29 de setembro de 2012

Dois caminhos de extravio


Dois caminhos de extravio

Edson Camargo
Há padrões de conversa entre cristãos que de tão repetitivos merecem ser analisados. Se algo acontece com muita frequência, certamente é por que as causas que geram o fenômeno estão atuando, e exercem uma influência decisiva e constante. Descrever tais conversas pode ser um exercício capaz de elucidar algo sobre estas causas e dar visibilidade a alguns problemas que podem estar obstruindo o conhecimento da realidade e o cumprimento da missão que Deus delegou à sua Igreja.
Vamos a um exemplo. Um pastor que conheço postou um comentário no Facebook falando da perseguição anticristã nos países islâmicos:
Em nenhum dos cerca de 50 países muçulmanos no mundo há liberdade de culto e de expressão de fato. Nem mesmo na Turquia, que é considerada a mais secular das nações islâmicas, essas liberdades são observadas. Em quase todos esses países as minorias religiosas são perseguidas, com destaque para os cristãos de todas as matizes, que têm sido sistematicamente perseguidos.
Abaixo, eis o primeiro comentário que surgiu:
Pastor (…), Eu particularmente, respeito todas as observações que são feitas por qualquer ser humano, sendo que mais ainda vindo de um pastor, e ainda mais de sua pessoa a quem tenho muita admiração. Porém NADA do que está acontecendo com a humanidade é novidade para quem lê a Bíblia, estes fatos já foram profetizados em vários trechos, sendo um particularmente em Mateus 24 pelo próprio Jesus Cristo. Eu considero até mesmo um ato de incredulidade, o cristão ler, sobre tais profecias, e depois ficar admirados com as notícias atuais. Estão esperando o que? Que seja mentira o que está escrito na Palavra de Deus, ou que Deus tenha se enganado?
Já ouvi inúmeras vezes essa conversinha mole pretensamente sábia. E me senti obrigado a fazer algumas considerações, afirmando que uma coisa é saber que as profecias vão se cumprir, e outra, tão importante quanto, mas que sempre é desprezada por muitos cristãos, é saber O QUÊ está acontecendo com a igreja hoje, COMO estas profecias estão se cumprindo, QUANDO estão, ONDE estão, QUEM são os autores dos atos que fazem as profecias serem cumpridas, e quais são as IMPLICAÇÕES de ordem prática para a igreja, que deve agir com prudência,visando ganhar almas, e ciente do que ocorre num mundo para o qual é chamada para ser sal e luz.
Prossegui observando que sempre surgem os gostosões espiritualóides assim que alguém tenta fazer algo relevante e que contribua para que a igreja saiba como se posicionar e atuar. É começar a trabalhar neste sentido, e aparecem os pretensos esquadrinhadores de Bíblia, destilando sua presunção, evocando obviedades (preciosas, sim) como as profecias, a inerrância, etc. Enfim, parafraseando Rick Nañez, os irracionalistas gostam de tentar provar que suas razões para permanecerem ignorantes são válidas.
Como se conhecer a Bíblia desobrigasse a pessoa a entender minimamente o contexto no qual vive. “Ato de incredulidade” é ler a Bíblia e achar que pode continuar desprezando os fatos que atingem seus irmãos na fé ao redor do mundo.”
E veio a réplica:
Prezado Sr Edson Camargo, mude então o quadro dos acontecimentos.
