5 de dezembro de 2010

Divorciados da realidade

Divorciados da realidade

Não culpe o lobby gay pelo declínio do casamento

Stephen Baskerville
Os defensores do casamento devem enfrentar alguns fatos incômodos ou vão perder sua luta — e com ela, muito possivelmente, sua liberdade religiosa, também. A decisão do juíz federal Vaughn Walker de anular a Proposta 8 [de defesa do casamento tradicional], na Califórnia, demonstra que, a menos que nós possamos demonstrar razões muito específicas pelas quais o casamento homossexual seja socialmente destrutivo, ele em breve será a lei em vigor.
Com conservadores tão proeminentes como Glenn Beck e Ann Coulter juntando-se àqueles "americanos influentes", nas palavras da National Review, que "têm, cada vez mais, passado a considerar a oposição ao casamento homossexual como irracional, na melhor hipótese, e intolerante, na pior," não podemos mais depender de afirmações vagas de que o casamento homossexual enfraquece de alguma forma o casamento de verdade — o que, em si, de fato, não ocorre.
Uma quantidade considerável de bobagens tem sido escrita por alguns oponentes do casamento homossexual, enquanto que algumas verdades fundamentais não estão sendo ouvidas. A análise dos fatos pode nos capacitar a vencer não só esta batalha, mas várias outras até mais importantes, envolvendo o declínio da família e a anomia que ele produz.
Primeiro: o casamento existe antes de mais nada para cimentar o pai à família. Este fato é politicamente incorreto, porém inegável. A falência do casamento produz ausência paterna em larga escala e não ausência materna. Como Margaret Mead apontou há muito tempo — sim, a esquerdista Margaret Mead tinha razão nisto — a maternidade é uma certeza biológica, enquanto que a paternidade é socialmente construída. O pai é o elo mais frágil da união familiar e, sem a instituição do casamento, ele é facilmente descartado.
As consequências de falhar em ligar os homens à sua prole são evidentes no mundo todo. De nossos bairros pobres e reservas indígenas até o norte da Inglaterra, dos banlieus de Paris à grande parte da África, a ausência paterna — e não a pobreza ou a raça — é o principal definidor de praticamente todas as patologias sociais entre os jovens. Sem a figura masculina do pai, os adolescentes perdem os limites e a sociedade mergulha no caos.
A idéia de que o casamento existe para o amor ou para "expressar e salvaguardar uma união emocional entre adultos," como um proponente coloca a coisa, é balela. Muitos relacionamentos humanos afetuosos e emocionais não envolvem o casamento. Mesmo o argumento conservador de que o casamento existe para criar os filhos é impreciso demais: o casamento cria a paternidade. Sem casamento não há pais.
Uma vez que se reconheça este princípio, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não faz sentido. A "descoberta" do juíz Walker de que "o gênero não forma mais uma parte essencial do casamento" torna-se absurda. O casamento entre dois homens ou duas mulheres simplesmente achincalha o propósito da instituição. A paternidade homossexual apenas afasta ainda mais os pais biológicos (e algumas mães, também) de seus filhos, já que pelo menos alguns dos pais homossexuais devem adquirir seus filhos de outras pessoas — normalmente através de um divórcio heterossexual.
Eis aqui a segunda verdade incômoda: não foram os homossexuais que destruíram o casamento, foram os heterossexuais. A ação de exigir o casamento homossexual é um sintoma, não uma causa da deterioração do casamento. De longe, a maior ameaça à família é o divórcio heterossexual. "Os comentaristas erram o alvo quando se opõem ao casamento homossexual sob o argumento de que ele minaria a definição tradicional do casamento," escreve o estudioso da família Bryce Christensen. "É só porque a definição tradicional do casamento já foi severamente minada que os homossexuais agora o estão reivindicando para si."
Embora os ativistas gays mencionem o seu desejo de se casarem como prova de que seu estilo de vida não é intrinsecamente promíscuo, eles prontamente admitem que o casamento não é mais a barreira contra a promiscuidade que já foi. Se os padrões do casamento já foram rebaixados, perguntam eles, por que os homossexuais não seriam admitidos na instituição?
