16 de outubro de 2010

“Conservadorismo, não!”

“Conservadorismo, não!”

Norma Braga
Fabio Blanco, do blog Discursos de Cadeira, chama a atenção dos leitores para um “Manifesto Evangélico” que circula na internet sob a forma de abaixo-assinado. Logo de primeira, o leitor atento pode verificar que o texto não especifica o alvo de sua revolta, mas é salpicado de expressões vagas como “alguns líderes evangélicos”, “exercício equivocado da fé”, “boatos e inverdades” etc. Isso pode funcionar com algumas pessoas, mas de forma geral deixa a péssima impressão de escamoteação linguística. (Não dá para ser muito explicadinho em um manifesto, mas também não vamos exagerar.) Além de não detalhar suas posições, o Manifesto confia no uso ideológico (mágico) da linguagem — costume disseminado pela academia pelo menos desde os anos 1960 — para reclamar de uma “onda de conservadorismo” que “se abateu sobre o país” e estaria “desviando o foco das propostas dos candidatos”. Como diria o Didi: Cuma? Desvia como, cara-pálida, se é o próprio conteúdo dos projetos que está sendo questionado? Na verdade, trata-se de pura tergiversação: o que o Manifesto quer é, em nome da conquista protestante do “Estado laico” (por acaso há algum conservador pregando a volta de um governo religioso para o Brasil?), mostrar descontentamento com a tal “onda” e, claro, elogiar o governo (no finalzinho) pelo “avanço das conquistas sociais”. Mais que anticonservador, percebe-se que o documento é antioposicionista, logo, situacionista. Porém, seu (pretenso) trunfo é usar o termo “conservador” para construir seu Judas e, surrando-o, dar razão a si mesmo.
Vamos lá. Há muito tempo, o termo “conservador” é utilizado ideologicamente, como xingamento, sinônimo de “retrógrado, cafona, fora de moda”. O bom é ser “progressista”. Em primeiro lugar, é espantoso um manifesto que se diz “evangélico” pregar o progressismo. Afinal, todo evangélico tem (ou deveria ter) como base de sua fé um Livro que ficou pronto há dois mil anos — um livro que prega posturas antiquadas como submissão às autoridades (Rm 13.1) e submissão da mulher ao marido (Ef 5.24), que considera o sexo fora do casamento e o homossexualismo como pecado (Pv 6.32, Rm 1.27) e vê o feto dentro do ventre como um ser que Deus conhece desde o início da concepção (Sl 139.15-16, Sl 22.10). Isso tudo contraria fortemente a cultura atual dos bem-pensantes (e, por isso, nada mais contracultura que ser, hoje, um verdadeiro evangélico). A bandeira da revolução dos costumes fica mal no religioso cristão, a não ser que estejamos falando de uma revolução no sentido bíblico — e claramente não é o caso. Em geral, quem é progressista defende tanto o fim do governo tal como o conhecemos nas sociedades democráticas (mas não se engane: o questionamento das autoridades só serve como porta de entrada para um temível autoritarismo) quanto o feminismo, o aborto e o casamento gay, tão energicamente como se fossem pontos de fé (quem já esteve em uma reunião do PT sabe do que estou falando). Ainda que não se declare abertamente, o progressista sempre dará um jeitinho de relativizar essas questões — seja por medo de perder popularidade nos meios religiosos, seja porque de fato não atribui valor social algum à moralidade cristã, como quem diz: “Nada mais importa, só o bolsa-família” (que aliás, o próprio Lula admitiu que foi ideia do PSDB!).
Mas vamos usar as palavras como devem ser usadas: se progressismo é mudança, pura e simplesmente, enquanto conservadorismo é manutenção do que existe (claro que estou falando de modo esquemático), é preciso haver equilíbrio. Nada pode mudar totalmente, nada pode permanecer o mesmo para sempre. É preciso que o debate público seja contrabalançado por propostas progressistas e conservadoras. É necessário que haja lugar para todo mundo; se não, é caos ou estagnação. Se o socialismo costuma ocupar o primeiro posto, o segundo também deve ser ocupado por instâncias não-socialistas. Mas o tal Manifesto se trai, demonstrando indignação com a simples existência de uma “onda conservadora”, como quem diz: “Conservadorismo, não!” E ainda se opõe à “demonização” de candidatos e partidos. Ora, se o uso que é feito do termo “conservador” não é demonização, o que mais poderia ser? E se essa demonização, aliada à falta de precisão do texto, não é manipulação, o que seria?
