13 de novembro de 2005

A Eutanásia na Holanda

A EUTANÁSIA NA HOLANDA

Julio Severo

Victor Hugo, autor de A História de um Crime, disse: — O mal que se comete por uma boa causa continua sendo mal.
Então lhe perguntaram: — Até mesmo quando faz sucesso?
Respondeu ele: — Principalmente quando faz sucesso.
[1]

A questão da eutanásia está agora sendo debatida em muitos países avançados, mas é só na sociedade holandesa que podemos encontrar exemplos de ampla aceitação para a prática de injetar em doentes drogas que causam a morte.


O que em breve a eutanásia significará para a classe médica e para a sociedade? Atualmente, a Holanda é o único país em que podemos achar respostas para essas perguntas.


A eutanásia foi legalizada na Holanda no ano 2000. Mas mesmo quando não era legal, os hospitais a praticavam, com a devida discrição. Durante muitos anos, a prática da eutanásia foi amplamente utilizada enquanto o sistema legal do país fazia de conta que não via os médicos que insistiam em que seus pacientes estavam melhores mortos do que vivos. Se antes esses médicos tinham poucas preocupações com a justiça, hoje eles têm muito menos, pois a Holanda se tornou o primeiro país do mundo a aprovar leis que vêem o assassinato de pacientes como tratamento médico legítimo.


O que realmente está ocorrendo na Holanda? É o que vamos ver a seguir, com a ajuda de informações oficiais de documentos governamentais. Em 1990, o governo holandês criou uma comissão especial para realizar uma pesquisa nacional a fim de apurar oficialmente a extensão da prática da eutanásia. Os resultados só saíram em 10 de setembro de 1991, e logo ficou claro que esse relatório final continha as mais valiosas informações sobre a eutanásia.
[2]

Embora os membros dessa comissão fossem pesquisadores a favor da eutanásia, suas conclusões não conseguiram esconder o impacto real dessa prática. A definição usada no relatório é que eutanásia significa deliberadamente causar a morte de uma pessoa por ação ou omissão, com ou sem seu pedido, sob a alegação de livrá-la do sofrimento de uma doença ou de uma vida imperfeita.


Sob essa definição, os holandeses mortos pela eutanásia chegam a um número de mais que 25 mil por ano, o que corresponde a 20% de todas as mortes. O relatório indica, porém, que esse cálculo não leva em consideração a eliminação deliberada da vida de recém-nascidos deficientes, crianças doentes, pacientes psiquiátricos e aidéticos.


Dos 25 mil casos de eutanásia, 13 mil foram provocados passivamente, isto é, os médicos não deram aos pacientes tratamentos para lhes salvar a vida. Os outros 12 mil casos foram provocados ativamente, isto é, os pacientes foram mortos porque receberam drogas que lhes causaram parada cardio-respiratória.
[3] Pelo menos 1.000 casos de eutanásia ocorrem anualmente sem um pedido formal do paciente. Não é de admirar que outro estudo mostrasse que aproximadamente 60 por cento dos idosos em asilos tenham medo de sofrer uma eutanásia “involuntária”.[4]

De acordo com as informações publicadas no relatório, em 1990 morreram 14.691 pessoas de eutanásia involuntária. Eutanásia involuntária quer dizer o ato de apressar a morte de pacientes que não desejam ser mortos. Isso significa que os médicos tomaram a decisão de abreviar a vida deles. Em 45% dos casos ocorridos em hospitais, a eutanásia foi praticada não só sem o conhecimento dos pacientes, mas também dos familiares. Desse número, 8.750 pacientes morreram porque lhes foi removido, sem seu conhecimento, todo tratamento para lhes prolongar a vida e 5.941 morreram porque receberam, sem saberem nem consentirem, injeções letais na veia. Além disso, 1.400 pessoas que sofreram a eutanásia ativa e involuntária estavam em perfeitas condições mentais. Em 8% dos casos, os médicos realizaram esse tipo de eutanásia mesmo sabendo que a medicina tinha alternativas para os pacientes. Os motivos que os médicos mencionaram para tirar a vida de seus pacientes sem o conhecimento deles foi “baixa qualidade de vida”, “nenhuma esperança de melhoria” e “os familiares não agüentavam mais”.