Aí estava a cereja do bolo. Um fatalismo tosco. Não me admira que tenha vindo no formato da “sentença concisa e fatal”, o arranjo retórico instantâneo que dá a questão por encerrada. A estupidez nunca argumenta; cospe sentenças “fatais”. Respondi que, se eu, ele, ou qualquer outro cristão não pudéssemos mudar “o quadro dos acontecimentos” em nada, não receberíamos a convocação “ide e fazei discípulos”, nem qualquer outro dom da parte do Senhor para fazer a obra DEle aqui na terra. Perguntei à criatura se ela já tinha ouvido falar no poder da oração. E se já havia refletido sobre o que Deus pode fazer quando o povo entende sua situação espiritual e histórica e busca agir seguindo os princípios das Escrituras e a direção do Espírito Santo. Ou sobre a doutrina do ‘mandato cultural’.
Acrescentei que alardear o óbvio de que “tudo isto já está profetizado” não passava de uma desculpinha vulgar e farisaica para permanecer nao só parado, fugindo de toda e qualquer responsabilidade, como para manter-se em confortável alienação. Conclui observando que este tipo de posicionamento, notoriamente negligente e presunçoso, já foi classificado como herético. Depois o irmãozinho disse que tinha sido mal compreendido, que concordava comigo e tal. Não sei, mas deixa para lá.
O outro extremo desse posicionamento também é epidêmico. É o do ativista notoriamente influenciado pelo pensamento de esquerda e pela teologia da Missão Integral. Ele pensa que vai mudar o mundo e contribuir com o fim das injustiças na Terra. (Falo nisso e já lembro da comparação feita por Michael Oakeshott entre o progressismo e a mentalidade de Nimrod e seus companheiros na construção da Torre de Babel, para mim, a primeira ONU.) Isso não passa de um analfabetismo existencial grosseiro que não leva em conta nossa condição de seres caídos. Sem levar em conta a ‘Queda’ no Éden, não é possível entender o ser humano, nem mesmo a razão da vinda, da morte e da ressurreição do “segundo Adão”, o Senhor Jesus Cristo. A extensão disso para um pensamento realmente cristão sobre questões antropológicas, sociais, culturais e políticas é simples: não se faz uma boa gemada com ovos podres. Há a “graça comum”? Sim. Há a cognoscibilidade da natureza absoluta da moralidade? Sim. Mas que ninguém pense que pode aperfeiçoar moralmente o ser humano para criar o tal “outro mundo possível”. Quem vai dar um jeito nesse mundo é Cristo. Não essa patota aí que produz infernos em série desde pelo menos desde a Revolução Francesa e vai entronizar o Anticristo, que, pelo que leio no capítulo 13 do Apocalipse, adora uma intervenção estatal na economia (e também na família, na educação, na cultura) igualzinho a estes esquerdinhas gospeis que acham um absurdo seus irmãos protestarem contra o gayzismo e o aborto.
E assim caminhanhos, entre tantos que decidem não querer saber de nada, e ainda assim pensam que podem dar lições, e outros tantos que, querendo aprender, se enredam nas armadilhas da hegemonia cultural da esquerda e vão contaminando os outros, fazendo a “criação de coelhos” da qual falava um dos arquitetos da usina de revolução cultural anticristã chamada Escola de Frankfurt, o sr. Willi Münzenberg. Já fui desse segundo grupo. Conheço bem a doença existencial e espiritual da qual padecem.
Aí estão duas formas de ser alienado na atual situação cultural e política. As duas têm versículos e slogans na ponta da língua. Em cada um desses grupos se vê, em muitos aspectos, uma espécie distinta de pecado em relação ao conhecimento: rejeitá-lo, negá-lo, e se desumanizar – pois o homem é racional por natureza – ou endeusá-lo a ponto de pensar que com ele podemos ser perfeitos como Deus. As palavras que os definem, como bem lembrou em certa ocasião Olavo de Carvalho, são parecidas: agnosticismo e gnosticismo.
Fonte: Gospel+
Divulgação: www.juliosevero.com