O que a tal “onda de conservadorismo” está fazendo de tão grave, a meu ver? Enxergando fantasmas? Claro que não: os mais argutos denunciam, analisam e insurgem-se contra projetos bastante concretos do PT para o Brasil. (Embora também seja de esquerda, o PSDB ainda não deu tantas mostras da mesma verve, do mesmo frisson totalitário.) Em vez de lançar mão de objeções difusas, essa “onda conservadora” está fazendo oposição ativa e inteligente à candidatura de Dilma Rousseff e ao que ela representa em termos claros e precisos: cristãos ou não, esse mar de gente (onda é mar, não é?) não quer o aborto legalizado, não quer a imprensa amordaçada, não quer a sexualização precoce das crianças, não quer que o Estado se aproprie da educação infantil, não quer a Gaystapo, não quer as igrejas com medo de pregar a Palavra, não quer as instituições públicas aparelhadas por um partido autoritário, não quer corrupção em larga escala. Tudo isso já foi mais que evidenciado por meio de iniciativas, projetos e escândalos, e fico feliz porque não nos mantivemos calados a cada novidade macabra do partido.
Assim, esse “Manifesto Evangélico” (que de evangélico não me parece ter nada), em uma linguagem que afirma sem afirmar e explica sem explicar, continua a caminhar nas passadas do velho esquerdismo ao lançar mão das estratégias demonizadoras de praxe (insultando os conservadores de “moralistas”, por exemplo) e de chavões wishful thinking como “erradicação da pobreza”, “equidade” e “justiça social”, como se isso bastasse para o Brasil que se levanta, hoje, nessa época de eleições. Bom, não basta! A pobreza é um problema real, mas o socialismo não é solução. Chega dessa esquerda vazia, de dedo sempre apontado, com suas bandeiras rotas de “igualdade social”. O que significam essas bandeiras diante de uma falida ex-URSS, de uma China cheia de desigualdade, de uma Cuba-prisão, de uma Alemanha oriental cuja igreja foi devastada e que teve de se levantar com muita ajuda de sua contraparte ocidental? Vamos abrir o debate. Vamos falar do que realmente funciona para governar nosso país, para promover o bem-estar e o crescimento dos brasileiros. Vamos encostar cada uma dessas propostas na parede. É o que estamos fazendo. Mas, claro, os velhos esquerdistas não querem nada disso. E reclamarão a cada vez em que forem questionados, recorrendo a estratégias desesperadas de contra-ataque, ainda que sob uma linguagem mansa. Meu amigo Fernando Pasquini, do blog Em busca de um nome, fez um esquema que resume muito bem o teor difamatório desse Manifesto: “Conservadorismo = Mentiroso + Malicioso + Ignorante + Desvia o Foco + Não Pode Aparecer + ‘Demonizador’ + Intolerante + Estado Teocrático”.
Na verdade, é com grande alegria que vejo essa “onda de conservadorismo” tomando o país. Vejo as pessoas comentando que Dilma pode não ganhar porque a população brasileira é contra o aborto — luta ferrenha do petismo há pelo menos vinte anos. Como fico feliz! Porque isso significa que não nos rebaixamos moralmente (e isso é ser moralista?) ao ponto de permitir que um crime receba o carimbo estatal de lei. Isso é maravilhoso e deveria ser consenso entre os cristãos. Se não é, há algo muito errado. Como um cristão pode compactuar com o que o PT representa? Esse tal “Manifesto” não me parece ser a voz dos verdadeiros evangélicos. Nossa voz é de coragem, não pusilanimidade diante do pecado. É de discernimento e exortação, não de adesão apaixonada a desmandos governistas, a projetos que institucionalizam o crime e instauram a supressão da liberdade. Nossa fala precisa ser clara e bíblica, não vaga e discriminatória. Não queremos dividir a igreja, mas também não podemos deixar de chamar o pecado pelo nome. Mesmo que isso nos custe socialmente. E, se Dilma ganhar, certamente custará. Mas não nos acovardemos. Há conservadores, cristãos ou não, que se encolhem de medo e tristeza ao pensar nessa possibilidade. Não sejamos desses. Se o pior acontecer, Deus nos dará graça e força para ser oposição. Fiquemos alegres, seja qual for o resultado dessas eleições! Esse tem sido meu espírito nesses dias.
Divulgação: www.juliosevero.com
Maldito o homem que confia no homem

