28 de abril de 2005

João Paulo II: O Homem e Seu Legado

Estimados irmãos

Abaixo, artigo que acabo de traduzir. É um dos textos mais equilibrados sobre a postura evangélica diante da morte do papa.

Julio Severo

João Paulo II:
O Homem e Seu Legado


Albert Mohler

A morte de João Paulo II finaliza um dos reinados papais mais longos da Igreja Católica Romana e fecha o último capítulo de uma das vidas mais importantes de nossa época. Por todos os critérios, João Paulo II foi uma das figuras mais influentes do cenário mundial, conduzindo mais de um bilhão de católicos romanos do mundo inteiro e exercendo uma influência importante nos assuntos mundiais durante algumas das décadas mais tumultuadas do século XX.

Inevitavelmente, sua morte levanta perguntas fundamentais sobre como os evangélicos devem entender o próprio papado e os que ocupam o ofício papal. Considerando o nível baixo de conhecimento teológico e o emocionalismo elevado da época, muitos evangélicos parecem confusos ao se defrontarem com um acontecimento como a morte de um papa. Além disso, os evangélicos têm mais probabilidade de terem sido informados sobre esse papa, em contraste com os que ocuparam o oficio papal no passado. Em nossa época de meios de comunicação de massa, João Paulo II foi uma das figuras públicas mais publicadas, televisadas e celebradas.

Para os evangélicos, a pergunta crucial vem com a própria instituição do papado. Afinal, a Reforma do século XVI exigiu que o poder e a autoridade do papa fossem rejeitados, e os reformadores logo vieram a entender o papado como um ofício sem base na Bíblia que inevitavelmente comprometia a autoridade e suficiência da Palavra de Deus. Com o tempo, os herdeiros dos reformadores vieram a entender que o papado é um ofício sem nenhum fundamento bíblico que coloca um monarca terreno na posição de cabeça terreno da igreja. Além do mais, dá-se a esse ofício pretensões ao poder espiritual e terreno que são unidos com pretensões de sucessão apostólica e servem como colunas de base das pretensões abrangentes da Igreja Católica Romana.

A questão da rejeição dos protestantes ao papado não era pequena, embora alguns protestantes liberais e evangélicos descuidados pareçam ter esquecido o motivo. Além disso, o papado tem uma ligação complexa com a estrutura da teologia católica e a superestrutura de pretensões do que é a verdade, e de práticas e doutrinas que constituem o catolicismo. Os evangélicos não podem simplesmente aceitar a legitimidade do papado e precisam resistir e rejeitar as pretensões de autoridade do papa. Uma atitude diferente seria comprometer a verdade bíblica e anular a Reforma. Com a morte de João Paulo II, os evangélicos se defrontam com uma pergunta delicada: Será que podemos reconhecer virtudes genuínas num homem que por mais de 25 anos ocupou um ofício que devemos rejeitar explicitamente?

Sem sentir vergonha e hesitação, podemos declarar nossa admiração pela postura corajosa de João Paulo II contra o comunismo, por sua defesa ousada da dignidade humana e da vida humana e por sua defesa forte e sólida da verdade em face do pós-modernismo. Em muitas das grandes batalhas da nossa época, os evangélicos descobriram em João Paulo II um aliado muito importante. Isso ocorreu de modo especial nas questões cruciais do aborto e da eutanásia. Com chicotadas ousadas e uma voz clara, esse papa defendeu a vida humana desde o momento da concepção até a morte natural. Em sua encíclica Evangelium Vitae (1995) ele argumento que devemos nos opor de modo implacável ao que ele chamou de “cultura da morte” — uma tendência social e cultural que abraçaria cada vez mais a morte ao invés da vida e sacrificaria a dignidade humana no altar dos direitos individuais e autonomia humana.

Na encíclica Veritatis Splendor (1993), João Paulo II argumentou que o conceito moderno de independência e liberdade humana sem controle conduziria à destruição da ética cristã e ao enfraquecimento gradativo de toda autoridade. Nesse manifesto vigoroso, o papa defendeu a própria natureza da verdade contra as negações pós-modernas e um sistema social cada vez mais atraído ao relativismo moral.

Não dá para separar o legado desse papa dos fatos de sua vida. Nascido em 18 de maio de 1920 em Wadowice, ao sul de Cracóvia na Polônia, Karol Wojtyla se tornou adulto no contexto da opressão comunista. Por toda a sua vida, ele se identificou como polonês e eslavo, e os acontecimentos de sua biografia se tornaram o centro da atenção mundial.

