10 de dezembro de 2005

Capacitado para evangelizar e demonstrar misericórdia

Capacitado para evangelizar e demonstrar misericórdia

Wesley Campbell

Como ilustração do segundo maior mandamento em ação, Jesus contou a famosa parábola do Bom Samaritano. No final Ele fez uma pergunta bem afiada a um homem religioso que estava atrás de uma resposta: “Qual foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” A única resposta possível era que o próximo real para o samaritano era “aquele que teve misericórdia dele”. A história foi obviamente contada para demonstrar aos que estavam ouvindo com que realmente parece a atitude de amar o próximo — a verdadeira bondade, em contraste com a bondade imaginada. Então, com aplicação incisiva, Jesus disse: “Vá e faça o mesmo”.

Se realmente temos de amar nossos próximos como a nós mesmos, nos veremos sendo puxados para a responsabilidade de evangelizar e demonstrar misericórdia. Misericórdia, pois somos movidos a ajudar nas necessidades materiais dos outros aqui na terra, e evangelismo, pois somos movidos a ajudar nas necessidades espirituais dos outros, necessidades que envolvem questões da vida aqui na terra e da vida na eternidade. É natural que os cristãos que foram renovados ou reavivados andem na direção do evangelismo e de atitudes de misericórdia.

Até mesmo uma olhada casual na história da igreja revela que os reavivamentos estão complexamente ligados ao aspecto da demonstração de misericórdia. Em alguns casos, logo que o reavivamento chegou os cristãos reavivados passaram a ver tudo com novos olhos e começaram a demonstrar atos extraordinários de misericórdia enquanto transformavam a sociedade, desde os mais pobres e miseráveis até chegar às autoridades. Em outras ocasiões, as estações de avivamento reavivaram somente segmentos da igreja, que com zelo renovado começaram a mostrar misericórdia. O resultado foi o mesmo: reavivamento. Onde é que os rios de avivamento precisam fluir? Precisam fluir onde tantas vezes fluíram antes nos reavivamentos clássicos: nas ruas, entre as pessoas comuns.

Olhando para os exemplos dos despertamentos espirituais nos últimos 250 anos, vemos que o padrão é o mesmo. Na Inglaterra, foram os quacres e então Wesley e os metodistas que foram os primeiros a se opor à escravidão dos negros. Embora Wesley e seus convertidos ministrassem em prisões, hospitais e locais de trabalho, eles também tentaram abolir a escravidão. Isso finalmente veio a acontecer 40 anos depois de sua morte, na forma da Lei de Emancipação de 1833 que libertou 781.000 escravos em todas as colônias britânicas.

A lista de obras, organizações e realizações de caridade feitas por aqueles cristãos avivados que obedeciam literalmente ao mandamento de Jesus de mostrar misericórdia é tão numerosa que impressiona tremendamente. John Howard inspirou-se em John Wesley para realizar importantes reformas nas prisões da Inglaterra. Elizabeth Fry, mãe de onze filhos, se tornou pregadora quacre e batalhadora em prol de reformas nas prisões. Até mesmo a Associação Cristã de Moços (ACM) foi fundada para oferecer serviços religiosos e cultura num “lar longe do lar”. Florence Nightingale disse que Deus a havia chamado com voz audível para ajudar os doentes. Ela impactou um evangélico chamado Henri Dunant, que veio a fundar a Cruz Vermelha. Até mesmo a Sociedade Real da Prevenção à Crueldade contra os Animais foi fundada por um clérigo anglicano, Arthur Bloome.

A igreja sempre teve como foco mostrar misericórdia para as crianças. O lorde Shaftesbury se tornou membro do Parlamento britânico em 1826 e passou a maior parte de seu tempo lutando contra os males da exploração infantil nas indústrias, minas, fábricas de tijolos e trabalho de limpeza de chaminés. Essa exploração era com justiça chamada de “comércio escravo de brancos”. Crianças brancas de até quatro anos passavam até catorze horas por dia em minas escuras. Crianças órfãs pegas nas ruas eram forçadas a subir as grandes chaminés das fábricas e depois descer pela tubulação escura, claustrofóbica e sufocante. Shaftesbury promulgou a Lei de Dez Horas que proibia as fábricas de forçarem as crianças a trabalhar treze a dezesseis horas por dia. Ele aprovou leis que proibiam o uso de crianças na limpeza de chaminés e leis que não permitiam que crianças com menos de dez anos trabalhassem em minas.

George Muller experimentou um avivamento e voltou a atenção ao cuidado dos órfãos. Ele chegou a cuidar, em certo momento, de 2.050 crianças. Thomas J. Barnardo foi o resultado do reavivamento de 1859. O lorde Shaftesbury influenciou Barnardo a se tornar missionário nas favelas de Londres. Barnardo abriu lares para crianças que tinham pais alcoólatras e não tinham onde ficar. Antes da morte de Barnardo, ele cuidou de sessenta mil crianças.