4 comentários :

Silvio Ricardo disse...

Aconteceu agora de tarde.

"PT tenta barrar panfletos encomendados por bispo"

O Partido dos Trabalhadores (PT) está tentando impedir agora à tarde que cerca de um milhão de panfletos encomendados pelo bispo da Diocese de Guarulhos (SP), Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, seja distribuído à população. O panfletos recomendam aos brasileiros e brasileiras que deem seu voto 'a candidato ou candidata e partidos contrários à descriminalização do aborto'

O material, segundo a advogada Ana Fernanda Ayres, do escritório Bottini Tamasauskas Advogados, que assessora o PT, seria ilegal, uma vez que não apresenta o CNPJ do autor. 'Queremos assegurar que não houve qualquer tipo de crime (em relação ao material)', afirmou.

A Editora e Gráfica Pana, responsável pela impressão do material, mostrou documentos que comprovam o pedido feito por Dom Luiz Gonzaga. Os proprietários alegam que, da parte deles, apenas cumpriram encomenda legal feita por um cliente.

Um primeiro lote de um milhão de panfletos já havia sido distribuído antes do primeiro turno das eleições, segundo Paulo Ogawa, pai de Alexandre Takeshi Ogawa, proprietário da gráfica.

De acordo com Paulo Ogawa, pai de Alexandre Takeshi Ogawa ainda há cerca de 1 milhão de unidades do panfleto na gráfica, que fica no bairro do Cambuci, em São Paulo. O caso está sendo registrado neste momento no 5o. Distrito Policial.

http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/artigo.aspx?cp-documentid=25974221

Trindade disse...

Esse artigo é digno da mais alta dignidade;
Na neurolinguística é facil ver a ação da sequerda, usam termos bonitos para falar de coisas feia, por exemplo: progressista é, termo bonito para impor coisa feia, exemplo: ABORTO, INVASÃO DE PROPRIEDADE ALHEIA, CORRUPÇÃO DOS COMPANHEIROS, ALIAR-SE COM DITADORES, APOIO À MOVIMENTOS SOCIAIS SEM APOIO DO POVO (MST), HOMOSSEXUALIZAÇÃO DA SOCIEDADE, FEMINISMO, DESARTICULAÇÃO DA HETEROSSEXUALIDADE, ETC, enfim, se os lideres evangélicos orientassem seus liderados e mostrassem para eles que as palavras só são rótulos paras os fracos, todos os Cristãos teria orgulhos de dar um chute na neurolinguistica, ou a usaria a seu favor e diria como eu e minha família diz: SOMOS CONSERVADORES SIM, GRAÇAS À DEUS.
Belo artigo, parabéns.

F.Caldas disse...

DEUS é Conservador:

http://blogdofabianocaldas.blogspot.com/2010/10/deus-e-conservador.html

".... Assim como queremos que um criminoso em potencial tema trangredir leis, nós queremos que nações desonestas para tenham medo das consequências da agressão militar contra nós.
Mas o liberal não tem nada disso. Ele acredita que o homem é intrinsecamente bom. Portanto, o liberal considera o dever de o sistema de justiça criminal para "reeducar" o criminoso que estava fazendo muito bem antes de ter sido corrompido pela sociedade "ruim....."

Luis Felipe Cunha disse...

Tenho visto e ouvido muito sobre a missão integral.Perguntei à um líder de minha denominação se a missão integral não era uma metamorfose que havia assumido a Teologia da Libertação?E a resposta desse líder foi enfática, negando sua semelhança com tal ideologia.Mas o seu referencial e mentor é o Sr Ariovaldo Ramos, pessoa que ter um conhecimento teológico, arroga-se no direito de desqualificar todo os demais cristãos, na validade de suas opiniões contrárias a sua visão marxista.Vi uma "palestra" sua onde desqualificou os demais cristãos, por não pensarem de maneira "Progressista".Alguns, por assim dizer, "velhinhos" que o ouviam, se levantaram e o encararam contradizendo suas palavras e falando da Autoridade da Palavra de Deus sobre todos os assuntos concernentes aos homens e que ele não tinha direito de falar de méritos , que cristãos, ditos conservadores, haviam alcançado na sociedade.Certamente que o artigo expõe a verdadeira face do "novo Cristianismo" que tem florescido no Brasil, e que aproveitando-se de um desconhecimento teológico que ocorre hoje nas igrejas, dissemina a "nova Leitura" da Bíblia pregando uma justiça "social" apoiada num discurso esquerdista.Que a mudança está na nossa ação e não na ação de Nosso Deus.Mas , graças a Deus temos a Sua Palavra para nos orientar e pessoas como você que têm corajosamente exposto "feridas"que muitos cristãos não tem coragem de falar, quanto mais assumir uma postura proativa para com elas."vai nessa tua força e livrarás a Israel..."