Casos reais
O que acontece na Holanda é que quando uma pessoa é internada num hospital, um médico avaliará sua qualidade de vida e então conforme sua decisão pessoal (sem perguntar nada ao doente) lhe dará uma injeção que o fará parar de respirar e fará com que seu coração pare de bater. O relatório dessa comissão do governo é o primeiro reconhecimento oficial de que a eutanásia involuntária é praticada na Holanda. Veja um exemplo:


Quatro enfermeiras de um hospital de Amsterdã confessaram ter matado muitos pacientes inconscientes injetando-lhes doses fatais de insulina, sem o consentimento ou o conhecimento deles. Os funcionários do hospital apoiaram totalmente as enfermeiras e perdoaram os assassinatos devido às motivações “humanitárias” delas…[5]

Em vez de ficarem chocados com o que está acontecendo em seu país, a população holandesa em geral está agora questionando se os doentes mentais têm o direito de viver e 90% dos estudantes de economia apóiam a eutanásia compulsória como meio de controlar os custos.[6]

Hoje todos os estudantes de medicina recebem treinamento formal para colocar a eutanásia em prática, e a Real Sociedade Holandesa de Farmacologia distribui um “manual” de eutanásia para todos os médicos. Esse “manual” contém receitas de venenos indetectáveis que os médicos podem colocar na comida ou injetar de tal maneira que seja impossível detectá-los durante uma autópsia. Os diretores de hospital orientam os médicos a dar injeções letais nos pacientes idosos cujas despesas são altas. Isso é feito sem o conhecimento e o consentimento do doente e da sua família.[7] Parece não haver muita preocupação para eliminar as dores do paciente, apenas sua vida. Peer Neeleman, especialista holandês em anestesia, diz: “Muitos hospitais nem mesmo têm um serviço de combate à dor. As faculdades médicas mal ensinam como combater a dor e outros sintomas, enquanto os futuros médicos são ensinados a praticar a eutanásia”. [8]

Em novembro de 1999, num encontro em Brasília, o Dr. Jack Willke contou um caso real que ele conheceu em sua visita à Holanda:

Um médico clínico geral deu entrada no hospital a uma senhora com câncer e completou o diagnóstico na sexta-feira da semana em que ela foi internada. O câncer havia se espalhado e provavelmente não havia cura, mas a paciente não estava se sentindo mal e tinha ainda condições de levar uma vida independente. Ela havia sido informada de que seu caso seria avaliado na segunda-feira, quando então decidiriam o melhor tratamento para ela. O médico que estava cuidando dela saiu de folga no fim de semana. Na segunda-feira de manhã, voltando ao hospital, ele fez seu trabalho de rotina de visitar os quartos dos pacientes e quando ele parou para ver a senhora com câncer, ele encontrou outro paciente na cama dela. Ele chamou o médico residente e perguntou para onde haviam mudado sua paciente, porém foi informado de que haviam aplicado a eutanásia nela um dia antes. “Mas ela não era doente terminal”, disse ele. O outro respondeu: “Sim, sei disso, mas não havia cura para ela e, de qualquer modo, estávamos precisando da cama que ela estava ocupando”.[9]

Na cidade de Roterdã, um amigo médico do Dr. Willke tinha sob seus cuidados um idoso com uma séria doença. A esposa cuidava dele em casa e ele não tinha problemas de dor. Ele pegou bronquite e, enquanto o médico estava fora, a esposa do paciente teve de chamar um médico do hospital para examiná-lo. O médico veio, examinou-o, deu-lhe uma injeção e uma hora depois o paciente estava morto, para total consternação da viúva e do médico pessoal, pois o doente não queria ser morto.

