propondo a atuar na defesa da vida.
Precisei entrar na questão porque fui cobrado por gente ligada à VINACC, que não ficou contente com o editorial do Mídia Sem Máscara, e queria que eu também me posicionasse contra ele. Eu até poderia fazer isso, se houvesse base suficiente.
Como o assunto envolve questão jurídica, precisei enviar o texto inteiro, sem comentário, para a apreciação do grande jurista do Brasil, o Dr. Ives Gandra, que depois de ler tudo me disse:
“Princípios universais não se submetem a opiniões circunstanciais”.
Tal postura só reforça o sentido do artigo, que vai na mesma direção.
Mas o Dr. Ives também comentou, em sua correspondência para mim, sobre a tática da ANAJURE. Ele disse:
“A tática da ANAJURE, que tem certeza da vitória no plebiscito, é tirar o direito dos abortistas de continuarem na defesa da sua legitimação do assassinato uterino. De qualquer forma, é um risco”.
Quero deixar claro aqui que a discordância não é com a instituição, mas com o primeiro passo que ela está dando, que, conforme bem apontou o Dr. Ives, é um risco. É um risco permanente, pois o ativismo pró-aborto domina as universidades, as grandes mídias e outros espaços de influência cultural. Nada vai impedi-los de continuar manipulando as opiniões das massas até chegar a um ponto onde fiquem muito mais alinhadas com as ideologias deles, de modo que, posteriormente, possam exigir um novo plebiscito, quando as condições estiverem muito mais favoráveis a eles.
E sabemos que quando um plebiscito favorece a nós que estamos no movimento pró-vida, os ativistas pró-aborto não deixam que a porta fique fechada. Mas depois que um plebiscito fala o que eles querem ouvir, a porta se fecha. Eles dizem que o povo falou, e ponto final.
A tática que usamos hoje poderá virar a forca que eles usarão contra nós amanhã.
Em 2010, ataquei a tática da candidata Marina Silva de propor plebiscito. Na época, eu disse:
Embora ela fale no nome de Cristo, quem governa seus valores de forma decisiva é o DNA do PT e da Teologia da Libertação. Se o aborto e o homossexualismo fossem avidamente combatidos pela Teologia da Libertação, Marina desceria de seu muro ensebado para dizer alto e bom som: “Aborto é crime! Não aceito plebiscito para discutir o direito fundamental à vida. Vida não se discute; se defende!” Ou: “Sodomia é perversão! Ponto final!” Ficar em cima do muro nessas questões? Nem pensar!
Neste link, você poderá ver Marina contando para Caio Fábio sobre a grande influência da Teologia da Libertação em sua vida: http://youtu.be/ZGvsIXajiVs
Caio Fábio e Leonardo Boff são importantes conselheiros espirituais de Marina.
Por coincidência, no mesmo dia (11 de dezembro) em que o Mídia Sem Máscara publicou seu editorial, que consta abaixo, Marina anunciou para o Brasil o lançamento de sua articulação para a próxima eleição presidencial. Vamos começar a ouvir de novo, da boca dela, o papo de plebiscito. Dela, dá para esperar qualquer tática.
Mas de entidades cristãs que afirmam defender a vida, esperamos muito mais.
A caminhada pró-vida é, sem dúvida, uma longa caminhada. O primeiro passo errado pode levar para o desperdício de tempo, dinheiro e objetivos.
Espero que a ANAJURE possa refletir sobre a caminhada que pretender fazer e mudar passos que não estão na direção certa.
Eis o editorial do Mídia Sem Máscara que, apesar da dureza, tem um recado necessário:

De cara, Anajure troca princípios universais pela opinião das massas

Escrito por Editoria MSM
Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda darás testemunho, acompanhando a maioria, para perverteres a justiça. Êxodo 23:2
Causa estranheza que o presidente da recém-fundada ANAJURE (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos), Dr. Uziel Santana, de cara queira submeter à apreciação pública bens jurídicos inegociáveis, a exemplo da vida e da integridade física e mental das pessoas. Se a proposta do ilustre doutor prospera — aliás, uma proposta bem anticristã para um líder evangélico — por que não levar a ideia às últimas conseqüências, problematizando de um só golpe toda a nossa legislação penal?
