25 de agosto de 2004

Anti-semitismo na França

ANTI-SEMITISMO NA FRANÇA:
Dos filósofos e políticos aos muçulmanos

Don Feder

No começo de agosto de 2004, alguns judeus foram atacados em Auschwitz. Os agressores não eram árabes, alemães, poloneses ou membros de outro grupo historicamente ligado ao anti-semitismo. Eles eram franceses — que se consideram os filhos da liberdade, igualdade e fraternidade.

O incidente é parte de uma tendência que vem aumentando. Apesar das condenações públicas feitas pelo Presidente Jacques Chirac, o anti-semitismo europeu vem principalmente da França.

Os judeus — estudantes dos EUA, Israel e Polônia — estavam visitando o museu do campo de concentração que veio a simbolizar os horrores do Holocausto. Um deles, Tamar Schuri, tinha uma bandeira de Israel nos ombros.

Ao verem a bandeira, os franceses começaram a lançar palavrões contra os judeus e gritar termos anti-semíticos. Maya Ober, judia polonesa que perdeu membros de sua família em Auschwitz, disse que um francês “mandou que voltássemos para Israel, chamando-nos de bobos, e disse que devíamos nos envergonhar de andar com a bandeira de Israel”. O francês agarrou o braço de Tamar. Testemunhas afirmaram que, não fosse por uma intervenção externa, esse ato agressivo teria provocado uma briga entre o grupo de franceses e o grupo de estudantes judeus.

É inacreditável o que está acontecendo: Judeus serem agredidos por exibirem a bandeira do Estado judeu num lugar em que um milhão e meio de judeus foram assassinados. O fato de que os agressores eram franceses revela muita coisa.

Dias depois do ataque em Auschwitz, um cemitério judeu em Lyon, França, foi profanado. Suásticas e termos anti-semitas foram rabiscados nas lápides. Na França, até mesmo os judeus mortos não podem ter paz.

Duas semanas depois, um centro judaico de caridade que distribui sopa para os necessitados sofreu um ataque de bomba incendiária do grupo que se intitula Jamaat Ansar Al-Jihad al-Islamiya. (Com esse nome, dá para achar que eles são evangélicos?)

O Presidente Chirac comprometeu-se heroicamente: “Estamos indo atrás dos criminosos que cometeram essa violência”. Provavelmente, ele designou algum espalhafatoso e inepto agente policial ao caso.

Desde o outono de 2000 (o começo da mais recente campanha de terrorismo contra Israel), uma onda de anti-semitismo vem varrendo a França, lembrando semelhante situação na Alemanha no início do nazismo.

Cemitérios judaicos estão sendo profanados. Sinagogas e escolas estão sofrendo ataques de bombas incendiárias. Francos atiradores estão atirando em ônibus levando estudantes judeus. Rabinos estão sendo agredidos. Judeus usando solidéu estão sendo surrados nas ruas.

O número de incidentes anti-semíticos na França aumentou de 320 em 2001 para 593 em 2003. Só nos primeiros seis meses deste ano, houve 510 crimes de ódio dirigidos contra judeus franceses. De acordo com a polícia federal francesa, nos primeiros seis meses deste ano, houve 135 ataques físicos contra judeus, em comparação com 127 no ano inteiro de 2003. Os atos anti-semitas compõem agora mais de 80 por cento dos crimes relacionados a preconceito cometidos na França anualmente.

O Rabino Joseph Sitruk, Rabino Chefe da França, pediu aos judeus que não usem solidéu em público (“Peço que os jovens fiquem alerta, evitem andar sozinhos, evitem usar solidéu na rua ou no metrô, a fim de que não se tornem alvos de potenciais agressores”.) O Centro Simon Wiesenthal aconselha os turistas judeus a “exercer extrema cautela” ao viajar para a França.

Em face de toda essa perseguição francesa, Ariel Sharon recentemente encorajou os judeus franceses a emigrar para Israel. A resposta de Chirac foi que o primeiro ministro israelense não é bem-vindo na França. O velho general Sharon — que ganhou mais medalhas do que o exército francês inteiro desde que se sabe que a França existe — foi assim privado da oportunidade de estudar estratégia militar no país criador da desastrosa Linha Maginot.