5 comentários :

Anônimo disse...

Eh...também ouço essa conversa mole de que: "Há, é assim mesmo, está tudo previsto na Bíblia, né!". Por trás desse tipo de comentário, o que se percebe mesmo é a omissão típicas da grande maioria dos cristãos brasileiros. Praticam o crime da omissão. 99% sequer sonha em se engajar nas igrejas, para denunciar o sofrimento dos cristãos perseguidos. Pensam somente em seus mundinhhos rasos e seus "ai, ai ai" cotidianos.

É vergonhoso o que vemos nas igrejas hoje, principalmente quando se trata de cristãos brasileiros, que já muito aculturados pela falta de solidaridade, pela inveja e pela idolatria de seus umbigos, enfim pelo comodismo; não se prestam nem mesmo a estudar e pesquisar um pouco mais a frente de seus próprios narizes.

Anônimo disse...

Para os interessados no tema:

http://www.wnd.com/2012/09/judge-oks-social-workers-invasion-of-homeschoolers/

PRESBÍTERO VALDOMIRO disse...

Não sei se muitos vão concordar com o meu ponto de vista, mas eu vou dizer exatamente o que eu penso (vocês podem me corrigir se, por acaso, eu estiver errado).

Que a Palavra de Deus está se cumprindo fielmente a cada dia que passa, eu creio que não há nenhuma dúvida quanto a isso. Que tudo que está acontecendo hoje já foi previsto antes da primeira vinda de Jesus à Terra, não quem possa contestar. Enfim, que a Palavra de Deus é a verdade eterna, isso qualquer cristão sabe.

O que temos que fazer (isto sim) é sair do nosso comodismo e continuar a pregar as verdades da Palavra de Deus. Temos que cumprir o "ide" que Jesus nos ordena (Marcos 16:15). E isso tem que ser feito não somente para os que não crêem, como também para muitos que se dizem cristãos (mas que estão acomodados diante de tudo que está acontecendo)!

E uma coisa é certa: ninguém, por mais bem intencionado que seja, jamais vai conseguir consertar o mundo (e, muito menos, reformar moralmente o ser humano). Somente Jesus fará isto na Sua segunda vinda.

Muitos que apenas se conformam com que o que a Palavra de Deus diz (mas não fazem nada) estão sendo negligentes no seu papel de cristão. É o caso de perguntar: quantas almas esses têm ganhado para Jesus? Têm alertado a todos sobre a necessidade de vigilância contra as ciladas do diabo? Têm esclarecido o que pode acontecer com a igreja diante dos acontecimentos atuais? Enfim, o que esses que se dizem cristãos têm realmente feito em favor do Reino de Deus?

Esses mesmos que se dizem cristãos talvez estejam esquecidos de que o juízo de Deus começará pela Sua própria igreja, como bem advertiu o apóstolo Pedro:

"Pois já é tempo de se começar o julgamento pela casa (igreja) de Deus; e se começa primeiro por nós (cristãos), qual será o fim daqueles que desobedecem ao evangelho de Deus? E se somente o justo se salva, onde aparecerá o ímpio e o pecador?" (1 Pedro 4:17–18, os parênteses são meus)

Quando muitos que se dizem cristãos estiverem diante de Jesus para serem julgados, certamente Ele vai lhes perguntar:

"O que vocês fizeram em favor do Meu reino quando estavam lá na Terra?"

Qual será a resposta que muitos que têm sido negligentes darão a esta pergunta?

Para muitos que se dizem cristãos (e que têm sido negligentes na obediência à Palavra de Deus), Jesus dá uma seríssima advertência:

"Nem todo aquele que diz: Senhor! Senhor! entrará no Reino dos Céus, mas somente aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos, naquele dia, hão de Me dizer: Senhor, não profetizamos em Teu nome? E não expulsamos demônios em Teu nome? E não fizemos obras grandiosas em Teu nome? Porém, Eu vos confessarei: Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mateus 7:21–23)

Será que muitos que se dizem cristão estão cientes disso?

Anônimo disse...

Péssimos também são os que odeiam a Cristo, escondidos sob o manto do agnosticismo, ateísmo e secularismo. Em geral, possuem formação acadêmcica em "çienças umanas" em alguma faculdade pública aparelhada pelo PT, PC do B, PSTU, PCO ou PSOL. Abusam da vigarice intelectual pela falsa equivalência moral da perseguição sofrida pelos cristãos versus perseguição sofrida por mulçumanos. Esbanjam pedantismo mediante citação de fontes bibliográficas, que acreditam corroborarem seus argumentos. Confundem, propositadamente, catolicismo, protestantismo e outros ismos com o verdadeiro discipulado cristão. Sua religião é o politeísmo material cujos os deuses são Marx, Darwin, Lênin, Stálin, Che Guevara, Fidel e Richard Dawkins.
No site http://noticias.gospelmais.com.br/
Tem um tal de "Paulo Agnóstico" que é o sumo representante da classe. Postei um comentário sobre o mesmo, mas a moderação não aprovou. Escrevi as mesmas coisas que ora escrevo aqui.

Spawnyu disse...

Você me descreveu bem irmão Julio Severo, percebi que eu estou com esse pensamento: "do que adianta lutar se a profecia diz que tudo vai acontecer".
Obrigado por compartilhar essas ideias, me abriu os olhos.