8 de março de 2006

Mães que permanecem no lar frustram metas feministas para a sociedade

Mães que permanecem no lar frustram metas feministas para a sociedade

Albert Mohler

As mães que ficam em casa são uma ameaça à civilização? Quem ficou chocado com essa pergunta devia tomar nota do fato de que o programa “Bom Dia América”, da rede ABC, dedicou uma série a essa pergunta em dois dias sucessivos, apresentando os argumentos de Linda Hirshman, uma conhecida pensadora feminista.

“Estou dizendo que o lugar de um adulto formado e competente é no escritório”, Hirshman declarou em “Bom Dia América”. Em outras palavras, as mães que permanecem no lar com seus filhos entregaram-se a um chamado que nenhum adulto formado e competente deveria desejar ou aceitar.

Hirshman atirou-se num debate sobre o papel das mães no ano passado, quando ela respondeu a uma enorme quantidade de programas dos meios de comunicação que indicavam uma tendência impressionante — um grande número de moças com elevada formação em faculdades e universidades de elite demonstraram que não planejavam seguir uma carreira fora do lar, mas dedicar-se ao papel de esposa e mãe.

A resposta de Hirshman foi veemente e verborrágica. Escrevendo nas páginas de The American Prospect, Hirshman argumentou que o “feminismo em grande parte fracassou em suas metas”. Conforme ela explicou: “Há poucas mulheres nos corredores de poder, e o casamento em sua essência não mudou. O número de mulheres nas universidades é mais elevado do que o número de homens. Mas, mais de uma geração depois do feminismo, o número de mulheres em empregos de elite não chega a essa altura”.

De acordo com o diagnóstico de Hirshman, dá para ver a origem desse problema no fato de que um número elevado demais de mulheres está permanecendo no lar com seus filhos. De modo particular, ela atacou a noção de que as mulheres devem se sentir livres para escolher o papel de mãe como um chamado de vida. Ao atacar o “feminismo de escolha”, Hirshman afirma que as mulheres que se dedicam ao papel de mãe minam a condição de todas as mulheres e ameaçam o nascimento de uma civilização de igualdade de direitos.

Em seu artigo no The American Prospect, Hirshman analisou uma grande quantidade de informações. O que é interessante é que as estatísticas que ela espera que seus leitores achem tão desapontantes serão a causa de surpresa e esperança para os que valorizam a família, a paternidade e a responsabilidade de criar filhos. Conforme ela explica, os números do censo para todas as mulheres trabalhadoras têm caído um pouco desde 1998, depois de terem ficado nivelados em 1990.

Preocupada com essas estatísticas, Hirshman decidiu empreender algumas pesquisas por conta própria. Ela selecionou uma amostra de moças que haviam sido identificadas como noivas na seção “Sunday Syles” do jornal The New York Times em 1996. Hirshman cria que “as noivas realizadas que tinham uma formação brilhante” em sua amostra seriam uma indicação do modo como essa geração de moças aborda carreira, casamento e papel de mãe.

Conforme relata Hirshman: “No casamento, elas incluíram uma vice-presidente de comunicação aos clientes, uma gastroenterologista, uma advogada, uma redatora e uma executiva de marketing. Em 2003 e 2004, eu as rastreei e liguei para elas. Entrevistei cerca de 80 por cento das 41 mulheres que anunciaram seus casamentos em três domingos de 1996. Com 40 anos, diplomadas em universidades e com carreiras: Quem tinha mais probabilidade do que elas para colher a promessa de oportunidade do feminismo? Imagine meu choque quando descobri que quase todas as noivas do primeiro domingo estavam em casa com seus filhos. Anomalia estatística? Não. Mesmo resultado com relação às noivas que casaram no segundo domingo. E para o outro grupo, o mesmo resultado”.

Essa seção do artigo dela é impressionante, para dizer no mínimo. Como Hirshman, devo admitir que estou surpreso com os dados dela. Apesar disso, o fato de que tantas moças talentosas e com elevada formação educacional estavam se dedicando ao papel de mãe é fonte de genuína esperança e encorajamento.

Hirshman também descreveu descobertas adicionais em sua pesquisa. “Noventa por cento das noivas que encontrei haviam tido bebês. Das 30 com bebês, cinco estavam ainda trabalhando de tempo integral. Vinte e cinco, ou 85 por cento, não estavam trabalhando de tempo integral. Das que não estavam trabalhando em tempo integral, 10 por cento estavam trabalhando em tempo parcial, mas em empregos muitas vezes longe de suas rotas de carreira no passado. E metade das mulheres casadas com filhos não trabalhava em nenhum emprego fora”.