Outro caso envolvia um senhor muito rico que vivia só com a esposa numa cidadezinha holandesa. Ele não estava doente, mas precisava de certos cuidados. Em certa manhã, o pastor o visitou às 9h. O médico veio às 10h, deu-lhe uma injeção e o matou. O carro da funerária chegou às 11h para remover o corpo. A viúva e os filhos rapidamente dividiram o dinheiro e as propriedades e se mudaram para a França. Nenhuma pessoa da cidadezinha acredita que o senhor rico havia pedido ajuda para ser morto. Contudo, embora a viúva e o médico afirmem que ele queria morrer, a única testemunha que poderia falar a verdade está morta.
[10]

Em seu livro Tough Faith, Janet & Craig Parshall contam outro caso:

Uma mulher de 50 anos, ex-assistente social, estava com depressão. Ela tinha saúde, mas pediu para ser morta dois meses depois que seu filho morreu de câncer. Ela tinha também sofrido maus-tratos de seu marido. Ela estava regularmente se tratando com um psiquiatra. Dois meses depois durante o tratamento, ela pediu que o psiquiatra a ajudasse a morrer... seu pedido foi atendido.[11]

Idéias nazistas: antes e depois
Quando os soldados de Hitler invadiram a Holanda em 1940, os médicos holandeses receberam aviso de que eles seriam obrigados a participar do programa de eutanásia para eliminar os gastos das crianças deficientes, os doentes crônicos e incuráveis, etc., nos hospitais e instituições mentais. A maioria deles se recusou a colaborar com esse programa, e alguns foram presos e ameaçados de morte. Mas todos os médicos se uniram e o programa foi fechado.
[12] O aborto e a eutanásia eram questões repugnantes para eles. Parece que o fator mais importante que deu sucesso à resistência dos médicos e da população holandesa em geral aos nazistas foi que naquela época o povo holandês, que na maior parte era evangélico, tinha alicerces éticos sólidos na Palavra de Deus.

Entretanto, hoje a história é diferente. Embora ainda sejam em grande parte evangélicos, os holandeses agora não vão à igreja nem colocam a Palavra de Deus acima de tudo em suas vidas. Pode-se dizer que quando um povo perde o respeito e a obediência aos mandamentos de Deus, então perde-se o respeito pelo valor da vida humana. O resultado? Os médicos holandeses estão matando deficientes, recém-nascidos, pacientes em coma e até mesmo pessoas deprimidas (mas completamente saudáveis) sem que haja nenhum tipo de intervenção da polícia ou dos tribunais para castigar os responsáveis.
[13]

O mais estranho é que quando os nazistas os forçaram, eles não quiseram. Agora que não há nazistas para forçá-los, eles é que querem… No começo, os especialistas holandeses afirmavam que a eutanásia só era justificável em caso de doença terminal. Hoje, até mesmo pessoas sem nenhuma doença física são vítimas da eutanásia. Um adolescente deprimido, por exemplo, se matou com as drogas letais que um psiquiatra lhe forneceu. Em outro caso, um médico prescreveu uma dose letal de medicação para uma viúva que estava seriamente deprimida por ter perdido o marido e os filhos, e ela se matou. O caso foi parar no Supremo Tribunal da Holanda, mas ninguém foi punido.[14]

Embora a sociedade holandesa seja vista como uma sociedade avançada sem abusos dos direitos humanos, os holandeses foram condicionados a ver de modo negligente e despreocupado a questão da eutanásia. O Dr. Hank Jochemsen, famoso eticista médico holandês, disse: “A justiça não percebe nem enxerga a maioria dos casos em que os médicos intencionalmente abreviam a vida dos pacientes, por ato ou por omissão”. O que a eutanásia legal fez na Holanda não foi simplesmente dar aos doentes terminais a liberdade de se matar, mas aumentar vastamente o poder dos médicos sobre a vida e a morte de seus pacientes terminais ou não.[15] As próprias leis que foram criadas para proteger o direito à vida dos seres humanos agora são sutilmente usadas para a eliminação das pessoas que são consideradas indignas de viver. E no nome da compaixão, médicos treinados para curar e prolongar a vida estão abreviando e até matando as vidas que eles deveriam proteger. Matar o paciente como meio de cura está se tornando um procedimento médico aceitável em alguns países chamados avançados.

O que aconteceu com muitos médicos holandeses é que, ao aplicarem a eutanásia num paciente, eles liberaram uma incontrolável força invisível que inevitavelmente leva à morte de suas próprias consciências e integridade ética e moral: o pecado. O pecado sempre produz morte, de todos os tipos e em todas as áreas, para aqueles que o praticam (cf. Romanos 6.23a). E o ato de matar, que está incluído nos Dez Mandamentos, é um dos piores pecados (cf. Êxodo 20.13). Um médico ou enfermeira que tolera a eutanásia terá dificuldade de lutar para salvar a vida de todos os pacientes necessitados sob sua responsabilidade.


