Contradições do laicismo
Olavo de Carvalho
A moral laica do mundo burguês reconhece e até proclama com orgulho “científico” sua própria relatividade, em teoria. Mas nenhuma ordem social pode contentar-se com uma obediência relativa, que desembocaria fatalmente no conflito geral e no caos. Daí a distinção prática, tipicamente moderna e burguesa, entre moral privada e ordem pública. A primeira pode multiplicar-se em variações infinitas, desde que não perturbe a segunda. É a informalidade da escolha moral, limitada pela formalidade estrita da ordenação jurídica.
Esse arranjo de ocasião disseminou-se tão universalmente que adquiriu foros de sabedoria eterna e imagem por excelência da “normalidade”, ao ponto de que já ninguém percebe o que ele tem de instável e problemático; e, não o percebendo, tem de improvisar hipóteses rebuscadas para explicar por uma sucessão imaginária de acidentes as crises e percalços que um exame sério deveria ter revelado à primeira vista como desenvolvimentos lógicos e inevitáveis de contradições iniciais não conscientizadas em tempo.
De um lado, aquela distinção constitutiva do Estado laico foi estabelecida como ato de uma minoria revolucionária contra um consenso anterior fundado na homogeneidade moral da sociedade cristã. Uma vez vitorioso, o Estado laico passa a corroer necessariamente o que possa restar dessa homogeneidade, que para ele representa a origem mesma de toda obstinação “reacionária” erguida contra sua obra modernizante. Dissolvida pouco a pouco a unidade moral do povo, a única maneira de evitar a autodestruição da sociedade pelo caos é transferir para a esfera jurídica os mecanismos reguladores antes operados pelo simples automatismo das tradições arraigadas no senso comum. O que era obediência espontânea torna-se assim controle estatal forçado. Na proporção mesma do sucesso obtido pelo Estado leigo em seu esforço de “modernização”, o número, a complexidade e a abrangência dos controles jurídico-burocrático-policiais vão crescendo, avançando para dentro de todos os campos da existência social e invadindo por fim a vida privada e até a intimidade dos pensamentos, regulando a linguagem, a educação doméstica, etc. Tão logo deixa de ser uma promessa e se torna uma realidade, aquilo que surgiu sob o pretexto de resguardar a liberdade individual revela ser um mecanismo opressivo incomparavelmente mais exigente do que a velha autoridade religiosa jamais teria sonhado ser.
A essa primeira contradição soma-se outra pior. Não é possível controlar a sociedade sem regulamentar a economia. À medida que os controles morais embutidos na cultura do velho regime cedem sua autoridade ao aparato judicial, burocrático e policial, amplia-se na mesma medida a intervenção do Estado na economia. O estatismo econômico indefinidamente expansionista é inerente, portanto, à dialética do Estado leigo. Mas este não se impôs justamente mediante a promessa de resguardar a liberdade econômica? Sim. O que não se deve é confundir as intenções declaradas do discurso ideológico com a fórmula política substantiva cuja implantação elas legitimam. A contradição pode escapar até mesmo aos mais sinceros propugnadores da nova política, mas, que ela existe, existe. O moderno Estado leigo pode, com a maior sinceridade do mundo, prometer a liberdade econômica – o que ele não pode é realizá-la, a não ser de maneira capenga, permanentemente ameaçada pelo avanço da mentalidade socialista, que a expansão mesma do laicismo oficial fomenta.
Não é coincidência que o país que defendeu com mais eficácia a liberdade econômica tenha sido justamente aquele que só adotou o laicismo como mecanismo secundário de autocontrole do próprio Estado, sem a ambição de fazer dele um princípio regente de toda a vida social e política, antes conservando vivo e embutindo em suas instituições o máximo que podia das antigas tradições religiosas. Muito menos é coincidência que, hoje em dia, aqueles que desejam radicalizar o princípio laicista, expelindo a religião da vida pública, não sejam de maneira alguma amigos da liberdade econômica, mas todos, em mais ou em menos, adeptos do intervencionismo estatal – socialistas confessos ou enrustidos.
Fonte: Diário do Comércio (editorial), 13 de junho de 2008
Divulgação: www.juliosevero.com





3 comments:
Bem interessante.
