21 de novembro de 2005

Civilização Sob Cerco — os Tumultos em Paris

Civilização Sob Cerco — os Tumultos em Paris

Dr. Albert Mohler

“A civilização é terrivelmente frágil”, argumentou C. P. Snow. “Não há muita diferença entre nós e os horrores lá de baixo, a não ser uma cobertura de verniz”.

A declaração de Snow assume um sinistro significado sutil à luz da fúria dos tumultos em Paris e arredores. Durante as últimas duas semanas, manifestações, tumultos, queima de carros e vários outros atos de violência se espalharam nos encraves suburbanos em que as minorias étnicas — em grande parte imigrantes do Norte da África — se reúnem. A violência não se limitou à França. Violência semelhante irrompeu em Bruxelas e outras cidades européias. Evidentemente, algo saiu terrivelmente errado.

Enquanto muitos nos meios de comunicação do Ocidente tentam minimizar a extensão e natureza dessa violência, a fumaça das queimas se espalha e os escombros se acumulam. O mundo inteiro assistia enquanto a França era atirada a um estado de emergência, com badernas, brigas nas ruas e incêndios propositados envolvendo vizinhanças inteiras. A reação fraca, lerda e confusa do governo francês só agravou o problema. Muito embora o governo declarasse estado de emergência, as autoridades francesas ainda negam a extensão da desordem.

Há anos que observadores alertam que a Europa se colocou numa posição de tremenda vulnerabilidade. Enquanto os índices de nascimentos na Europa caíram abaixo dos níveis de substituição da população, os imigrantes — a grande maioria de países muçulmanos — são recebidos com expectação e introduzidos no mercado de trabalho. Até certo ponto, muitas das nações da Europa Ocidental construíram a expansão econômica que experimentaram durante as décadas de 1960 e 1970 numa base de trabalho de imigrantes.

Agora, a França e seus países vizinhos estão colhendo o que semearam. O crescimento econômico das décadas de 1960 e 1970 deu lugar para a estagnação econômica e desemprego abundante. Os jovens que hoje estão criando tumultos nas ruas de Paris representam a segunda geração de imigrantes, e eles enfrentam um futuro sombrio com pouca esperança de ganhar empregos ou pouca chance de alcançar a visão européia de felicidade e prosperidade.

Além disso, eles não querem adotar essa perspectiva européia em primeiro lugar. Esses habitantes de encraves de minoria, que são a segunda geração de imigrantes, querem muito mais do que seus pais manter firme sua identidade islâmica e forçar a França inteira a aceitar seus planos e metas.

A França hoje abriga aproximadamente seis milhões de muçulmanos, a maioria de ascendência africana. Essa população muçulmana, a maior da Europa, representa quase dez por cento da população total da França. “O governo realmente não percebeu que estamos enfrentando uma importante crise política”, disse Patrick Lozes, presidente do Círculo para a Promoção da Diversidade na França, em entrevista ao jornal The Washington Post. “O modelo social francês está se destruindo”.

Aliás, conforme comentou o jornal The Wall Street Journal, “A França é a principal área de teste para a capacidade do continente europeu de introduzir em sua sociedade essa minoria que está crescendo rapidamente”. A França não está indo bem no teste.

Os europeus se orgulham de rejeitar o conceito americano de assimilação. Em vez de assimilar os imigrantes na cultura da maioria do país, a França (juntamente com a maioria das outras nações da Europa Ocidental) sempre incentivou os imigrantes a manter sua própria identidade, língua e cultura e criou um modelo sem assimilação que agora contribui para esse conflito na sociedade francesa.

Sem dúvida, os protestos estão ligados a realidades econômicas. Jovens que têm pouca oportunidade de empregos e poder econômico podem facilmente escolher ficar de fora do projeto inteiro da sociedade — principalmente quando eles nunca foram convidados para fazer parte dela em primeiro lugar. O desemprego entre os cidadãos franceses de vinte anos agora está em vinte por cento, e o índice de desemprego da população das minorias da mesma idade na França é de quarenta por cento. Só isso já é receita para desastre.


Apesar disso, a explicação econômica é tristemente insuficiente. Os agitadores, muitas vezes identificados na imprensa como “jovens”, são agentes de violenta fúria e anarquia social. Como comenta o observador Mark Steyn, os tumultos estão agora tomando a forma de “uma campanha consideravelmente astuta e treinada”. Os terroristas urbanos que estão provocando tumultos na França aproveitaram suas dicas de terroristas do Oriente Médio, onde queimas de carros e manifestações de violência se tornaram meios de protestos políticos rotineiros.

