4 de janeiro de 2008

“Coitado de quem?” — Jael Savelli dá seu testemunho pessoal

“Coitado de quem?” — Jael Savelli dá seu testemunho pessoal

"Se eu professo com a mais alta voz e a mais clara expressão cada porção da verdade de Deus, exceto precisamente aquela pequena porção que o mundo e o diabo estão, neste momento, atacando, então eu não estou [realmente] confessando Cristo, por mais que eu cante de galo clamando que O estou professando..” Martinho Lutero.

Meu marido e eu estávamos levando uma amiga até ao terminal rodoviário da cidade no final da tarde do último dia do ano. Casualmente, comentei sobre os meninos que costumam exibir suas habilidades como malabaristas nos sinais de trânsito. Eu dizia que eles parecem gostar tanto do que fazem que às vezes até se esquecem de passar o chapéu entre os carros antes de o sinal abrir. Nesse ponto, fui interrompida pela filha da nossa amiga, uma jovem de vinte e oito anos e mãe solteira de uma menina de dez, também presente. Ela lembrou-se de ter visto um desses meninos limpar o vidro do pára-brisa de um carro parado no sinal e a motorista afastar-se sem recompensá-lo pelo serviço prestado. Então, a jovem fez o seguinte comentário: “Coitado! Limpou o carro da dona e quando o sinal abriu ela foi embora sem dar nada a ele. É por isso que eles se revoltam e quebram tudo”. Eu contra-argumentei dizendo que a idéia era perigosa e injusta.


O contribuinte já entrega ao voraz governo brasileiro, segundo cálculos divulgados pela mídia, aproximadamente dois quintos de tudo o que consegue produzir com o suor de seu rosto. A contrapartida prometida, em forma de serviços públicos - tais como segurança, ensino fundamental e saúde -, é quase nula em comparação. A contribuição extra, solicitada pelos "deserdados" nos sinais de trânsito ou pelas ruas da cidade, não deveria ser considerada compulsória, à custa de serem seus bens (legitimamente?) depredados. Ademais, para que possa ser cobrado com justiça, um serviço deve ser de alguma forma contratado entre as partes, o que não costuma acontecer nestes casos.

Outra coisa é que, de modo geral, o brasileiro é mesmo compassivo, por causa da sua herança cultural cristã, sim. Ele costuma dar esmolas com liberalidade e ajudar as pessoas desinteressadamente. É raríssima a atitude que a moça disse ter presenciado. Seja como for, o vandalismo contra a propriedade alheia não se justifica em hipótese alguma e é moralmente indefensável.

Além disso, como no carro éramos todos cristãos evangélicos ou algo parecido, lembrei que a idéia era também antibíblica.

Um de seus argumentos incluía a sugestão de que eu me colocasse no lugar da suposta vítima, como se empatia fosse tudo o que me faltasse para poder perceber o nexo lógico entre a evidente maldade dos ricos e o direito natural dos pobres a respostas violentas às suas frustrações.

Acontece que, ao longo de meio século de existência, eu mesma experimentei situações de grande pobreza material e mais tarde de profunda empatia com os pobres, no sentido socialista do termo.

Nasci em uma famosa favela da zona sul do Rio, na época em que os barracos ali eram construídos com madeira e cobertos com lata. Meus pais eram pobres de marré-de-si e honestos até a medula, ativamente ordeiros e pacíficos, e muito, muito trabalhadores. Foi assim, trabalhando incansavelmente, sem queixas e com gratidão a Deus, que conseguiram sair daquela situação extrema e construir um modesto patrimônio que inclui a pequena casa em que mora minha mãe, agora viúva, e uma outra, que ela aluga para pagar suas despesas pessoais.

Como ex-esquerdista, fui doutrinada nas cartilhas da Marta Harnecker, uma teórica e militante comunista chilena, muito influente também nas organizações revolucionárias do Brasil. Também fui uma militante petista, tendo participado como delegada sindical da assembléia de fundação da CUT, Central Única dos Trabalhadores.

Mas a conversão a Cristo e o estudo sistemático da Bíblia me curaram tanto da autocomiseração, que é pecado, quanto do esquerdismo, que é diabólico, pois pretende ser “a” resposta redentora para toda a humanidade, a despeito de e contra Cristo (anticristo).

Portanto, como se vê, “meu problema” não é de falta de conhecimento da situação do necessitado e do "oprimido". O problema é que, apesar das minhas experiências, e ainda que nos últimos dez anos eu venha me esforçando para me manter submissa à Palavra de Deus, sei que meus sentimentos jamais servirão como referência para a fé e a prática de quem quer seja - sequer para mim mesma -, pois meu coração, apesar da graça de Deus, ainda é terrivelmente falho. Mas graças a Deus que nos deu a Bíblia, lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. Essa mesma inerrante Bíblia tem sido agora negligenciada pelos ministros do evangelho e sua mensagem entendida como algo que precisa ser complementado com as descobertas recentes da antropologia, da sociologia e da psicologia, empreendidas por ateus. Que pena!

Através da Bíblia, tenho sido instruída a trazer todo pensamento cativo à obediência de Cristo. Descobri que nossos mais elevados pensamentos e os nossos sentimentos mais sublimes ainda devem passar pelo crivo da cruz, ou não terão qualquer valor positivo aos olhos de Deus, não importa quão corretos e piedosos pareçam aos nossos próprios olhos. Não é seguro guiarmo-nos pelas aparências. Muitas vezes, um ato ou uma idéia que à primeira vista podem soar profundamente piedosos e compassivos, na realidade ocultam apenas mesquinha autocomiseração ou inconfessáveis interesses egoístas, pois, “enganoso é o coração, mais que todas as coisas”.

