3 de setembro de 2006

Por que o mundo odeia os Estados Unidos

Por que o mundo odeia os Estados Unidos

Michael Medved

A doença do ódio aos Estados Unidos alcançou hoje proporções epidêmicas em muitos cantos do globo, se espalhando bem além das regiões pantanosas onde essa febre é incurável, regiões habitadas por militantes islâmicos, intelectuais franceses ou demagogos latino-americanos. Aliás, até mesmo muitos cidadãos dentro dos EUA com muito vigor adotam as concepções fundamentais do ódio aos EUA, vendo seu próprio país como uma força inequivocamente negativa no cenário mundial.

John Tirman, diretor do prestigioso Centro de Estudos Internacionais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, escreveu recentemente um livro chamado “100 Maneiras em que os Estados Unidos Estão Tirando a Paz do Mundo”. Quando lhe fiz uma pergunta no meu programa de rádio, ele se recusou a rejeitar a noção de que a humanidade ficaria melhor se os europeus jamais tivessem colonizado a América do Norte em primeiro lugar — em outras palavras, se os EUA como conhecemos jamais tivessem nascido.

O modo mais direto de responder a tal tolice vergonhosa e ridícula é fazendo referência a um elemento principal numa contribuição clássica americana ao cinema mundial: “It’s a Wonderful Life” (A Felicidade Não se Compra). George Bailey (Jimmy Stewart) aprende a apreciar seu próprio valor depois de obter um vislumbre da direção que sua cidade (Bedford Falls) poderia ter tomado se ele não tivesse existido para servi-la e salvá-la. De modo semelhante, os que atacam os EUA poderiam tentar um experimento mental em que imaginassem um mundo no qual os EUA não existissem e não desempenhassem nenhum papel atual. Será que de alguma forma a União Européia e o Canadá uniriam seus poderosos exércitos e teriam sucesso na missão de resgatar a humanidade do nazismo e do comunismo? Se não fosse pelos Estados Unidos, qual a nação que poderia inspirar o mundo a aspirar a governos autônomos e direitos humanos? Lembre-se, a famosa Revolução Francesa demonstrou ser tão ineficiente nessa questão que depois da matança de tantos franceses acabaram ungindo um imperador tirânico (Napoleão) menos de vinte anos depois que os franceses guilhotinaram seu próprio rei. Em termos de atividade comercial e padrões de vida, os Estados Unidos permanecem o motor incansável que impulsiona a economia mundial, com produtividade e criatividade como indispensáveis para sustentar a prosperidade global, enquanto a abundância da agricultura americana é essencial para alimentar toda a humanidade.

Dá para se ver nitidamente a natureza irracional do ódio aos EUA quando se percebe que essa raiva destrutiva cresce de maneira mais impressionante entre os que se beneficiaram de forma mais evidente da existência dos EUA. Dá para se achar tal ressentimento purulento na Europa Ocidental em geral (e na França em particular), nos países muçulmanos que de modo especial dependem de assistência, apoio e comércio americano (Paquistão, Arábia Saudita, Egito, por exemplo), entre os astros mimados e privilegiados da indústria do entretenimento, e nas principais universidades dos EUA e do mundo.

Se, então, os defensores mais eloqüentes do ódio aos EUA raramente tiveram algum sofrimento pessoal nas mãos da nação que eles abominam, como podemos entender sua hostilidade implacável? Três fatores ajudam a explicar essa aversão ardente que, como a maioria dos ódios intensos, provoca os danos mais sérios nos próprios autores:

