8 de janeiro de 2006

O Desafio da Homossexualidade

O Desafio da Homossexualidade:
Sua importância em nossos dias

Dr. Albert Mohler

Em todas as gerações, a igreja se defronta com certa questão importantíssima, que serve para medir claramente as convicções e a fidelidade do povo de Deus à Bíblia. A igreja na Alemanha, por exemplo, enfrentou esse tipo de questão quando Hitler subiu ao poder em 1933. Hoje, a igreja nos Estados Unidos enfrenta um sistema de governo secular de descontrolado revisionismo moral, principalmente na questão da homossexualidade.

Em 1997, o historiador Paul Berman fez um argumento interessante em sua obra A Tale of Two Utopias (Conto de Duas Utopias). Olhando para o passado, para o que ele chamou de “despertamento gay”, ele disse isto: “Parece que estamos ouvindo: ‘Não há agentes de segurança hoje — não na questão da heterossexualidade versus homossexualidade. Nas questões mais cruciais e pessoais, você, cada um e todos vocês, são responsáveis por vocês mesmos’. Estamos ouvindo: ‘Com relação à homossexualidade, é proibido proibir’”. Então como agora, o princípio moral geral com relação à questão da homossexualidade que governa na sociedade em geral é este: É proibido proibir. Hoje, pode-se aplicar esse princípio a quase todas as dimensões da vida. É proibido proibir — exceto nas áreas governadas pelo politicamente correto. Pois não é proibido proibir quando o assunto é sistema de regras sexuais adotado por muitas universidades e faculdades. Deixando esse aspecto de lado, o fato é que é proibido proibir aquilo a que a fé cristã histórica tem se oposto.

A questão da homossexualidade é atualmente o front mais tempestuoso da guerra cultural. Os grupos de ativistas homossexuais estão pressionando para que os homossexuais e as lésbicas sejam identificados como uma classe especial com direitos garantidos de proteções sob as leis de direitos civis. Além disso, é agora comum encontrar literatura homossexual e homoerótica nas bibliotecas públicas, e até mesmo em algumas escolas públicas. A normalização da homossexualidade está se tornando um fato social.

Os meios acadêmicos em grande parte já se renderam ao movimento homossexual. Os programas de estudo gay são hoje uma crescente indústria na cultura acadêmica. Os meios de comunicação apresentam a homossexualidade de modo favorável, e a organização Aliança Gay e Lésbica Contra Difamações publica uma lista do número de personagens homossexuais que são apresentados no horário nobre da televisão. No passado, a lista era bem curta, mas cresceu tanto que se tornou uma lista longa, pois as redes de televisão estão cada vez mais fazendo concessões aos interesses homossexuais.

Até mesmo as denominações protestantes mais antigas estão atualmente debatendo a homossexualidade, com sua atenção centralizada no momento na ordenação de homossexuais praticantes ao ministério e o equivalente de uniões homossexuais com o casamento de pacto heterossexual.

Como foi que isso aconteceu? As origens do movimento homossexual como uma grande força cultural podem ser encontradas nos Tumultos de Stonewall em Manhattan em 1969. Foi aí que a iniciativa de direitos civis da década de 1960 e o radicalismo moral da esquerda se uniram e resolveram identificar os homossexuais como um grupo sofrendo a negação de direitos legais e assim merecedor de proteções especiais. Os freqüentadores do Bar Stonewall lançaram um movimento que se tornaria o símbolo de inauguração da luta pela liberação gay.

O que ocorreu em seguida foi uma campanha estratégica e calculada para ganhar a legitimação da homossexualidade, para promover os temas homossexuais nos meios de comunicação e para receber direitos especiais como uma classe legalmente protegida. Além disso, o movimento tem feito muita pressão para conquistar metas específicas de políticas públicas, tais como a eliminação de todas as leis anti-sodomia, o reconhecimento das parcerias homossexuais como equivalentes ao casamento heterossexual, leis antidiscriminação e a remoção de todas as barreiras que impedem os homossexuais no exército, nos meios acadêmicos, no mundo dos negócios e nas igrejas.

A fim de alcançar essas metas, o movimento homossexual se organizou como uma luta de libertação. Baseando-se na ideologia marxista de libertação da opressão, a intenção é identificar-se com outros movimentos de libertação, inclusive o movimento de direitos civis, a agenda feminista, e outros. Mas a meta não é a simples legitimação da atividade homossexual, nem mesmo o mero reconhecimento dos relacionamentos homossexuais. Em vez disso, sua meta é a criação de uma cultura homossexual pública dentro da sociedade. Esse movimento é um total desafio a todos os setores da sociedade e é a principal força de uma revolução social que está afetando tudo, da família ao próprio Estado.

Uma perspectiva evangélica precisa reconhecer que tal revolução é em si um desafio direto aos fundamentos das diferenças sexuais, família, sexualidade e moralidade, que são questões centrais de uma perspectiva cristã vivida no mundo. Portanto, esse é um desafio que os evangélicos não podem deixar de enfrentar com coragem e graça.