Ora, se a capacidade de polemizar sobre assuntos sensíveis é a senha para submetê-los a um teste plebiscitário, havemos de reconhecer que não há limites para a “transvaloração de todos os valores”.  Existem ideologias que se especializaram precisamente nisso: relativizar valores consagrados, mesmo quando o resultado social dessa brincadeira seja algo absolutamente imponderável, quando não destrutivo.
A despeito dessas obviedades, o Dr. Uziel prefere lavar as próprias mãos. Se o povo é quem decide, vida longa a Barrabás! Segundo o presidente da ANAJURE, toda legislação de ordem moral precisa ter legitimidade. Disso ninguém discorda. Contudo, ele conclui daí que “impor uma conduta moral do Parlamento para baixo, sem ouvir o povo, isso não representa bem o estado democrático”. Não sabemos ao certo o que Dr. Uziel entende por democracia, mas será que devemos também submeter ao crivo popular os direitos e garantias fundamentais? Não teriam os direitos do indivíduo origem numa ordem moral que é anterior à própria existência dos homens e das sociedades? Eis aí uma boa questão para o Dr. Uziel meditar.
E se ele porventura perdeu a confiança nos ensinamentos bíblicos, poderá ao menos consultar os sábios conselhos da filosofia clássica:
“A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eterna, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que proíbe e, ora com seus mandados, ora com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus. Essa lei não pode ser contestada, nem derrogada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de seu cumprimento pelo povo nem pelo Senado; não há que procurar para ela outro comentador nem intérprete; não é uma lei em Roma e outra em Atenas, uma antes e outra depois, mas una, sempiterna e imutável, entre todos os povos e em todos os tempos; uno será sempre o seu imperador e mestre, que é Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desconhecê-la sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se do seu caráter humano e sem atrair sobre si a mais cruel expiação, embora tenha conseguido evitar todos os outros suplícios” (“De Republica”, Livro III, xvii).
Em toda a história humana, o livre mercado das ideias é pródigo em criar sofismas que respaldam moralmente as mais diversas condutas, desde que concorram para alcançar seus objetivos — afinal, “os fins justificam os meios”, não? Ideologias como o nazismo, o comunismo e o fascismo legitimaram — muitas vezes com apelos populares — práticas abomináveis como o genocídio, o terrorismo, a tortura e a eugenia. As trágicas lições deixadas pelo século passado deveriam sensibilizar até aquelas almas mais refratárias aos fundamentos divinos da ordem moral, que resiste intrépida às inovações bizarras de um “direito achado na rua”. Será que vamos repetir todo esse descalabro histórico? A experiência é uma escola muito cara — dizia Benjamin Franklin — mas é só nela que os tolos aprendem…
Vale destacar o quão grave é o pulo na armadilha que a ANAJURE armou, com o apoio de segmentos da bancada evangélica. Recorrer aos referendos, mas acolher seus resultados apenas quando convém, é uma tática usada de forma recorrente pela elite globalista, abertamente anticristã e politicamente correta, que agora leva a União Europeia à beira do abismo. Com tal posicionamento, a ANAJURE segue as trilhas da eco-paranoica Marina Silva, que, embora se declare evangélica, em questões sensíveis do direito natural, prefere flertar com os humores instáveis das massas.
A par da hegemonia cultural esquerdista em nosso país, financiada e dirigida por uma tecnocracia global que promove, entre outras coisas, o aborto e a eutanásia, fica ainda mais evidente o risco que se corre diante da proposta da ANAJURE, bem como se pressupõe a ingenuidade (se realmente é o caso) dos articuladores políticos da instituição.
A bem da verdade, a posição assumida pela ANAJURE é um ato de traição aos movimentos pró-vida, pró-família e de todos aqueles que defendem os valores judaico-cristãos nos espaços públicos, tendo-os como universais, irrevogáveis, inegociáveis, transcendentes e os únicos capazes de, quando adequadamente defendidos, proteger a civilização contra a barbárie e o democratismo barato.
Fazer com que princípios absolutos, auto-evidentes, se submetam à chancela das massas como primeira medida é relativizá-los de antemão. E nenhum cristão convicto pode dar apoio a uma instituição que, já em seus primeiros passos, assume um discurso demagógico para angariar a simpatia de poderosos globalistas e seus aliados brasileiros, especialmente políticos como Marina Silva.
Divulgação: www.juliosevero.com
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