Além dos dados de Hirshman, as pesquisas indicam que bem mais mulheres do que homens saem do mercado de trabalho para cuidar de seus filhos. Além disso, pesquisas recentes indicam que as mulheres com uma formação universitária ou profissional têm apenas uma leve probabilidade a mais de permanecerem no mercado de trabalho depois de terem filhos do que as mulheres com apenas um ano de faculdade. “Quando seus filhos estão no primeiro ano de vida, 54 por cento das mulheres com formação universitária ou profissional não estão trabalhando de tempo integral (18 por cento estão trabalhando em tempo parcial e 36 por cento não trabalham fora). Até mesmo entre as que têm filhos que não estão no primeiro ano de vida, 41 por cento não estão trabalhando de tempo integral (18 por cento estão trabalhando em tempo parcial e 23 por cento não trabalham fora)”.

A partir da perspectiva de Hirshman, a situação só tende a piorar. “Isso não tem a ver só com creches”, confessa ela. “Metade das noivas da matéria do The New York Times que eu pesquisei deixou seus empregos com a chegada do primeiro bebê. Em entrevistas, pelo menos metade delas expressou uma esperança de jamais voltar a trabalhar. Nenhuma delas tinha planos realísticos de trabalhar. O que é mais importante é que quando elas saíram do emprego, elas já estavam alienadas de seu trabalho ou ao menos não compromissadas a uma vida de trabalho”.

O próprio fato de que essas mulheres voltaram as costas para carreiras promissoras parece virtualmente inconcebível para Linda Hirshman. Quando uma mulher formada em administração de empresas expressou sua falta de conexão com os homens em seu ambiente anterior de trabalho que ficavam tão entusiasmados em fazer negócios, Hirshman observa tudo isso com incredulidade.

Na opinião de Hirshman, tudo isso simplesmente prova que a revolução feminista não foi revolucionária o suficiente. Em outras palavras, a revolução que abriu o mercado de trabalho para as mulheres não fez nada, na opinião dela, para remoldar fundamentalmente a estrutura de autoridade dentro do casamento e da família. “Por que aconteceu isso? A resposta que descobri — uma resposta que nem as líderes feministas nem as próprias mulheres querem enfrentar — é que embora o mundo público tenha mudado, ainda que imperfeitamente, para favorecer as mulheres no meio da elite, as vidas particulares mal se moveram do lugar. O verdadeiro telhado de vidro está no lar”.

Assim, o problema da “família ultrapassada” é a preocupação de Hirshman e de muitas de suas colegas feministas. Hirshman, aposentada como uma distinta professora visitante da Universidade Brandeis, havia no passado ensinado cursos acadêmicos em assuntos como “fazendo barganhas sexuais”. Inspirada pela ideologia do feminismo radical, ela agora argumenta que o modelo inteiro de relações de gênero precisa ser revolucionado.

“Por maior que fosse, logo que o feminismo liberal recuou para o movimento de escolha não teve nenhuma linguagem para usar acerca da ideologia de gênero da família. As feministas não podiam dizer: ‘O trabalho da dona de casa e a criação de filhos na família nuclear não são interessantes e socialmente válidos. A justiça requer que essas tarefas não sejam designadas às mulheres na base de seu sexo e com o sacrifício de seu acesso ao dinheiro, poder e honra”.

Claramente, o que ela argumenta que o feminismo liberal foi incapaz de propor, ela agora planeja levantar como seu argumento central. Ela claramente crê que o trabalho da dona de casa e a criação de filhos não são interessantes e não devem ser socialmente aceitos.

Nas ocasiões em que apareceu no programa “Bom Dia América”, Hirshman atacou a noção de que as mulheres podem se sentir realizadas e confirmadas no chamado do papel de mãe. Como indicou o programa: “Hirshman diz que trabalhar fora é também uma questão de se sentir realizada. Ela não aceita o argumento de muitas donas de casa que dizem que cuidar da família é a coisa mais gratificante que elas poderiam imaginar”. A resposta de Hirshman é uma demonstração de estupenda arrogância. “Gostaria de ver uma descrição da vida diária delas que comprove essa posição”, disse ela. “Uma das coisas que tenho feito trabalhando em meu livro é ler muitos diários online, e a descrição delas acerca da vida delas não parece particularmente interessante ou gratificante para uma pessoa complexa, para uma pessoa formada e complexa”.

Entendeu? Hirshman está dizendo às mães que o trabalho delas não é fundamentalmente importante, interessante e fundamentalmente digno de qualquer pessoa “complexa” e “formada”.

As mulheres que permanecem no lar com seus filhos, virando as costas para carreiras promissoras, “estão desapontando todas as mulheres”, declara ela. Elas estão rejeitando o próprio ideal feminista que os ideólogos radicais adotaram e elas estão minando a causa de todas as mulheres, na opinião condescendente de Hirshman.

Não se engane — Hirshman não quer que as mulheres tenham escolha alguma no assunto. O “feminismo de escolha” é um fracasso profundo, na opinião dela, porque sanciona o que nunca deveria ser sancionado — o papel de ser mãe.

