14 de julho de 2005

Controle da mortalidade

CONTROLE DA MORTALIDADE ?

Julio Severo

Está ocorrendo um acontecimento sobre o qual é difícil falar, mas sobre o qual é impossível permanecer de boca fechada.
Edmund Burke, estadista inglês
[1]

Anos atrás, um seriado de TV apresentava uma perspectiva interessante de como seria a sociedade do futuro. O filme mostrava o drama de um jovem e uma moça para escapar de uma sociedade onde todas as áreas da existência humana eram controladas. Não havia desemprego nem miséria, pois todos os cidadãos desfrutavam o bem-estar que o sistema lhes proporcionava. Os homens e as mulheres podiam uns se entregar aos outros para prazer, alegria e diversão, sem se preocupar com as responsabilidades de um lar, crianças e idosos, porque o sistema tomava conta de tudo.

Essa sociedade tinha a liberdade de viver uma vida sexual totalmente livre da gravidez, pois a contracepção era perfeita. Além disso, havia um setor especial encarregado de criar um número planejado de bebês, que eram concebidos em laboratório. A única participação das pessoas na criação da vida era a doação dos espermatozóides e dos óvulos para fecundação. A fecundação, gestação, nascimento e criação estavam sob a responsabilidade dos especialistas autorizados pelo sistema. Na vida particular dos cidadãos, o sexo só existia para o prazer.

As pessoas tinham sido educadas a aceitar a procriação como uma das áreas de planejamento social do sistema. Com relação aos idosos, o sistema havia cegado completamente as pessoas à realidade da morte. Quando começava a mostrar os primeiros sinais de envelhecimento, por exemplo, um homem era condicionado a ansiar pela passagem de um ritual que a sociedade aceitava sem questionar.

Nesse ritual, todos se reuniam para celebrar, enquanto o homem entrava num círculo esotérico e desaparecia sob efeitos especiais. Esse desaparecimento era visto como uma experiência que marcava a passagem do homem para um nível de realização pessoal. A verdade é que todos os que alegremente entravam no misterioso círculo esotérico nunca mais voltavam. O ato de lançar a própria vida para o desconhecido havia se tornado motivo de celebração… e todos esperavam algum dia entrar nesse desconhecido. Mas o que eles não percebiam é que essa experiência era a morte. Por trás de tudo, a morte planejada era apenas um instrumento do sistema para controlar os gastos e o bem-estar social.

Nessa sociedade futura, a liberdade de viver uma vida sexual sem filhos, sem casamento e sem velhice era vista como direito e privilégio. Todas as pessoas eram planejadas, da concepção à morte. A vida da população era totalmente controlada, do começo ao fim, sem que ninguém parasse para questionar que tudo o que eles haviam aprendido a ver como direitos e privilégios era, na verdade, a vontade das autoridades que governavam por trás daquele sistema.

Até que ponto esse sistema está longe da realidade? Será que as tendências atuais poderiam, de alguma maneira, levar a sociedade a um sistema desse tipo? O editorial de uma revista médica comentou:

…o que prevalecerá no final é a nova ética de valor relativo, em vez de valor absoluto… pois o ser humano busca alcançar sua qualidade de vida desejada… Não se sabe ainda exatamente qual o papel que a medicina desempenhará quando essas mudanças ocorrerem. Mas é certeza que a medicina se envolverá profundamente. O papel da medicina com relação à mudança nas atitudes para com o aborto pode bem ser uma amostra do que está para ocorrer… Podemos antecipar que os papéis da medicina mudarão mais à medida que os problemas do controle da natalidade e seleção de nascimentos se estenderem inevitavelmente à seleção da morte e controle da mortalidade à nível de sociedade e de cada pessoa… [2]

Nascimentos planejados, mortes planejadas
Margaret Sanger disse:

Meu propósito não é depreciar os esforços dos socialistas cujo alvo é criar uma nova sociedade, mas em vez disso frisar o que me parece a maior e mais negligenciada verdade de nossa época: Todos os esforços para criar um novo mundo e uma nova civilização só terão sucesso quando a educação sexual for incorporada como parte integral das políticas mundiais e a importância fundamental do controle da natalidade for reconhecida nos programas de ajuda financeira às nações necessitadas. [3]

Um dos fatos mais marcantes do século XX foi que, graças ao controle da natalidade, pela primeira vez se tornou possível controlar eficientemente a fertilidade humana. Assim, tendo acesso aos modernos meios contraceptivos, os casais passaram a ter menos filhos e, como resultado direto, houve uma diminuição gradativa no tamanho da população, principalmente entre os mais jovens. Embora a população jovem do Brasil esteja também começando a diminuir devido a esse fator, essa tendência é mais acentuada na Europa e EUA, onde as famílias têm em média 1 ou 2 filhos.

