6 de agosto de 2001

O QUE É A MORTE?

O QUE É A MORTE ?

Como a moderna “ciência” torce o sentido da morte e canibaliza e comercializa os “mortos”

Julio Severo

As questões do começo e do fim da vida humana são agora muito difíceis de responder. Havia um tempo em que os médicos sabiam como responder a essas questões. Mas isso foi bem antes de se descobrir que tanto o começo quanto o fim da vida podiam ser explorados através de uso de órgãos de bebês abortados ou de pacientes adultos cerebralmente mortos, mas com o coração ainda batendo.

Para aliviar o peso de nossa consciência e livrar-nos de nossas preocupações com relação à retirada de órgãos de seres humanos ainda vivos, criou-se a definição de morte cerebral. O conceito de morte foi redefinido a fim de atender a outros propósitos. Agora existe uma nova idéia de fim da vida: morte com o coração batendo.

A primeira mudança importante que ocorreu foi quando alguns especialistas médicos, atendendo a propósitos ideológicos e comerciais, redefiniram o começo da vida. Se antes toda a classe médica sabia que a concepção ocorre no momento em que o espermatozóide se une ao óvulo, hoje o novo conceito diz que a concepção acontece bem depois dessa união: só quando o óvulo já fertilizado se implanta na parede do útero. Essa redefinição do começo da vida teve como objetivo acalmar os casais que usam a pílula “anticoncepcional” e outros métodos hormonais. Esses métodos não só impedem o espermatozóide de se unir ao óvulo, mas também têm a função de impedir a implantação do ser humano já concebido. Mas, de acordo com a mudança de sentido que a palavra concepção sofreu, essa última função é hoje considerada efeito “anticoncepcional” normal.[1]

No entanto, as mudanças não param por aí. Agora alguns na classe médica consideram o começo da vida apenas após o parto. Assim fica mais fácil fazer experiências com quem ainda não nasceu ou retirar-lhes os órgãos ou simplesmente matá-los.

Nos EUA, onde o aborto legal é feito por milhões de mulheres, há um procedimento em que os médicos tiram, quase na hora do parto, o corpo inteiro do bebê do útero, menos a cabeça. Então enfiam um tubo na cabeça da criança e sugam-lhe o cérebro, para que ela nasça morta. Isso é considerado aborto de nascimento parcial e é legalmente permitido, porque “muitos cientistas médicos dizem não saber se a vida começa antes ou depois do nascimento”.

O bebê pode nascer e continuar vivendo ou ser morto, conforme o médico quiser, já que a medicina americana não considera como pessoas os seres humanos que ainda não saíram da barriga de suas mães. E toda essa confusão começou porque resolveram mudar completamente o conceito do que é a concepção de um bebê, a fim de que não tivéssemos nenhuma preocupação com os seres humanos que a pílula estava impedindo de se implantar no útero. Aliás, muitas mulheres estão tendo micro-abortos sem nem mesmo saberem.

Agora a mesma confusão envolvendo as questões do começo da vida atingiram também as questões do fim da vida.

Morte cerebral e doação de órgãos­­

O Dr. C. Everett Koop, uma das maiores autoridades médicas dos EUA, diz:

A chegada da era do transplante de órgãos trouxe outros problemas para a prática da medicina, especificamente com relação à questão ética e moral da prolongação da vida e de seu extermínio. …a questão da eliminação de uma vida para possibilitar um transplante de órgão para outra pessoa…[2]

Wesley Smith, em entrevista ao noticiário eletrônico WorldNetDaily, disse:

Estão debatendo a questão da redefinição da morte a fim de que sejam declarados mortos os que estão permanentemente inconscientes. Estão debatendo isso bem seriamente nos meio mais elevados da área médica de transplante de órgãos.[3]

O Dr. Cícero Galli Coimbra, do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo, diz:

Nas últimas décadas, o grande aumento no número de transplantes, decorrente dos avanços da medicina, e a conseqüente busca por doadores de órgãos, deu maior importância à questão do diagnóstico de morte cerebral.[4]

No entanto, apesar de toda a experiência dos profissionais de saúde e de toda a tecnologia incorporada à medicina ao longo do tempo, o diagnóstico de morte cerebral ainda envolve muitos pontos polêmicos. Já foram propostos vários critérios para esse diagnóstico, mas ainda são grandes os debates entre os especialistas quanto à sua validade e ao seu uso prático. Nos últimos anos, a retirada para transplantes de órgãos de pacientes recém-declarados mortos acirrou ainda mais a polêmica em torno do tema.[5]

Cerca de 10 mil brasileiros jovens sofrem, todos os anos, traumatismo craniano grave, que evolui para a chamada morte cerebral. Esses jovens compõem a quase totalidade dos doadores de órgãos no país, e a maioria, ao tempo do acidente, está na fase mais produtiva de sua vida, após ter investido por longo período em educação e formação profissional. Sua morte súbita e prematura semeia dor, desolação e muitas vezes desamparo entre seus familiares, com conseqüências sociais irreparáveis ao longo de décadas. No entanto, grande parte dessas perdas poderia ser evitada. Um tratamento relativamente simples e não-invasivo, a hipotermia (resfriamento do corpo de 37°C para 33°C por apenas 12 a 24 horas), pode recuperar até 70% dos pacientes nessa situação, a ponto de retomarem a vida normal. O uso da hipotermia também evitaria um dos testes empregados hoje no diagnóstico de morte cerebral (ou morte encefálica): o chamado ‚teste da apnéia, ou seja, o desligamento do respirador mecânico por até 10 minutos.[6]

O pior é que, nesses pacientes recuperáveis, a aplicação do teste da apnéia pode reduzir drasticamente a circulação sangüínea cerebral, tornando a lesão só então irreversível. Não é exagero dizer que o teste da apnéia induz a morte (que deveria apenas diagnosticar) nessa parcela de pacientes em coma e com reflexos cefálicos ausentes, tornando inúteis os exames confirmatórios feitos em seguida.[7]

As primeiras tentativas de transplantes de órgãos foram feitas na década de 1950. Na época, os órgãos eram removidos depois que o coração do doador tinha parado de bater, mas a maior parte dos transplantes não tinha êxito. Em entrevista ao periódico HLI Reports, o Dr. Paul Byrne disse:

Hoje os órgãos são tirados enquanto o coração está batendo e enquanto a circulação e a pressão do sangue estão normais. O doador não está morto antes da retirada do coração batendo ou do fígado. Há uma ficção legalizada para se determinar a morte: “morte cerebral”.[8]

Embora muitos cristãos sintam que o transplante do coração e do fígado não seja algo eticamente certo, devido ao fato de que esses órgãos só podem ser transplantados quando são removidos de pessoas vivas, o Dr. Byrne diz que há órgãos que podemos doar com segurança:

Só os tecidos (tais como as córneas, as válvulas do coração, os ossos e a pele) são úteis para transplante depois da morte. Num gesto de solidariedade, uma pessoa pode dar um órgão quando há um par (por exemplo, doar um dos dois rins para alguém que está em necessidade desesperadora). A retirada do órgão não deve causar morte ou mutilação que debilite o doador.[9]

Uma pergunta que precisamos fazer como cristãos é: Será que a alma não está mais presente num corpo considerado “morto” pelo atual critério médico de morte cerebral, mas cujo coração ainda bate?