Bom. Vou fazer aqui alguns comentários.
Vejamos: Hoje muito se diz que o Estado é laico. Pois bem, Jesus disse que nenhuma árvore boa pode produzier maus frutos e nenhuma árvore má pode produzir frutos bons.
Que fruto temos visto deste tal Estado laico? Têm produzido frutos bons? Têm tornado a vida em sociedade muito melhor do que antes quando não havia estado laico?
Se olharmos bem para o que temos visto diante dos nossos olhos veremos que não.
O que temos visto é que esse tal de Estado Laico têm deixado a sociedade cada dia pior, cada dia mais insegura, e cada vez mais está intervindo na sociedade.
O que vemos é que o Estado Laico é a árvore má que produz os seus maus frutos, e que cada vez mais vai corroendo toda a sociedade por dentro, destruindo vidas, famílias, e cada vez mais deixando os pobres cada vez mais pobres e na miséria, e cada vez mais o Estado Laico vai explorando o pobre com os seus bolsas-esmolas-compra-de-voto e explorando toda a sociedade com suas exorbitantes promessas que nunca vai cumprir, e querendo se fazer de deus, querendo até mesmo se assentar no trono de Deus e se parecer o próprio Deus.
Mas, e aí? Alguém se levanta contra esse tal de Estado Laico? Alguém luta contra esse Golias do Estado Laico? Não. O que vemos é até líderes Cristãos que deveriam como profetas contra esse Estado Laico e para derrubar esse Golias do Estado Laico proclamando que o Estado é Laico para todo mundo ouvir.
E essa idolatria de que "O Estado é Laico" "o Estado é Laico" vai prosperando.
E agora a pergunta que me faço, pois ainda tenho cabeça: Cadê os Daniel, Elias, Sadraques, Mesaques, Abdnegos, Davis, Eliseus, Moisés para lutar contra esse Golias, Nabucodonosor do Estado Laico? Cadê os sete mil varões que não se curvaram a esse discurso de que "o Estado é Laico" e que esperam o dia em que o Estado não seja mais laico, mas seja servidor, mas seja justo, mas seja um Estado que sirva realmente ao povo? Cadê?
Todos nós sabemos o fardo satânico que é o laicismo. Mas o que nenhum cristão discute é o fato de que esse laicismo é cria dos evangélicos batistas. E os evangélicos em geral persistem no erro deles.
Por culpa deles que toda a cristandade está sofrendo. Foram eles que lutaram com todas as forças para expulsar Deus dos governos. Comos então esses evangélicos se dão ao direito de questionarem a Deus do porquê estarmos sofrendo nas mãos dos laicistas? Eles expulsaram a Deus e os laicistas assumiram o lugar. A culpa é deles mesmos. Só estão sofrendo dos frutos de próprias suas ações contra Deus e Seu Cristo.
Consultem a história do Rev. Roger Williams de Rhode Island para ver o quanto ele era simpático com todo tipo de hereges, enquanto negava à Cristandade a sua proteção legítima.
Os evangélicos sofrem e continuarão sofrendo até rejeitarem esses erros e outros.
Lembrem-se: o Senhor Jesus jamais permite um "justo" sofrer nas mãos de seus inimigos de graça. Isso o que está acontecendo tem nome e não é provação: é juízo justo de Deus.
Acho muito engraçado a estoria do Estado Laico. As pessoas insistem na tese do estado laico, mas acho que o que eles querem é um Estado Laico sem os valores cristãos, os das demais religiões pode. Dias desses estive na inauguração de um espaço cultural afro em uma cidade da grande SP, onde estavam presentes um dep. federal, o prefeito, alguns vereadores, e inúmeros praticantes do candomble ou umbanda, ou seja la o que for, e o dep. federal afirmou em alto e bom som que as religiões afro merecem um tratamento diferenciado, (do Estado acho) pois que são tão discriminadas.
Ai eu pergunto: Cadê o Estado laico? é somente para o cristianismo? para as religiões que eles simpatizam, o Estadop tem o dever de deixar de ser laico e tomar partido? engraçado né!!!!
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