Muitos analistas consideram a situação atual dos países industrializados preocupante. Enquanto nesses países a população jovem está diminuindo devido ao uso em massa do planejamento familiar e do aborto legal, a população idosa está aumentando num ritmo sem precedentes. A conseqüência é que o número de aposentados está crescendo e o número de trabalhadores ativos, que sustentam todo o sistema de previdência social, está cada vez menor. Assim, agora até mesmo a rica Europa se encontra na difícil situação de gastar quase metade do seu PIB na previdência social.[4]

BAIXA FERTILIDADE AMEAÇA APOSENTADORIA DOS IDOSOS NA UNIÃO EUROPÉIA
Continua a aumentar o número de evidências de que anos de políticas de controle populacional estão cobrando seu preço. Líderes políticos da Europa acreditam que seus sistemas de previdência social já estão começando a se desmoronar.
[5]

SISTEMAS DE PREVIDÊNCIA SOCIAL DA EUROPA PRONTOS PARA SE DESMORONAR
O presidente da Comissão Européia, o italiano Romano Prodi, recentemente advertiu os governos que por volta do ano 2025 quase um terço da população européia estará recebendo aposentadoria. Prodi também advertiu que quase todas as aposentadorias vão ser cobertas à custa dos governos, isto é, à custa dos europeus que pagam impostos.
[6]

Para aliviar o problema da crescente diminuição da população economicamente ativa, países como Austrália, Japão, França, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos estão estudando medidas para aumentar a idade de aposentadoria. De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas, em breve o Canadá e a Finlândia só poderão dar aposentadoria para os que têm mais de 70 anos. No Japão, a idade atingirá o ponto mais elevado: 74 anos. França, Alemanha, Portugal, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos estão entre os países que precisarão elevar a idade mínima de aposentadoria para 67 anos ou mais.[7]

Contudo, até mesmo essas medidas poderiam não resolver totalmente o problema. De acordo com o Banco Mundial, os sistemas de aposentadoria, financiados por contribuições deduzidas dos salários, não conseguirão funcionar por muito tempo. Existe uma incerteza considerável com relação ao futuro desses sistemas.[8]

O Prof. Michel Schooyans, da Universidade de Louvain, na Bélgica, comenta:

Além disso, alguns confiáveis especialistas na elaboração de políticas governamentais têm levantado a questão das despesas das pessoas idosas nas sociedades desenvolvidas. Explicando de outra maneira, a questão é se manter os idosos vivos é útil para a sociedade ou se os “imperativos econômicos” recomendam recorrer à eutanásia.[9]

Embora já tenha provado as amargas conseqüências da eutanásia nazista no passado, a Alemanha corre o risco de considerá-la novamente, ainda que de forma mais atualizada e discreta, pois a previdência social alemã não terá condições de sustentar por muito tempo uma população idosa que não pára de crescer. A taxa de natalidade alemã hoje é menos de 2 filhos por família. Essa taxa, uma das mais baixas no mundo, equivale a um gradual suicídio demográfico.

O sociólogo Dr. Paul Marx revela que um dos responsáveis pelo baixo número de nascimentos na nação alemã são os 400 mil abortos cirúrgicos realizados legalmente todos os anos e os incontáveis milhões de micro-abortos causados pela “pílula antibebê” (assim os alemães chamam a pílula anticoncepcional). Os serviços de saúde dão a pílula gratuitamente para meninas de 12 a 20 anos.[10]

Crescimento do Islamismo na Alemanha
Com seus 82 milhões de habitantes e com mais mortes do que nascimentos, a Alemanha depende totalmente da imigração estrangeira para sobreviver no futuro. Há hoje 8 milhões de estrangeiros, principalmente muçulmanos, vivendo na Alemanha. Berlim é agora a segunda maior cidade muçulmana do mundo e 45% da cidade de Mannheim é muçulmana.[11]

Os milionários muçulmanos estão comprando importantes companhias alemãs e o resultado é que 14% da Daimler-Benz pertencem ao Kuwait, 49% da Krupp pertencem ao Irã e 25% da Hoechst AG pertencem a um consórcio de países muçulmanos produtores de petróleo.[12] Há mais de 2 mil mesquitas e casas de orações para muçulmanos e o islamismo não só está crescendo, mas também é uma das três religiões com maior número de membros em toda a Alemanha.[13] Antigo berço da Reforma protestante, a Alemanha está se tornando agora o berço de uma multiplicação muçulmana na Europa sem precedentes.