Essa é uma questão importante porque o sistema de valores atual não reconhece que a dignidade do ser humano vem do fato de que ele foi criado conforme a imagem de Deus. Um exemplo é a lei de “doação” compulsória de órgãos no Brasil, que durou até o ano 2000. Essa lei tornava obrigatoriamente todo brasileiro “doador” involuntário, a menos que o cidadão pudesse registrar em cartório sua vontade de proteger seu corpo contra esse tipo de ataque à sua integridade física.

Quando era diretor executivo da Associação Evangélica Brasileira, o Pr. Luciano Vergara disse que essa lei era “uma invasão da individualidade pelo Estado, em nome do altruísmo”.[10] Havendo “morte cerebral”, o governo não se preocuparia com o valor da alma eterna, mas permitiria, conforme diz o Prof. Michel Schooyans, a “canibalização dos corpos para selvagemente remover e transplantar órgãos sem o consentimento das vítimas”.[11] A maioria absoluta dos cidadãos brasileiros optou por não aceitar tal intromissão em suas vidas. Embora o governo esteja agora tentando usar estratégias menos autoritárias para obter fontes de órgãos, não é possível ter muita esperança nessa área, pois até em países muito mais avançados do que o Brasil a doação de órgãos se transformou em comércio lucrativo. Vejamos o caso dos EUA:

MORTOS SÃO USADOS PARA PRODUTOS

Famílias são informadas que doar os órgãos de um amado é um presente de vida, mas o jornal Orange County Register descobriu que o material retirado dos mortos está sendo processado e transformado em produtos médicos que geram centenas de milhões de dólares para as companhias americanas, apesar da existência de leis que impedem a obtenção de lucro com partes de corpo”. A Lei de Transplante Nacional de Órgãos de 1984 proibiu lucros com a venda de tecidos, mas as companhias e os bancos de tecidos sem fins lucrativos têm permissão de cobrar taxas razoáveis para manipular e processar os órgãos. A lei não define o que é uma cobrança razoável. “A lei nunca foi testada em tribunal. Ninguém nunca decidiu o que está sendo vendido e o que não está”, disse Jeanne Mowe, diretora executiva do Associação Americana de Bancos de Tecidos. Os bancos de tecidos sem fins lucrativos podem, de um único cadáver, obter órgãos úteis para até 100 pacientes. Os órgãos são então vendidos para companhias que fazem produtos usados por médicos e dentistas, e os bancos e negócios têm parte nos rendimentos.

As famílias do morto, que são incentivadas a fazer a doação, geralmente são informadas sobre os órgãos vitais, tais como corações ou rins, mas a maior parte dos produtos derivados do morto não tem nada a ver com o propósito de salvar vidas: A pele do cadáver pode ser usada para cirurgias cosméticas, tais como ampliação dos lábios e alisamento de rugas. Um só corpo pode dar material no valor de mais de 34.000 dólares para os bancos de tecidos sem fins lucrativos, incluindo pele, tendões, válvulas do coração, veias e córneas que então são fornecidas para médicos e hospitais por mais de 110.000 dólares. Quando os ossos são removidos do mesmo corpo, um cadáver pode valer 220.000 dólares.

Embora se possa argumentar que pessoas estejam ganhando aumento de vida com as doações, o dinheiro obviamente é uma parte grande do negócio: As duas maiores companhias de tecido comerciais tiveram um lucro de 142.3 milhões em vendas no ano passado e cada uma paga a seu diretor um salário anual de mais de 460.000 dólares, conforme mostra o relatório. Os outros quatro maiores bancos de tecidos sem fins lucrativos vão ter um lucro de 261 milhões em vendas este ano.

[17 de abril de 2000 — Associated Press][12]

VÍTIMAS DE QUEIMADURAS NA FILA À ESPERA DE DOADORES

Vítimas de queimadura que estão esperando doações de pele que potencialmente podem salvar suas vidas freqüentemente se acham na fila atrás de pessoas que estão aguardando cirurgias cosméticas. As leis federais asseguram que rins, corações e outros órgãos internos vão para pacientes em necessidade maior, mas as leis não abrangem a pele. A maior parte da pele doada é usada para procedimentos que podem esperar, tais como apagar os vincos de riso no rosto, aumentar os órgãos sexuais ou sustentar bexigas, o Orange County Register informou num exame dos lucros feitos de órgãos doados.

Dos 139 centros de queimadura nos EUA, 11 têm seus próprios bancos de pele. Outros centros de queimadura são obrigados a pagar qualquer preço que os bancos estejam cobrando. A companhia LifeCell Corp., de New Jersey, tem 20 bancos de tecidos que regularmente fornecem pele, que a companhia usa para produzir AlloDerm, um produto originalmente desenvolvido para ajudar a reconstruir a pele das vítimas de queimadura.

LifeCell agora calcula que os rendimentos anuais potenciais com o AlloDerm em cirurgias reconstrutivas e cosméticas cheguem a 200 milhões, 10 vezes mais do que a companhia poderia ganhar ajudando vítimas de queimadura. Enquanto isso, os hospitais que estão tentando localizar peles para salvar a vida de uma vítima de queimadura estão tendo dificuldades cada vez maiores em achar tecidos de pele para seus pacientes, pois mais e mais bancos de tecidos estão usando os tecidos para propósitos mais lucrativos.

[18 de abril de 2000 — Associated Press][13]

Série de reportagens investigativas: O jornal Orange County Register publicou um exame minucioso do negócio de doação de órgãos. Os repórteres notam: “O que descobrimos pode surpreender ou perturbar você. Descobrimos partes de corpos doados indo parar em linhas de montagem onde os tecidos humanos sãos transformados em produtos lucrativos. Em outros casos, corpos são enviados para laboratórios e testados de maneiras que você nunca poderia imaginar. Em tudo isso há um tema comum: bancos de tecidos sem fins lucrativos e instituições de pesquisa não explicam para as famílias como os corpos vão ser usados”.[14]

Escândalo de comércio de órgãos em vários países

Vejamos agora o caso da Inglaterra, que é outro país avançado:

HOSPITAL BRITÂNICO CONFESSA A RETIRADA DE MAIS ÓRGÃOS

Um hospital que retirou órgãos de corpos de crianças sem consentimento confessou que não disse a história toda aos pais logo que o escândalo se tornou conhecido. Pais de crianças que morreram no Hospital de Crianças Alder Hey em Liverpool foram informados no outono passado que órgãos, incluindo corações e cérebros, haviam sido removidos para pesquisa. Mas agora eles foram informados que vários outros órgãos e tecidos foram removidos, sem seu consentimento, e o Hospital pediu desculpas pela angústia adicional causada.