A maioria dos ataques contra os judeus é obra de muçulmanos do Norte da África, que estão inundando o país. (Estima-se que a população muçulmana da França seja entre seis e oito milhões.) Com 600.000 judeus (a terceira maior população judia da Diáspora), a França é de fato um oportuno campo de caça para os “seguidores da religião da paz” [termo suave que os muçulmanos aplicam à sua religião]. Já que suas pátrias muçulmanas foram em grande parte “descontaminadas” dos judeus, é prazer especial para eles [viverem na França, onde] há alvos judeus vivos e reais.

A indiferença francesa facilita esses crimes. Os muçulmanos são os beneficiários de séculos de anti-semitismo francês.

O pai intelectual da Revolução Francesa, Voltaire, escreveu sobre os Filhos de Abraão: “De todos, eles já nascem com um fanatismo violento no coração, exatamente como os bretões e os alemães nascem com cabelos louros. Eu não ficaria nem um pouco surpreso se esse povo algum dia não se tornasse mortal para a raça humana”. Essa observação veio numa época em que os judeus europeus viviam encolhidos de medo nos guetos.

Antecipando o Holocausto, o socialista francês Pierre-Joseph Proudhon, do século XIX, tinha sua própria solução para o problema judaico: “Mandar os judeus de volta para a Ásia ou exterminá-los”.

O anti-semitismo francês deu o impulso original para o surgimento do sionismo. Theodor Herzl, judeu austríaco, ficou tão chocado quando encontrou multidões em Paris gritando “Morte aos Judeus” durante o Caso Dreyfus, que ele se sentiu inspirado a escrever a obra Der Judenstaat (O Estado Judeu), iniciando um movimento que conduziria ao estabelecimento do Estado de Israel dentro de 50 anos.

O pai da teoria racista, Joseph-Arthur de Gobineau (1816-1882), era um francês cuja defesa da supremacia ariana influenciou Hitler.

Em toda a Europa ocupada, os nazistas não encontraram cúmplices mais dispostos do que os franceses para a execução da Solução Final. O governo francês de Vichy ajuntou 61.000 judeus e os entregou aos nazistas — quase todos morreram em lugares como Auschwitz.

Em contraste, o exército italiano (aliado da Alemanha) salvou os judeus em sua zona de ocupação no Sul da França. O comandante dessas tropas disse que era “contra a honra do exército italiano” permitir a deportação dos judeus em território que controlava. (A honra do exército francês é demonstrada no caso do Capitão Alfred Dreyfus, em que ele foi transformado em bode expiatório e alvo de preconceito por ser judeu.)

A era após a 2 Guerra Mundial trouxe pouca melhoria na atitude do governo francês para com um povo que nunca quis e cuja presença lhe dá profundo mal estar.

Em 28 de novembro de 1967 (logo após a Guerra dos Seis Dias, em que Israel venceu exércitos árabes invasores) o então Presidente Charles de Gaulle declarou à imprensa que os judeus são “um povo de elite, autoconfiante e dominador”. Essa declaração vem do líder da nação conhecida no mundo inteiro por sua humildade.

De Gaulle (que odiava os americanos também) acusou o povo judeu de ser responsável de “provocar inimizade em certos países em determinadas épocas”. Presumivelmente, eles são culpados só por continuarem respirando.

Essa hostilidade atravessa o espectro político. Há relatos de que Francois Mitterrand, o presidente francês entre 1981 e 1995, tinha sobre os judeus os mesmos sentimentos de seu antecessor.

Em 2001, testemunhas contam que ouviram Daniel Bernard, o embaixador francês na Inglaterra, dizendo para convidados num coquetel que todos os problemas do mundo são por culpa “daquele paisinho nojento chamado Israel”. “Por que”, o embaixador perguntou-se em voz alta, “o mundo devia correr o risco de uma 3 Guerra Mundial por causa desse povo?” Ah, o charme francês para tratar os judeus com “diplomacia”!

Durante várias décadas, um anti-sionismo radical inspirou a política externa da França. (Recorde que a França financiou a construção do reator nuclear de Saddam Hussein, destruído por Israel em 1981.)

