28 de abril de 2005

Papa Bento 16: O que devemos pensar?

Estimados irmãos

Acabo de traduzir excelente artigo escrito por Albert Mohler sobre a eleição do novo papa. O Dr. Mohler é presidente de um seminário batista nos EUA. Antes de ler o que o irmão Mohler disse, vejam essa declaração de um site gay sobre o novo papa:


Assim como João Paulo, Bento 16 é ultraconservador e condena de maneira taxativa a homossexualidade, a qual ele chama de "uma depravação e uma ameaça à família e à estabilidade da sociedade", e a adoção de crianças por casais formados por homossexuais. Seu histórico na luta contra os direitos dos homossexuais inclui uma campanha mundial preparada por ele no ano de 2003 contra a legalização da união civil homossexual. De acordo com a Folha Online, na época da campanha o cardeal pediu aos políticos católicos de todo o mundo que se pronunciassem de forma "clara e incisiva" contra as leis que favorecem casamentos gays. "Não existe qualquer fundamento para assimilar ou estabelecer analogias, sequer remotas, entre as uniões homossexuais e os desígnios de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, enquanto que as relações homossexuais contrastam com a lei moral natural", afirma o texto da campanha mundial do Vaticano.

Fonte:
http://gonline.uol.com.br/livre/gnews/gnews.asp?IdNews=2204

Agora, sintam-se a vontade para ler o artigo abaixo, que explicará como um evangélico pode se posicionar diante das posturas do novo papa.

Julio Severo


Papa Bento 16: O que devemos pensar?

Albert Mohler

A fumaça branca saindo da Capela Sistina sinalizou a eleição de um novo papa depois de apenas quatro votações — um fato que presumivelmente indicou a eleição de um dos quatro líderes que já eram antecipados para vencer. Dentro de uma hora, os sinos do Vaticano tocando cederam ao anúncio e apresentação do novo papa — Papa Bento 16, ex-cardeal Josef Ratzinger, cardeal prefeito da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé.

Compreendia-se que Ratzinger era um líder favorito para vencer quando os cardeais entraram em seu histórico conclave. Rotulado pelos meios de comunicação como o guardião da doutrina do Vaticano, o cardeal Ratzinger havia desempenhado um papel importante como conselheiro intelectual e teológico do Papa João Paulo 2 e como o teólogo da Igreja Católica Romana encarregado de proteger a autoridade e doutrina da igreja. É claro que ninguém com essas responsabilidades escapa de enfrentar uma lista de críticos e inimigos magoados. No caso do Ratzinger conservador, essa realidade é de modo especial forte, pois o cardeal prefeito havia trabalhado durante vinte anos na função de incansável defensor da teologia e ensino moral católico.

A rápida eleição de Ratzinger aconteceu depois que notícias da imprensa indicaram que ele entrou no conclave com pelo menos 50 votos comprometido à sua eleição. Nesse caso, o velho ditado do Vaticano “Entra um papa, sai um cardeal” comprovou não ser verdadeiro. Embora ninguém além dos cardeais saiba exatamente o que aconteceu dentro do conclave, o cardeal Ratzinger saiu do conclave como o novo papa depois de somente dois dias de votação. Em todos os sentidos, essa votação rápida foi um feito extraordinário.

Os observadores sem demora ofereceram interpretações da eleição de Ratzinger como papa. As predições comuns eram de que Ratzinger — com 78 anos de idade — seria um papa de transição. O longo papado de João Paulo 2 lança uma sombra enorme sobre qualquer sucessor. O que é bastante claro é que o Papa Bento 16 não terá probabilidade alguma de se manter no ofício papal no comparável período longo de seu antecessor.

Em todos os sentidos, o tema dessa eleição papal foi continuidade. Compreende-se bem que Ratzinger estava por trás de muitas das mais importantes encíclicas e declarações de João Paulo 2. Aliás, os observadores do Vaticano rotineiramente identificavam Ratzinger como a “mão oculta” do último papado. Era óbvio que João Paulo 2 depositava muita confiança em Ratzinger — um fato que seus colegas cardeais mal deixavam de perceber.

