15 de maio de 2005

O Mito de que Somos uma População Grande Demais

O Mito de que Somos uma População Grande Demais

Gente demais, comida de menos. Em suas campanhas a favor do aborto, é isso o que afirmam os grupos de interesses especiais que pressionam os políticos. Só há um problema: O abastecimento de comida está aumentando.

Michael Fumento

Há décadas ouvimos a mesma coisa: a população mundial está grande demais, os recursos naturais do mundo não conseguirão sustentar tantas pessoas e estamos destinados à fome em massa e outras formas de miséria humana, a não ser que reduzamos dramaticamente o número de bebês que nascem. Esse cenário é assustador o bastante para ajudar certos grupos com suas ambições políticas: a Federação Internacional de Planejamento Familiar, por exemplo, usa esse cenário para impor o aborto, a esterilização e a contracepção aos países em que famílias grandes são valorizadas e em que o aborto é evitado. Afinal, se o excesso de população vai conduzir à catástrofe global, as coisas boas que gostamos de valorizar em outros contextos (como respeito a outras culturas) vão simplesmente ter de ficar em segundo plano por um tempo. Não percebe que estamos falando sobre o final do mundo?

Bem, a verdade é que não estamos tratando do final do mundo. Pelo menos, não do jeito que a maioria das pessoas imagina.

Desde que Paul Ehrlich publicou seu famoso livro The Population Bomb (A Bomba Populacional) em 1968 e introduziu o termo “explosão populacional”, horrendas ameaças de fome mundial e escassez de energia se tornaram parte do discurso público. No entanto, depois de todos esses anos (e com uma população mundial que desde então aumentou mais que um bilhão), Ehrlich e seus seguidores ainda não provaram que somos uma população grande demais; eles simplesmente afirmam que somos. Aliás, o crescimento da população está diminuindo dramaticamente, e pelos cálculos de praticamente todos os demógrafos, esse crescimento terminará durante este século.

Não se pode calcular o crescimento da população com uma calculadora, pois simples fórmulas matemáticas não levam em conta circunstâncias importantes e não tão visíveis como o índice de fertilidade. Mas sabemos que em quase todos os países as mulheres estão tendo menos filhos, e mulheres em pelo menos 60 nações já estão tendo filhos numa taxa bem menor do que a taxa necessária para a substituição da população.

Quer alguns números? Embora a população mundial tenha mais que duplicado desde 1950, chegando ao atual número de 6 bilhões e 300 mil pessoas, de acordo com as Nações Unidas, a população alcançará o pico entre 2050 e 2075. Nicholas Eberstadt, demógrafo e estudioso do American Enterprise Institute, diz que provavelmente o último aumento da população mundial ocorrerá em 2050, quando o número atingir 8 bilhões de habitantes. “Penso que é perfeitamente plausível que a população mundial atinja o aumento máximo em 2050 ou até bem antes e talvez num nível abaixo de 8 bilhões”, diz Eberstadt, observando os últimos 35 anos, em que os índices de fertilidade caíram.

Portanto, o mundo depois de 2050 terá menos pessoas para cuidar dele do que tinha durante os últimos 50 anos. Em termos de percentagens, enquanto nos últimos 50 anos lidou com 100 por cento mais pessoas, o mundo só terá de lidar com 27 por cento mais nos próximos 50 anos. Sem dúvida alguma, isso ainda é muita gente. Mas é muito longe de um cenário apocalíptico.

É verdade que partes do mundo tendem a ser cheias de gente. (Ehrlich confessou que se sentiu estimulado a escrever seu livro quando ele próprio estava sendo apertado por uma multidão numa cidade grande da Índia.) Mas embora “superlotação” possa parecer assustador, é um termo enganoso, pois quem o define é a pessoa, os estilos de vida culturais e as circunstâncias — e isso tem pouco a ver com a definição científica de “explosão populacional”. Os indianos estavam se apertando numa multidão não porque havia gente demais para a terra caber, mas porque como pessoas no mundo inteiro, eles preferem os centros urbanos, em vez das áreas rurais. É por isso que alguns arranha-céus de Manhattan, Nova York, abrigam mais pessoas do que o Estado americano inteiro de South Dakota. A superlotação pode ser um problema, mas isso não é explosão populacional.

O Aumento Explosivo de Alimentos
As outras profecias de Ehrlich de terrível destruição também comprovaram merecer a mesma desconfiança. O livro The Population Bomb (A Bomba Populacional) inicialmente deu toda a atenção à probabilidade de fome, com Ehrlich predizendo: “Na década de 1970 o mundo experimentará fomes… e centenas de milhões de pessoas [inclusive dos EUA] vão morrer de fome”. Conforme vimos nesses anos que já passaram, ele errou em centenas de milhões.


