4 de outubro de 2010

Estatismo Sexual

Estatismo Sexual

O declínio da economia masculina — e da paternidade — advem menos do novo poder das mulheres do que da usurpação da família por parte do governo.

Stephen Baskerville
Em “O Fim dos Homens”, a matéria de capa da edição de julho/agosto da revista Atlantic, Hanna Rosin descreve “como as mulheres estão tomando o controle de tudo.” Sugerindo que “a economia da nova era está melhor adequada às mulheres,” Rosin acredita que o belo sexo está vencendo a luta pela sobrevivência dos mais fortes. No que aparentemente é causa para celebração, ela escreve que “três quartos dos 8 milhões de empregos perdidos foram perdidos por homens” na atual Grande Recessão. “Os setores mais atingidos foram majoritariamente masculinos e profundamente identificados com a figura do macho: construção, indústria, alta finança.” Ela sustenta que a crise econômica “simplesmente revelou — e acelerou — uma profunda alteração econômica que está ocorrendo há pelo menos 30 anos.”
A Atlantic usou o mesmo tema para indagar: “Os Pais São Necessários?Pamela Paul cita um estudo amplamente divulgado que tem a pretensão de provar que os pais são prejudiciais na criação dos filhos e que as lésbicas fazem isto melhor. O estudo é política camuflada como ciência social — seus autores reconhecem que as virtudes dos pais que eles celebram estão definidos “em parte a serviço de uma ideologia igualitária.” A mensagem deles faz eco à de Rosin: dentro de casa, como na economia nacional, os homens não são confiáveis, na melhor das hipóteses, e doentios, na pior. A Atlantic nos garante que o declínio dos homens é o produto de forças impessoais contra as quais somos incapazes de reagir, mesmo se desejarmos — o que, aparentemente, não desejamos.
Rosin, cujo ensaio é o número 1 da lista de “Maiores Idéias do Ano”, certamente identifica uma tendência importante. Mas o fenômeno que ela descreve é o resultado, não de forças sociais inexoráveis, mas de decisões políticas conscientes. O fim dos homens é a consequência da mais profunda tendência na vida pública de hoje: a sexualização da política e a politização do sexo.
O surgimento da política sexual suscitou surpreendentemente pouco tratamento critico. Entretanto, ela representa a mudança mais radical na natureza do governo nos tempos modernos. Os efeitos econômicos são apenas sintomas. De muito mais amplo alcance são as vastas alterações no poder local em todos os níveis. A ideologia feminista permeia todos os ítens da agenda pública: não só as “questões femininas”, como o aborto, mas tudo, do controle de armas (pense na “Marcha do Milhão de Mães”) e leis contra dirigir embriagado (Mães contra o Álcool ao Volante), à política externa (Código Rosa). “São as mulheres que mais têm a ganhar e mais a perder com a crise climática,” afirmou a presidente do Congresso Nancy Pelosi durante a Conferência de Copenhague. “Os impactos não são neutros do ponto de vista de gênero... As mulheres são as primeiras a sentir as consequências primeiro.” Nenhum tema da vida pública deixou de ser “generalizado.”
A transformação da sociedade empreendida pela política sexual é mais imediatamente visível onde Rosin começa seu artigo: com o que ela chama de “o matriarcado” das áreas pobres das grandes cidades. As políticas governamentais produziram esse matriarcado: os homens que estão “cada vez mais ausentes do lar,” como Rosin escreve, foram removidos por agências da assistência social e pelos tribunais. As mulheres estão “tomando todas as decisões” nos domicílios dos bairros pobres, porque os homens foram expulsos e o governo usurpou o papel do pai e do marido, fornecendo proteção e renda diretamente às mulheres e às crianças. Isso produz, nas cidades dos EUA, não uma “classe trabalhadora,” na definição de Rosin, mas uma classe de dependentes do governo cujo sistema de vida foi projetado por autoridades estatais.
O matriarcado de Rosin se dissemina na mesma proporção do número de mães solteiras, o qual se espalha das classes baixas para as classes médias — entre as quais é onde mais cresce. Nos subúrbios, como nas cidades, a condição de mãe solteira é promovida pela máquina do governo, originalmente justificada como ajuda aos pobres: serviços de creche, assistência aos idosos, educação pública e sistema de saúde controlado pelo estado.
Rosin observa com perspicácia que “a economia dos Estados Unidos está se tornando, sob certos aspectos, uma irmandade em trânsito: as mulheres da classe alta abandonam o lar para entrar na força de trabalho, criando empregos domésticos para outras mulheres preencherem.” Essa é uma bolha econômica sobre a qual  G.K. Chesterton há muito alertou. “O todo repousa, na verdade, sobre a ilusão plutocrática de um suprimento infinito de servos,” ele escreveu. “No fundo, estamos defendendo que uma mulher não deveria ser uma mãe para o próprio bebê, mas uma babá para o bebê de outra. Mas isso não pode funcionar, nem no papel. Não podemos todos viver de lavar roupa uns para os outros, especialmente na forma de aventais.”
Como as recentes bolhas bancária e imobiliária, essa é uma criação da regulação estatal. Ela revela a trajetória da nova política sexual: não em direção à eliminação dos papéis de gêneros — que o Estado assistencialista [que quer prover tudo para todos] não realizou e nunca vai poder realizar — mas em direção à politização e burocratização dos papéis femininos.