No entanto, se João Paulo 2 era considerado um papa conservador, Ratzinger é visto como uma mudança muito mais próxima à direita. O som de gritaria, berros, chiados e reclamações que se ouve é o som de teólogos católicos romanos esquerdistas e ativistas insensibilizados e punidos com a eleição do líder mais conservador como o próximo pontífice católico.

O que os evangélicos devem pensar acerca do novo papa? Em todos os sentidos, essa é uma pergunta difícil, pois tal pergunta envolve o universo inteiro de questões que permanecem entre a teologia evangélica e as doutrinas ensinadas pela Igreja Católica Romana. É claro que o próprio papado é uma questão de discórdia de primeira ordem. Os evangélicos, graças às claras declarações do último papa sobre a dignidade humana e a objetividade da verdade, precisam se sentir até certo ponto aliviados de ver que o sucessor de João Paulo 2 é um ardente defensor da sacralidade da vida humana, a integridade do casamento e o compromisso com a verdade. Contudo, o conservadorismo doutrinário de Ratzinger se estenderá, evidentemente, às próprias questões mais cruciais que dividem evangélicos e católicos romanos.

Os evangélicos com toda a justiça apontam para o papado como um ofício sem base na Bíblia que, por sua própria natureza, compromete a integridade das Escrituras e concede autoridade não bíblica a um monarca eclesiástico terreno. As reivindicações de sucessão papal, autoridade papal e infalibilidade papal não fazem nada senão ampliar a fenda entre evangélicos e a Igreja Católica Romana. O conservadorismo que leva Ratzinger a defender posições católicas históricas sobre o aborto, eutanásia e muitas outras questões anda lado a lado com sua defesa do papado, autoridade magisterial e todas as doutrinas católicas.

Como assessor teológico do Concílio Vaticano 2 (juntamente com o último papa), Ratzinger escreveu críticas fortes contra as propostas esquerdistas apresentadas por muitos teólogos católicos contemporâneos. Como autoridade doutrinária do Vaticano, ele adotou medidas disciplinares contra os teólogos da teologia da libertação e outros que violaram o ensino católico. Ele puniu teólogos católicos asiáticos por sugerirem que as religiões do Oriente são tão válidas quanto o Cristianismo, e ele sem demora defendeu o direito do magistério de decidir, definir e proteger o ensino católico.

Entretanto, não há nenhuma razão para crer que a eleição do Papa Bento 16 fará qualquer coisa para romper os pontos que dividem evangélicos e católicos romanos em questões relacionadas à autoridade bíblica, o Evangelho e muitas outras questões teológicas essenciais. Não temos nenhuma expectativa de que este papa esteja com pontos de vista sobre justificação e o Evangelho que sejam de algum modo mais harmoniosas com as convicções evangélicas do que os pontos de vista que seus antecessores tinham. Aliás, a força teológica de Ratzinger pode se espalhar de um modo que fará com que os evangélicos tenham frustrações bem maiores.

Em seus escritos anteriores, este novo papa indicou compreender de modo claro e sincero as convicções dos evangélicos. Na verdade, ele é provavelmente o papa mais bem informado da História, em termos de convicções evangélicas e compromissos teológicos. Não que o papa tenha de algum modo simpatia para com essas convicções. O que é bem claro é que provavelmente esse papado será interessante e desafiador.

Uma das dimensões estranhas desse cenário inteiro é o fato de que os evangélicos preocupados com a preservação da verdade bíblica e determinados a defender a moralidade bíblica terão muito em comum com esse novo papa. Num sermão pregado a seus colegas cardeais apenas dois dias antes de sua eleição, o cardeal Ratzinger criticou de modo profundo e eloqüente o relativismo pós-moderno.

“Quantos ventos de doutrina conhecemos em décadas recentes, quantas correntes teológicas, quantas ondas de pensamento… O pequeno barco de pensamentos de muitos cristãos tem sido atirado para lá e para cá por essas ondas — tem sido jogado de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até mesmo a libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo ao vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e assim por diante”, declarou ele. Ele continuou: “Estamos caminhando para uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como certo e fixo, e que tem como sua meta mais elevada os desejos do próprio ego”.