Uma investigação foi iniciada pelo Dr. Liam Donaldson, para apurar o que foi que aconteceu no Alder Hey, onde estão armazenados os corações de 2.000 crianças.

Michael, o filho de quatro meses de Jan Robinson, morreu no Hospital Alder Hey há 10 anos de doença congênita do coração. Ela foi informada em outubro passado que o coração, o cérebro, o fígado, os pulmões, o rim, o baço e o intestino de seu filho tinham sido removidos.

Mas funcionários do hospital agora disseram a ela que a traquéia, o esôfago, o diafragma, o estômago, a bexiga e a parte de conexão, inclusive músculo e osso, também foram removidos.

Outro pai foi informado que a língua e os testículos de seu filho foram removidos. A diretora do Hospital Alder Hey, Judith Greensmith, disse que o problema todo não foi revelado no começo a fim de proteger os pais de mais angústias. Mas ela confessou que essa política de procedimento tinha sido um erro e pediu desculpas aos pais. “Mas agora decidimos que os pais devem saber a verdade”.[15]

Notícia divulgada no Canadá:

PESQUISADORES QUEREM EXPERIMENTOS EM SERES HUMANOS COM MORTE CEREBRAL

GLASGOW, Escócia, 27 de julho de 2000 (LSN.ca) — O diretor da empresa escocesa que clonou a ovelha Dolly quer experiências genéticas em pacientes com morte cerebral. O jornal Daily Record da Escócia informou ontem que o Dr. Ron James, para conferir se são seguros, gostaria de ver órgãos de porco geneticamente modificados transplantados em pacientes. Sua empresa, a PPL Therapeutics, já clonou porquinhos e acredita que órgãos de porcos poderiam ser transplantados para humanos dentro de quatro anos. O Dr. James reconheceu que haveria oposição do público geral a tal idéia…

Essa proposta com certeza intensificará a controvérsia em torno da questão da morte cerebral. Como o Parlamento Canadense buscou maneiras de aumentar a doação de órgãos no Canadá, uma comissão parlamentar foi informada de que os doadores de transplante de coração devem estar vivos. A Dra. Ruth Oliver, uma psiquiatra de Vancouver que foi declarada clinicalmente morta em 1977 no Hospital Geral Kingston depois de sofrer hemorragia interna no cérebro, disse à comissão que ela é “um testemunho vivo de que as pessoas sobrevivem”. O Dr. John Yun, um oncologista de Richmond, B.C., testificou para a comissão que a coleta de órgãos é o ímpeto atrás da teoria de morte cerebral aceita pela classe médica desde 1968. Dez anos atrás o Dr. Yun trabalhou numa unidade de UTI mantendo pacientes cerebralmente mortos em sistemas de suporte de vida para transplantar os órgãos deles. O Dr. Yun agora acredita que essa atividade era errada. “Não devemos pular para a conclusão de que uma definição duvidosa de morte — a hipótese médica de morte cerebral — é realmente morte”, disse ele.[16]

Notícia da República Tcheca:

Uma invetigação no maior centro de transplantes em atividade no mundo, localizado na República Tcheca, revelou que pelo menos 49 pacientes foram declarados mortos prematuramente, a fim de que seus órgãos pudessem ser removidos. Num dos casos, relata o jornal London Telegraph, uma vítima de 18 anos de acidente de carro foi declarada “cerebralmente morta” e “foi levada para a sala de operações, onde ele começou a respirar e tossir antes que os cirurgiões começassem a remover os órgãos dele. As provas indicam que o mercado de órgãos humanos está prosperando.[17]

Questões importantes sobre a doação de órgãos

Acerca da questão da doação de órgãos, a Dr.ª Karen Poehailos, médica americana, comenta:

Com relação à doação de órgãos vitais que existe hoje, órgãos como o coração, os pulmões, o fígado e o pâncreas devem ser retirados de um doador com um coração batendo. Após a cessação da circulação, esses órgãos perdem rapidamente sua viabilidade para transplante, e não é possível retirá-los com rapidez suficiente do doador para que sejam úteis. Será que podemos chamar de morta uma pessoa que está com o coração batendo? Isso traz a questão da “morte cerebral” — que é definida como o estado em que o cérebro perdeu irreversivelmente todas as suas funções. A determinação de morte cerebral é o meio estabelecido por lei para permitir que o médico torne uma pessoa candidata a uma doação de órgão. Infelizmente, isso não é tão simples como parece.

Primeiro, a classe médica não chegou a um acordo com relação ao critério exato que se deve usar para definir “morte cerebral”. Os testes para determinar a morte cerebral avaliam certas funções das diferentes partes do cérebro (os reflexos, a capacidade de respirar espontaneamente, etc.). Os médicos podem também incluir um eletroencefalograma (EEG) — um teste para avaliar a atividade elétrica no cérebro. Algumas instituições médicas exigem um EEG para determinar uma morte cerebral, outras não. Algumas exigem um teste de fluxo de sangue para o cérebro, outras não. Além disso, não é necessário que o cérebro inteiro esteja morto para que o médico declare cerebralmente morto um paciente que tem reflexos autônomos que controlam a temperatura e a taxa de batimento cardíaco. Portanto, se algumas partes do cérebro ainda estão funcionando, duvido que a morte cerebral, conforme a definição que agora há, realmente exista.

Conheço o caso de um menino que sofreu um grave acidente. No exame inicial, que incluiu um EEG, os médicos determinaram que o cérebro dele estava morto. No exame seguinte, que foi realizado seis a oito horas depois, seu exame ainda estava coerente com esse diagnóstico, mas agora seu EEG mostra alguma atividade. Ele acabou sobrevivendo, embora gravemente ferido. Se ele estivesse num hospital que não exigisse um EEG, baseados nos exames clínicos os médicos teriam removido os órgãos dele. É trágico que ele esteja vivo hoje em péssimas condições físicas e não pôde ter uma recuperação mais plena, mas quem somos nós para dizer que a vida dele não tem valor?[18]

Uma holandesa, que recebeu um transplante de coração, expressou muito sentimento de culpa com a morte da outra pessoa. O coração de um homem deu-lhe condições de permanecer viva. “Mas e se o homem ainda estava vivo quando lhe removeram os órgãos?”[19] É uma pergunta difícil de responder.