Assim como ser rico não é pecado, ser pobre não é virtude, muito menos quando o fato é acompanhado de revolta, que em última instância é sempre contra Deus, pois Ele é absolutamente soberano sobre tudo e todos e bem poderia mudar as circunstâncias a meu favor, se assim o desejasse. Pior quando tal atitude interior de revolta em vez de ser confessada e abandonada é defendida em palavras e manifesta em atos de violência contra o próximo, a quem devemos amar como amamos a nós mesmos. Ainda que, porventura, venham a ser nossos inimigos.

Mas, o que os pastores estão ensinando dos púlpitos?


Nos meus quinze anos de caminhada evangélica, tenho ouvido sermões ‘bíblicos’ essencialmente compatíveis com o ensino que recebi nas células clandestinas de doutrinação ateísta-marxista nos anos da contra-revolução anticomunista iniciada no Brasil em 1964.

Lembro-me de um pastor que não fazia um sermão sem citar com grande admiração Rosa Luxemburgo ou o próprio Marx. Na época eu ainda não percebia a perversidade da mistura do evangelho de Cristo com a doutrina marxista.

Outro se rejubilava em público durante o cântico de certo hino convocando os crentes à batalha pelo evangelho, pela semelhança que nele via com o hino da Internacional Comunista. Esse mesmo, quando começaram as denúncias de corrupção contra o governo Lula, disse com muita raiva no púlpito que chamar o Roberto Jefferson de diabo talvez fosse ofensivo a Satanás, e com tal declaração quase leva a igreja imediatamente à comoção. Nos momentos que se seguiram àquela declaração (de fé?) os semblantes estavam crispados e as orações, permeadas de imprecações contra os "golpistas". Não! Decididamente, Roberto Jefferson não estava inocente. Nunca me iludi a esse respeito. O problema é que o pastor via em Lula uma espécie de redentor, santo e intocável, e não estava disposto a abrir mão dessa terrível ilusão facilmente.

Outro pastor ainda, chegou a declarar num sermão que os ideais comunistas são tão bons quanto os valores cristãos, com a única diferença de que os comunistas “apenas” não crêem em Jesus. Como se a fé em Jesus e em Sua ressurreição fossem um detalhe supérfluo e a doutrina cristã pudesse permanecer intacta à parte da verdade gloriosa e consoladora de que o Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus, encarnado, morto e ressuscitado para a salvação de todo aquele que nEle crê. Em outra ocasião, quando questionado, este pastor "justificou" Marx, explicando que a culpa por seu ateísmo era de seu pai, um judeu falso-convertido ao cristianismo por razões politico-econômicas. Esse pensamento é profundamente antibíblico. Ainda que em sua infância ou juventude Marx tivesse sofrido alguma decepção séria em relação ao caráter de seu pai, ele também, eventualmente, tornou-se um adulto responsável diante de Deus por suas próprias escolhas. Ele era, afinal, um pecador inato (quer dizer, um inimigo de Deus) como todos os demais homens, exatamente como o próprio pai. Na verdade, há muitas evidências de que Marx era de fato um satanista, e que essa seria a verdadeira origem de seus "ideais" revolucionários, que, afinal, culminaram no martírio e extermínio de cem milhões de pessoas - rios de sangue humano tributado à Satanás -, idéias que ainda hoje mantém em cativeiro milhares de milhares de vidas ao redor do planeta.

Esses pastores mostraram-se todos refratários às interpelações críticas a tais idéias manifestas do púlpito. Todos eles se formaram em excelentes escolas e seminários cristãos reformados. Todos são pastores de igrejas históricas, e não das "histéricas", como alguns orgulhosamente denominam as outras. Eles estão longe de representar um desvio padrão em relação ao universo a que pertencem. Com raríssimas excessões, esse tem sido o mote ideológico entremeado a uma parte considerável dos semões que tive a oportunidade de ouvir nos últimos quinze anos.

Talvez não casualmente, a jovem que defendeu apaixonadamente a idéia de que o vandalismo contra a propriedade alheia se justificaria pela suposta crueldade dos ricos contra os pobres é “ovelha” (vítima?) do pastor que do púlpito satanizou o deputado Roberto Jefferson antes dos fatos da corrupção oficial se tornarem irrefutáveis a ponto de levar à renúncia ou à cassação de ministros, deputados e senadores aliados ao governo petista, só permanecendo o próprio presidente da república em seu cargo por conta de acordos imorais negociados com a "oposição". E o pastor não mostrou a mesma disposição para condenar os corruptos no governo ou no partido que tanto admira. Aliás, ele manteve o Lula intacto no pedestal de santidade que lhe erigiu e, até onde sei, jamais voltou a mencionar o assunto em público.

Felizmente, chegamos ao fim do percurso antes que uma batalha fratricida da luta de classes se estabelecesse entre os representantes dos dois lados reunidos no "nosso" carro naquela linda tarde de fim de ano que o Senhor proporcionava a todos nós. Na despedida, pedi à sensível jovem que ao menos refletisse um pouco sobre as novas e "estranhas" idéias às quais acabara de ser apresentada.

Minha oração, neste novo ano que se inicia, é para que Deus nos livre do mal e guarde as nossas mentes e corações daqueles que, utilizando-se da autoridade do púlpito cristão, ao mal chamam bem e ao bem, mal. Amém!

Fonte: Blog Jael Savelli

Divulgação: www.juliosevero.com

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