“O mundo do sexo casual sem vínculos dos heterossexuais e as taxas de divórcio de 50% antecedem o casamento gay," aponta Andrew Sullivan. “Todos os homossexuais estão dizendo, se o casamento for isto, na atual definição, não há razão para nos excluirem. Se vocês quiserem fazer o casamento heterossexual retornar aos anos 50, vão em frente. Mas até lá, a exclusão dos gays é simplesmente uma anomalia — e a negação de uma igualdade civil básica."
A feminista Stephanie Coontz faz eco a este argumento: "Os gays e as lésbicas simplesmente olharam para a revolução que os heterossexuais tinham feito e perceberam que, com suas novas normas, o casamento poderia funcionar para eles, também."
Com isto, o terceiro fato inconveniente: o divórcio é um problema político. Não é um assunto privado e não vem de forças impessoais da decadência moral e cultural. Ele é guiado pela complexa e lucrativa máquina do governo, operando em nossos nomes e financiada pelos nossos impostos. Ele é imposto a pessoas que não o desejam, cujos filhos, lares e propriedade podem ser confiscados. Ele gera os males sociais que tornam racionais quase todos os gastos domésticos do governo. E ele é promovido ideologicamente pelos mesmos radicais sexuais que agora defendem o casamento homossexual. Os homossexuais podem ter razão sobre os heterossexuais terem destruído o casamento, mas os heterossexuais foram seus companheiros de ideologia sexual.
Os conservadores equivocaram-se completamente sobre o significado da revolução do divórcio. Embora lamentem o divórcio em massa, eles se recusam a confrontar a sua política. Maggie Gallagher atribui este silêncio à "covardia política": "Opor-se ao casamento gay ou aos gays no exército é uma questão fácil, dada e livre de riscos para os republicanos," escreveu ela em 1996. "A mensagem [é] que nós deveríamos manter o divórcio de fora da agenda política a todo custo."
Nenhum político americano de estatura nacional desafiou seriamente o divórcio unilateral. "Os democratas não quiseram irritar seu grande eleitorado feminino, que viam o divórcio fácil como uma liberdade e prerrogativa conquistada a duras penas," escreve Barbara Dafoe Whitehead. “Os republicanos não queriam alienar seu eleitorado nas classes altas nem sua ala libertária, ambas as quais tendiam a favorecer o divórcio fácil, e nem queriam chamar atenção para os divórcios entre seus próprios dirigentes."
Em sua famosa denúncia da paternidade solteira, o vice-presidente Dan Quayle teve o cuidado de deixar claro: "Eu não estou falando de uma situação em que há um divórcio." Um extenso artigo na atual edição do Political Science Quarterly [Periódico de Ciência Política] é dedicado ao fato — diante do qual o autor expressa espanto — de que os grupos cristãos auto-denominados "pró-família" não dediquem quase que nenhum esforço a reformar as leis sobre o divórcio.
Este fracasso prejudicou seriamente a credibilidade moral da campanha contra o casamento homossexual. "As pessoas que não censuram o divórcio não têm nenhum peso especial como defensores do casamento," escreve a colunista Froma Harrop. "O preço da autoridade moral não é baixo."
Da mesma forma que o casamento cria a paternidade, o divórcio hoje deve ser entendido como um sistema para destruí-lo. Não é por acaso que as varas de família tornaram-se principalmente um meio de pilhar e criminalizar os pais. Com um tal regime aparelhado contra eles, os homens têm um poderoso incentivo a não se casarem e começarem uma família. Não importa o quanto ralhem os moralistas de plantão, os homens não serão persuadidos a entrarem em casamentos que podem significar a perda de seus filhos, a expropriação e o encarceramento.
A quarta questão é mais difícil de apreender: o casamento não é uma instituição totalmente pública que o governo possa definir e regular legalmente. Ele certamente desempenha importantes funções públicas. Mas o casamento também cria uma esfera de vida além do controle oficial — o que o juíz da Suprema Corte Byron White chamou de "um âmbito da vida familiar no qual o Estado não pode entrar." Isso não significa que qualquer coisa possa ser declarada como um casamento. Pelo contrário, significa que o casamento cria uma zona singular de privacidade para um propósito acima de tudo: é a união dentro da qual os pais podem criar seus filhos sem a interferência do governo.