Algum dia os alemães se tornarão uma minoria dentro de seu próprio país, uma minoria constituída em grande parte por uma multidão de idosos economicamente inativos. Tudo porque as famílias de hoje se recusam a criar uma nova geração.

De acordo com os cálculos do conhecido demógrafo e historiador Pierre Chaunu, evangélico francês, a Alemanha está com o índice de natalidade tão baixo que corre o risco de chegar ao fim do século XXI com apenas 12 milhões de habitantes de sangue alemão, um número que é bem inferior aos 16 milhões de habitantes da cidade de São Paulo.[14] O Dr. Chaunu escreveu em 1985:

Desde 1964 (o ano em que a maioria dos países europeus começou a crescer economicamente), chegamos a um processo de colapso reprodutivo jamais visto antes na História… A população européia está morrendo rapidamente. A Alemanha pode ser considerada um país morto, pois sua situação é irreversível (1 filho por mulher alemã, enquanto uma média de 2 filhos por mulher é necessário para substituir uma geração). Como é que podemos explicar essa implosão e destruição demográfica? É óbvio que a maior parte da culpa pode ser atribuída à revolução contraceptiva que começou em 1960.[15]

Graças à contracepção e ao aborto legal, a Alemanha não terá futuro, só velhos. A solução para sustentá-los, através da previdência social, seria o governo aceitar anualmente milhões de imigrantes jovens dos países menos desenvolvidos ou então aceitar o controle da mortalidade para resolver o problema da sobrecarga econômica.

Utilizando os mesmos argumentos dos grupos pró-aborto legal, os grupos pró-eutanásia espalhados pela Alemanha já estão oferecendo suas respostas “compassivas” a esse problema. Assim, a mesma “ética” que é usada para não permitir a “entrada” no mundo de bebês indesejados é usada para permitir a “saída” deste mundo de pessoas que não mais lhe são úteis. Enfim, a tecnologia “médica” dominando a vida humana do começo ao fim, controlando quem deve nascer e quem deve morrer.

Embora a Alemanha seja hoje líder absoluto na Europa e um dos países mais importantes do mundo, seu desenvolvimento econômico é forte à custa de fatores que a levarão ao colapso. Em 1995 houve 20 mil mais mortes do que nascimentos na Alemanha. Poucos nascimentos hoje significam menos trabalhadores e menos desenvolvimento amanhã. O médico alemão Dr. Alfred Häussler disse:

A pior característica desse trágico desenvolvimento é que ninguém percebe e pára para analisar as causas desse desenvolvimento, pois ninguém quer mudar seu estilo de vida. E até mesmo a Igreja Cristã e, acima de tudo, o governo não estão preocupados.[16]

As famílias muçulmanas preferem mais filhos a fim de expandir sua religião, enquanto os casais cristãos — mais preocupados com as coisas materiais do que com as coisas eternas — têm famílias cada vez menores. Infelizmente, nos países ricos de maioria cristã a sociedade vive para satisfazer os próprios prazeres e vê os idosos, os bebês e os deficientes como insuportáveis cargas financeiras.[17]

No livro World Muslim Population Growth, de Abd al-Masih, há a seguinte informação: “O islamismo está se expandindo hoje em todos os aspectos da vida e começou uma campanha mundial em todos os continentes. No entanto, o crescimento dessa religião não se baseia principalmente em atividades missionárias, trabalhos sociais ou guerras santas, mas no aumento natural mediante uma elevada taxa de natalidade” (o destaque é meu).[18] Por causa de suas famílias que não param de aumentar, no mundo inteiro o islamismo está crescendo mais depressa do que todas as outras religiões.[19]

Abd al-Masih, ex-muçulmano e agora missionário evangélico, só vê uma maneira de os cristãos da Europa enfrentarem o avanço do islamismo em seus países:

