14 de setembro de 2006

De volta ao futuro

De volta ao futuro

MARIAN TUPY

Recentemente realizou-se em Washington um fórum público intitulado “Será que o Comunismo está Morto?” Entre os participantes estava Harry Wu, um batalhador de direitos humanos que passou 19 anos num campo de trabalhos forçados na China, o laogai, pelo único motivo de criticar o Partido Comunista de Mao. Os preletores concordaram que a batalha envolvendo o legado do comunismo é difícil.

É verdade que não se pratica mais o comunismo em nenhum lugar do mundo, exceto Coréia do Norte e Cuba. Mas uns 17 anos depois da queda do Muro de Berlim, uniformes e camisetas da URSS com a imagem de Che Guevara, cúmplice de Fidel Castro, são comuns no Ocidente. O que isso diz acerca do apelo de uma filosofia responsável pelo assassinato de cem milhões de pessoas? Longe de ser tabu como seu primo intelectual, o nazismo, o comunismo é moda entre os jovens de muitos países.

Em parte, a culpa pela falta de condenação universal ao comunismo, como a condenação que sobreveio com justiça ao nazismo, está na elite intelectual com inclinações esquerdistas no Ocidente. Tendo passado décadas de suas vidas defendendo o comunismo, muitos intelectuais acham difícil admitir que estavam errados.

Em vez disso, eles optaram por uma estratégia que tem como objetivo ressuscitar pelo menos algumas partes do apelo perdido do comunismo. A idéia é minimizar o mal que se cometeu no nome do comunismo e maximizar suas realizações, e ao mesmo tempo agir de modo inverso com a democracia liberal.

Veja o exemplo de Alexandre Trudeau, jornalista e filho do ex-Primeiro Ministro do Canadá, Pierre Trudeau. Alexandre escreveu um artigo tratando Fidel Castro como uma verdadeira celebridade. O artigo, que saiu no jornal Star do Canadá em 13 de agosto de 2006, é um exemplo típico da batalha envolvendo o legado do comunismo. O texto é uma propaganda descarada que faria com que os lacaios de Stálin no serviço secreto soviético ficassem vermelhos de vergonha. No artigo, o Sr. Trudeau chama Fidel Castro de “homem de grande importância”, “super-homem”, “uma grande mente científica” e “o homem mais interessante que já encontrei”. Ele comenta acerca da “estrutura física hercúlea”, “a coragem pessoal extraordinária” e o “intelecto monumental”.

Esse tipo de delírio acerca do comunismo não é novidade. Manning Clark, historiador australiano, disse sobre Lênin que ele era “como Cristo, pelo menos em sua compaixão”. H. G. Wells teve uma impressão magnífica de Stálin: “Nunca encontrei um homem mais franco, justo e honesto, e é a todas essas qualidades (sem nada de oculto e sinistro) que ele deve sua tremenda e indiscutível superioridade na Rússia. Antes de vê-lo, eu achava que ele poderia estar na posição em que estava porque os homens tinham medo dele, mas percebo agora que ele deve sua posição ao fato de que ninguém tem medo dele e todo mundo confia nele”.

Contudo, voltando ao assunto de Cuba, muitos cubanos arriscam uma travessia de mar para escapar da ilha paraíso. Então como é que pode isso? Quem é responsável pela pobreza de Cuba? Caramba, é claro que são os Estados Unidos. Conforme comentou o Sr. Trudeau: “Cuba sob Castro é um país extraordinariamente alfabetizado e saudável, mas inegavelmente pobre. Os historiadores observarão, porém, que nunca nos tempos modernos um país pequeno e pacífico esteve mais sujeito a tratamento injusto e maligno por parte de uma superpotência do que Cuba sofre dos Estados Unidos”.

Nem ligue para o fato de que a loucura de Fidel Castro quase levou o mundo à destruição [quando ele permitiu que os comunistas soviéticos instalassem em Cuba mísseis contra os EUA logo no começo do comunismo cubano] ou que ele estava disposto a sacrificar seus compatriotas “alfabetizados e saudáveis” durante toda essa loucura. O fato é que não importa que Castro seja um homem desagradável, depois que os soviéticos removeram os mísseis nucleares de Cuba, a ilha não mais era uma ameaça aos Estados Unidos. Assim, o embargo comercial dos EUA não fazia sentido. Além disso, já que os EUA estavam sozinhos, o embargo estava condenado a fracassar, mas deu aos descarados defensores do tirano cubano, como Alexandre Trudeau, todos os argumentos plausíveis para criticar os EUA.

Digo “plausíveis” porque muito embora muitas pessoas acreditem nesses argumentos, o que o Sr. Trudeau disse está errado. É verdade que os cubanos não podem fazer negócios com os EUA. Contudo, eles podem fazer negócios com os outros 200 países do mundo. A razão da existência de pobreza em Cuba não é a falta de acesso ao mercado, mas a incapacidade de produzir muito do que outras pessoas poderiam ter interesse de comprar. O homem responsável por manter a economia cubana improdutiva e ineficiente é Fidel Castro.

Deixando de lado o aspecto econômico, e quanto ao passado assassino de Fidel e a repressão à oposição em Cuba hoje? O Sr. Trudeau admite que “a liderança de Fidel pode ser um peso… Os cubanos de vez em quando realmente se queixam, como muitas vezes se queixaria um adolescente acerca de um pai muito rigoroso e exigente”. Comparando o desejo de milhões de pessoas oprimidas de serem libertas de um tirano com adolescentes se rebelando contra a autoridade dos pais? Uma comparação que dá nojo.

Talvez em vez de fazer viagens curtas a Cuba e serem guiados pelos agentes de Fidel em passeios pela ilha, os intelectuais ocidentais deveriam se mudar para lá e experimentar o comunismo bem na pele. Aos que decidirem fazer a mudança, eu simplesmente diria: “Boa viagem, mas não se esqueçam de levar seu próprio papel higiênico, [porque em Cuba até isso costuma faltar]”.

Marian Tupy é diretor assistente do Projeto de Liberdade Econômica Global no Instituto Cato.

Tradução e adaptação de Julio Severo: www.juliosevero.com; www.juliosevero.com.br

Leia também: O poder que Fidel Castro não pôde deter.

Fonte: http://www.nysun.com/article/39179?page_no=1

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