Depois de tantos anos de convivência com a eutanásia, a sociedade holandesa agora tende a aceitar o que no passado seria impensável: eutanásia para crianças. Todos os anos são registrados pelo menos 50 casos de recém-nascidos deficientes que ficam, deliberadamente, sem tratamento médico. A maioria dos médicos que trabalham nessa área está chamando essa prática de um modo compassivo de acabar com a vida desses bebês.
A mentalidade pró-eutanásia é tão forte que um defensor dos direitos humanos afirmou que ele não tinha liberdade de falar contra a eutanásia mesmo numa universidade fundada por evangélicos. Como membro da Igreja Cristã Reformada, ele disse: “Esta é uma universidade nominalmente cristã, mas os meus colegas são bem contrários às minhas idéias… A idéia de que essas crianças [deficientes] são um peso é imposta a nós por opiniões que valorizam o desenvolvimento pessoal e o direito de escolher. Os pais ficam apavorados [com a perspectiva de gastar sua vida em favor de um filho deficiente] e eles procurarão um médico que lhes dê uma ‘saída’”. Pais holandeses fiéis a Deus, que têm filhos deficientes, não os estão colocando em instituições, onde suas vidas correm perigo. Eles os estão criando com o valor que Deus lhes dá. Esses pais são um exemplo de luz e esperança no meio da escuridão moral de seu país.
[16]

De todos os países na Europa, é incrível que seja justamente na Holanda que a prática da eutanásia tenha sido aceita a tal ponto que a classe médica, o governo, as igrejas e o povo mal lastimem o que está acontecendo. A Holanda foi o único país a tomar uma posição contra o programa nazista de eutanásia, quando todos os médicos holandeses entregaram suas licenças em protesto. Agora são os médicos holandeses que estão fazendo as próprias coisas que eles tanto abominaram na 2 Guerra Mundial. O que aconteceu?
[17]

A eliminação de vidas está ocorrendo hoje em grande escala na Holanda, onde a eutanásia e o suicídio com assistência médica são praticados pelos médicos. Embora as normas médicas e legais estabeleçam que o paciente é que tem de escolher a morte, mais de 40 por cento dos médicos holandeses aplicam a eutanásia em pacientes que não desejam morrer.[18] O que está acontecendo na Holanda mostra que não é possível permitir o assassinato e o suicídio só em determinadas circunstâncias. O mal, quando é liberado, tende a se descontrolar, principalmente quando ocorre na privacidade do médico com o paciente.

A Holanda moderna se orgulha de suas idéias liberais. Se a Holanda não existisse, os liberais teriam de inventá-la. Esse país tem sido visto como um modelo por sua aceitação das drogas, da prostituição, do homossexualismo e do suicídio com ajuda médica. O governo holandês até financiou o barco do aborto, cuja missão é navegar em águas internacionais, perto de países em desenvolvimento, para oferecer aborto.
[19]

Nem todo holandês é a favor…
O motivo real dos ataques cometidos contra a vida humana e contra a moralidade e a decência na Holanda é que muitas igrejas cristãs holandesas se tornaram secularizadas e indiferentes. De modo geral, a população cristã holandesa não mostra interesse em assumir uma posição cristã clara e forte a favor da vida humana. O Dr. Bert Dorenbos, presidente da organização Clamor pela Vida, crê que fortes pregações de reavivamento e muita oração são o único meio de resgatar sua nação. O que está acontecendo na Holanda é um aviso e sinal para o mundo.
[20] Para que a Holanda possa se libertar da eutanásia e suas maldições, as igrejas evangélicas, até agora mudas em sua responsabilidade de dar um bom testemunho para a sociedade, terão de abrir o coração para o Espírito Santo e a boca por Cristo.