Paul Belien, escrevendo da Bélgica, menciona que a França não mais consegue se defender contra as forças do barbarismo. “Os pais dos agitadores saíram de países muçulmanos para ir para a França, aceitando o fato de que, embora permanecessem muçulmanos, eles haviam chegado para viver num país que não era muçulmano. Diferente de seus pais, os agitadores vêem a França como seu país”, explica ele. “Eles nasceram aqui. Essa terra é terra deles. E já que eles são muçulmanos, essa terra, ou pelo menos parte dela, é também muçulmana”.


Além disso, Belien argumenta que os agitadores não são movidos por revolta, mas por extremo ódio. Esses jovens agentes de desordem não odeiam simplesmente suas limitadas perspectivas econômicas, mas a própria civilização que os abrigou. “É ódio”, Belien insiste. “Ódio provocado não pela injustiça sofrida, mas que se origina num sentimento de superioridade. Os ‘jovens’ não culpam os franceses, eles os desprezam”.

Steyn comenta que as manifestações de violência em toda Paris e outros lugares representam “o começo de uma longa guerra civil na Eurábia”. Steyn, juntamente com outros observadores preocupados, compreende que a Europa está caminhando direto para um futuro muçulmano. Afinal, os muçulmanos estão tendo bebês num índice que ultrapassa de longe os europeus naturais. Além disso, eles são movidos por uma agenda política clara, profundas convicções muçulmanas e um conceito claro e coerente do que eles querem que a sociedade seja — um Estado muçulmano.

Embora possuam um enorme senso de superioridade cultural, os franceses por outro lado não mais possuem um conceito claro ou coerente do que significa ser francês. Eles frisam tolerância, mas têm adotado forças da intolerância radical.

Conforme explica Thomas Sowell: “No nome da tolerância, esses países importaram a intolerância, da qual o crescente anti-semitismo na Europa é só um exemplo. No nome do respeito a todas as culturas, as nações do Ocidente acolheram pessoas que não respeitam nem as culturas nem os direitos da população no meio das quais elas vieram se estabelecer”.

O conceito de “Eurábia” de Steyn também aponta para as ligações entre a violência na França e o ódio fervilhando no Oriente Médio. Por várias décadas, a França tentou apaziguar seus cidadãos muçulmanos apoiando os governos árabes, criticando Israel e oferecendo assistência financeira a grupos radicais como o Hamas. Presumivelmente, os frustrados jovens muçulmanos da França deveriam ser gratos pelo apoio do governo francês ao extremismo muçulmano no Oriente Médio. O que foi que deu na cabeça dos franceses para acharem que o extremismo permaneceria fora de suas próprias fronteiras?

As agitações na França deveriam servir para mostrar de modo marcante os profundos compromissos culturais que são fundamentais para a civilização. Nenhuma sociedade pode resistir à ameaça de excessiva anarquia em seu meio. A civilização é sempre uma realização — um trabalho e projeto adotado e apoiado pela vasta maioria dos cidadãos, que entram num pacto social pelo bem comum.

A França tem lutado com esses ideais desde a Revolução Francesa. Diferente da Revolução Americana, que foi estabelecida numa perspectiva cristã herdada e as correntes conservadoras do Iluminismo, a Revolução Francesa foi radical, violenta, anarquista e altamente secular.

Aliás, o secularismo tem sido um projeto oficial da França durante a maior parte dos últimos dois séculos. Enquanto os revolucionários franceses substituíram a cruz sobre o altar da Catedral de Notre Dame pela semelhança da deusa Razão, os franceses têm se orgulhado da natureza altamente secular de seu experimento cultural.

De um ângulo, esse experimento parece ser um sucesso radical. Afinal, só uma pequena minoria dos cidadãos franceses se considera cristã ativa. O Cristianismo não desempenha quase nenhum papel público no país e sua cultura pública. Por outro lado, é agora evidente que esse secularismo, adotado com tanto entusiasmo como um projeto nacional, deixou um vazio imenso na alma da civilização francesa. Assim como a natureza detesta o vazio, o vazio secular não sobreviverá por muito tempo. Os jovens muçulmanos que estão agora se manifestando enlouquecidamente nas ruas de Paris querem encher esse vazio com a fúria muçulmana.

O escritor Theodore Dalrymple fala de “bárbaros às portas de Paris”. Os que honram a civilização e entendem, com C. P. Snow, que a civilização é “terrivelmente frágil”, precisam olhar para a França com preocupação e seriedade. Será que a civilização da Europa logo será algo do passado?
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Albert Mohler Jr. é presidente do Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky. Para conhecer mais artigos e outros materiais do Dr. Mohler, visite seu site: www.albertmohler.com

Traduzido e adaptado por Julio Severo:
www.juliosevero.com

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