Encorajar os cristãos a praticar de maneira positiva o planejamento familiar: Devemos incentivar as famílias cristãs a ter mais filhos. É errado crer que as famílias crentes devem ser as primeiras a praticar o controle da natalidade. Pelo contrário, as famílias evangélicas precisam nos dar filhos nascidos de novo, crentes dispostos a servir onde for necessário, a fim de preencher as necessidades cada vez maiores que o Reino de Jesus tem de servos fiéis.[20]

O Sr. Abd tem razão. Não faz sentido as famílias evangélicas serem as primeiras a praticar o planejamento familiar de modo negativo, enquanto as famílias muçulmanas estão aumentando como rebanhos. O conselho dele revela uma das melhores estratégias missionárias para enfrentar não só o avanço muçulmano, mas também enfrentar um futuro onde os governos terão menos condições de manter a previdência social e onde muitos idosos serão obrigados a depender mais dos filhos para a sobrevivência. Os muçulmanos que imigraram para os países ricos estão usando os recursos desses países para sustentar suas famílias numerosas. As famílias cristãs não deveriam ser mais inteligentes do que eles?

As origens do controle de nascimentos
A partir do século XX, apesar de sua forte tradição cristã, os EUA e a Europa adotaram a visão da família pequena, porém os países muçulmanos continuaram tendo famílias grandes. Embora Deus queira que os justos se multipliquem (cf. Salmo 107.38,41), a vontade dele é que os maus não deixem descendentes (cf. Salmo 37.28b,38). Embora ele queira que as famílias cristãs sejam grandes (cf. Salmo 107.38,41), o desejo dele é que as famílias dos maus encontrem a salvação em Jesus ou então diminuam completamente (cf. Salmo 37.38).

Entretanto, o que está acontecendo é justamente o contrário. Os muçulmanos estão praticando o planejamento de maneira bem positiva, enchendo assim o mundo com seus descendentes e ameaçando ocupar o espaço vazio que as nações “cristãs” estão querendo deixar para eles. Tudo isso porque os cristãos, com sua prática negativa de planejamento familiar, estão deixando como herança descendentes insuficientes para habitar a Europa futuramente. Uma muçulmana na Europa declarou: “Quanto mais filhos tivermos, melhor. Quando houver suficientes muçulmanos no mundo, então teremos a vitória mundial”.[21]

As primeiras propagandas no século XX a promover a aceitação do controle da natalidade também tinham como alvo legalizar a eutanásia. De acordo com o líder presbiteriano George Grant, foi Margaret Sanger, feminista americana adepta da teosofia e do espiritismo, quem inventou o termo “controle da natalidade” e fundou a maior organização mundial especializada nessa área, a Federação Internacional de Planejamento Familiar.

Sanger não só esteve por trás da invenção da pílula anticoncepcional, mas também por trás das primeiras campanhas para convencer os governos a fornecer o planejamento familiar através de seus serviços de saúde. Ela cria que a aceitação do planejamento familiar acabaria levando à realização de um de seus maiores sonhos para a total liberação das mulheres: a legalização do aborto. Para ela e seus amigos socialistas, o aborto deliberado nada mais era do que uma prática de controle da natalidade para libertar as mulheres de uma vida dedicada à família. Coincidência ou não, o aborto é legal e amplamente praticado hoje justamente nos países avançados que mais usam os métodos de planejamento familiar e onde as mulheres são mais liberadas![22]

O livro Grand Illusions, best-seller evangélico nos Estados Unidos, mostra que Sanger “apoiava abertamente os programas de eutanásia, contracepção, esterilização, aborto e assassinato de recém-nascidos da Alemanha nazista.[23] Ela disse:

As riquezas individuais e nacionais estão sendo tiradas do desenvolvimento e progresso da civilização, porque estamos pagando o sustento de uma classe de pessoas que não pára de se multiplicar, pessoas que jamais deveriam ter nascido.[24]

Sanger queria destruir o Cristianismo e levar as pessoas a entrar numa “Nova Era”.[25] Em seu primeiro jornal, The Woman Rebel (A Mulher Rebelde), ela confessou: “O controle da natalidade atrai os radicais mais avançados do socialismo porque sua prática mina a autoridade das igrejas cristãs. Algum dia espero ver a humanidade livre da tirania do Cristianismo…”[26] A Enciclopédia Britânica define controle da natalidade assim: “A limitação voluntária da reprodução humana, usando tais meios como a contracepção, a abstinência sexual, a esterilização cirúrgica e o aborto provocado. O termo foi inventado em 1914-15 pela feminista americana Margaret Sanger”.