Mas nem todos os holandeses concordam com a eutanásia. Herman van der Kolk, advogado holandês, comenta:

A eutanásia e o suicídio são meios de terminar a vida humana sem levar em consideração que a vida humana na terra é só parte da vida total, pois toda vida humana tem um destino eterno. A vida na terra é uma preparação para a eternidade. Ninguém pode decidir quando é que deve ocorrer o momento adequado para a transição, nem a própria pessoa nem ninguém mais. Só Deus pode decidir o momento adequado. Embora seja errado dar um fim numa vida, ajudar alguém a morrer é igualmente errado pois rouba a decisão das mãos de Deus.[21]

Para o médico que não crê em Deus e na vida eterna, tudo não passa de ilusão. Um médico holandês disse que quando a dose não é suficiente para matar, o paciente geralmente tem alucinações com o inferno.
[22] Médicos holandeses que praticam a eutanásia são orientados a buscar aconselhamento antes e depois de matar seus pacientes. Eles buscam essa ajuda de psicólogos cuja especialidade é tratar médicos que regularmente praticam a eutanásia em pessoas.[23] A descrença em Deus não os livra de problemas com a própria consciência.

O Dr. Karel F. Gunning é presidente da Federação Mundial dos Médicos que Respeitam a Vida Humana, cuja sede fica na cidade de Roterdã, Holanda. Ele diz:

É claro, precisamos ajudar os pacientes que estão morrendo, mas temos de ajudar a acabar com o sofrimento, não com a vida. Se aceitarmos o assassinato de um paciente como solução num caso específico, encontraremos centenas de outros casos em que o assassinato também poderá ser considerado como solução aceitável... a partir do momento em que o médico tiver permissão de matar o primeiro paciente, será uma questão de pouco tempo antes que ele mate o segundo ou terceiro.[24]

O médico holandês I. van der Sluis disse:

A vida não é uma qualidade. A morte não é um direito. E esperar que a eutanásia permaneça voluntária não é ser realista. Os médicos que praticam a eutanásia nos matarão com nosso consentimento se tiverem permissão para fazer isso. E nos matarão sem consentimento se não conseguirem permissão. A eutanásia não é um direito. É a abolição de todos os direitos.[25]

Herbert Hendin, um médico americano que escreveu o livro Seduced by Death (Seduzido pela Morte) observa que “a Holanda avançou de suicídio assistido para eutanásia; de eutanásia para os doentes terminais para eutanásia para os doentes crônicos; de eutanásia para doentes físicos para eutanásia para pessoas depressivas; e de eutanásia voluntária para eutanásia involuntária”. O Dr. Hendin afirma que toda restrição legal contra a eutanásia é quebrada impunemente. E a crescente aprovação entre os médicos holandeses de matar crianças está estimulando uma ação política para legalizar mais a eutanásia, e o partido socialista, que ocupa o ministério da saúde, está propondo que as crianças de mais de 12 anos tenham o direito de pedir eutanásia.
[26]

Eutanásia para o mundo inteiro?
A questão da eutanásia na Holanda é um problema que ameaça se expandir para toda a Europa e o mundo. A cidade de Haia, na Holanda, é hoje a sede da Corte Criminal Internacional (CCI), cuja função é julgar tudo o que a ONU interpreta como violação dos direitos humanos. É uma ironia bizarra que um tribunal internacional se localize num país com o mais agressivo programa de genocídio contra os idosos e deficientes. Nenhuma outra nação “democrática” permite a eutanásia e o suicídio com assistência médica na medida em que a Holanda aceita. E essa prática está se tornando tão comum que os médicos holandeses testemunham publicamente que participam de casos em que crianças deficientes são mortas.
[27]

É possível entender a despreocupação da CCI com a eutanásia holandesa como um dos sinais mais claros de que há uma tendência cada vez maior a favor da eutanásia nos países ricos. No Canadá, por exemplo, há casos em que enfermeiras perderam o emprego porque escolheram não participar de procedimentos de aborto ou atos de eutanásia.[28]

Pouco antes do estabelecimento da CCI, Concerned Women for America, organização evangélica presidida por Beverly LaHaye[29], avisou:

A ONU planeja estabelecer um tribunal criminal mundial com implicações de longo alcance para os cidadãos¼ Pela primeira vez, um tribunal da ONU terá autoridade e poder para julgar indivíduos de países membros da ONU. O tribunal internacional terá jurisdição sobre casos de crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade. Embora essa meta pareça logicamente aceitável, recentes conferências mundiais da ONU revelam que as definições que a ONU emprega são sempre vagas e muitas vezes enganadoras. Por exemplo, muitos grupos estão trabalhando para definir o aborto e a conduta homossexual como “direitos humanos fundamentais”. De acordo com essa definição, a Corte Criminal Internacional poderá condenar indivíduos por cometer “crimes contra a humanidade”. Portanto, dá para imaginar que uma pessoa que proteste contra o aborto legal ou um pastor que fale contra a homossexualidade poderá ser julgado por “crimes contra a humanidade”, por “intolerância” e por “violações dos direitos humanos fundamentais”.[30]

As feministas e outros grupos radicais estão lutando para que a CCI coloque a oposição ao aborto legal como violação dos direitos humanos. Como esse tribunal tem jurisdição sobre todas as pessoas dos países que assinaram seu documento de compromisso, inclusive o Brasil, há o perigo de que, se for aprovada uma lei protegendo o aborto legal, os cristãos e outras pessoas que defendem a vida humana desde a concepção até a morte natural poderiam perder sua proteção legal e serem levados a julgamento internacional. Ativistas gays holandeses tentaram recentemente levar o papa a esse tribunal, apenas porque ele reconheceu corretamente que o homossexualismo é pecado. Não se sabe com certeza de que maneira a CCI usará sua autoridade futuramente.

Os frutos da medicina socializada
A profissão médica de hoje se preocupa mais com a questão econômica do que os médicos do passado. A disponibilidade do suicídio com ajuda médica é mais rápida e barata do que qualquer outra forma de tratamento médico. Por isso, os pacientes holandeses pobres ou cujos tratamentos são muitos caros são pressionados a “escolher” o suicídio com ajuda médica ou então são simplesmente “despachados” para a eternidade sem aviso prévio.


Ser idoso e doente na Holanda é uma experiência de dar medo, pois os idosos sabem que são oficialmente “descartáveis”. Eles são descartáveis porque a motivação principal do sistema de saúde holandês não é a assistência de saúde em si, mas a redução dos custos. Esse é o legado mais desumano da ameaça chamada medicina socializada. Pare para pensar na situação delicada de um idoso holandês de 60 anos que simplesmente não pode deixar de buscar assistência médica num hospital. Ele está bem ciente dos seguintes fatos:


Todo médico holandês recebe treinamento formal em eutanásia nas faculdades de medicina. O custo exato de cada tipo de tratamento para todas as doenças ou ferimentos comuns é conhecido de antemão e registrado para fácil referência e análise em cada caso individual. Portanto, com base nas informações desses registros, o médico clínico geral já tem a orientação do hospital para aplicar, sem consentimento, injeções letais em pacientes idosos cujo tratamento é considerado “caro demais”.
[31]

O número de asilos para doentes e velhos na Holanda diminuiu mais que 80 por cento nos últimos 20 anos, e a expectativa de vida dos poucos idosos que permanecem em tais asilos está se tornando cada vez mais curta. A eutanásia involuntária é administrada até mesmo em pacientes que não estão em fase terminal. A eutanásia involuntária também é administrada para vítimas de acidente e pessoas com reumatismo, diabetes, AIDS e bronquite. [32]

Problema tipo exportação?
Contudo, se tudo isso está ocorrendo nos países ricos, por que os países em desenvolvimento deveriam se preocupar? Porque a Europa e os EUA costumam sempre exportar suas idéias e soluções para os outros países. Pode-se dizer que a eutanásia é um problema tipo exportação, pois sendo um país economicamente avançado, a Holanda tem sido vista como modelo para o mundo imitar. Maurice De Wachter, diretor do Instituto de Bioética em Maastricht, declarou de forma preocupante que “A Holanda é o que eu chamaria de um experimento de ética médica que servirá de precedente¼ Há uma prática crescendo [na Holanda] em que os médicos se sentem à vontade ajudando os pacientes a morrer — em outras palavras, eles se sentem à vontade matando os pacientes”.
[33]