Embora as feministas da elite tenham, de fato, assumido ocupações anteriormente masculinas, muito mais mulheres entraram na força de trabalho em versões profissionalizadas dos papéis domésticos tradicionais. Isso transformou a criação dos filhos e outras tarefas domésticas, de assuntos privados familiares, em atividades públicas, comunais, e taxáveis, expandindo necessariamente o tamanho e o poder do Estado e levando à criação de vastas burocracias para supervisionar a educação pública e os serviços sociais.
Essas são exatamente as profissões agora sendo expandidas pelos gastos dos pacotes enormes de assistência econômica do governo de Obama. O efeito é ampliar a intrusão do Estado nos lares — na verdade, a substituição do lar pelo Estado, pois, como as feministas apontam, as funções femininas eram tradicionalmente privadas. A profissionalização dos papéis femininos significou, portanto, a institucionalização, nas burocracias governamentais, de responsabilidades que um dia foram características da vida privada. A politização das crianças e a usurpação dos direitos dos pais, sob o disfarce de proteção à criança, são as manifestações mais claras disto.
Os pais foram marginalizados, e a vida deles está se tornando cada vez mais diretamente adiministrada pelo Estado. Eles não são simplesmente “ausentes,” como Rosin escreve — eles estão, cada vez mais provavelmente, sob o controle dos sistemas judicial e penal. O artigo de Rosin fornece um exemplo instrutivo de uma forma particularmente estatal-feminista de punição agora distribuída entre os homens: a terapia.
Nenhum dos aproximadamente 30 homens sentados em uma sala de aula no centro de Kansas City vieram para um aprimoramento adulto voluntário. Não tendo conseguido pagar a pensão alimentícia, eles receberam do juiz a escolha entre ir para a cadeia ou frequentar uma aula semanal de paternidade... A aula desta semana... envolveu a redação de uma carta a uma hipotética filha afastada de 14 anos chamada Crystal, cujo pai a abandonou...
O que fica claro, a partir do relado de Rosin, é que a terapia, como o sistema penal, foi planejada menos para punir o suposto crime do que para recondicionar psicologicamente os homens. O líder da classe
cresceu assistindo Bill Cosby vivendo atrás de sua metafórica “cerca de estacas brancas.” “Bem, aquele cheque voltou há muito tempo,” ele diz... Ele continua, lendo uma folha com instruções. Quais são os quatro tipos de autoridades paternas? Moral, emocional, social e física. “Mas você não tem nenhuma delas naquela casa. Tudo o que você é é um contracheque; e agora você não tem nem isso. E se você tenta exercer sua autoridade, ela liga pro 911 [emergência policial]... Você devia ser a autoridade, e ela diz, “Cai fora da casa, veado.” Ela te chama de “veado”!... Qual é o nosso papel? Todo mundo diz pra gente que a gente tem de ser o chefe da família nuclear, então você se sente como se você tivesse sido roubado.” ...Ele escreve no quadro: $85,000. “Esse é o salário dela.” Então: $12,000. “Esse é o seu salário... Quem é o homem agora?” Começa um burburinho. “Isso mesmo. Ela é o homem.”
Isso não é o cumprimento da lei. Isso é doutrinação governamental.
Rosin omite a menção de que nenhum dos homens em Kansas City foi condenado por qualquer crime. Eles não entraram em conflito com a polícia, os advogados de acusação e os jurados através do processo normal da justiça criminal. Ao invés disso, eles estão submetidos a autoridades de um Estado assistencialista que exerce poderes semi-policiais e semi-persecutórios. Eles são trazidos — no que é às vezes descrito como um “processo judicial despachado” — diante de um juiz (ou um advogado de toga preta conhecido como “juíz suplente”) que pode gastar alguns segundos espiando alguns documentos antes de entrar nas ordens para expulsá-los de suas casas, separá-los de seus filhos, confiscar seus ordenados, e sentenciá-los à reeducação ou encarceramento, tudo sem o benefício do devido processo.
O procurador Jed Abraham chama de “orwelliano” esse sistema de adjudicação burocrática: “Para [fazer valer] o apoio à infância, o governo estabelece... um verdadeiro gulag,” escreve ele no livro From Courtship to Courtroom [Da Corte Amorosa à Corte de Justiça]. Bryce Christensen, da Universidade do Sul de Utah, concorda: “Os que advogam medidas cada vez mais agressivas para angariar apoio à infância... nos levaram a um passo mais perto de um Estado policial.”
A prevenção do crime e dos maus-tratos não é, evidentemente, a verdadeira causa da ideologia estatal-feminista: em seu coração, ela é redistribuição econômica e poder político. Perto do fim de seu artigo, Rosin observa, de forma bastante aprovadora, que “a violência cometida por mulheres de meia-idade disparou.” Isso é encarado como um sinal de que “quanto mais as mulheres dominam, mais elas se comportam, adequadamente, como o sexo forte.” Rosin refere-se a um vídeo ultra-violento de Lady Gaga que “reescreve Thelma e Louise como uma história, não sobre um novo e evasivo poder feminino, mas sobre um poder absoluto e impiedoso... Ela e sua amiga matam um namorado ruim e vitimam outros a esmo em um surto homicida e aí escapam em sua caminhonete amarela, com Gaga se gabando, “Conseguimos, Honey B.”
Rosin e seus aliados são mais sutis — e, o que é mais importante, têm mais poder coercitivo estatal à sua disposição — mas a fanfarronice soa espantosamente familiar.
Stephen Baskerville é professor adjunto de Ciências Políticas na Patrick Henry College e autor de Taken into Custody: The War Against Fatherhood, Marriage, and the Family [Sob Voz de Prisão: A Guerra Contra a Paternidade, o Casamento e a Família].
Traduçao e links de João Carlos de Almeida, do blog DEXTRA.
Artigo original AQUI.
Divulgação: www.juliosevero.com
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