Mas mesmo excluindo a possibilidade de que o doador realmente estava vivo, é preciso saber que um transplante não é uma solução perfeita. Helen van Tilburg, da cidade de Utrecht, na Holanda, recebeu um novo rim de transplante. Mas ela terá de fazer outro transplante porque seu corpo rejeitou o novo órgão. Ela comenta: “O período após o transplante não é um paraíso. Depois da operação, a gente tem de tomar comprimidos constantemente para impedir o corpo de repelir o novo órgão. Aliás, a gente suprime o sistema de defesa do próprio corpo. Isso não é bom. Além disso, os medicamentos causam ainda outros efeitos colaterais indesejáveis”.[20]

“Um ser humano é mais do que seu corpo”, diz o cardiologista van Lommel. Ele indica as experiências do psicólogo Bosnak, que em seu trabalho trata pessoas que adquirem uma estrutura de caráter totalmente diferente, depois de receberem o coração ou outros órgãos vitais de alguém. Um exemplo semelhante encontra-se no livro Heart and Soul — The Prodigious Consequences of a Heart Transplant (Coração e Alma — As Conseqüências Assombrosas de um Transplante de Coração) escrito por Claire Sylvia. Ela recebeu um novo coração quando tinha 48 anos. Depois da operação, coisas estranhas começaram a acontecer. Em seus sonhos ela via um jovem. Ela tem uma forte sensação de que o órgão veio dele. De repente ela passou a ter desejo de frango e cerveja, que ela nunca antes apreciava. O livro provoca questões sobre a relação entre espírito, alma e corpo. Sylvia está convencida de que quando os órgãos vitais de um corpo são transplantados para outro corpo, tais coisas como desejos, sentimentos e talvez até memórias e sonhos também sejam transplantados.

É interessante notar que a Bíblia diz que do coração procedem as saídas da vida (cf. Provérbios 4:23). É, porém, a questão da morte cerebral que mais causa confusão. Van Lommel diz: “O que realmente é a morte? Ainda que um médico declare alguém morto, os cabelos e unhas dessa pessoa continuam crescendo¼ O que os outros chamam de morte cerebral, eu chamo de começo do processo da morte. Será que deveríamos interromper esse processo?”[21]

É um fato impressionante que a grande maioria das enfermeiras holandeses que têm um trabalho muito envolvido com as operações de doações de órgãos evite assinar documentos doando seus próprios órgãos.[22] Durante as incisões que os médicos fazem nos pacientes cerebralmente mortos durante a remoção dos órgãos, as enfermeiras não se sentem bem com algumas reações físicas dos pacientes. De acordo com dois médicos britânicos, doadores de órgãos considerados cerebralmente mortos podem sentir dor enquanto os órgãos estão sendo removidos.[23]

As palavras “vida” e “morte” não têm mais sentido sólido. O termo “morte”, pela tradição e pela lógica, significava a total e irreversível cessação da respiração e circulação. Mas alguns grupos médicos criaram uma nova definição de morte com o puro propósito de atender suas próprias conveniências. Eles querem que seres humanos que estão respirando e que têm batidas cardíacas possam ser mantidos vivos com o único objetivo de lhes saquear órgãos.

A nova definição, geralmente chamada “morte cerebral”, é a irreversível cessação de todas as funções do cérebro inteiro. Alguns médicos raciocinam da seguinte maneira: “Bebês que nascem sem cérebro são considerados mortos. Portanto, não há motivo algum para considerar os pacientes em coma como melhores do que esses bebês anencefálicos”.

De acordo com o Dr. Brian Clowes, há propostas de trabalhar mais a questão da morte cerebral, pois um corpo sustentado por sistemas artificiais de suporte de vida poderia ser usado para pesquisas com drogas, desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas, treinamento para cirurgiões iniciantes e como depósitos de sangue e órgãos. Tais experiências não seriam difíceis de ocorrer, já que muitos bebês que nascem vivos dos abortos legais nos EUA são usados em laboratórios em experimentos de diversos tipos.[24] Kathleen Stein escreveu na revista Omni: “Com os grandes avanços na tecnologia de suporte de vida e transplante de órgãos, os mortos hoje têm realmente muita ‘proteína’ para nos oferecer — na forma de órgãos e partes do corpo. Somos os canibais modernos”.[25]

É por esse e outros motivos que médicos e cientistas de diversos países assinaram recentemente um documento que alerta quanto aos perigos do moderno conceito de morte cerebral:

MOVIMENTO CONTESTA USO DO CRITÉRIO DA MORTE CEREBRAL

Condenação de procedimento usado em transplantes tem apoio de 19 países

José Mitchell — Jornal do Brasil — 12/12/2000

PORTO ALEGRE — Uma declaração internacional contra a adoção da morte cerebral como justificativa para retirada de órgãos vitais destinados a transplante, assinada por 117 cientistas, médicos, psiquiatras e advogados de 19 países, começou a ser divulgada ontem pela internet, denunciando que “pessoas condenadas à morte pela chamada morte encefálica não estão certamente mortas, mas ao contrário, estão certamente vivas”.

O documento, que será divulgado esta semana pelos órgãos de imprensa, deverá ter fortes reflexos inclusive no Brasil, um dos países que mais realizam transplantes no mundo, e reaviva a polêmica sobre a morte cerebral. Segundo um dos signatários da declaração, o neurologista Cícero Galli Coimbra, da Escola Paulista de Medicina, os critérios adotados para determinar se há morte cerebral não têm base científica.

Coimbra considera “homicida” o teste da apnéia, que consiste na retirada dos aparelhos em pacientes mantidos vivos por meio de respiração artificial. Esse é um dos meios utilizados no Brasil para determinar se ocorreu ou não morte cerebral¼

Mandamento — Segundo cientistas, entretanto, a morte cerebral detectada pelos atuais critérios não é garantia de que isso efetivamente ocorra. O documento, assinado entre outros pelo presidente da Federação Mundial dos Médicos que Respeitam a Vida, o holandês Karel Gunning, e especialistas como os médicos ingleses David Evans e David Hill e o médico japonês Yoshio Watanabe, afirma que a adesão¼ à proibição imposta por Deus na lei natural moral “impedem os transplantes de órgãos vitais únicos como ato que causa a morte do doador e viola o quinto mandamento: não matarás”.