Na década de 1970, a França fez um acordo diabólico com a OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Os assassinos de Arafat receberiam permissão e belos pagamentos para agir (e planejar ataques contra os judeus a partir da França), com a condição de que não se envolvessem em terrorismo em solo francês. Os franceses são especialistas em fazer de conta que não vêem nada, enquanto outros são mortos.

Foram necessários três violentos anos de agressões, incêndios intencionais, ataques de francos atiradores e profanações para o governo francês finalmente confessar que nem tudo estava bem em seu paraíso multicultural. No entanto, no começo o governo simplesmente negou a realidade.

Em 2002, Chirac alegou se sentir chocado e entristecido que alguém pensasse que há anti-semitismo na França.

Ele nos assegurou: “Não há nenhuma onda de anti-semitismo na França… essas declarações não têm base”. Ele também afirmou que a “França e todas as suas autoridades permanecem bem vigilantes nessa área e são extremamente rigorosas na punição de todas as manifestações [anti-semitas], quaisquer que sejam”.

Os anti-semitas não foram enganados. Na primavera de 2003, os parisienses que protestaram contra a invasão americana no Iraque cantavam: “Viva Chirac. Detenham os judeus!”

Em 2001, o presidente do Conselho Representativo das Organizações Judaicas da França escreveu no jornal Le Monde: “Os líderes do país gostam de minimizar os atos anti-semíticos. Eles preferem ver esses atos como violência comum. Inundam-nos com estatísticas planejadas para mostrar que um ataque contra uma sinagoga é um ato de violência, não anti-semitismo”.

A única coisa que me deixa surpreso é que Chirac também não insistiu em que não havia anti-semitismo algum na França durante o Caso Dreyfus ou na 2 Guerra Mundial. (Acontece que é pura coincidência os 61.000 cidadãos franceses mandados para as câmaras de gás serem judeus.) Os franceses têm uma expressão: “Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas”. Na verdade, há poucos assuntos com os quais os franceses se importem menos do que o destino dos judeus — na França ou qualquer outro país.

O centro do anti-semitismo europeu também é a estufa do antiamericanismo. Como os judeus, os americanos são acusados de “arrogância”.

Os EUA são acusados do crime imperdoável do uniteralismo. Tenha pena de Winston Churchill, aquele velho instigador de guerras, que agiu uniteralmente depois que a França foi invadida em 1940. E, só pare para pensar um pouco, o primeiro ministro britânico nem mesmo tinha um mandato da Liga das Nações.

Como no caso dos americanos, os judeus são odiados por causa do seu sucesso — um sucesso que pode ser contrastado com o tédio e fracasso silencioso da velha Europa.

Há um sentimento, entre quase todos os franceses, de que se os judeus e os americanos fossem menos ousados em suas idéias e ações (isto é, se eles ficassem parados e se fingissem de mortos), todos os problemas da humanidade desapareceriam.

Esses judeus e israelenses, perguntam os franceses, por que é que eles simplesmente não dão um Estado para os palestinos (dando para si mesmos, no processo, fronteiras suicidas)?

De modo semelhante, afirmam que se os EUA simplesmente deixassem ditadores (e parceiros comerciais franceses) como Saddam Hussein em paz, a paz reinaria de maneira suprema.

Se os americanos entregassem tudo nas mãos da ONU, em vez de exercerem seu direito soberano de autodefesa, a França e o resto da Europa não-alinhada poderiam levar sua vida diária sem preocupações e incômodos e ir tranqüilos para o túmulo.

O ódio francês contra os americanos e contra os israelenses é a raiva dos impotentes dirigida aos que têm um instinto inabalável de sobrevivência.

Por falar em instinto de sobrevivência, ou sua ausência, se as tendências demográficas continuarem, a França será uma nação predominantemente muçulmana em menos de meio século. (Viva Maomé na França?) A taxa de natalidade da população francesa original é de 1,4 filhos por mulher, bem abaixo do nível de substituição. Entre os muçulmanos franceses, a taxa de natalidade é duas ou três vezes maior do que a do resto da França.

Os franceses terminarão onde os cansados da vida geralmente terminam: o mundo se cansará deles e os descartará. Francamente, destino melhor não poderia ocorrer para pessoas tão “agradáveis”.

Traduzido e adaptado, com a devida autorização de Don Feder, por Julio Severo: http://www.juliosevero.com.br

Fonte: http://www.donfeder.com/