A progenitura, afinal de contas, é politicamente única. É o único relacionamento no qual as pessoas podem exercer autoridade coercitiva sobre outras. É a única exceção ao monopólio da força pelo estado, que é a razão pela qual o governo tenta constantemente miná-la e invadi-la. Sem a autoridade da progenitura, e especialmente da autoridade paterna, legitimada pelos vínculos do casamento, o alcance do governo é total. Isto já é evidente naquelas comunidades nas quais o casamento e os pais desapareceram e o governo entrou em cena para substituí-los com seus órgãos de assistência social, a concessão de pensões alimentíceas, a educação pública e o sistema público de saúde subzidiado com o dinheiro dos impostos.
O casamento é paradoxal em um sentido que é essencial para nossos problemas políticos — e isto causa uma considerável confusão entre os conservadores e libertários. O casamento deve ser reconhecido pelo Estado exatamente porque cria uma esfera de autoridade de progenitura da qual o estado deve então se retirar. Hoje, não se pode mais esperar que o governo adote voluntariamente este comedimento. Todos nós devemos exigir constanteemte que ele o faça. O casamento — para toda a vida e protegido por um contrato com valor legal — nos dá a autoridade legal e o posto avançado moral a partir do qual se pode resistir aos avanços do Estado.
As proibições ao casamento homossexual não vão salvar a instituição. Como escreve Robert Seidenberg no Washington Times, “Mesmo que os republicanos fossem bem-sucedidos em definir constitucionalmente o casamento como um relacionamento entre um homem e uma mulher, algum juíz em algum lugar logo descobriria um novo singnificado para 'homem' ou 'mulher', ou 'entre' ou 'relacionamento' ou qualquer uma da outra dúzia de palavras que podem aparecer na emenda."
Isto já está acontecendo. Na Grã-Bretanha, o Gender Recognition Act [Lei de Reconhecimento de Gênero] permite aos transexuais falsificarem retroativamente suas certidões de nascimento, para indicarem que nasceram com o gênero de sua escolha. “O efeito prático disto será inevitavelmente o 'casamento' homossexual," escreve Melanie Phillips no jornal Daily Mail. “O casamento como uma união entre um homem e uma mulher será destruído, porque 'homem' e 'mulher' não vão mais significar nada além de alguém se sentir como um homem ou uma mulher."
Então, qual é a solução? Um projeto já tramitando no congresso pode ser a resposta. Embora não tenha o objetivo primordial de salvar o casamento, a proposta da Parental Rights Amendment [Emenda dos Direitos dos Pais] é o primeiro passo concreto na direção correta. Ela protege "a liberdade dos pais para dirigirem a criação e a educação de seus filhos." Como isto fortalece o casamento?
A reafirmação dos direitos dos pais — em particular os casados — de criarem os próprios filhos enfraqueceria a interferência do governo na família. Sobretudo se enunciada como uma proteção aos vínculos entre os filhos e seus pais casados, esta medida poderia minar tanto o regime do divórcio quanto o casamento homossexual, ao estabelecer o casamento como um contrato permanente, conferindo direitos aos pais que devem ser respeitados pelo Estado. Dentro da união do casamento, isto preservaria os direitos dos pais, dos progenitores e dos cônjuges em geral, e tornaria o casamento homossexual por sua maior parte inútil. Os casamentos que produzam filhos seriam efetivamente indissolúveis e haveria menos crianças sem pais para os homossexuais adotarem. Os homens conseguiriam entender que, para terem plenos direitos como pais, eles devem se casar antes de conceber filhos e teriam, deste modo, um interesse em assegurar a pernanência da instituição.
Esta não é uma tarefa pequena. Isto significaria enfrentar as instituições sexuais radicais em sua totalidade — não só os homossexuais, mas seus aliados entre as feministas, as ordens de advogados, psicoterapeutas, assistentes sociais e escolas públicas. Isto aumentaria significativamente a aposta — ou antes, ressaltaria o quanto a aposta já é alta. Também focaria a atenção pública na interconexão destas ameaças à família e a liberdade. Isto incentivaria uma coalizão de pais com um interesse pessoal no casamento e nos direitos dos progenitores.
A alternativa a isto é continuar a repetir platitudes da boca para fora, e neste caso seremos desprezados como um coro de ranhetas, falsos moralistas e — sim, intolerantes. E nós perderemos.
Stephen Baskerville é professor adjunto de Ciências Políticas na Patrick Henry College e autor de Taken Into Custody: The War Against Fathers, Marriage, and the Family [Sob Custódia: A guerra contra os pais, o casamento e a família]
Tradução: Dextra
Divulgação: www.juliosevero.com