Em seu livro The Pivot of Civilization, Sanger fez vários elogios a Annie Besant, famosa teósofa do século XIX, que pregava que a causa dos problemas sociais da fome e desemprego eram as famílias numerosas. De acordo com Sanger, Besant foi pioneira nas campanhas para educar os casais a ter menos filhos.[27] Em seu empenho de disseminar informações sobre o planejamento familiar, ela se inspirou no trabalho teosófico de Besant.

Hoje as maiores organizações internacionais de planejamento familiar tentam educar as pessoas a ver o aborto e a eutanásia como “direitos”. Nos países ricos, o termo direitos é constantemente invocado em favor da mulher grávida que não quer ter seu bebê e em favor de quem deseja ajuda médica para cometer suicídio, enquanto o direito fundamental à vida dos inocentes envolvidos é constantemente quebrado. Como disse um conhecido cristão: “A escolha em favor da vida não é questão de escolha pessoal, mas uma necessidade fundamental de uma sociedade justa e moralmente íntegra”.

A realidade da ligação entre aborto e eutanásia
Por mais estranho que possa parecer, a verdade é que o aborto e a eutanásia são questões bem ligadas. O Dr. Joseph Fletcher, pastor evangélico liberal, comenta:

Na ética médica a questão é: O que significa pertencer à raça humana? Essa questão surge no começo e no fim da vida. Quando é que podemos considerar que um ser humano nasce e morre? Suspeito que não haja respostas. Os problemas do aborto e da eutanásia, de modo direto ou indireto, colocam em risco a ética da iniciativa médica, pois esses problemas são eticamente os mesmos e estão totalmente ligados.[28]

Em toda a Europa[29] e Estados Unidos o aborto já foi legalizado e agora o envelhecimento de suas populações está sendo acompanhado por um crescente interesse no assunto da eutanásia. Há um fato quase assustador nessas duas práticas sociais. A prática de controlar quem deve nascer inevitavelmente levará à prática de controlar quem deve continuar vivo entre os idosos, os deficientes e os doentes.

Jacques Attali, ex-presidente do Banco Europeu, declarou:

Logo que passa da idade dos 60-65 anos, o ser humano já não tem capacidade de viver uma vida produtiva e então custa muito dinheiro para a sociedade… Aliás, do ponto de vista da sociedade, é preferível que a “máquina” humana pare de repente, em vez de ir se deteriorando aos poucos… A eutanásia se tornará um dos instrumentos essenciais das sociedades futuras. De acordo com o modo socialista de raciocinar, a questão deve ser resolvida da seguinte forma: As pessoas devem ter liberdade, até mesmo a liberdade fundamental de cometer suicídio. Portanto, na sociedade socialista o direito ao suicídio, direta ou indiretamente, é um valor absoluto.[30]

Concordando com essa maneira de pensar, John Hardwaig, professor de ética médica e filosofia social na Universidade Estadual do Leste do Tennessee, EUA, declarou:

No futuro, as pessoas poderão ter a responsabilidade de terminar a própria vida [mesmo] que não tiverem uma doença terminal... Elas poderão ter o dever de morrer até mesmo quando prefeririam viver.[31]

Outro especialista médico, o Dr. Robert H. Williams, declarou numa revista médica:

Nossos planos para impedir o crescimento da população da terra devem incluir a prática da eutanásia... Portanto, já que devemos limitar o índice de aumento da população, devemos também considerar bem a qualidade e a quantidade de pessoas que são geradas... Sem dúvida não receberemos apoio de todas as religiões, e seria melhor não forçá-las a aceitar nossas idéias, a menos que a posição dessas religiões afete a sociedade de modo negativo. Parece que a tentativa de realizar mudanças importantes que permitam a eutanásia só será uma decisão prudente depois que tivermos feito importantes progressos em mudar as leis e as políticas sociais sobre essa questão.[32]

Não há dúvida que a humanidade está caminhando para uma sociedade futura onde tudo será controlado: não só os nascimentos, mas também as mortes deverão ser “planejadas”, de acordo com as futuras políticas de planejamento familiar e eutanásia. Aliás, nos países desenvolvidos, o aborto e a eutanásia são muitas vezes vistos como direitos agora. O documento To Care or To Kill?, do Family Research Council de Washington DC, diz:

Não se deixe enganar: Apesar do incessante clamor sobre direitos, estamos realmente vivendo numa cultura de abandono. Nessa cultura, a aceitação do suicídio com ajuda médica e da eutanásia é quase inevitável. O alicerce de tudo isso, é claro, foi a legalização do aborto. O aborto legal ensinou (e continua a ensinar) a sociedade a abandonar as mães, e as mães a abandonar seus filhos. O divórcio (maridos e esposas deixando ou abandonando uns aos outros) envia a mesma mensagem. O compromisso de cuidar de outras pessoas… não mais existe. As pessoas de hoje simplesmente não toleram aqueles que elas não querem.[33]

Direitos especiais estão sendo inventados com o propósito de levar a sociedade a se sentir na obrigação de limitar quem merece nascer e quem merece permanecer vivo entre os idosos, os deficientes e os doentes, a fim de que os recursos sociais sejam preservados.

Por que os idosos estão tão expostos à eutanásia hoje?
Porque as famílias perderam a visão de suas responsabilidades, principalmente com relação às futuras gerações (as crianças) e as gerações anteriores (os parentes idosos). Vale a pena repetir aqui a perspectiva do livro De Volta Ao Lar:

O demógrafo Joseph McFalls, da Universidade de Temple, comenta: “As famílias estão renunciando a algumas de suas funções e as estão entregando ao governo. As famílias costumavam ser responsáveis pela educação dos filhos e pela assistência aos idosos. Mas agora é o governo que faz as duas coisas”. Ele usa esse argumento para demonstrar que no futuro o governo poderá intervir na área da reprodução. Na China, por exemplo, desde a década de 70 o programa de planejamento familiar do governo inclui esterilização e aborto, à força, para todos os casais que já têm um filho. A política oficial do governo comunista chinês proíbe as famílias de terem mais que um bebê e pune até com torturas os “infratores”. Por isso, muitos evangélicos chineses estão abandonando seu país, não só por causa da perseguição religiosa, mas também por causa da política de controle da natalidade. Em outros países do terceiro mundo, há governos usando todos os tipos de medidas para forçar os casais a utilizar o controle da natalidade, com o apoio da Federação Internacional de Planejamento Familiar. Já na Holanda o governo é “indiferente” à rotineira prática da eutanásia nos hospitais. (Eutanásia é o ato de matar um doente, ou “ajudá-lo” a morrer, sob a alegação de lhe aliviar as dores e o sofrimento.) Os médicos holandeses estão aplicando a eutanásia principalmente em pacientes idosos. Isso mostra claramente o que acaba acontecendo quando a família renuncia às três responsabilidades que Deus lhe deu: o papel de mãe, a educação das crianças e a assistência aos idosos.

Se não tomarmos uma posição bíblica agora, achando que o problema não é nosso, perderemos a oportunidade de viver profeticamente nesta geração e, principalmente, perderemos a oportunidade de criar uma geração profética para Jesus. O fato é que, mais cedo ou mais tarde, os problemas que já estão aparecendo no horizonte dos países ricos poderão se estender a outras nações. Veja a seguinte notícia divulgada pela CNN:

BRASIL: CAI NÚMERO DE JOVENS E AUMENTA O DE IDOSOS, DIZ IBGE
RIO DE JANEIRO (CNN) — O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, nesta sexta-feira, uma análise denominada de “Tábua da Vida”, em que analisou a expectativa de vida da população. O resultado, com base em dados dos últimos 50 anos, é de que os jovens já não são maioria e que os velhos são, cada vez mais, um número maior entre os habitantes do Brasil.


Em 1940, segundo o IBGE, 42 por cento da população eram de jovens de até 15 anos. Em 1999, esta faixa etária diminuiu para 30 por cento. Já os velhos, a faixa acima de 60 anos, passaram de quatro para oito por cento. Uma projeção para daqui a 20 anos revelou que esta tendência se manterá, ficando a população de jovens em apenas 24 por cento e a de idosos, em 12 por cento...

O processo de transformação demográfica que vem levando a um gradual envelhecimento da população tem, como uma das causas principais, o declínio acentuado da fecundidade nas últimas décadas.

