1 de junho de 2012

Análise do Friday Fax: Queda de Mortes Maternas Globais Não Significa Melhoria da Saúde Materna


Análise do Friday Fax: Queda de Mortes Maternas Globais Não Significa Melhoria da Saúde Materna

Dra. Susan Yoshihara
NOVA IORQUE, EUA, 25 de maio (C-FAM) No mundo inteiro, morre no parto quase metade do número de mulheres que morria 20 anos atrás, diz um recente relatório da ONU. A boa notícia esconde o triste fato de que para as mulheres em muitos países que querem mais filhos, elas arriscarão a vida para tê-los.
Em nível global, há menos mortes maternas porque há menos bebês nascendo. Em nível individual, menos gravidezes podem reduzir as probabilidades de uma mulher morrer no parto. Mas onde as mulheres escolhem ter famílias grandes, elas permanecem em risco elevado e até extremo, de acordo com o relatório recente. Mulheres de países de baixa renda têm uma chance de 1 em 56 de morrer de causas relacionadas à gravidez, enquanto o risco para mulheres em países ricos é 1 em 4200. Na África subsaariana, o risco é 1 em 39, quatro vezes e meia a média mundial.
Durante anos as principais agências de assistência do mundo fizeram do planejamento familiar prioridade absoluta ao tratar da saúde materna, num esforço para suprimir ainda mais a fertilidade. Intervenções médicas que realmente tratam da saúde materna — tais como atendentes de parto com experiência e assistência pré-natal — têm sido rebaixados aos pontapés à segunda ou terceira categoria na lista de financiamentos.
Um dos motivos é que essas agências acham mais fácil distribuir contracepção do que inspecionar sistemas de saúde em regiões longínquas. Outro motivo é que eles podem medir a “prevalência contraceptiva” com mais facilidade do que podem avaliar a melhoria de qualidade na assistência médica. Numa era de limitações fiscais e exigências de doadores para que haja mais prestação de contas, interesses particulares de agências guiam prioridades de financiamento que podem não fazer muito sentido médico.
Pegue por exemplo a resposta de Babatunde Osotimehin, diretor-executivo do FNUAP, aos números recentes. Nas mesmas palavras que seu antecessor usou com relação a relatórios anteriores com números vastamente mais elevados, Osotimehin promoveu ainda mais planejamento familiar dizendo: “Sabemos o que fazer, sabemos como fazer. Apenas continuaremos a ampliar essa escala”.
O que vem também guiando a agenda de saúde materna são alvos estritos fixados em nível internacional que não refletem necessariamente as realidades locais. Na virada do século, os líderes mundiais haviam concordado em reduzir o índice de mortalidade infantil em seus países e no mundo inteiro em 75% até 2015.
Cada um dos países que atingiu a meta experimentou uma queda de fertilidade de acordo com as estimativas da ONU. Desses dez, todos os países em desenvolvimento, exceto um, tiveram um declínio dramático. Na lista, os países restantes, que são da Europa, já tinham índices de fertilidade abaixo de 2 filhos por mulher, e caíram ainda mais.
De modo oposto, um terço das mulheres que morreram no parto em 2010 era da Índia ou Nigéria, onde a pobreza permanece elevada e o tamanho das famílias é relativamente grande em média. De modo geral, uma mulher enfrenta risco elevado de morte para trazer um filho ao mundo em 40 dos 180 países avaliados. Uma mulher do Chade ou Somália, que teve mais de 6 filhos em média durante 1990-2010, teve o risco mais elevado a vida inteira no mundo. As nações devastadas pela guerra são as únicas com mortalidade materna “extremamente” elevada, de acordo com o relatório.
Portanto, muito embora o relatório se gabe, “Todas as regiões das Metas de Desenvolvimento do Milênio experimentaram um declínio em índices de mortalidade materna”, não há nenhuma indicação de que as campanhas mundiais que priorizam o planejamento familiar fizeram uma diferença para as mulheres pobres ou mulheres em países que favorecem famílias grandes.
Aliás, o índice de mortalidade materna pode ser muito mais elevado do que os especialistas pensam. O índice de mortalidade é elevado em lugares em que os dados são escassos. O relatório admite que bons dados só existem onde uma fração magra de 15% dos nascimentos está ocorrendo, na maior parte no mundo desenvolvido. Não há dado algum para os 27 dos 180 países pesquisados, e 88 não têm “bons” dados. Em essência, apesar de melhores métodos de análise e coleta de dados, ninguém realmente sabe o nível do problema para a maior parte das mães. O relatório conclui que “não é possível explicar completamente a razão por que alguns países tinham declínios mais acentuados do que outros, ou por que alguns não faziam nenhum progresso”.
Em contraste com a priorização que a ONU impõe na redução da fertilidade por meio do planejamento familiar, ministros de saúde reunidos em Washington no mês passado frisaram melhor assistência de saúde e sistemas de distribuição. O Dr. Bautista Rojas, ministro da saúde da República Dominicana, disse que “componentes chaves” do programa desse país são “assistência obstétrica de emergência… uma série de práticas de assistência materna focadas na salvação de vidas, e um sistema de treinamento e supervisão no trabalho usando listas de controle” que aumentavam a qualidade da assistência.
O Dr. Mam Bunheng do Camboja creditou o sucesso ao fim da guerra, crescimento econômico, melhores estradas, telefones celulares, e mais e melhores postos de saúde e parteiras treinadas. Seu país oferece “incentivos de obstetrícia” que dão 15 dólares para um posto de saúde e 10 para um hospital de encaminhamento por todo nascido vivo em seu estabelecimento. Revertendo a posição das agências internacionais de assistência, o ministro da saúde do Camboja colocou o planejamento familiar em penúltimo lugar numa lista de seis desafios que seu país enfrentava, pondo a sobrevivência dos recém-nascidos, conexões para hospitais e melhoria da qualidade de assistência em primeiro lugar.
As campanhas enérgicas para reduzir as gravidezes como o principal meio de reduzir as mortes maternas permanecem inalteradas desde as décadas de relatórios anteriores da ONU declarando que mais de 500.000 mulheres morrem no parto anualmente. A ONU foi compelida a revisar esse número para quase metade depois que um grupo de pesquisadores independentes da Universidade de Washington desafiou os dados e metodologia da ONU em 2010. Na época, alguns pesquisadores argumentaram que seus colegas da ONU se mostraram incapazes de agir de forma imparcial por ocuparem o papel de determinadores das políticas públicas. Essa é a segunda edição consecutiva do relatório da ONU que compara sua metodologia à metodologia dos pesquisadores independentes, efetivamente confessando que eles não são mais o padrão ouro na pesquisa de saúde materna.
Tradução: www.juliosevero.com
Fonte: Friday Fax

Um comentário :

Anônimo disse...

Sem dúvida nenhuma que texto. Ester!!!!