INVEJA

Quando a sociedade muitas vezes descrita como “a nação mais odiada do mundo” também se revela como o país em que os imigrantes de todos os países mais desejam ir morar, então é mais do que óbvio que a inveja desempenha um papel importante nas causas do ódio aos Estados Unidos. Do mesmo modo que a criança que mais faz sucesso na escola gerará considerável ressentimento em alunos invejosos, ou o cidadão mais proeminente e próspero de uma cidade provocará hostilidade de alguns de seus vizinhos que não tiveram tanta sorte na vida, os EUA são alvo de ira e condenação precisamente por causa de seu imenso poder e influência. O ódio aos EUA se intensificou de modo bem claro nos últimos cinqüenta anos, embora seja difícil argumentar que nosso país de repente começou a desempenhar um papel mais destrutivo no mundo desde o fim da Guerra Fria. O que mudou desde o colapso da União Soviética foi o desaparecimento de todos os rivais plausíveis contra a última superpotência que restou, de modo que os EUA, como a potência inequivocamente dominante do planeta, atraem mais ira e suspeita do que atraíram durante a longa batalha contra o comunismo mundial.

Além disso, a inveja que incita o antiamericanismo muitas vezes tem como origem o ressentimento que muitos têm do poder dos EUA, em vez de inveja das riquezas e liberdades que os americanos de modo tão óbvio gozam. Por exemplo, os cidadãos da Holanda se gabam de padrões de vida que se comparam favoravelmente aos padrões de muitos americanos, e eles construíram uma democracia vibrante com abundantes liberdades civis. Apesar disso, quando os eleitores vão votar em Amsterdã ou Utrecht eles fazem decisões que só têm importância para a Holanda e nenhum outro país. Em contraste, as eleições americanas ajudam a decidir o futuro de toda a civilização e repercutem nos cantos mais remotos do planeta. Depois da re-eleição de Bush em 2004, vários jornalistas da Europa sugeriram que os residentes de nações aliadas com os EUA deveriam obter a chance de votar nas eleições americanas, por causa do impacto dessas campanhas no futuro de todas as nações — uma indicação certa da inveja intensa que eles sentem da influência e papel central dos EUA, e essa inveja contribui de modo inquestionável para alimentar o ódio aos EUA.

Entre os próprios americanos que odeiam os EUA, a inveja deles se dirige para as grandes e poderosas instituições (o exército, as corporações, o Partido Republicano, os grupos religiosos conservadores) e a “plebe” que os apóia. Eles se isolaram das tradições antigas, das tendências presentes e da maioria dos outros cidadãos americanos, e esse auto-isolamento os faz se sentirem como exilados em seu próprio país — e os faz se ressentirem da nação que, em grande parte, continua a ignorar suas críticas cada vez mais histéricas.

O LEGADO DO COMUNISMO

Por aproximadamente cinqüenta anos, o Império Comunista que cobria metade do planeta investiu recursos enormes na mais vil e cruel propaganda antiamericana. Mais de um bilhão de adultos do mundo de hoje cresceram debaixo de ditaduras comandadas pela corja de Brejnev, Mao, Castro, Kim Il Sung em que os livros escolares, as organizações juvenis, as rádios, cinemas, TV, jornais e até os feriados oficiais propagavam as mentiras absurdas sobre o modo de vida dos americanos. Documentos secretos da época da União Soviética revelam que a KGB e outras organizações policiais secretas também gastavam literalmente centenas de milhões de dólares para espalhar as mesmas mentiras no Ocidente — empregando inúmeros agentes de “desinformação” para passar adiante a idéia de que os EUA são uma sociedade excepcionalmente cruel, corrupta, exploradora, racista, militarista, imperialista e religiosamente fanática, cuja própria existência é uma ameaça aos governos comunistas do mundo. É claro, as ditaduras comunistas ainda existem, de Cuba à China, e recentemente ganharam a adesão de demagogos esquerdistas como Hugo Chavez da Venezuela ou Evo Morales da Bolívia que dependem do incitamento ao ódio contra os americanos para manter o frágil controle que têm de seus governos. Até certo ponto, esse ódio não choca muito, pois até mesmo muitos professores e especialistas “avançados” e “sofisticados” do Ocidente condenam os Estados Unidos. A condenação deles ecoa o próprio tipo de linguagem do antiamericanismo marxista do passado, o qual foi proposto pela primeira vez pelo próprio Lênin, e mais tarde aprimorado por seus sucessores stalinistas. Até certo ponto, o atual estado desacreditado da ideologia marxista (com fracassos econômicos em massa e horripilantes assassinatos em massa em todos os países que viveram uma ditadura comunista) apenas redobrou o fervor antiamericano da esquerda: os ex-defensores das ditaduras de Stálin, Mao, Castro e outros monstros comunistas podem hoje acalmar a própria consciência insistindo em que o sistema político e econômico americano é muito pior do que os governos incrivelmente cruéis que eles uma vez adotaram.