O movimento homossexual não se originou do nada. Aliás, esse desafio emergiu de dentro do contexto de uma mudança cultural que transformou as sociedades ocidentais durante o século XX. O termo “mudança cultural” aponta para um modelo de mudanças fundamentais que molda todos os níveis da vida social e cultural. Uma mudança cultural é nada menos do que um reordenamento fundamental da sociedade inteira de cima até embaixo — ideologias, perspectivas, moralidade e padrões de conhecimento. A mudança cultural da modernidade à pós-modernidade tem afetado o modo como todos os segmentos sociais entendem o significado das coisas. O que é mais importante é que reordenou de maneira radical o modo como os cidadãos consideram a questão da própria verdade.

O que ficou mais claro na última metade do século XX foi que a esquerda do Iluminismo finalmente se tornou vitoriosa. Enquanto que as pessoas do pré-Iluminismo entendiam a verdade como realidade objetiva à qual eles deveriam se submeter, as pessoas de hoje vêem a verdade como produtos particulares a serem moldados, aceitos ou rejeitados de acordo com a preferência e gosto de cada pessoa ou de acordo com as decisões da comunidade. A vasta maioria das pessoas, tendo abraçado o relativismo, rejeita a própria noção de verdade absoluta e considera todas as questões de fé e moralidade como simples expressões de preferência pessoal. Não é que cremos que algo seja verdadeiro, mas que cremos que algo é verdadeiro para nós.

Esse individualismo puro, que abrange tudo, sustenta a presente confusão cultural da sociedade. A mudança progressiva no lugar da verdade e no lugar da autoridade da perspectiva cristã para o Estado, para o mercado de massa e no final para o indivíduo isolado, deixa o público desarmado para o autêntico discurso moral.

Uma chance surgiu para o movimento homossexual numa mudança que Mary Ann Glendon da Faculdade de Direito de Harvard chama de “conversa de direitos”. Em algum momento dos últimos trinta ou quarenta anos, o discurso cívico americano mudou de debate sobre o que é certo e errado para um debate sobre direitos — meus direitos, nossos direitos, seus direitos e os direitos deles. De acordo com essa perspectiva, não é só o direito, mas fundamentalmente a responsabilidade de todos os grupos que se definem como grupos de interesses reivindicar seus direitos e exercer esses direitos nos lugares públicos.

A “conversa de direitos” é uma mudança fundamental no modo como a sociedade visualiza sua própria ordem, suas próprias prioridades e quais as questões que estão genuinamente em jogo. Como conseqüência, não podemos realmente falar mais sobre fazer um ordenamento na sociedade em termos de uma categoria como “justiça”, uma palavra que os fundadores dos Estados Unidos utilizavam com muita naturalidade.

A medida em que confronta as questões morais, a igreja precisa sem demora apurar a importância relativa dessas questões e seu relacionamento com a revelação bíblica e as verdades centrais da fé cristã. Um dos problemas é que a igreja muitas vezes não sabe a diferença entre dizer que algo não é importante e dizer que algo é menos importante. O atual debate moral fica muitas vezes nublado com tais confusões, e quando o mundo nos escuta de fora muitas vezes até parece que cremos que todas as questões têm o mesmo peso moral.

Na teoria moral cristã tradicional tem havido uma compreensão de que há uma hierarquia de bens e uma hierarquia de questões. Quanto mais perto se chega às questões mais básicas da vida, conforme se encontram reveladas nas Escrituras, mais importante é a questão moral do debate. Isso é claro traz a pergunta: “Numa hierarquia de bens onde é que fica o homossexualismo?”

Não há questão moral mais fundamental do que nossa ordem sexual, nossa identidade sexual — o papel de homens e mulheres e a instituição do casamento. Portanto, a questão da homossexualidade é uma questão teológica de primeira ordem. Infelizmente, até isso é questão de debate entre os teólogos morais. Alguns simplesmente não aceitam que é uma questão de primeira ordem, mas é mais que certeza que é, pois verdades fundamentais, essenciais à fé cristã, estão em jogo nesse confronto. Essas verdades abrangem desde questões básicas de teísmo à autoridade da Bíblia, a natureza dos seres humanos, o propósito de Deus para a criação, pecado, salvação, santificação e, por extensão, a natureza inteira da divindade. Para ser claro, se as reivindicações do movimento homossexual são verdadeiras e válidas, o sistema inteiro da fé cristã corre perigo, e algumas doutrinas essenciais cairão.

Para que não se veja isso como exagero, considere a questão da autoridade e inspiração da Bíblia. Se as afirmações dos intérpretes revisionistas são válidas, então a própria base da inspiração bíblica é invalidada. Mas o desafio é ainda mais profundo, pois se, conforme afirmam os intérpretes revisionistas, as Santas Escrituras podem estar tão erradas e mal orientadas nessa questão da qual a Palavra de Deus fala de forma tão clara, então o paradigma evangélico inteiro da autoridade bíblica não conseguirá ficar de pé.

A igreja foi chamada para confrontar os desafios da homossexualidade com compaixão e verdade. Enquanto os cristãos se deparam com essa tarefa, a maturidade e a seriedade moral exigirão que entendamos a importância fundamental dessa questão. O desafio do homossexualismo não é meramente uma questão de debate cultural e político — é uma questão de importância teológica urgente.

Albert Mohler Jr. é presidente do Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky. Para conhecer mais artigos e outros materiais do Dr. Mohler, visite seu site: http://www.albertmohler.com/

Traduzido e adaptado, com a devida permissão, por Julio Severo: http://www.juliosevero.com.br/

Fonte: http://www.albertmohler.com/commentary_read.php?cdate=2006-01-05

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