A resposta dela? “As mulheres que querem ter sexo e filhos com homens e querem ao mesmo tempo bom trabalho em empregos interessantes em que elas possam ocasionalmente manejar real poder social precisam de direção, e elas precisam cedo na vida. O passo um é simplesmente começar a conversar sobre expansão. Ao fazer isso, o feminismo estará voltando a suas primeiras raízes censuradoras. Isso pode enfurecer algumas mulheres, mas deve soar o alarme antes que a próxima geração acabe na mesma situação. Em seguida, as feministas terão de começar a oferecer às moças não escolhas e não sonhos utópicos, mas soluções que elas mesmas possam executar. Tirar as mulheres de seus papéis tradicionais não vai ser fácil”.

Há mais. Hirshman argumenta que permitir que haja a escolha do papel de mãe é “ruim para cada mulher”. Hirshman está pronta para dizer às moças que elas não têm nenhum direito inerente de escolher uma condição mais baixa, na opinião de Hirshman, do que elas deveriam buscar e exigir na esfera pública.

“Uma boa vida para os humanos inclui o padrão clássico de usar nossa capacidade de expressão e razão de um modo prudente, o requisito liberal de ter autonomia suficiente para dirigir a própria vida, e o teste utilitário de fazer mais bem do que mal no mundo. Medindo-se diante desses padrões testados pelo tempo, as mães da classe alta que receberam uma cara formação educacional estarão levando vidas inferiores”.

Que negócio impressionante! Na opinião de Hirshman, a escolha que uma mulher faz de desenvolver sua “capacidade de expressão e razão” como mãe não é prudente nem aceitável. Além disso, ela parece demonstrar uma antipatia inerente a crianças em geral, e crianças de menos de um ano em particular. Ela acusa as mães que permanecem no lar de “carregar a maior parte do peso do trabalho sempre associado à posição social mais baixa”. Ela identificou essas tarefas como “varrer e limpar dejetos”, e condenou as mães que foram descritas na mídia como mulheres que vivem “observando vigilantemente seus bebês em busca de sinais de excreções 24 horas por dia, sete dias por semana, como mulheres da classe social mais baixa possível”, pela própria escolha delas.

O próprio fato de que “Bom Dia América” dedicou dois programas a Linda Hirshman e seus ataques contra o papel de mãe é um avanço social significativo. É claro que esse programa da rede ABC incluiu mulheres que se opuseram aos argumentos de Hirshman, mas esses argumentos foram apesar disso considerados pela imprensa como dignos de publicação.

Sem dúvida, Hirshman está falando em nome de uma percentagem considerável da elite cultural quando ela argumenta que “o lugar de um adulto competente e formado é no escritório”. Na opinião de tantos, o mercado de trabalho é a arena em que a vida real é vivida e importante trabalho é feito. A idéia de que o papel de mãe poderia ser um chamado mais elevado do que o direito, medicina, finanças ou qualquer outro número de profissões está completamente além da compreensão dela. Aliás, ela vê a própria lógica do papel de mãe como minando o projeto feminista inteiro.

Assim, quando ela argumenta que as mães que permanecem no lar estão “desapontando todas as mulheres”, sua intenção parece ser envergonhar as moças a tal ponto que elas desistam do papel de mãe e voltem ao mercado de trabalho. No mínimo, ela argumenta que as mães deveriam ter só um bebê de modo que elas possam voltar ao mercado de trabalho em curto tempo.

A resposta cristã a esse artigo deve ser uma combinação de refutação, espanto e defesa do papel de mãe. O artigo de Hirshman e suas entrevistas nos meios de comunicação podem servir para nos lembrar do chamado inexprimivelmente elevado do papel de mãe e dos sacrifícios que tantas mulheres fazem, dia a dia, para criar filhos, cuidar do bem-estar do lar e moldar a própria civilização.

Respondo aos argumentos de Hirshman a partir de uma posição altamente privilegiada — como filho, marido e genro de mulheres que deram e dão de si mesmas sem reservas ao chamado do papel de mãe. Elas, como tantos milhões de outras mães dedicadas, são as que demonstram uma sabedoria e dedicação que vão além de qualquer coisa que o homem possa oferecer em termos de intuição maternal, devoção amorosa e capacidade de supervisionar e cuidar de tudo, trabalhando administrativamente de tal forma que deixariam assombrado qualquer empresário milionário.

Apesar disso, a melhor refutação ao argumento horrível de Hirshman é a felicidade que tantas mães experimentam e a evidência do amor e atenção maternal nas vidas de seus filhos.

Essas mulheres não estão desapontando todas as outras mulheres. Pelo contrário, elas estão fortalecendo a civilização onde a civilização começa — no lar.

Albert Mohler, Jr. é presidente do Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky. Para conhecer mais artigos e outros materiais do Dr. Mohler, visite seu site: http://www.albertmohler.com/

Titulo do original: Are Stay at Home Moms “Letting Down the Team?”

Traduzido e adaptado por Julio Severo: http://www.juliosevero.com.br/

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