Nos EUA, o Segundo Grande Avivamento começou sob o ministério de Francis Asbury e também através de reuniões de acampamentos. Esse avivamento continuou até o ministério de Charles Finney e criou uma verdadeira onda imensa de ministérios de misericórdia. Esse avivamento teve maior impacto na sociedade secular do que qualquer outro na história dos EUA através de sua vasta preocupação social. Os cristãos leigos organizaram milhares de sociedades que tocaram toda esfera da vida social americana. Escravidão, abstinência de bebidas alcoólicas, imoralidade sexual, paz mundial, direitos das mulheres, guarda do domingo, reformas presidiárias, linguagem profana, educação — todas essas questões e outras mais eram tratadas por sociedades específicas que trabalhavam para melhorar o que era bom e para combater o que era ruim.

O que tornou possível todas essas realizações foi uma vasta rede de sociedades de cooperadores voluntários, todas unidas sob uma grande bandeira de uma entidade chamada o Império da Benevolência. Em 1834 o rendimento anual total do Império da Benevolência foi aproximadamente o equivalente hoje a milhões de dólares, que rivalizavam com o orçamento inteiro do governo federal dos EUA naqueles dias!

Poucas pessoas percebem que das primeiras 119 universidades fundadas nos EUA, 104 foram iniciadas por cristãos para levar os estudantes a conhecer Deus. Essas universidades e escolas de ensino superior incluem Princeton, Dartmouth, Columbia, Harvard e Yale. Além do mais, de uma turma de quarenta mil estudantes que estavam se formando em 1855, dez mil se tornaram pastores — mais de 25 por cento! Portanto, quer fossem as escolas, hospitais, política ou os males da sociedade, os cristãos avivados sempre permitiram que sua religião fluísse em atitudes de misericórdia para com as pessoas simples que estavam no mundo.

Quando Deus se moveu poderosamente em nossa igreja em meados de 1990, nos tornamos incapacitados pelo amor por Ele que tínhamos começado a experimentar. Tudo o que queríamos era nos reunir, adorar e orar. Durante os primeiros seis meses do derramamento de Toronto, fizemos pouco mais do que nos reunir e orar — às vezes até trinta e quarenta e cinco horas por semana. Lembro-me de pensar: “Nada mais importa do que isso”. Então, depois que havíamos passado muito tempo na presença do Senhor ansiando apenas conhecer e amar a Deus, uma mudança sutil começou a ocorrer. Começamos a amar as coisas que Ele amava. O que pode ser diretamente atribuído à renovação que estávamos experimentando é que nos tornamos envolvidos com ministérios de misericórdia e ação social. Foi surpreendente o modo como Deus escolheu os meios.

Certa noite um empresário chamado John, que sabia ir direto ao que queria, havia marcado hora para me visitar. Ele e sua esposa, Sandra, vinham freqüentando nossa igreja havia pouco tempo. Ele era da tradição reformada holandesa e ela da tradição batista conservadora. Mediante uma série de encontros inesperados, o Senhor começou a lidar com John, primeiramente lhe falando ao coração, e então batizando-o com Seu amor. Então Deus começou a falar à consciência de John. Nos próximos dois a três meses, John começou a ouvir sinos audíveis toda vez que mentia ou torcia a verdade. Isso acontecia nas reuniões da empresa ou em casa. Finalmente, o Senhor disse: “Agora quero tudo de você! Amo você e chamei você para servir. Você será servo dos outros. Quero 30 por cento de seu tempo, seus pertences e suas finanças! Depois disso, quero que você comece a dar 50 por cento”.

Esse acontecimento acabou criando em John um estilo de vida tipo Bom Samaritano. Inicialmente foi aos poucos, à medida que John de modo bem criativo empregava mães solteiras para orar por sua empresa e vida espiritual. Logo sua família inteira se envolveu de modo bem ativo na luta contra o aborto. Ele e sua esposa aconselhavam as mães jovens a não matar seus bebês e à medida que elas iam tendo seus filhos, John tinha de lidar com outras necessidades que surgiam. Algumas das mães e seus bebês se mudaram para a casa de John. Sua família tinha de cinco a oito pessoas vivendo com eles durante os próximos seis anos. Em tempo, nasceu um plano para ajudar a elaborar oportunidades de moradia e empregos inovadores. Esse plano se concretizou na formação da Sociedade da Esperança.

Com uma equipe de dedicadas pessoas leigas, John e outros são líderes de sua própria entidade de ajuda aos necessitados. Antes, eles haviam acumulado edifícios inteiros de apartamentos e grandes casas valendo milhões de dólares. A sociedade hoje possui e administra moradias subsidiadas para mães solteiras necessitadas. Se isso não fosse suficiente, foi fundada a Esperança para as Nações. Sob essa organização, a equipe de líderes começou uma parceria com três orfanatos em áreas sub-desenvolvidas, mudando a vida de um grande número de crianças. Isso é só um exemplo de uma família que o reavivamento influenciou. Para a nossa igreja, a renovação se tornou o combustível que dirigiu centenas de cristãos comprometidos em direção a um novo foco de misericórdia — o ministério de Jesus. Evangelismo e misericórdia — é para aí que o Rio tem de fluir

Título original: Empowered for Missions & Mercy. Publicado originalmente no boletim Lutheran Renewal de maio de 2005: www.lutheranrenewal.org/

Traduzido e adaptado, com a devida permissão, por Julio Severo: www.juliosevero.com.br

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