Em seu livro seguinte The Population Explosion (A Explosão Populacional), publicado em 1990, Ehrlich afirmou que a produção de grãos alcançou aumento máximo em 1986. Errado. De acordo com a Organização de Agricultura e Alimentos (FAO) da ONU, em 1986 foram produzidas aproximadamente 1,8 toneladas de cereais (o grão mais importante), um aumento maior do que tudo o que havia ocorrido nos anos anteriores. No entanto, em 2001 esse número aumentou para 20,7 milhões de toneladas.

“A produção mundial de alimentos por pessoa teve crescimento máximo antes, em 1984”, Ehrlich afirmou ainda, “e desde então vem descendo”. Em 1981 Lester Brown, pessimista como Ehrlich, escreveu: “O período de segurança mundial de alimento acabou”. Brown é fundador do Worldwatch Institute e, juntamente com Ehrlich, ganhou o “prêmio de gênio” da Fundação MacArthur.

Errado e novamente errado. De 1981 a 1989, a produção de grãos por pessoa aumentou mais que 5 por cento. Desde então, aumentou outros 4 por cento mais por pessoa. Contudo, não foi preciso arar o possível e impossível do solo para obter o aumento de alimentos. Em 2001, mais de 1,230,249 de quilômetros quadrados foram utilizados para cultivar os cereais do mundo, um pouco menos que em 1968 quando o livro bombástico de Ehrlich apareceu e bem menos do que os 1,335,468 usados em 1991, que foi o ano de crescimento máximo.

O cálculo mais importante, porém, é que as calorias disponíveis por pessoa, que em 1968 eram 2.371, alcançaram aumento jamais atingido antes: 2.800 em 1999. Estamos finalmente tendo um aumento suficiente de calorias por pessoa para manter a população mundial bem alimentada — contanto que essas calorias fossem distribuídas de modo igual.

Infelizmente, quantidade enorme dessas calorias está sustentando a epidemia de obesidade nos [países ricos] e quantidade pequena demais está indo para as nações abaixo do nível de desenvolvimento. (Embora, conforme relatou recentemente a Organização Mundial de Saúde, a obesidade seja hoje um problema existente em muitas das nações mais pobres.)

Comer um Big Mac a menos por dia nos ajudará a ficar mais saudáveis, porém não fará bem algum aos africanos ou indianos. As conversas sobre “distribuição justa de alimentos” só são isso: conversas. O que falta é uma elevação da maré que levante todos os barcos. Os grupo neo-marxistas como o Greenpeace insistem em que tudo o que temos de fazer é dividir por igual os alimentos do mundo; mas isso é tão improvável de acontecer quanto a distribuição das riquezas do mundo. (É claro que eles também adorariam fazer isso.) Assim como aumentar as riquezas entre os mais pobres requer um aumento geral das riquezas, assim também devemos continuar a aumentar a quantidade de comida disponível para todos, a fim de ajudar os que estão em maior necessidade. Isso é ainda mais importante porque os países muito menos desenvolvidos estão adquirindo uma predileção por mais carne. A pergunta é: Teremos condições de suprir todas essas calorias?

Quem deve saber é Norman Borlaug. Ele é ganhador do Prêmio Nobel e “pai da Revolução Verde”, que trouxe aumentos dramáticos nas produções de grãos de cereais em muitos países em desenvolvimento, a partir do final da década de 1960, devido em grande parte ao uso de espécies geneticamente melhoradas. Em seu capítulo no livro Global Warming and Other Myths (O Aquecimento Global e Outros Mitos), ele afirma que “o mundo tem a tecnologia — disponível ou bem avançada nas linhas de pesquisa — para alimentar uma população de 10 bilhões de pessoas”. Mais especificamente: “Até mesmo sem utilizar avanços na biotecnologia de plantas, pode-se aumentar as produções de 50 a 70 por cento em grande parte do subcontinente indiano, América Latina, a ex-União Soviética e Europa Oriental e entre 100 e 150 por cento na África abaixo do Saara.

Há também avanços tremendos na biotecnologia que tornam o cenário ainda mais agradável.

Considere o arroz. Pesquisadores suíços adicionaram genes dos narcisos no tão chamado “arroz de ouro” a fim de lhe dar a vitamina A, cuja falta provoca aproximadamente 2 milhões de mortes a cada ano. (É também a principal causa de cegueira evitável, que atinge entre 250.000 e 500.000 crianças do mundo.) Então eles adicionaram um gene de um fungo que cria uma enzima que permite que o sistema digestivo humano absorva o ferro que, não fosse pela adição especial, estaria fora de nosso acesso. Outros pesquisadores ainda estão adicionando genes a safras de arroz que aumentam a produção de 20 a 40 por cento.