Em 1990, houve o encontro da Federação Mundial das Sociedades do Direito de Morrer, na cidade de Maastricht, Holanda. Representantes de grupos a favor do “direito de morrer” da Colômbia, Espanha, Israel, Índia, África do Sul, Suécia, França, Bélgica Canadá, EUA e Japão se reuniram para aprender com os mestres holandeses a arte de praticar a eutanásia.
[34]

A Federação Mundial das Sociedades do Direito de Morrer tem como alvo espalhar a mensagem pró-eutanásia no mundo inteiro. Essa mensagem parece estar produzindo efeito nos médicos. Veja essa reportagem:

INGLATERRA: A POLÊMICA SOBRE
OS DOENTES ABANDONADOS PARA MORRER
Recentemente foi publicado na imprensa inglesa um debate sobre as pessoas idosas nos hospitais cujo boletim médico estava marcado com a instrução de não ressuscitar em caso de crise. O que parece é que agora a idéia de abandonar pessoas à morte não se limita aos idosos. Conforme informou o jornal Telegraph (30 de maio de 2000), há a mesma atitude com os deficientes, até mesmo os jovens. As crianças e os jovens com problemas sérios de saúde internados são marcados com a instrução de que os médicos não devem ressuscitá-los se eles tiverem uma crise. A desculpa é que a qualidade de vida deles seria tão limitada que não vale a pena, de acordo com a opinião de algumas autoridades hospitalares, mantê-los com vida.


Essa situação recebeu a atenção dos meios de comunicação no caso do menino David Hargadon. Ele não podia andar nem falar e os médicos tentaram convencer seus pais a lhes dar permissão para deixar de dar assistência médica ao menino, com o objetivo de deixá-lo morrer. Conforme sua mãe comentou, os médicos os criticaram muito por insistirem na continuidade do tratamento médico de seu filho. Com apenas um ano de idade, David havia pego pneumonia e embora estivesse internado num hospital os médicos queriam negar-lhe o tratamento com antibióticos. A mãe não aceitou isso e David sobreviveu. Um ano depois o menino ficou novamente doente e os médicos voltaram a dar a opinião de que deveriam deixá-lo morrer. Sua mãe não cedeu a essas sugestões e os médicos tiveram de curar o menino. Casualmente David morreu com a idade de doze anos, porém sua mãe afirmou que ele gozou muitos anos de vida, apesar de que o desejo dos médicos era deixá-lo morrer.


Referindo-se a esse caso, Richard Kramer, líder de uma campanha de caridade em favor de doentes mentais, disse que estava preocupado. Kramer observou que parece que a opinião dos médicos é que os doentes com dificuldades para aprender não são dignos do mesmo respeito que as outras pessoas. Kramer declarou que é difícil avaliar a dimensão do problema, porém expressou a preocupação de que alguns médicos poderiam tomar esse tipo de decisão sem consultar os pais ou a família.[35]

Em 1999 a polícia de Londres, Inglaterra, investigou mais de 60 casos de aposentados idosos que morreram por falta de água e alimento em hospitais. Num dos casos, uma mulher de 80 anos foi para o hospital bem de saúde e alegre, mas com um problema de dor no joelho. Ela foi colocada em sedativos e ficou sem alimento até morrer.
[36] Em 1997, em Copenhagem, Dinamarca, a polícia acusou uma enfermeira e um médico de assassinato. Eles mataram 22 pessoas num asilo para idosos.[37]

Apesar de que a Europa, principalmente a Holanda, esteja caminhando para um futuro mais aberto para a eutanásia, vale a pena lembrar aqui a recomendação da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa sobre os direitos dos doentes e dos que estão morrendo. A recomendação, que foi adotada em 1976, diz:

O médico deve fazer todo tipo de esforço para aliviar o sofrimento e ele não tem nenhum direito, mesmo em casos que lhe parecem desesperadores, de apressar intencionalmente o curso natural da morte.[38]

© Copyright 2005 Julio Severo. Proibida a reprodução deste artigo sem a autorização expressa de seu autor. Julio Severo é autor do livro O Movimento Homossexual, publicado pela Editora Betânia. Para mais informações: www.juliosevero.com