Médicos como¼ Paul Byrne, dizem que os parâmetros para a constatação da morte cerebral “não são consenso” na comunidade científica. Eles ressaltam que já surgiram mais de 30 protocolos sobre a definição e testes relativos à morte cerebral, só na primeira década após o primeiro transplante, em 1968, acrescentando que, desde então, os transplantes cresceram “de forma permissiva”.

O documento¼ acrescenta ainda que nem as exigências científicas têm sido rigorosamente aplicadas para comprovação da morte cerebral, enquanto cresce o número de cientistas que questionam o uso desse critério como comprovação do fim da vida.

Uma alma eterna

As pessoas no mundo ao nosso redor vivem de acordo com o seguinte ditado: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”. (2 Coríntios 15.32 BLH) Assim, se alguém não mais consegue aproveitar os prazeres da vida terrena, a sociedade acha que não há motivo para continuar vivendo. Aliás, a sociedade realmente acha que esse tipo de existência é morte. Mas o que é a morte, afinal?

A Bíblia diz que “o corpo sem o espírito está morto”.[26] Outra versão bíblica moderna diz: “Um corpo que não respira está morto”.[27] A Palavra de Deus diz que enquanto o ser humano respira, com a ajuda de meios artificiais ou não, há um espírito presente que pode, mesmo no último instante, ser alcançado por Deus.

Milhares de pessoas morrem diariamente sem conhecer Jesus como Salvador. Os últimos momentos de uma alma perdida podem ser uma experiência mais dolorosa do que qualquer sofrimento físico. Um rapaz, no leito de morte, agonizou espiritualmente durante dias antes de morrer. Horrorizado, ele dizia que se sentia escorregando e caindo numa escuridão sem fim. Ele pedia socorro e sua mãe católica me contou chorando que ela não sabia o que fazer para atender as súplicas do filho.

Se esse rapaz já não estivesse morto, eu ou algum outro cristão poderia visitá-lo e orar com fé, de modo que o Espírito Santo tivesse a oportunidade de tocá-lo de alguma maneira. Mesmo nas situações mais difíceis, onde o doente não fala, não ouve e não reage aos estímulos externos, o Espírito Santo tem o poder de mostrar a glória de Deus a ele, contanto que haja um cristão intercessor orando com fé (cf. Marcos 9.23 e Tiago 5.16).

Podemos dizer que enquanto há vida, há sempre a esperança de recorrer a Deus e ser tocado por ele. Ele pode intervir, até mesmo quando o coração pára de bater. Mas ele sempre pode se manifestar mais intensamente nas outras situações.

De acordo com a Bíblia, morrer é partir para a eternidade. A morte ocorre quando o espírito da pessoa deixa o corpo e parte para o Céu ou para o inferno. Esse é um aspecto da questão em que nenhum especialista tem a palavra final. A decisão final por direito deve ser deixada com Deus.

Nos casos envolvendo “morte cerebral” ou coma, tudo indica que o espírito continua presente, embora a maioria das autoridades médicas não reconheça a autoridade da Bíblia nessa questão. Mas mesmo desconsiderando a ignorância bíblica dos médicos, eles realmente não entendem plenamente o que é a morte. O Dr. C. Everett Koop observou: “…em termos médicos, deve-se declarar que embora a morte pareça iminente para um médico e ele saiba que é impossível evitá-la com todos os recursos da medicina que estão à sua disposição, não dá para predizer com exatidão o tempo da morte. Quanto mais cedo um médico tenta predizer uma morte, menos precisas são suas predições”.[28]

A verdade é que a ciência médica, sendo finita em sua sabedoria, muitas vezes calcula mal. O jornal Daily Mail de 18 de julho de 2000, da Inglaterra, relata: “Quase metade dos pacientes considerados em ‘estado vegetativo’ em conseqüência de danos cerebrais foram diagnosticados de maneira errada, de acordo com um alarmante estudo científico. As descobertas… indicam que muitos pacientes que são diagnosticados como em persistente estado vegetativo podem na realidade estar conscientes do que ocorre ao seu redor…” Assim é fácil perceber que mesmo com toda a tecnologia moderna ainda não é possível entender tudo sobre uma pessoa logo antes da morte ou se ela está mesmo morrendo. Há alguns anos, uma propaganda pró-eutanásia mencionava um homem que, de acordo com os médicos, só tinha duas semanas de vida. Depois de quatro anos, o homem ainda estava vivo.[29] E há também outros casos interessantes:

Pesquisadores médicos têm realizado muitos estudos abrangentes para apurar quantas pessoas no chamado “coma irreversível” realmente saíram do coma.

Um estudo envolvendo 84 pessoas, consideradas em “persistente estado vegetativo” pelos médicos, mostrou que 41% delas recobraram a consciência dentro de seis meses e 58% recobraram a consciência dentro de três anos. Um segundo estudo, envolvendo 26 crianças que ficaram em coma por mais de três meses, constatou que 20 delas acabaram recobrando a consciência…

Num caso dramático, os médicos atestaram não só o coma, mas também a “morte cerebral” de Harold Cybulski, um avô de 79 anos que vive em Barry’s Bay, Canadá. O hospital só estava aguardando a família dar o último “adeus” para desligar os aparelhos que o mantinham vivo. Mas quando seu neto de dois anos de idade correu para dentro do quarto e gritou “Vovô”, o Sr. Cybulski acordou, sentou-se e pegou o netinho no colo!

Seis meses depois, ele estava levando uma vida completamente normal, inclusive dirigindo o novo carro que ele vinha querendo comprar antes de entrar em coma.

Os médicos de Cybulski não conseguiram dar “nenhuma explicação” pela sua recuperação instantânea.[30]

O testemunho do Sr. Cybulski apareceu originalmente numa publicação presbiteriana americana. Provavelmente, alguém estava orando por ele ou ele mesmo era um homem de muita oração. Os milagres de Deus jamais acontecem por acaso. Em outro caso fora do comum, a CNN noticiou em 21 de dezembro de 2000:

MULHER QUE ACORDOU DE UM COMA DE 16 ANOS AINDA SE RECUPERA LENTAMENTE

COCHITI PUEBLO, Novo México (EUA) — Há um ano, exatamente em 21 de dezembro de 1999, Patrícia White Bull acordava, após passar 16 anos em coma profundo, sentando na cama pedindo que a enfermeira parasse de arrumar os lençóis. Desde então, Patricia vem se recuperando¼

Esposa de pastor sai do coma

Os médicos nem sempre conseguem predizer com precisão qual será o resultado final de uma doença. Em 29 de março de 1986, Jacqueline Cole, uma mulher de meia idade esposa de um pastor presbiteriano, sofreu um forte derrame. A filha dela, que estava com ela quando tudo aconteceu, recorda: “Ela levantou o braço num momento e disse: ‘Christina, estou tendo um derrame. Consigo usar o braço, mas não consigo senti-lo.’ Então ela disse: ‘Não quero viver como alguém diferente do que eu era.’” Depois disso ela desmaiou, entrou em coma e passou a viver com um aparelho de respirar e uma sonda de alimentação.