A queda da fecundidade fez com que a média de filhos por mulher, no país, caísse de 6,2 em 1950 para 2,3 em 1999...
[34]

© Copyright 2004 Julio Severo. Proibida a reprodução deste artigo sem a autorização expressa de seu autor. Julio Severo é autor do livro O Movimento Homossexual, publicado pela Editora Betânia. www.juliosevero.com.br

[1] Citado no capítulo 112 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[2] Franklin E. Payne Jr, Biblical/Ethical Medics (Mott Media Inc: Milford, EUA, 1985), p. 4.
[3] Margaret Sanger, The Pivot of Civilization (Brentano: Nova Iorque-EUA, 1922).
[4]Population Research Institute Review (PRI: Baltimore-EUA, janeiro-fevereiro de 1994), p. 4.
[5] Nova Iorque, 4 de maio de 2000. Fonte: C-Fam.
[6] Nova Iorque, 4 de maio de 2000. Fonte: C-Fam.
[7]Situação da População Mundial (Fundo de População das Nações Unidas: Nova Iorque-EUA, 1998), p. 45.
[8]Idem, p. 46.
[9]Michel Schooyans, The Totalitarian Trend of Liberalism (Central Bureau: St. Louis-EUA, 1995), p. 16.
[10]Dr. Paul Marx, Special Report (HLI: Front Royal-EUA, junho de 1999), p. 4.
[11]Idem, p. 5.
[12]Abd al-Masih, Is An Islamic World Empire Imminent? (Light of Life: Villach-Austria, 1994), p. 40, 41.
[13]Dr. Paul Marx, Special Report (HLI: Front Royal-EUA, maio de 1999), p. 2.
[14]Pierre Chaunu, Die Verhütete Zukunft. Citado em Dr. Paul Marx, Confessions of a Prolife Missionary (HLI: Gaithersburg-EUA, 1988), p. 156.
[15]Citado in Dr. Paul Marx, Faithful for Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 224.
[16]Medizin und Ideologie, junho de 1998, p. 3. Citado em Dr. Paul Marx, Special Report, outubro de 1998, p. 2.
[17]Don Feder, Pagan America (Huntington House Publishers: Lafayette-EUA, 1993), p. 39.
[18]Pubicado por Light of Life, Austria, 1990, p.3.
[19]Abd al-Masih, Is An Islamic World Empire Imminent? (Light of Life: Villach-Austria, 1994), p. 63.
[20]Abd al-Masih, The Main Challenges for Committed Christians in Serving Muslims (Light of Life: Villach Austria, 1996), p. 74.
[21]Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 132.
[21]Special Report (HLI: Front Royal-EUA, novembro de 1998), p. 291.
[22]Veja dois livros escritos pelo Rev. George Grant: Killer Angel: a biography of planned parenthood’s founder Margaret Sanger [Anjo Assassino: a biografia de Margaret Sanger, a fundadora do planejamento familiar], publicado em 1995 por Ars Vitae Press & The Reformer Library; e Grand Illusions: The Legacy of Planned Parenthood [Grandes Ilusões: O Legado do Planejamento Familiar, publicado em 1992 por Adroit Press.]
[23]P. 61.
[24]Elasah Drogin, Margaret Sanger: Father of Modern Society (CUL Publications: New Hope-EUA, 1989), p. 52.
[25]George Grant, Grand Illusion: The Legacy of Planned Parenthood (Adroit Press; Franklin-EUA, 1992), pp. 64.
[26]George Grant, Grand Illusion: The Legacy of Planned Parenthood (Adroit Press; Franklin-EUA, 1992), pp. 64, 65.
[27] Veja o livro: Margaret Sanger, The Pivot of Civilization (Brentano: Nova Iorque-EUA, 1922).
[28]Dr. Paul Marx, The Death Peddlers (Saint John’s University: Collgeville-EUA, 1971), p. 168.
[29]A exceção é Malta, hoje o único país europeu cujas leis ainda protegem plenamente os bebês na barriga de suas mãe. Cf. Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 299.
[30]Population Research Institute Review (PRI: Baltimore-EUA, março-abril de 1992), p. 4.
[31] "Is There a Duty to Die?" Hastings Center Report, March/April 1997. Citado em Dr. Brian Clowes, Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[32] Robert H. Williams, M.D. "Numbers, Types and Duration of Human Lives." Northwest Medicine, July 1970, pages 493 to 496. Citado no capítulo 112 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.
[33] Teresa R. Wagner, To Care or To Kill? A Primer on the Moral, Policy, and Legal Issues of “Assisted Suicide”, Euthanasia and Death on Demand (Family Research Council: Washington, DC (EUA), 1999), pp. 5,6.
[34] http://www.cnnbrasil.com/2000/brasil/12/01/ibge/index.html

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