A TÓXICA CULTURA POPULAR

Os filmes, programas de TV, músicas populares, fast foods e tendências da moda made in USA permanecem os mais bem-sucedidos produtos americanos para o resto da humanidade. Em vez de inspirarem afeição pelos EUA (como faziam os filmes de Hollywood da década de 1930 e 1940, por exemplo), as mensagens do entretenimento moderno transmitem uma perspectiva sombria e desajustada do modo de vida na América do Norte. Poucas pessoas no Burundi ou Bangladesh chegarão a ter a chance de visitar Los Angeles ou Nova Iorque, mas obterão uma visão do estilo de vida americano na TV ou nos filmes de cinema — uma visão que enfatiza a violência, as paixões sexuais, a injustiça econômica, a corrupção geral, o egoísmo e perversidades de toda espécie. A maioria das sociedades no mundo não ocidental (boa parte incluindo a China, Índia, África e América Latina, e praticamente o mundo muçulmano inteiro) mantêm um compromisso com valores familiares elevadamente tradicionais que seriam escandalosamente classificados como restritivos, e até mesmo “puritânicos”, em termos americanos. É claro, centenas de milhões de pessoas nessas sociedades vêem o conteúdo malicioso do entretenimento americano como decadente e nocivo, uma ameaça (talvez até uma conspiração) para destruir a moralidade que os tradicionalistas querem sustentar e defender. Quando os mais criativos produtores de entretenimento dos EUA negligenciam vez após vez sua responsabilidade de apresentar a imensa bondade, decência, gentileza e oportunidades amplas que permanecem elementos essenciais da experiência americana, então mal podemos culpar as audiências pobres em cantos menos afortunados da terra por permanecerem ignorantes da verdadeira natureza dos EUA.

Os fatores que produzem as ondas cada vez mais elevadas de ódio aos EUA — Inveja, Legado Comunista e influência da cultura popular — provocam mais danos às pessoas que sucumbem a esse ódio do que aos interesses nacionais dos EUA. A inveja nos distrai de utilizar nossos esforços para construir, paralisando tanto nações quanto indivíduos; a nostalgia dos velhos dias maus da tirania marxista incentiva as piores tendências em qualquer sociedade, e adotar os modernos produtos da cultura popular americana (Alguém aí quer escutar músicas de gangues de rua dos EUA? Que tal um rap?) garante influência provinda das piores, não das melhores, mensagens da sociedade americana.

A única forma de antiamericanismo que tem de causar preocupação nos cidadãos e líderes americanos envolve o desprezo das elites americanas por todos os valores do passado e presente dos EUA — um desprezo que os principais educadores e personalidades dos meios de comunicação fomentam incansavelmente. O historiador político Michael Barone recentemente identificou tais líderes como “nossos inimigos encobertos” que vêm “trabalhando, durante muitos anos, para minar a fé em nossa sociedade e confiança na sua bondade… Nossos inimigos encobertos não querem que os muçulmanos fascistas vençam. Mas em algum cantinho do coração eles gostariam que nós perdêssemos”.

A atitude de entender e confrontar o ódio aos EUA onde quer que ocorra ao redor do mundo e principalmente aqui nos EUA ajudará a garantir que esses inimigos potencialmente perigosos jamais consigam realizar o desejo de seus corações.

Tradução e adaptação de Julio Severo: www.juliosevero.com; www.juliosevero.com.br

Fonte: http://www.townhall.com/columnists/MichaelMedved/2006/08/23/why_the_world_hates_america

Um comentário:

luis felipe disse...

Ótimo texto;

Parabéns !