15 de outubro de 2010

Dilma agora não quer assinar manifesto antiaborto e contra casamento gay acertado com evangélicos que a apoiam

Dilma agora não quer assinar manifesto antiaborto e contra casamento gay acertado com evangélicos que a apoiam

Reinaldo Azevedo
Não sei quem vai ganhar as eleições. Sei o que é rebaixamento da qualidade do debate. O PT se meteu numa grande enrascada porque é autoritário. Não aceita crítica. O partido sempre foi muito hábil em pespegar no adversário a pecha de reacionário, inimigo do povo ou sei lá o quê. Ao perceber que várias confissões cristãs — católicos, evangélicos, protestantes tradicionais — demonstravam inconformismo na rede com as opiniões da candidata e do partido sobre aborto e outros temas ligados a costumes, como a união civil entre homossexuais, resolveu acionar o botão de emergência de sempre.  Mobilizou movimentos sociais, auto-intitulados intelectuais e alguns porta-vozes na imprensa e denunciou um grande complô contra Dilma Rousseff. Não ocorreu aos petistas que fatias da sociedade simplesmente exerciam o sagrado direito de opinar. Atribuíram ao fator religioso o risco de não vencer a disputa no primeiro turno, como se fosse esse o único passivo da candidata e do partido.
Qual era a aposta? Forma-se um grande movimento cívico contra os “reacionários”, e está tudo resolvido. Mas, como já escrevi aqui, o tiro saiu pela culatra. Deu tudo errado. As entrevistas de Dilma defendendo a descriminação do aborto vieram a público.  O tema ganhou corpo. Ela tem o direito de defender o que acha certo. O problema é que passou a enrolar. O mesmo se diga em relação à sua estranha maneira de acreditar nos, como posso chamar?, “deuses” (???) do cristianismo… Na prática, acha que cada um tem o seu. Também tem lá suas dúvidas se Ele existe ou não. Em vez do “movimento cívico e laico”, o que se viu no país foi uma certa onda de indignação com a tentativa de usar a religião como escada.
Dilma se reuniu anteontem com líderes evangélicos ligados à sua candidatura. Querem que ela dê uma promessa por escrito de que não vai se comprometer, noum eventual governo, com ações que conduzam à descriminação do aborto e ao casamento entre homossexuais. A petista é hoje, na prática, uma candidata amordaçada, que teria dificuldades de dizer o que pensa sobre temas que, antes, eram tranqüilos no PT: o partido sempre foi favorável à descriminação do aborto e militante entusiasmado do chamado casamento gay. Já lamentei aqui a sua covardia. Que faça o debate com a sociedade, com os eleitores! Mas não! Tenta dizer uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo.
Um tanto curiosamente, quem se pronunciou ontem sobre um dos temas espinhosos, em termos que parecem bastante aceitáveis, foi o tucano José Serra, que não tem por que correr. Ele disse não ver nada demais na união civil entre homossexuais e afirmou que casamento é outra coisa. E lembrou uma obviedade: a própria Justiça tem reconhecido a união de pessoas do mesmo sexo na concessão de direitos. Pronto! Ninguém tem de se meter no que duas pessoas adultas decidem fazer entre quatro paredes. Dilma parece impedida de dizer até isso. Sua campanha comete o erro de ir para uma reunião que poderia resultar num documento que poria uma espécie de mácula numa parcela da população brasileira. Será que assiná-lo seria bom para o PT e para a campanha?
Somou um desgaste ao outro: o de fazer a reunião e o de, agora, resistir a assinar o  texto. O que isso denota? O vale-tudo eleitoral, que, à diferença do que acusam os petistas, está é sendo jogado pelo partido, não pelos adversários. Em 2008, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy resolveu meter os pés pelas mãos no debate de costumes e deu no que deu.
Os que achávamos que Dilma Rousseff não teria uma eleição assim tão fácil éramos ridicularizados pelos “especialistas”, que agora vêem Serra ou em empate técnico ou rumo a ele. Reitero: não sei o que vai acontecer, mas sempre me pareceu claro que as restrições a Dilma não se limitavam ao terreno religioso. No que concerne ao aborto, aliás, não é preciso ser cristão, como demonstrou Olavo de Carvalho em texto notável, para rechaçá-lo: a questão tem a ver com uma escolha que é de natureza moral. Conheço agnósticos que o repudiam igualmente.
Estivesse o PT menos confiante, teria sido mais prudente; por prudente, não teria buscado de modo desesperado “a” razão para não ter conseguido eleger a sua candidata no primeiro turno — razão que considerava “culpa” da oposição. A arrogância conduziu ao erro. E ainda não parou de errar neste segundo turno. A eleição, que parecia um passeio, já lhes provoca arrepios.
Divulgação: www.juliosevero.com
Nota importante: Embora seja católico, Reinaldo Azevedo e conservadores cristãos como eu discordam na questão homossexual, onde ele nada vê de errado na sodomia. Em outras questões, porém, ele é mais lúcido.