Não há uma só silaba nessas declarações com que os evangélicos não estariam de total e entusiástico acordo. Aliás, os escritos de Ratzinger revelam uma aguçada mente teológica que entende os contornos da crise pós-moderna e indicam uma defesa sólida da verdade contra a postura do relativismo.

De modo semelhante, numa longa entrevista publicada em 1985, Ratzinger perseguiu os críticos bíblicos esquerdistas que subvertem a autoridade das Escrituras. “No final das contas, a autoridade em que esses especialistas bíblicos baseiam suas opiniões não é a própria Bíblia, mas a cosmovisão que eles sustentam ser moderna. Eles estão pois falando como filósofos ou sociólogos, e sua filosofia consiste meramente de banal e dócil aprovação às convicções do tempo atual, que são sempre temporárias”.

Mais uma vez, os evangélicos estariam de acordo fundamental com essa declaração.

Os evangélicos de hoje se acham numa situação que J. Gresham Machen bem descreveu há quase um século, quando esse grande defensor evangélico da fé lançou seu ataque contra o liberalismo protestante, acusando-o de ser uma religião fundamentalmente nova em divergência com o Cristianismo. Machen sem dúvida surpreendeu muitos de seus leitores evangélicos quando declarou que os evangélicos comprometidos com a defesa do Evangelho têm realmente mais em comum com os católicos romanos ortodoxos em questões tais como a pessoa de Cristo e a Trindade do que teriam com seus amigos protestantes esquerdistas.

É muito doloroso perceber que, passado quase um século, pouca coisa mudou. O catolicismo passou por várias transformações importantes, mas ainda permanece anos luz de ensinos bíblicos claros como justificação somente pela fé. O fato é que o papado está mais forte do que nunca, fortalecido pelo longo pontificado de João Paulo 2 e agora ocupado pelo enérgico Bento 16.

Tudo isso exigirá que os evangélicos pensem com clareza, analisem com cuidado e mantenham-se fiéis às suas próprias convicções teológicas. Não devemos sentir vergonha e hesitação de declarar nosso apoio a esse novo papa em sua análise dos perigos do desafio pós-moderno e em sua defesa da santidade da vida humana e da inviolabilidade do casamento. Nesse aspecto, os evangélicos, que com toda a justiça rejeitam o papado como instituição, se acham apesar disso aliviados com o fato de que a vasta força da Igreja Católica Romana provavelmente não será redirecionada de um modo que seja hostil àquelas convicções que temos em comum. Mas a instituição do papado permanece um grande obstáculo, e esse papado mostrará seus próprios desafios. Vamos esperar que esta geração de evangélicos esteja pronta para essa tarefa.

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Albert Mohler, Jr. é presidente do Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky. Para conhecer mais artigos e outros materiais do Dr. Mohler, visite seu site: http://www.albertmohler.com/.

Traduzido e adaptado por Julio Severo: http://www.juliosevero.com.br/

Fonte: The Al Mohler Crosswalk Commentary - Pope Benedict XVI--What ShouldWe Think?, April 20, 2005.

2 comentários:

Anônimo disse...

Apesar de discordar da própria instituição do papado, o autor do texto respeita o seu titular, assim como procura enaltecer os pontos comuns, criando um ambiente de diálogo e abertura.

Pena que o protestantismo brasileiro não seja assim.

Anônimo disse...

Sr. Júlio, sou uma admiradora fervorosa de seus artigos tão contundentes, tão verdadeiros e tão bem escritos, e gostaria de sugerir-lhe que estude patrística, história antiga e arqueologia. Dói-me na alma ver um homem tão cheio da unção do Espírito Santo como o senhor, sem compreender ou querer compreender a fé católica em sua totalidade. Convido-lhe a conhecer. O senhor pode se surpreender.
A paz de Cristo.
Maria