[1] Veja o capítulo 106 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[2]Dr. Richard Fenigsen, A Gentle Man Speaks of Fear, Population Research Institute Review (PRI: Baltimore-EUA, março-abril de 1994), p. 8.
[3]Idem.
[4] Susan Martinuk, Dutch take bold step back into dark ages with euthanasia, The Province (Canadá). Pro-Life E-News, 6 de dezembro de 2000.
[5]Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 134.
[6]Rita Maker, Euthanasia: Killing ou Caring? (Life Cycle Books: Toronto-Canadá, 1991), p. 10.
[7]Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 132.
[8] Pieter Huurman & Laurel T. Hughes, The Shocking Practice of Euthanasia in Holland, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).
[9]Esse caso real também encontra-se registrado no livro do Dr. Willke, Assisted Suicide & Euthanasia (Hayes Publishing Co.: Cincinnati-EUA, 1998), p. 86.
[10]J. C. Willke, Assisted Suicide & Euthanasia (Hayes Publishing Co.: Cincinnati-EUA, 1998), p. 95.
[11] Janet & Craig Parshall, Tough Faith (Harvest House Publishers: Eugene, EUA, 1999), p. 213.
[12]J. C. Willke, Assisted Suicide & Euthanasia (Hayes Publishing Co.: Cincinnati-EUA, 1998), pp. 86,87.
[13]Special Report (HLI: Front Royal-EUA, novembro de 1998), p. 4.
[14] J. C. Willke, Assisted Suicide & Euthanasia (Hayes Publishing Co.: Cincinnati-EUA, 1998), p. 93.
[15]J. C. Willke, Assisted Suicide & Euthanasia (Hayes Publishing Co.: Cincinnati-EUA, 1998), p. 91.
[16] Mindy Belz, Dutch Treat, revista World (23 de maio de 1998).
[17] Eileen Doyle, A Pro-Life Primer on Euthanasia (American Life League: Stafford, EUA, 1996).
[18] Leon R. Kass, “Dehumanization Triumphant”, artigo publicado na revista First Things, agosto/setembro de 1996.
[19] Fonte: Pro-Life Infonet de 26 de junho de 2001
[20] Pro-Life E-News. 5 de dezembro de 2000.
[21] Herman van der Kolk, Update on the Slippery Slope on Euthanasia since 1997 (Juristen Vereniging Pro Vita: Driebergen-Rijsenburg, Holanda, 1998).
[22] Pieter Huurman & Laurel T. Hughes, The Shocking Practice of Euthanasia in Holland, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).
[23] Veja o capítulo 109 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[24] Karel F. Gunning, Human Rights and Euthanasiain the Netherlands, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).
[25] Veja o capítulo 109 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[26] Mindy Belz, Dutch Treat, revista World (23 de maio de 1998).
[27] Lifesite Daily News. 16 de julho, 1998, Toronto, Canadá.
[28] Conscience Legislation Presented, LifeSite Daily News. 11 de fevereiro de 1999. Toronto, Canadá.
[29] Ela é co-autora de O Ato Conjugal, um dos livros mais vendidos da Editora Betânia.
[30] The United Nations, Sovereignity, Concerned Women for America (www.cwfa.org), 15 de abril de 1998, Washingtton DC.
[31] Veja o capítulo 109 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[32] Veja o capítulo 109 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[33] John Henley, Associated Press. "Dutch Euthanasia Rule Stirs Ethical Conflicts." The Oregonian, 11 de fevereiro de 1993, pág. A9. Citado no capítulo 112 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[34] Rita Maker, Euthanasia: Killing ou Caring? (Life Cycle Books: Toronto-Canadá, 1991), p. 8.
[35] Boletim eletrônico n.º 47, Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família (9 de maio de 2000).
[36] Involuntary Euthanasia Rampant In England, Lifesite Daily News, 6 de dezembro de 1999, Toronto, Canadá.
[37] Lifesite Daily News, 23 de outubro, 1997, Toronto, Canadá.
[38] Matthijs de Blois, Euthanasia and the Right to Life (Dutch Lawyers Association Pro Vita: Odijk, Holanda, 1998).

Um comentário:

Fernanda Yuri disse...

Oi!Parabéns pelo blogger, é um assunto otimo, me ajudo muito em um trabalho de escolha.MUITO interessante mesmo; nao poderia deixar de comentar!! beeijos