4 comentários :

Herberti disse...

Doído ler isto, principalmente por saber que é verdade. O divórcio como instituição social é realmente uma declaração tácita do nosso fracasso, como homens, de exercer com responsabilidade e caráter o papel paterno.
De fato, o homossexualismo militante nada mais é do que umas das piores consequências desta omissão. Gerações de crianças cresceram em uma condição de abandono afetivo, sem uma referência masculina saudável, sem terem suas identidades sexuais corretamente firmadas por uma autoridade paterna. É uma dívida impagável.

Renato disse...

Ele tocou no ponto: Milhões de meninos e adolexcentes privados de seus pais. Os governantes foram muito espertos, eles sabiam que esses meninos se tornariam mais propensos ao crime, à bebida e às drogas. Era exatamente isso que os globalistas (tanto esquerdistas como gnósticos, duas faces da mesma moeda) queriam, uma geração de adolescentes descontrolados, violentos, sem tranqüilidade mental para os estudos.

Nesa tática, sua principal ferramente foi a loucura das feministas, que odeiam os meninos, e queriam muito ve-los destruídos. E conseguram. foi um golpe terrível dos esquerdistas e gnósticos contra as crianças, um ataque conjunto usando as drogas e a despaternização.

Agora, uma reminiscência. Sempre causou-me espanto o descaso dos protestantes americanos com o divórcio. Isso, já há muitas décadas. Aparentemnte, durante a maior parte do século XX eles vinham considerado o divórcio como um "pequeno mal". Agora, espantam-se com os frutos terríveis que tem colhido.

Comento sobre isso: Aparentemente os protestantes são o grupo teísta que menos dá atenção à preservação do casamente, que menos dá atenção à presença dos país na criação dos filhos. Senão vejamos: Os católicos romanos tem sido mais cuidadosos sobre isso, os ortodoxos também, os nestorianos também (seu patriarca está até em grave risco legal por não concordar com o divórcio), os judeus ortodoxos também (embora tenham uma tradição de mais de 3,5 milênios de permissão para o divórcio, o divórcio é virtualemnte inexistente nas famlilias de judeus ortodoxos, é considerado algo gravíssimo).

E qual a posição dos evangélicos em geral? Embora o Eterno tenha afirmado "Eu abomino o divórcio", os evangélicos tem considerado como coisinha pequena o que para Deus é abominação. Grande parte dos evangélicos se divorcia, e os pastores nem sequer param para meditar sobre o porque isso acontece. Não buscam orientação de Deus, não sabem orientar os jovens, não se entristecem sequer com aquilo que o Criador chama de abominável. Nem mesmo dizem aos crentes "o casamento existe, principalmente, para proteger as crianças".

Deixaram o inimigo passar tranqüilo pela muralha externa, e agora, sitiados numa pequena cidadela, pensam que a guerra acabou de começar... Guias cegos, cães que não sabem ladrar, pastores que se apascentam a si mesmos. Quem nos dera, tivessemos pastores de verdade... A maioria são fracos na fé, ou fracos no conhecimento, ou fracos em sabedoria, ou fracos no amor, ou fracos na unção, ou fraocs em tudu isso. Um dia se cumprirá o que disse o profeta: Visto que os pastores não querem pastorear, o próprio Senhor pastoreará o seu rebanho.

Herberti disse...

Sobre o que Renato escreveu:
Uma das coisas mais comuns na igreja evangélica brasileira da atualidade é a enorme quantidade de homens (e mulheres) casados pela segunda ou terceira vez ocupando cargos de liderança e até pastoreando congregações, em flagrante contradição com o que o Novo Testamento estabelece para a vida do líder cristão. São coisas como estas que minam a autoridade moral e espiritual da igreja.

Anônimo disse...

Em suma: Como os cristãos não dão exemplo de preservar a família como preceitua as Escrituras, os movimentos feministas, gayzistas e esquerdistas de modo geral se sentem no direito de os superarem. É óbvio que o mau exemplo advém das igrejas ou das famílias que se dizem cristãs, mas não se comportam como tal. Somado a isso, há os muçulmanos que apresentam uma estrutura familiar mais sólida, porém continuam a ter como negativo a intolerância ao próximo e o ódio incutido pelo Estado islâmico. Agora é ridículo ler que uma entidade composta por pais ou ex-pais tenham que influenciar o governo para que respeitem ou retornem à forma familiar tradicional. Chega a ser hilário que a família tradicional cristã tenha chegado a esse ponto miserável diante de outros movimentos e o próprio Estado, que surgiu e se organizou nas bases da família cristã.
É de pasmar!
Onde está a Igreja? onde estão os pastores?
Divorciando-se das Escrituras é claro!