Evidentemente, a capacidade de alimentar a humanidade não é nossa única preocupação em termos da probabilidade de podermos sustentar uma população em crescimento. Contudo, vez após outra somos teimosos e nos recusamos a esgotar as coisas que, [pelos cálculos dos pessimistas], já deviam ter se esgotado há muito tempo.

Há Necessidade de Mais Pessoas
Em seu livro publicado em 1974 The End of Affluence (O Fim da Fartura), Ehrlich declarou: “Antes de 1985, a humanidade entrará numa era genuína de escassez… em que os suprimentos acessíveis de muitos minerais de extrema importância estarão enfrentando esgotamento”. E ele não era o único a pensar assim. Um grupo chamado o Clube de Roma publicou um relatório muito divulgado em 1972 que mostrava que no ano 2000 haveria esgotamento de praticamente tudo, menos de areia e baratas.


Entretanto, nenhum mineral — de “extrema importância” ou não — está hoje em perigo de esgotamento. Os preços a longo prazo são um indicador direto de escassez. Mas o índice de preços do Fundo Monetário Internacional para metais está hoje em seu nível mais baixo.

De modo semelhante, o Ministério do Interior dos EUA predisse no começo que haveria esgotamento de petróleo em 1954 e depois mudou a data para 1964 por causa dos avanços tecnológicos que melhoraram a descoberta e extração de petróleo. Apesar disso, as reservas petrolíferas são agora mais numerosas do que nunca.

Contudo, há um recurso vital em que poderemos experimentar escassez nas próximas décadas: nós, seres humanos.

O motivo é que depois que parar de crescer a população mundial não ficará convenientemente num nível plano. O mais provável é que o número de habitantes cairá drasticamente e não parará de cair.

De acordo com Joseph Chamie, diretor da Divisão de População da ONU, as atuais projeções de população indicam que o mundo está caminhando para uma fertilidade média de menos de dois filhos por mulher.

Considerando que um nível de dois ou mais filhos são necessários para sustentar a população, a população mundial atingiria ponto máximo de 7 bilhões e 500 mil em 2050 e cairia para 5 bilhões e 300 mil em 2150.
E isso tem implicações políticas interessantes, já que o declínio não ocorrerá de forma igual entre as nações. A populações de várias nações do bloco soviético já estão diminuindo por causa das taxas de nascimento em declínio e porque suas populações estão se mudando para outros países. O Japão está esperando que sua população atinja crescimento máximo em 2006 e então queda de 14 por cento (quase 20 milhões de pessoas) em 2050. A Alemanha espera um declínio semelhante, enquanto a Itália e a Hungria poderão perder 25 por cento de suas populações e a Rússia um terço. Essas nações já estão se tornando gigantescas “casas de repouso”, onde há mais aposentados do que bebês.


No entanto, há uma coisa que nada poderemos fazer para compensar quando a população começar a diminuir sem parar.

De todos os que predisseram questões da população mundial, o único que mais acertou foi também o que menos recebeu reconhecimento: o falecido economista Julian Simon, da Universidade de Maryland. Ele via a humanidade não como uma praga de gafanhotos, mas em vez disso como, conforme ele mesmo chamou num livro que ele escreveu com o mesmo título: “o recurso máximo”. “Desde o começo do tempo que se tem registro, o padrão de vida sempre sobe junto com o tamanho da população mundial”, comentou Simon nesse livro. “E com o aumento da renda e da população, tem havido menos problemas graves de escassez, custos menores e uma disponibilidade maior de recursos”. É verdade, ele escreveu, que: “Um aumento no número de pessoas causará problemas [temporários], mas ao mesmo tempo haverá mais pessoas para resolvê-los”.

Para Simon, o choro de um nenenzinho representa não apenas outra boca para alimentar, mas talvez o próximo Pascal, o próximo Kepler, o próximo Michelangelo, o próximo Bach.

Não sabemos quantos desses não nascerão. Mas lamentaremos a perda deles do mesmo jeito.

Michael Fumento é membro de elevada posição no Instituto Hudson em Washington, D.C.

Traduzido e adaptado por Julio Severo: www.juliosevero.com.br

Esse artigo apareceu na edição de janeiro de 2003 da revista Citizen. Essa revista pertence ao ministério Focus on the Family, fundado pelo Dr. James Dobson, autor do livro Ouse Disciplinar, da Editora Vida. Copyright © 2003 Focus on the Family. Todos os direitos reservados. Copyright internacional garantido.

http://www.family.org/cforum/citizenmag/features/a0023755.cfm

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