Quarenta e dois dias depois, o marido de Jaqueline pediu ao juiz John C. Byrnes autorização para desligar o aparelho de respirar. “Tem de ser feito”, ele testificou, “pois creio que ela não desejaria continuar a existir neste estado atual. Mesmo que tivesse uma mínima chance de recuperação, creio que ela não desejaria viver uma existência que não fosse a vida de qualidade, plena e rica que ela sempre teve.” O médico então descreveu a condição de Jaqueline como “virtualmente sem esperança, e que as chances de ela ter uma recuperação neurológica razoavelmente satisfatória eram provavelmente uma em 1 milhão”. Mesmo que tal recuperação ocorresse, acrescentou o médico, “eu suspeitaria fortemente que ela ficaria com os dois lados paralizados, que ela teria dificuldades de movimentar ambos os braços ou pernas e que ela continuaria a precisar de assistência total”.

No entanto, depois de ouvir esses argumentos, o Juiz Byrnes hesitou. O juiz indicou que havia a necessidade de mais testemunhos de médicos com relação ao estado de saúde de Jaqueline… O marido dela foi orientado a voltar mais tarde, com melhores argumentos. Mas ele jamais retornou.

Seis dias depois, o marido dela recordou num programa de TV: “Eu estava no quarto com um amigo nosso, que veio principalmente para ver a Jaqueline pela última vez… Ele a chamou pelo nome, e ela abriu os olhos”. Ela havia saído do coma. Em seis meses, ela se recuperou quase completamente, com a exceção do uso das pernas e alguma perda de memória de curto período. Ela até se lembrou de momentos durante o seu estado de coma. “Era como nadar numa superfície e eu podia ouvir parcialmente o que falavam. Lembro-me principalmente do meu marido. Ele aparecia e depois ia afundando. Isso é tudo o que lembro”. Graças à hesitação do Juiz Byrnes, ela teve chance de viver novamente.[31]

Outros casos surpreendentes

Teisa Franklin, uma menininha de quase dois anos de idade, engoliu uma quantidade imensa de drogas antidepressivas em 4 de fevereiro de 1988 e entrou em coma profundo. Depois de um exame, os médicdos no Hospital Mercy declararam o cérebro dela clinicamente morto e afirmaram que ela seria uma boa candidata para a doação de órgãos. No entanto, só 18 horas depois de entrar em coma, ela começou a se recuperar e, em 11 de fevereiro, só uma semana após o incidente quase fatal, ela foi liberada do hospital.[32]

Os bebês gemeos Scott e Jeff Mueller nasceram em 1981 tendo uma mesma perna e intestino grosso. Eles estavam completamente desenvolvidos da cintura para cima. A médica de serviço, Petra Warren, decidiu que eles não eram dignos de viver e colocou o seguinte aviso no berço: Não os alimente. Várias enfermeiras desobedeceram a essa ordem e alimentaram os gemeos dando-lhes água com açucar. Isso salvou a vida deles. Uma operação cirúrgica, relizada no Hopital Memorial Infantil de Chicago, conseguiu com sucesso separá-los no ano seguinte. Scott morreu de problemas cardiacos em 1984, mas Jeff está indo bem e vive uma vida normal.[33]

Carrie Coons, de 86 anos, do Estado de Nova Iorque, foi declarada em “estado vegetativo absolutamente irreversível” pelos médicos depois de sofrer derrame e hemorragia cerebral em novembro de 1988. Por quase cinco meses, ela não falou nem mostrou sinal algum de atenção. A irmã dela de 88 anos e vários médicos e advogados pediram que os juizes permitissem a remoção da sonda de alimentação dela. O médico dela, o Dr. Michael Wolff, especialista na medicina geriátrica de fama nacional nos EUA, declarou que não havia nenhuma esperança para a situação dela e que não havia nenhuma chance de recuperação. Os juizes deram permissão para deixar de alimentá-la, para que ela pudesse morrer. Contudo, dois dias depois da permissão concedida, ela despertou e começou a comer e a falar. O neurologista Ronald Cranford, conselheiro da Casa Branca em questões de eutanásia, declarou: “É um caso dramático. Mostra que nessa questão nós basicamente jamais estamos lidando com certezas”.[34]

Em seu livro Biblical/Medical Ethics, o Dr. Franklin E. Payne Jr. conta um caso:

Em dezembro de 1979, “Mack”, um policial em serviço, levou três tiros. As complicações desses ferimentos incluíam aspiração (seus pulmões inalaram o conteúdo de seu estômago) e parada cardíaca. Esses eventos causaram graves danos cerebrais e durante sete meses, Mack não reagiu a estímulos. Os médicos não deram nenhuma esperança para a recuperação da consciência dele. Na época, com o consentimento dos médicos e da família, o aparelho de respiração foi desligado, e pararam de lhe dar medicamentos anticonvulsão e antibióticos. A surpresa foi que Mack conseguiu respirar sem a ajuda de equipamentos. Em outubro de 1981, um médico… rotineiramente disse: “Respire fundo”. Para o espanto do médico, Mack fez isso! Ele pôde também abrir e fechar os olhos. Então ele passou a receber reabilitação mais intensiva. Hoje, ele tem 95% de sua capacidade intelectual que tinha antes da tragédia, embora não possa usar os braços e as pernas. O médico de Mack concluiu que a recuperação dele foi “a maior surpresa que já tive como um neurologista… virtualmente tudo na literatura médica indica que pacientes em estado vegetativo entre três e seis meses depois de danos isquêmicos (sem oxigênio) no cerébro têm um prognóstico essencialmente sem esperança.[35]

Há cinco anos, John Kerkhoffs, de Limburg, Holanda, entrou em coma depois de uma operação. “O cerébro do seu marido está morto”, disse o neurocirurgião à esposa Marga Kerkhoffs. O médico tentou ajudá-la a entender que mesmo que John se recuperasse do coma — que era uma chance bem remota — ele levaria uma vida vegetativa. Em resumo, na opinião do médico, já era praticamente o fim da vida de John. Os médicos procuraram convencer Marga e seus dois filhos a doar os órgãos saudáveis de John. A família estava sofrendo muita pressão e confusão num momento emocionalmente difícil. O pai ainda parecia muito vivo. Nenhum parente de John sentia que ele estava morrendo. Eles sabiam que a situação era séria. Mas morto? A esposa Marga não aceitou a pressão para a doação de órgãos. Ela disse: “Se John morrer, vamos deixá-lo morrer em seu próprio tempo”. Ele passou uma semana de coma e experimentou dias medonhos, mas sobreviveu. Quando saiu do coma, John Kerkhoffs contou: “Acho que sonhei que eu havia sido raptado. De certo modo, lutei para salvar minha vida. Era como se eu sentisse uma ameaça enorme contra a minha vida. Mas eu não podia fazer nada. Em certo momento, [acordei e] vi-me deitado, conectado a todos os tipos de equipamentos médicos”.[36]

Em cada um dos casos citados e em dezenas de outros que não são publicados anualmente, médicos condenam a uma morte dolorosa pessoas que eles têm certeza de que não se recuperarão. O fato é que, em pelo menos 50 por cento desses casos, os pacientes se recuperaram, parcial ou completamente. É óbvio, então, que ao lidar com pacientes considerados em “estado vegetativo”, não há certezas médicas.