Formado como ator, Karol Wojtyla mais tarde decidiu entrar no sacerdócio, seguindo um chamado que trouxe grande respeito para sua pátria, a Polônia. Com rapidez extraordinária, o Pe. Wojtyla entrou na hierarquia da Igreja Católica. Ele foi consagrado bispo em 1958 — apenas 12 anos depois de entrar no sacerdócio. Em 1964, ele foi consagrado como Arcebispo de Cracóvia, e só três anos mais tarde o Papa Paulo VI o tornou cardeal.

Bem antes de se tornar cardeal, Karol Wojtyla havia atraído a atenção do Vaticano. Ele havia estudado em Roma e havia desenvolvido uma reputação nos círculos acadêmicos católicos. Teologicamente, ele era visto como progressista, e ele tomou parte ativa no Concílio Vaticano 2, convocado pelo Papa João XXIII.

Quando o Papa Paulo VI morreu em Castel Gandolfo em 6 de agosto de 1978, o Cardeal Wojtyla já era mencionado como sucessor em potencial. Apesar disso, quando o Conselho de Cardeais elegeu Albino Luciani em 25 de agosto de 1978, parecia que o Cardeal Wojtyla havia perdido sua chance de se tornar papa.

Tudo isso mudou em 28 de setembro de 1978, quando o Cardeal Luciani — agora Papa João Paulo I — morreu em seu sono durante a noite, quase um mês após sua eleição como papa.

A eleição de Karol Wojtyla como papa veio em 16 de outubro de 1978, e ele anunciou imediatamente que assumiria o nome de “João Paulo II” como modo de honrar seu antecessor imediato. Apesar disso, estava claro que esse novo papa assumiria o papado e a Igreja Católica Romana com muita firmeza e controle.

Em seus anos iniciais, esse papa polonês ficou conhecido por milhões de pessoas do mundo inteiro, principalmente como um homem que, com coragem pessoal e o peso de seu ofício papal, se opunha à tirania comunista. João Paulo II foi o primeiro papa não italiano desde 1522, e a importância histórica de sua eleição se tornou evidente quando ele utilizou a influência total de seu oficio papal para encorajar o movimento Solidariedade em sua pátria polonesa.

Junto com o Presidente Ronald W. Reagan e a Primeira Ministra britânica Margaret Thatcher, o Papa João Paulo II via o comunismo como agressão contra a dignidade humana e o espírito humano. Como Ronald Reagan, a estatura internacional de João Paulo II ganhou mais força depois que ele sobreviveu a uma tentativa de assassinato. No caso de João Paulo II, a tentativa de assassinato de 1981 que quase lhe tirou a vida foi organizada pela polícia secreta da Bulgária, presumivelmente sob ordens da KGB na União Soviética.

Os evangélicos devem honrar a coragem desse homem e seu papel histórico no desmoronamento da tirania comunista — ao menos dentro da União Soviética e na Europa Oriental. Além disso, devemos honrar sua defesa da dignidade humana e seu testemunho eloqüente e influente contra o aborto e a Cultura da Morte.

Mesmo assim, devemos também reconhecer que João Paulo II representou os aspectos mais preocupantes do catolicismo romano. Ele defendeu e continuou as direções teológicas liberadas no Concílio Vaticano 2. Ao mesmo tempo em que consolidava autoridade no Vaticano e disciplinava padres e teólogos rebeldes, ele nunca confrontou as questões urgentes que preocupam os evangélicos.

Até mesmo em seu livro mais recente, João Paulo II continuou a definir a obra de Cristo como aquilo que é adicionado ao esforço humano. Como a igreja que ele serviu, João Paulo II rejeitou a justificação pela fé. Além disso, ele rejeitou a doutrina bíblica do inferno, adotou o inclusivismo e promoveu uma forma extrema de devoção a Maria, referindo-se a Maria como “Co-Redemptrix”, “Mediatrix” e “Mãe de todas as Graças”.

No final das contas, os evangélicos precisam ser gratos pelas virtudes pessoais que o Papa João Paulo II demonstrou, e pela sua defesa em favor da vida, liberdade e dignidade humana. Contudo, não podemos ignorar a própria instituição do papado, nem o sistema complexo de doutrinas, pretensões do que é a verdade e falsas doutrinas que João Paulo II ensinou, defendeu e promulgou. Enquanto os católicos romanos estão de luto por causa do falecimento do papa, devemos ter o cuidado de reagir com compaixão e fidelidade aos nossos princípios, cumprindo nossa responsabilidade de apreciar os méritos desse homem e seu legado.

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Albert Mohler, Jr. é presidente do Seminário Teológico Batista do Sul em Louisville, Kentucky. Para conhecer mais artigos e outros materiais do Dr. Mohler, visite seu site: http://www.albertmohler.com/.

Traduzido e adaptado por Julio Severo: http://www.juliosevero.com.br

Fonte: The Al Mohler Crosswalk Commentary - John Paul II--The Man and His Legacy, April 4, 2005

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