6 comentários :

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Julio,

Se a Dilma é contra o aborto, a questão que não quer calar é:

Por que o PT ainda não a expulsou, já que aceitar o aborto é praxe?

Dino Arí Fernandes disse...

NESSA ONDA - já há uma deturpação da manifestação do SERRA no sentido de dizer que ele apoia a união civil entre homossexuais - e ouvi e vi sua entrevista sobre esse assunto.
O QUE ELE manifestou-se foi no sentido de que a LEI BRASILEIRA (Código Civil) não se opõe a esse tipo de união - e nisso ele tem RAZÃO.
Ele não inovou - e esclareceu que o problema do "CASAMENTO GAY" é questão de natureza religiosa - e cada RELIGIÃO tem o direito de posicionar-se.
Isso também está correto !!!
O Código Civil reconhece a UNIÃO ESTÁVEL entre 2 pessoas como "sociedade de fato" - e não devemos a isso criticar sua posição - pois gostemos ou não: É LEI VIGENTE.
O que ele deixou claro é que não se pode obrigar determinada religião de não reconhecer tal prática, pois "TRATA-SE DE QUESTÃO DE NATUREZA RELIGIOSA" - e o Estado a isso não pode (e nem deve) interferir - como querem os adeptos do famigerado PL 122.
Em momento algum SERRA apoiou ou deixou de apoiar esse instituto da UNIÃO ESTÁVEL ENTRE DUAS PESSOAS.
Outra coisa é a questão do ABORTO LEGAL (em caso de estupro ou de risco de morte à mãe)- que está na lei - diferente da posição do PT que apoia o "ABORTO LIVRE"
"ABORTO LIVRE" - faz parte do programa do PT: no criar, lutar e aprovar lei que o permita.
Se DILMA ganhar as eleições - QUEM GOVERNARÁ O PAÍS: ELA ou o PT ?
Dino Arí Fernandes

Anônimo disse...

Eita pastores e evangélicos sabujos e sem-vergonhas. E ainda continuam a paparicar essa senhora. São evangélicos lobos e vendilhões do Evangelho. Para esses estão reservado as negras trevas aqui e no inferno.
Tá amarrado "evangélicos"!!!!!!!!!!

marcia disse...

Não acredito que o fato de assinar garantirá alguma coisa!
O fato é não votar nela e pt (ponto).

Danilo Fernandes disse...

Julio

O articulador desta bobagem de acordo é o bispo manuel ferreira. Existe tal acordo e eu conheço um tolo que não só acreditou como entrou de chancelador no mesmo. Acho que vc sabe a quem me refiro.

Silvio Ricardo disse...

Esse ridículo episódio que assistimos de pastores evangélicos estarem dando apoio a Dilma, mostra-nos quão oportunistas ou simplesmente equivocados o são certas denominações evangélicas.