É evidente que a principal motivação dos hospitais e médicos é economizar os recursos financeiros e controlar os gastos, não cuidar o melhor possível de uma vida humana. É realmente irônico ou trágico que as sociedades consideradas desenvolvidas gastarão literalmente milhões em campanhas para defender animais em extinção ou investirão em campanhas contra a execução legal de perigosos criminosos, mas não mostrarão a mesma preocupação na defesa de pacientes cujo único crime é serem considerados como indivíduos com uma vida indigna de viver.

Enquanto médicos que não temem a Deus consideram apenas o lado físico do ser humano, o médico cristão sabe que, na perspectiva de Deus, o espírito é o mais importante. Jesus disse: “A vida é espiritual¼” (João 6:63a)[37] Quem não entende que nossa vida é fundamentalmente espiritual, com um destino eterno para o Céu ou para o inferno, realmente não conseguirá entender as questões mais importantes sobre a morte e a vida.

Vida após a morte

A Palavra de Deus diz que há uma eternidade depois da morte, e há até experiências humanas que comprovam tal realidade. Anos atrás tive contato com Gerald Laney. Ele fazia parte da gangue de motoqueiros Ghost Riders (Motoqueiros Fantasmas) nos EUA e sua tarefa era fazer cobranças. Na noite de 11 de outubro de 1980, ele recebeu ordens de dar um susto num homem de negócios da cidade de Kingsport, no Tennessee, e cobrar a dívida de drogas que ele estava devendo para a gangue. Gerald ficou escondido atrás de algumas plantas no jardim da casa do homem e quando ele saiu do carro, Gerald se mostrou a ele. O homem abriu fogo e acertou quatro tiros. Gerald também abriu fogo e matou o homem na hora.

Ao ser levado gravemente ferido para o hospital, Gerald foi declarado morto pelos médicos. Enquanto seu corpo estava morto, Gerald conta a estranha experiência que ele teve:

Lembro-me de começar a flutuar logo que saí do meu corpo, que estava deitado na cama do hospital. Flutuei para cima, atravessei o teto do hospital e fui em direção ao espaço. Passei por milhões de estrelas e perguntava para mim mesmo o que estava acontecendo. Depois disso fui parar num lugar tão escuro que eu não conseguia ver a própria mão diante do rosto. Então comecei a cair cada vez mais rápido, até ver o brilho de chamas. A medida que eu ia chegando perto, esse brilho ia ficando maior e mais quente, e estava soltando um cheiro horrível, como de carne queimando. Ouvi milhares de gritos e pessoas chorando de dor.

Então percebi que eu estava indo para o inferno. Costumava rir e dizer que o inferno não existia, embora meu pai me ensinasse que minha alma viveria para sempre com Deus no Céu ou com Satanás no inferno em tormento eterno.

Aí estava eu, um jovem de apenas 28 anos de vida, me aproximando das chamas do inferno. Sabia que se eu chegasse ali, não haveria mais volta. Implorei o perdão de Deus e pedi-lhe uma chance para falar para as outras pessoas o que vi e que Deus é real. Depois disso, acordei do coma e os médicos me disseram que eu tinha muita sorte de estar vivo.[38]

Por causa dos graves ferimentos a bala, Gerald estava aleijado e não conseguia andar. Ele se sentia um vegetal. Além de tudo, ele acabou sendo condenado por assassinato e enviado para o Corredor da Morte, onde presos perigosos aguardam a aplicação da pena de morte.

Sua perna, que fora ferida a bala, começou a doer e a apodrecer. Os médicos do hospital da prisão recomendaram amputação. Gerald começou a se sentir como uma carga para sua família e, vendo que a situação só ficaria pior, tomou a decisão de cometer suicídio. Ele tentou se enforcar e cortar as veias, mas se lembrou do que Deus havia lhe mostrado sobre o inferno.

Ele dobrou os joelhos e pediu que Deus lhe mostrasse seu amor e operasse um milagre em sua vida, dando-lhe saúde e força. Ele orou a noite inteira e a manhã seguinte. À tarde, ele começou a sentir de volta a perna. Dois dias depois, os ferimentos e problemas desapareceram completamente.

Hoje Gerald sabe que está vivo para dar testemunho do que Deus fez em sua vida. Ele sabe o que é realmente a morte e que devemos nos preparar antes de entrar na eternidade.

Decisões de vida ou morte diante da eternidade

Em sua existência natural, o homem acha a morte um mistério. Hoje, graças aos avanços da medicina, a experiência da morte pode ser manipulada conforme os desejos de cada pessoa. Vivemos num mundo que só valoriza os prazeres da vida e que nos ensina a nos libertar do sofrimento a todo custo. Embora seja considerado absurdo um jovem rico, bonito e saudável tirar a própria vida, porém parece ser mais fácil aceitar o fato de um deficiente cometer suicídio. Só porque o progresso da medicina nos permite hoje manipular a vida humana de todas as maneiras possíveis, as pessoas acham que o sofrimento e a privação de uma vida de prazeres lhes dá o direito de usar os recursos da medicina para escolher a morte.

Idealmente, os recursos da medicina deveriam ser usados para aliviar a dor do paciente que está morrendo sem privá-lo da consciência de si mesmo. Quando a morte se aproxima, as pessoas devem estar em condições de satisfazer suas obrigações morais e familiares e, principalmente, precisam da oportunidade de estar em plena consciência a fim de se prepararem para ter um encontro com o Salvador Jesus Cristo. Afinal, a entrada na eternidade é um assunto muito sério. Em outros casos, são os parentes e amigos que têm a responsabilidade de clamar a Deus em favor de alguém inconsciente que está morrendo.

A eutanásia torna-se mais grave quando médicos e legisladores usam sua autoridade para decidir quem deve viver e quem deve morrer, principalmente em casos envolvendo remoção de órgãos. O ser humano encontra-se assim não só na posição de conhecedor do bem e do mal, mas também na posição de poder fazer o bem ou o mal (cf. Gênesis 3.5).

Embora as pessoas possam decidir o que quiserem, com ou sem a ajuda da tecnologia, só Deus tem a autoridade para determinar o que deve ou não ser feito nas questões vitais. Não se colocar debaixo dessa autoridade, ou não reconhecê-la plenamente na Palavra de Deus, é se colocar no lugar do próprio Deus. Quando o ser humano pensa que também pode exercer tal autoridade, de acordo com sua maneira de pensar, ele acaba inevitavelmente usando-a para a morte. Só Deus tem plena autoridade sobre a vida e a morte, e ninguém pode usá-la sem sua direta permissão. “Saibam todos que eu, somente eu, sou Deus; não há outro deus além de mim. Eu mato e eu faço viver; eu firo e eu curo. Ninguém pode me impedir de fazer o que quero”. (Deuteronômio 32.39 BLH)

Talvez o mais importante é que em cada situação de vida ou morte Deus pode e quer intervir, desde que o nome de Jesus seja invocado em oração e sinceridade de espírito. A pessoa que, em nome da “compaixão”, intervém para ajudar alguém a morrer mais depressa a fim de livrá-lo do sofrimento está tirando de Deus a oportunidade de agir. Até mesmo no momento da morte, Jesus pode salvar (Lucas 23.42-43). Sem mencionar que para curar uma pessoa, Deus não precisa remover os órgãos de outro ser humano com o coração batendo. Deus não precisa matar para curar! E a cura de Jesus está sempre disponível para quem a busca.

© Copyright 2001 Julio Severo. Proibida a reprodução deste artigo sem a autorização expressa de seu autor. Julio Severo é autor do livro O Movimento Homossexual, publicado pela Editora Betânia. www.juliosevero.com

Notas:

[1] Veja o capítulo “Old Lies and New Labels: When Contraception Is Abortion” do livro Blessed Are the Barren, escritos por Robert Marshall e Charles Donovan (Ignatius Press: San Francisco-EUA, 1991).

[2] C. Everett Koop, The Right of Live, The Right of Die (Life Cycle Books: Ontário, Canadá, 1980), p. 128.

[3] Wesley Smith, em entrevista ao notícia eletrônico WorldNetDaily de 11 de fevereiro de 2001 (www.wnd.com)

[4] Cícero Galli Coimbra, Ciência Hoje, Vol. 27, Nº 161, p. 33.

[5] Cícero Galli Coimbra, Ciência Hoje, Vol. 27, Nº 161, p. 31.

[6] Cícero Galli Coimbra, Ciência Hoje, Vol. 27, Nº 161, p. 27.

[7] Cícero Galli Coimbra, Ciência Hoje, Vol. 27, Nº 161, p. 28.

[8] HLI Reports (HLI: Front Royal-EUA, 1998), p. 8.

[9] Idem.

[10] Luciano Vergara, Doação de órgãos: livre arbítrio em jogo, Revista VINDE de março de 1997, p. 44.

[11] Michel Schooyans, The Totalitarian Trend of Liberalism (Central Bureau: St. Louis-EUA, 1995), p. 18.

[12] LifeWire – 25 de abril, 2000. Boletim distribuído por Lutherans for Life.

[13] LifeWire – 25 de abril, 2000. Boletim distribuído por Lutherans for Life.

[14] “The Body Brokers”, Orange County Register, 16 a 20 de abril de 2000. Http://www. Ocregister.com/health/body/index.shtml)

[15] Fonte: Pro-Life E-News. Informação distribuída por Dave’s Digest de 15 de maio de 2000.

[16] LifeSite Daily News, Toronto, Canadá, 27 de julho de 2000. Notícia divulgada online.

[17] Pro-Life E-News, 7 de junho de 1999. Para ler o artigo completo: http://www.telegraph.co.uk/et?ac=000271261842766&rtmo=kJeN1Cop&atmo=99999999

[18] Revista Celebrate Life, edição de março-abril de 2000 (American Life League: Stafford-EUA), p. 13.

[19] Algemeen Dagblad, Aspects of Euthanasia, Suicide, Organ Donation, Gender Selection and Abortion, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).

[20] Algemeen Dagblad, Aspects of Euthanasia, Suicide, Organ Donation, Gender Selection and Abortion, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).

[21] Algemeen Dagblad, Aspects of Euthanasia, Suicide, Organ Donation, Gender Selection and Abortion, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).

[22] Algemeen Dagblad, Aspects of Euthanasia, Suicide, Organ Donation, Gender Selection and Abortion, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).

[23] Pro-Life E-News, 21 de agosto de 2000.

[24] Veja o capítulo 110 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International. Veja também o Capítulo 10: “Fetal Experimentation and Tissue Transplantation”, Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997).

[25] Veja o capítulo 110 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.

[26] Tiago 2.26 BLH.

[27] Tiago 2.26 God’s Word. Copyright 1995 by God’s Word to the Nations Bible Society. Usado com permissão.

[28] C. Everett Koop, The Right of Live, The Right of Die (Life Cycle Books: Ontário, Canadá, 1980), p. 110.

[29] Don Feder, Pagan America (Huntington House Publishers: Lafayette-EUA, 1993), p. 175.

[30] Dr. Brian Clowes, The Facts of Life (HLI: Front Royal-EUA, 1997), p. 113.

[31] Beth Spring & Ed Larson, Euthanasia, Spiritual, Medical & Legal Issues in Terminal Health Care (Multnomah Press: Portland, Oregon (EUA), 1988), pp. 78-79.

[32] Veja o capitulo 106 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.

[33] Veja o capítulo 106 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.

[34] Veja o capítulo 106 de: Dr. Brian Clowes, The Pro-Life Activist’s Encyclopedia. Pro-Life Library CD-Rom. Ó 2000 Human Life International.

[35] Franklin E. Payne Jr, Biblical/Ethical Medics (Mott Media Inc: Milford, EUA, 1985), p. 203.

[36] Algemeen Dagblad, Aspects of Euthanasia, Suicide, Organ Donation, Gender Selection and Abortion, documento apresentado na 4ª Conferência Internacional sobre os Direitos Humanos e as Questões Sociais, Vida, Aborto e Eutanásia (Haia, Holanda, 8-12 de dezembro de 1998).

[37] God’s Word. Copyright 1995 by God’s Word to the Nations Bible Society. Usado com permissão.

[38] Adaptado do folheto State of Tennessee says: This is Gerald Laney’s Future. Gerald says: Jesus is the answer, s.d. Adaptado também da fita The Enforcer, cuja gravação contém o testemunho completo de Gerald.